Livros

Ana Mateus


MGFamiliar . - Tuesday, July 03, 2012

Quando o Carlos Martins me desafiou para comentar dois livros marcantes do meu percurso, logo o pensamento se fixou em duas obras que, por razões diferentes, não deveriam estar limitadas ao estatuto de “livros”. São belíssimos exemplos de bibliotecas: uma de sentires e visões do Mundo de um português de alma inteira, outra da multiculturalidade e dos universos de crenças que nos perpassam os dias de especialistas em Pessoas que, como Médicos de Família, devemos manter permeáveis ao conhecimento da diferença como veículo facilitador da comunicação com o paciente.

 

Outras leituras: "DIÁRIO" por Miguel Torga. Coimbra Editora, 1932-1993 Volumes I a XVI

“Coimbra, 9 de Novembro de 1938- Ponho-me a pensar no momento que seja a síntese deste dia. Se aquele em que entrei pelos olhos dentro dum pequenito com o amigdalótomo na mão, se aquele em que a velha da hemorragia cerebral murmurou que não podia virar os olhos para a direita. E acabo por concluir que não foi nenhum desses. Que foi aquele em que dei um beijo gratuito numa criancita desconhecida que passou pelo consultório a acompanhar a mãe.”

Pela dimensão que assume, pela temporalidade que a marca e pelo conteúdo literário, sociológico e afectivo que a preenche, esta obra oferece-nos o mais puro sumo de 60 anos de século XX Português. Torga empresta-nos os seus olhos de Poeta, deleitando-nos com a simplicidade das coisas naturais e belas, ou contagiando-nos com as suas angústias de mente crítica, às vezes áspera e inconformada na leitura do real e do socialmente aceitável.

Habituei-me cedo a ler estes escritos de um homem orgulhosamente humilde e inteiro, que ia lançando ao longo das suas prosas sentenças pesadas como as fragas do Marão de que se dizia feito, entremeadas de dizeres voláteis auto-explicativos: da cor de uma árvore florida, do pulsar da liberdade ou da falta dela, ou do abstinente sentido do divino do agnóstico que em si descrevia. Todos eles ao compasso certo de datas em que eu ainda não nascera, mas de muitos lugares que tão bem conhecia por povoarem o mapa familiar da minha infância e adolescência. E que contente fiquei quando uma Prova Geral de Acesso ao Ensino Superior surdiu com um extrato deste Diário, já então bem conhecido por vir procedendo a uma aquisição lenta (a que se seguia invariavelmente uma leitura rápida) dos seus tomos, com as sobras dos meus “alfinetes”, ano a ano, na Feira do Livro do Porto...

São os livros a que regresso, quase sempre, quando preciso de um toque de poesia, em prosa ou em verso, a ilustrar uma data, um afecto, uma alegria. Ou de um cheiro de serra ou de mar a clarear um pesado fim de dia. E onde encontrei, mais tarde, leituras diferentes de estórias de um Médico e de Pessoas, daquelas que têm, além de doenças, corpo e espírito, percursos específicos e vidas próprias, como as que todos os dias gosto de ter comigo.

 

 

Leitura médica: "Culture, Health and Illness" por Cecil G. Helman, A Hodder Arnold Publication, 2007

Foi no primeiro ano de Internato Complementar de Medicina Familiar que conheci este livro.

No momento em que aprendemos a pensar clinicamente de forma alternativa à que nos foi incutida durante a formação pré-graduada, esta obra- que aborda várias áreas da Antropologia Médica- trouxe-me a preciosa noção de que, em Medicina, dois mais dois às vezes são iguais a três ponto sete, e em alguns dias a quatro vírgula dois... sobretudo nas contas de quem nos procura, carregado previamente da sua circunstância, preocupações, valores e medos.

Variáveis de descrição muito difícil, que podem influir de forma poderosa no estado de saúde dos indivíduos, nos seus comportamentos de gestão da saúde e da doença, e que, se não foram por nós percebidas em toda a sua extensão, constituir-se-ão como elementos confundidores dos resultados que o nosso convencional exercício da Medicina espera obter num paciente ideal, imaginado num ambiente totalmente asséptico em relação às suas dimensões culturais e vivenciais, e à aprendizagem que efectuou ao longo do seu desenvolvimento individual numa sociedade específica.

Contas que a Faculdade não nos ensina, mas que o exercício clínico na comunidade nos obriga a dominar em toda a sua complexidade. Este é um bom ponto de partida para as conhecer e aceitar.

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