Livros

António Alvim


MGFamiliar . - Sunday, May 27, 2012

Outras leituras: Trilogia "Os Caminhos da Liberdade" por Jean-Paul Sartre, Bertrand Editora, 1996

Um dos livros mais importantes na minha formação foi a trilogia “Os Caminhos da Liberdade” do Sartre, que li quando tinha 18 anos. Um romance em três volumes onde, através das personagens, elas próprias existencialistas, se demonstrava na prática o existencialismo.

Existencialismo que tinha como base a liberdade de cada um de optar da forma que quisesse, livrando-se dos condicionalismos externos e internos.

Foi um deslumbramento a descoberta da liberdade intelectual. Os mecanismos do pensamento existencialista são altamente contagiantes e inebriantes.

Mas… Esmiuçar todas as hipóteses de escolha e assumir que só depende de nós escolher permite-nos ser livres para escolher. Só que perdemos a noção da importância da escolha. E sobretudo deixamos de ter um sentido para a escolha.

Podemos analisar microscopicamente uma célula e analisá-la até ao átomo ou ainda em partículas mais pequenas.

Só que perdemos a sua importância porque uma célula só se realiza em conjunção com outras células constituindo um tecido que constitui um órgão que é parte integrante de um corpo onde desempenha uma função insubstituível.

Compreendi aos 18 anos, e assim resolvi definitivamente a minha crise existencialista, que o caminho não era por aí, que por aí só fica o vazio, que o Homem se realiza na acção. Liberdade de escolha é um elemento táctico importantíssimo, é um instrumento fundamental, mas não é um fim. E qual o sentido para a acção?

Esse é-me dado por outro livro fundamental na minha existência, a bíblia e sobretudo o novo testamento. Ter o amor pelos outros como referência.

Rentabilizar os talentos que possuo ao serviço dos outros e de uma melhor sociedade. Com estas coordenadas responder aquilo que uma vozinha de origem misteriosa me diz que deve ser feito da mesma forma que uma célula cumpre a sua função.

Curiosamente, a personagem principal do livro depois de passar o tempo todo a evitar fazer opções, no fim, quando encurralado na torre de uma igreja pelos alemães, assumiu-se finalmente : “matar o maior número possível de alemães até que estes o liquidassem”.

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