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Meta-análise: intervenções para reduzir o burnout médico

MGFamiliar ® - Sunday, February 12, 2017




Pergunta clínica: As intervenções destinadas a prevenir e reduzir o burnout médico são eficazes?

Enquadramento: O burnout médico é um síndrome relacionado com o desempenho da profissão e caracteriza-se por exaustão emocional, despersonalização e um baixo nível de realização profissional. Em Portugal o “Estudo Nacional do Burnout na Classe Médica” levado a cabo pela Ordem dos Médicos em colaboração com o Instituto de Ciências Sociais da Universidade de Lisboa analisou as respostas de 9.176 médicos. Em 2016, 66% apresentavam um nível elevado de exaustão emocional, 39% um nível elevado de despersonalização e 30% um elevado nível de diminuição da realização profissional. Os efeitos negativos do burnout médico fazem-se sentir na prestação de cuidados, profissionalismo, auto-cuidado e segurança dos profissionais e, até mesmo, na viabilidade do sistema de saúde. Resta identificar quais as intervenções mais eficazes para a prevenção do burnout.

Desenho do estudo: Revisão sistemática e meta-análise. Foram pesquisados os estudos que analisassem os resultados de intervenções desenhadas para diminuir ou prevenir o burnout médico quantificado através de instrumentos validados. Foram selecionados 15 ensaios randomizados que incluíam no total 716 profissionais e 37 estudos coorte que avaliaram 2914 médicos. 3 dos ensaios randomizados e 17 dos estudos observacionais testavam alterações organizacionais (ex.º: horário de trabalho, alterações nos processos de trabalho); 12 dos ensaios randomizados e 20 dos estudos observacionais focavam-se em abordagens individuais junto dos médicos (ex: auto-cuidado, gestão do stress, mindfulness).

Resultados: Nos ensaios randomizados, a intervenção não teve impacto nos níveis de burnout nem despersonalização, mas reduziu ligeiramente os níveis de exaustão emocional. Nos estudos observacionais, a intervenção levou a uma redução dos níveis de burnout e exaustão emocional, ao contrário dos níveis de despersonalização. Na análise global da totalidade dos estudos, todos os 3 parâmetros apresentam melhoria.

Comentário: O bem-estar físico e mental dos profissionais de saúde não deve ser descurado. Esta meta-análise demonstra que intervenções destinadas a diminuir o burnout médico, quer orientadas para a organização do trabalho, quer orientadas para uma abordagem individual junto dos médicos, podem ser eficazes na redução do burnout. Face aos níveis elevados de prevalência deste problema, poder-se-á justificar, no futuro, a existência de profissionais nas instituições de saúde dedicadas a cuidar dos profissionais de saúde com esta perspectiva. Quiçá uma intervenção inovadora no âmbito da saúde ocupacional?! A investigação deve continuar a tentar identificar as medidas mais eficientes para a prevenção e diminuição do burnout médico.

Artigo original: Lancet

Por Sandra Amaral, USF S. Julião 



Controlo estrito associado a maior mortalidade nos diabéticos acima dos 80 anos

MGFamiliar ® - Sunday, February 05, 2017




Pergunta Clínica: Em indivíduos com mais de 80 anos e com Diabetes Mellitus tipo 2 (DM2), o controlo estrito da diabetes, da pressão arterial e do colesterol total conduz à redução da mortalidade?

Desenho do Estudo: Estudo de coorte com base populacional cuja base de dados provem do sistema informático dos cuidados de saúde primários no Reino Unido (“Clinical Practice Research Datalink”). Englobou indivíduos com 80 ou mais anos e com DM2 (N = 25.966). Pretenderam avaliar as associações entre HbA1c, pressão arterial (PA), colesterol total e mortalidade por todas as causas. Foram utilizados modelos de riscos proporcionais de Cox. As análises foram ajustadas para sexo, idade, duração da DM2 e estilo de vida. As variáveis em estudo foram: HbA1c, PA, colesterol total, comorbilidades, prescrição de medicamentos antidiabéticos e cardiovasculares. Foram excluídos os indivíduos com DM1 ou outros tipos de DM, se o diagnóstico de DM2 ocorreu antes dos 30 anos ou se foi prescrita insulina nos 180 dias após a data de diagnóstico.

Resultados: Ocorreram 4.490 mortes durante o seguimento (13.7%). A mortalidade em participantes com baixa  HbA1c (<6,0%) ou alta (≥8,5%) foi semelhante aos que tinham HbA1c entre 8,0-8,4%. A mortalidade em indivíduos com HbA1c de 7,0-7,4% foi mais baixa (80,9 óbitos por 1.000 pessoas durante um ano, HR ajustado (aHR)= 0.80, IC 95% = 0.70-0.91, p=0.001). A mortalidade associada foi maior nos indivíduos com PA <130/70 mmHg (151,7 óbitos em cada 1.000 por ano, aHR = 1,52, IC 95% = 1,34-1,72, p <0,001 vs referência PA <150/90 mmHg) e maior nos indivíduos com níveis de colesterol total mais baixos (<3,0 mmol / L, 138,7 por 1000, com aHR = 1,42, IC 95% = 1,24-1,64, p <0,001 vs referência colesterol total 4,5-4,9 mmol / L). A relação entre baixos níveis de colesterol total  e maior mortalidade variou de acordo com sexo (maior risco nas mulheres) e com o uso de medicação antidislipidémica.

Conclusão: Valores baixos de HbA1c, PA e colesterol total podem estar associados a maior mortalidade em adultos muito idosos com DM2. Estes dados observacionais podem sugerir que um controlo rigoroso dos fatores de risco cardiovascular pode não ser o mais indicado para esta população. São necessários mais estudos para confirmar estas associações e para identificar os valores alvos e metas nos indivíduos muito idosos.

Comentários: A ocorrência de hipoglicémias poderia explicar a associação entre HbA1c baixa e o aumento da mortalidade, contudo uma análise retrospectiva sugeriu que as hipoglicemias graves não explicavam o maior risco de mortalidade no grupo com tratamento intensivo. Neste estudo, os autores realizaram ajustamento para várias co-variáveis no processo analítico, contudo não se podem excluir factores de confundimento que não foram tidos em conta como  o nível de fragilidade de cada indivíduo, a atividade física, função renal sendo que estes fatores podem modificar as associações entre HbA1c, PA e colesterol total e a mortalidade.

Artigo original: J Am Geriatr Soc

Por Susana Silva, USF Locomotiva



Lavagem nasal versus vapor de água na sinusite crónica

MGFamiliar ® - Sunday, January 29, 2017




Pergunta clínica: Em pacientes com sinusite crónica ou recorrente, a lavagem nasal com solução salina e/ou as inalações de vapor de água são estratégias eficazes?

Enquadramento: A sinusite crónica ou recorrente é um problema de saúde frequente, com impacto na qualidade de vida. A higienização da cavidade nasal é aconselhada para a melhoria dos sintomas e para a redução do uso de antibioterapia. A higienização pode ser feita através de lavagem nasal com solução salina ou com inalação de vapor de água. No entanto, permanecem dúvidas na literatura sobre a eficácia destes tratamentos. O presente estudo teve como objetivo avaliar a eficácia da lavagem nasal e da inalação de vapor de água em doentes com sinusite crónica ou recorrente.

Desenho do estudo: Estudo aleatorizado controlado e pragmático que envolveu 72 centros de saúde no Reino Unido. Foram incluídos 961 doentes com sinusite crónica ou recorrente, que reportaram sintomas nasais de uma forma moderada a grave. Os doentes foram alocados a quatro grupos: i) tratamento habitual; ii) lavagem diária com solução salina (iii) uso diário de vapor de água; iv) tratamento combinado, com as duas intervenções, lavagem e inalação. Relativamente à lavagem da cavidade nasal, foi entregue aos doentes um folheto informativo, e um link explicativo no youtube . Foi fornecido aos doentes um dispositivo próprio (SinuCleanse Neti Pot®) para uma irrigação de 150 ml de solução salina a 2% em cada narina, diariamente. Quanto ao grupo de doentes alocados à inalação com vapor de água, foi fornecido um folheto informativo, tendo como objectivo realizar inalações de vapor de água com duração de 5 minutos por dia. Os doentes foram avaliados antes da aleatorização, 3 e 6 meses após, com questionário para a quantificação dos sintomas –  Rhinosinusitis Disability Index (RSDI), que foi marcador (outcome) primário do estudo. Para além disso, foi avaliada, entre outros marcadores secundários, a utilização de antibióticos e o recurso à consulta médica.

Resultados: Aos 3 e aos 6 meses, o grupo de doentes submetido a lavagem diária com solução salina apresentou uma melhoria do RSDI. Não foram notadas diferenças na prescrição de antibióticos e no número de consultas médicas. Relativamente ao grupo alocado à utilização diária de vapor de água, não foram notadas diferenças quer no RSDI, quer nos diferentes resultados secundários.

Conclusão: nos doentes com rinossinusite crónica ou recorrente, a utilização da lavagem diária da cavidade nasal com solução salina a 2% melhorou os sintomas (embora de uma forma menos eficaz do que previamente reportado na literatura). Por outro lado, a inalação de vapor de água foi considerada ineficaz.

Comentário: O presente estudo, realizado com uma metodologia rigorosa e em doentes dos cuidados de saúde primários, demonstrou a importância da lavagem diária da cavidade nasal com solução salina a 2% em doentes com sinusite crónica ou recorrente, para melhoria dos sintomas. Assinala-se que os resultados foram alicerçados em práticas de educação para a saúde, em concreto breves explicações, utilização de folhetos e o recurso a uma página na internet, para melhorar a compreensão e a adesão do doente à terapêutica. Permanece por determinar o nível de acompanhamento necessário para aumentar a adesão à terapêutica e melhorar os sintomas quer no contexto da sinusite crónica, mas também da sinusite aguda.





Artigo original: CMAJ

Por Cláudia Basto, USF Araceti 




Actividade física e gravidez

MGFamiliar ® - Sunday, January 22, 2017




Pergunta Clínica: A actividade física durante a gravidez previne a hipertensão arterial e a macrossomia?

Enquadramento: A actividade física face aos seus potenciais ganhos em saúde, tem vindo a ganhar um lugar privilegiado no plano terapêutico de várias patologias e na prevenção das mesmas. No que diz respeito à mulher grávida a evidência tem revelado benefícios da prática de exercício físico durante a gravidez.

Desenho do estudo: Ensaio clínico randomizado controlado realizado em Espanha. Foram incluídas 1100 grávidas com 31 anos (média de idade), caucasianas, com feto único e com gravidez de baixo risco.  Após aplicação dos critérios de exclusão durante o estudo estiveram envolvidas 765 mulheres no total. As características das participantes de ambos os grupos eram similares e foram divididas em dois grupos: o grupo de intervenção em que realizaram sessões de treino (aeróbio, força muscular e flexibilidade) de cerca de 50-55 minutos, 3 vezes por semana e o grupo controlo. O objetivo primário foi a incidência de hipertensão durante a gestação. O objetivo secundário foi avaliar o ganho de peso da gestante no final da gravidez e o peso à nascença do bebé

Resultados: Após análise estatística com controlo das variáveis idade materna, paridade, tabagismo, profissão, atividade e IMC pré gestação, concluiu-se que grávidas que não fazem exercício físico têm probabilidade três vezes maior de desenvolver hipertensão (OR, 2.96; IC 95%, 1.29 - 6.81, p = 0,01). Relativamente aos objetivos secundários, o ganho de peso na grávida foi 1,5 vezes superior no grupo controlo (OR, 1.47; IC 95%, 1.06 - 2.03,p = 0.02). O desenvolvimento de diabetes gestacional foi duas vezes superior no grupo controlo, no entanto, este valor não foi estatisticamente significativo (OR, 2.05; IC 95%I, 0.91 - 4.6, p= 0.08). Relativamente ao peso à nascença, as grávidas que não realizaram exercício físico programado pelos investigadores tiveram probabilidade 2,5 vezes superior de ter um bebé macrossómico (OR, 2.53; CI 95%, 1.03 - 6.20, p= 0.04) e 1,6 vezes de um bebé com baixo peso à nascença, não sendo este valor estatisticamente significativo (OR, 1.6; CI 95%, 0.83 - 3.09, p= 0, 15). A incidência de parto pré-termo foi semelhante em ambos os grupos, assim como o APGAR à nascença e o comprimento do bebé.

Comentário: Apesar da importância da actividade física, são escassos os programas de exercício físico para grávidas disponibilizados pelas instituições de saúde. Com os recursos adequados – agendamento próprio, espaço físico adequado e profissionais com formação - as equipas multiprofissionais motivadas das UCSP e USF poderão aumentar a oferta aos cidadãos. 

Artigo original: Am J Obstet Gynecol

Por Marta Guedes, USF Entre Margens



USPSTF: rastreio da sífilis

MGFamiliar ® - Wednesday, January 11, 2017




Pergunta Clínica: Devemos rastrear a sífilis em adultos e jovens adultos fora da gravidez?

Enquadramento: Segundo os dados do Center for Disease Control (CDC), em 2014 foram reportados nos Estados Unidos da América 19.999 casos de sífilis (6.3 em cada 100.000). Quando não tratada, em cerca de 15% dos casos progride para doença prolongada, podendo manifestar-se com lesões inflamatórias (aortite, lesões gumatosas e osteíte) que podem culminar em falência cardiovascular ou disfunção de órgão. Caso haja infecção do Sistema Nervoso Central (neurossífilis), esta pode apresentar-se como cegueira, parésia, tabes dorsalis e demência. A infecção por sífilis aumenta também a probabilidade de transmissão do Vírus da Imunodeficiência Humana (VIH).

Desenho do estudo: Revisão sistemática da evidência publicada até à data. A United States Preventive Services Task Force (USPSTF) emitiu novas recomendações para o rastreio de sífilis em indivíduos adultos e adolescentes assintomáticos, fora da gravidez, de forma a prevenir doença prolongada e transmissão sexual.

Resultados: Verifica-se evidência consistente de que os benefícios decorrentes desta abordagem, tais como a cura, a prevenção de manifestações tardias e de transmissão de infecções sexualmente transmissíveis superam os possíveis malefícios (falsos positivos, ansiedade e estigma de infecções sexualmente transmissíveis). Desta forma, preconiza-se que os indivíduos com risco elevado de infecção por sífilis devem ser rastreados, sendo estes homens que têm sexo com homens , homens ou mulheres com infecção por VIH, história pregressa de encarceramento ou de trabalho em comércio sexual e em homens entre os 20 e os 29 anos. A etnia e geografia deve ser tida em conta, sendo que os clínicos devem ter conhecimento da prevalência de sífilis da população/comunidade em que trabalham. Destacam-se os grupos de doentes com etnia negra, hispânica, índios/nativos do Alaska ou da região do Pacífico/Havai, bem como os grupos provenientes de regiões metropolitanas.

Conclusão: Recomenda-se o rastreio da sífilis aos grupos considerados de risco (supramencionados). Propõe-se como método a combinação entre um teste treponémico (FTA-ABS ou TP-PA) com um teste não-treponémico (VDRL ou RPR). No caso de não concordância entre os resultados, deve realizar-se um segundo teste treponémico. No caso dos doentes com VIH ou homens que têm sexo com homens, sugere-se uma periodicidade de 3 meses em vez de anual.

Comentário: As presentes recomendações são concordantes com dados emitidos por outras entidades como o CDC, a American Congress of Obstetricians and Gynecologists, a Infectious Diseases Society of America, e a American Academy of Family Physicians. A sua adopção na realidade portuguesa necessitaria de mais estudos para caracterizar os grupos de risco da nossa população e pesar os dados epidemiológicos com os custos desta abordagem.

Artigo original: JAMA

Por Carla Veiga, UCSP São Neutel



A eficácica do implante de etonogestrel aos 5 anos

MGFamiliar ® - Tuesday, January 10, 2017




Pergunta clínica: O implante contraceptivo subcutâneo de etonogestrel mantém-se eficaz após 3 anos de utilização?

Enquadramento: O implante subcutâneo de etonogestrel constitui um método contraceptivo altamente eficaz, seguro, de longa duração e independente da utilizadora. Apresenta poucas limitações e efeitos adversos. A sua utilização é global e tem vindo a crescer. Os ensaios clínicos levados a cabo nos anos 90 foram desenhados para medir a eficácia cumulativa do implante a 3 anos.

Desenho do estudo: A Organização Mundial de Saúde conduziu um estudo que, numa fase inicial, foi desenhado como um ensaio clínico randomizado, aberto e multicêntrico, para comparar o implante cutâneo de etonogestrel de 3 anos com o implante cutâneo de levonorgestrel de 5 anos. Após os 3 anos iniciais, 390 mulheres aceitaram prolongar o período de utilização do implante com etonogestrel além dos 3 anos. As idades limite para participação no estudo eram de 18 e 45 anos, sendo a média de 27,8 anos. O IMC médio foi de 23.7 kg/m² e apenas 6,4% da amostra era obesa. 81.5% das participantes tinha pelo menos o ensino secundário.

Resultados: 200 mulheres usaram o implante de etonogestrel por 5 anos e não se verificou qualquer gravidez no período adicional de 2 anos. A remoção do implante aos 4 e 5 anos foi considerada rápida (média de 78 seg) e fácil em 98% dos casos. Também não se verificaram diferenças na ocorrência de efeitos secundários

Comentário: O implante parece manter a sua eficácia aos 5 anos de utilização. Estes resultados poderão ser boas notícias para as mulheres que escolhem este método, para os profissionais de saúde e para os responsáveis pela elaboração de programas de planeamento familiar. A extensão do tempo de utilização pode significar uma redução da frequência de procedimentos de inserção/remoção, uma diminuição dos riscos, do desconforto e inconvenientes e ainda uma poupança de recursos. Se isto é valioso em países desenvolvidos será ainda mais essencial em países em desenvolvimento, com limitações de acessibilidade a cuidados de saúde da mulher. Não obstante, existem algumas limitações nesta investigação. A população estudada incluiu poucas mulheres com idade igual ou inferior a 19 anos ou nulíparas e a maioria das voluntárias tinha peso inferior a 70 kg.

Artigo original: Hum Reprod

Por Sandra Amaral, USF S. Julião



Evolução da incidência de diabetes

MGFamiliar ® - Wednesday, January 04, 2017
Este artigo resulta de uma parceria com a Rede Médicos Sentinela




Pergunta: Como tem evoluído a incidência da diabetes em Portugal e quais as projeções para o futuro?

Enquadramento: A diabetes é conhecida como uma das principais causas de morbilidade e mortalidade a nível global. Portugal é, aliás, conhecido como um o país da União Europeia com a prevalência mais elevada desta doença.  Em Portugal, a Rede Médicos Sentinela (MS) constitui a única fonte de dados que providencia uma série temporal das estimativas anuais da taxa de incidência de diabetes.

Objectivos: Este estudo teve como objetivos descrever as tendências da taxa de incidência de diabetes em Portugal, entre 1992 e 2015, bem como projetar as taxas de incidência até 2024 , com base no histórico observado. 

Métodos: Desenvolveu-se um estudo ecológico de séries temporais, com recurso aos dados da Rede MS, entre 1992 e 2015. Os médicos que integraram a rede MS nesses anos reportaram todos os novos casos de diabetes nas suas listas de utentes. As tendências anuais, bem como as projecções, foram estimadas através de Modelos de Regressão de Poisson com desagregação por sexo e grupo etário. As taxas de incidência observadas e projectadas foram ajustadas para a distribuição anual da população residente em Portugal. 

Resultados: Verificou-se um crescimento médio anual da taxa de incidência de diabetes de 4,29% (IC95% 3,80–4,80). Até 1998–2000, a taxa de incidência anual de diabetes era superior nas mulheres e a partir de 1998–2000 passou a ser mais elevada nos homens. A taxa de incidência estimada para 2022–2024 foi 972,77/105 utentes no total, e 846,74/105 e 1.114,42/105, respectivamente, em mulheres e homens.

Conclusões: Este estudo tratou-se do primeiro em Portugal a estimar projeções da taxa de incidência de diabetes, revelando a necessidade de desenvolvimento de estratégias de Saúde Pública efetivas para o controlo deste problema de saúde. As projeções reportadas podem não descrever a evolução epidemiológica da diabetes se forem alteradas as condições atuais, nomeadamente, no que se refere às medidas de prevenção.

Artigo original: Prim Care Diabetes







Por Mafalda de Sousa Uva, Liliana Antunes, Baltazar Nunes, Ana Paula Rodrigues, José Augusto Simões, Rogério Ribeiro, José Manuel Boavida, Carlos Matias Dias 

 




Rastreio do cancro do pulmão

MGFamiliar ® - Monday, January 02, 2017



Pergunta clínica: Os adultos em alto risco de cancro do pulmão deverão ser submetidos a rastreio deste cancro com radiografia torácica, citologia da expectoração ou tomografia computadorizada de baixa dose de radiação?

Enquadramento: O objetivo de um rastreio é detetar a doença num ponto da sua história natural passível de tratamento, prolongando a esperança de vida e reduzindo a morbilidade e a mortalidade. No passado foram tentados vários procedimentos de rastreio, por exemplo, através da citologia da expectoração ou radiografia do tórax, embora nenhum tenha sido capaz de diminuir a mortalidade por cancro do pulmão.

Desenho do estudo: Revisão sistemática da evidência científica e meta-análise com o objetivo de atualizar a guideline do Rastreio do Cancro do Pulmão da “Canadian Task Force on Preventive Health Care”. Pesquisa bibliográfica em quatro bases de dados de artigos publicados até 31 de março de 2015, juntamente com dados da Cochrane Library e base de dados de Medicina Baseada na Evidência, Foram incluídos apenas estudos randomizados que se reportassem aos benefícios do rastreio e quaisquer estudos que se referissem aos malefícios inerentes. Sempre que possível foram incluídas meta-análises. Foram selecionados 34 estudos.

Resultados: A melhor evidência científica disponível não demonstra a diminuição da mortalidade por cancro de pulmão com o rastreio através de radiografia torácica, com ou sem recurso à citologia da expectoração. Foram encontrados três estudos que compararam a realização de tomografia computadorizada de baixa dose com a conduta habitual, não tendo sido identificada diminuição significativa da mortalidade. Um estudo de larga escala e de elevada qualidade mostrou uma redução estatisticamente significativa de 20% na mortalidade por cancro de pulmão para o rastreio utilizando a tomografia computadorizada de baixa dose quando comparada com a radiografia torácica, com um seguimento de 6,5 anos. O rastreio através da tomografia computadorizada de baixa dose foi associado a sobrediagnóstico. Entre 4 estudos, as estimativas de sobrediagnóstico foram de 10,99% a 25,83%. Por cada 1000 pessoas submetidas a procedimentos invasivos na sequência do rastreio, verificou-se 11,18 mortes e 52,03 pessoas sofreram complicações major.  Num rastreio de exame único com tomografia computadorizada de baixa dose de radiação verificou-se 25,53% de falsos positivos e por cada 1000 rastreados, 9,74 indivíduos com patologia benigna tiveram que ser submetidos a exames invasivos adicionais.

Conclusões: A evidência atual não suporta o rastreio de cancro do pulmão através de radiografia torácica, com ou sem citologia da expectoração. Evidência de elevada qualidade mostrou que em indivíduos selecionados de alto-risco o rastreio através da tomografia computadorizada de baixa dose reduziu significativamente a mortalidade por cancro do pulmão e mortalidade por outras causas. No entanto, este rastreio apresenta riscos de dano significativos como o risco de sobrediagnóstico ou de complicações associadas aos exames invasivos subsequentes ao rastreio. Para a sua implementação a nível populacional, é necessário o desenvolvimento de práticas padronizadas e bem definidas para o rastreio através da tomografia computadorizada de baixa dose e da utilização de técnicas invasivas de seguimento, para aumentar a sua eficácia e diminuir os potenciais riscos associados.

Comentário:. A evidência mais recente, pelo rastreio com a tomografia computadorizada de baixa dose de radiação, abre novas expectativas, embora existam barreiras que tenham de ser ultrapassadas, para o que o seu benefício supere as limitações inerentes e os eventuais danos. 

Artigo original:Prev Med

 Por Inês Pintalhão, USF Garcia de Orta




Acne: chocolate vs gomas

MGFamiliar ® - Wednesday, December 21, 2016



Pergunta clínica: Nos doentes com acne a ingestão de chocolate está relacionada com o agravamento das lesões?

Enquadramento: A acne vulgar é a mais frequente doença cutânea sendo quase universal na adolescência. A maioria dos dermatologistas não valoriza a relação entre a acne e alguns tipos de alimentos como o chocolate. Existe a hipótese que a ingestão de alimentos com carga glicémica elevada - ao conduzirem à hiperinsulinemia - desencadeia uma cascata de fenómenos endócrinos que podem estar implicados na patogénese da acne. O presente estudo tenta rever este tema controverso, avaliando o desenvolvimento de novas lesões de acne após a ingestão de chocolate versus um doce sem chocolate com uma carga glicémica semelhante.

Desenho do estudo: Estudo cruzado randomizado, cego. População do estudo: 54 estudantes universitários com uma média de idade de 21,4 anos. Os estudantes concordaram em abster-se de qualquer outra ingestão de chocolate durante o estudo. Critérios de exclusão: Antecedente pessoal de Diabetes Mellitus, restrições dietéticas ou alergias ao chocolate ou a gomas. Os participantes foram aleatoriamente alocados para receber uma barra de chocolate de leite (43 g) ou 15 gomas, ambos com a mesma carga glicémica, e fizeram uma avaliação fotográfica facial antes e 48 horas após a intervenção. As alterações foram avaliadas por um dermatologista que contou o número de lesões de acne. Após um período de washout de 4 semanas, os sujeitos do estudo receberam a intervenção inversa da primeira fase e fizeram novamente a avaliação fotográfica.

Resultados: Após cada intervenção, o grupo de consumo de chocolate apresentou um aumento estatisticamente significativo nas lesões de acne em comparação com o grupo das gomas (+4,8 vs -0,7 lesões, respetivamente).

Comentário: Este estudo, aparentemente isento e com um protocolo bem desenhado, apresenta resultados claros, confirmando a associação entre a ingestão de chocolate e o agravamento das lesões de acne. Algumas limitações do trabalho são a dimensão reduzida da amostra e ausência, por exemplo, de estudo prévio hormonal dado que a a acne está sob a influência hormonal androgénica. Assim parece prudente aguardar por evidência robusta antes de colocar o chocolate como um alimento a evitar nas situações de acne. 

Artigo original: J Am Acad Dermatol

Por Diogo Anes, USF Pulsar 




O tamanho do biberão e o aumento do peso

MGFamiliar ® - Tuesday, December 13, 2016




Pergunta clínica: Existe alguma relação entre o uso de um biberão maior e o aumento de peso do lactente?

Enquadramento: Na alimentação de lactentes com leite adaptado são usados biberões de diferentes tamanhos, no entanto não se sabe se o seu tamanho está associado ao aumento de peso nestas crianças.

Desenho do estudo: Estudo de coorte prospetivo. Os dados foram obtidos da base de dados de outra investigação intitulada “Greenlight Intervention Study” que pretende prevenir a obesidade infantil. Foram selecionadas 386 crianças nascidas com idade gestacional mínima de 34 semanas, pesando pelo menos 1500 gramas e exclusivamente alimentadas com leite adaptado. Na consulta do 2º mês de vida foi apurado qual o tamanho do biberão usado. Ao 6º mês de vida os lactentes foram reavaliados. Os investigadores definiram biberões grandes os biberões com pelo menos 180 ml de capacidade.

Resultados: Dos lactentes seleccionados 41% eram de raça negra, 35% hispânicos, e 23% de raça caucasiana. Na consulta dos 2 meses de idade 44% dos pais relataram utilizar biberões grandes, sendo que estes biberões foram mais usados por pais de crianças do sexo masculino e de raça caucasiana. Comparando com os outros lactentes as crianças alimentadas com biberões grandes tiveram mais 0,21 kg de aumento de peso de  (95% CI 0.05 - 0.37) aos 6 meses de idade.

Comentário: Estes resultados são preliminares, no contexto de um estudo maior que visa estudar a prevenção da obesidade infantil. Embora o crescimento na infância seja complexo, o tamanho do biberão pode ser um fator de risco modificável para o rápido ganho de peso das crianças alimentadas exclusivamente com leite adaptado. Como limitação do estudo salientamos que esta não é uma investigação aleatorizada e controlada e não temos informação sobre o peso das crianças após os 6 meses de idade. 

Artigo original: Pediatrics

Por Diogo Anes, USF Pulsar





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