Livros

Dilermando Sobral


MGFamiliar . - Wednesday, November 16, 2011

Ao longo da minha vida, incontáveis são os livros que já toquei, inúmeros os que verdadeiramente me tocaram e muitos ainda aqueles cujo toque deixou uma marca indelével, mais profunda nuns do que noutros. É por isso difícil evocar apenas um ou dois. Mas não querendo desiludir o autor do convite nem iludir a curiosidade de quem lê esta rubrica, consegui destacar três leituras que se tornaram, para mim, em diferentes idades, marcos significativos do meu percurso de leitor compulsivo.

Outras leituras: “A Fada Oriana” de Sophia de Mello Breyner Andresen, Editora Figueirinhas, 34.ª edição, 2002, Porto (1.ª edição, 1958, Lisboa, Edições Ática)

A história de uma fada que um dia sofreu o castigo de ficar sem asas por, de tanto admirar a beleza do seu reflexo no rio, se ter esquecido de cuidar dos seres que habitavam a floresta. E do que teve que fazer para reaver todos os seus poderes e recuperar a confiança dos que estavam à sua guarda.

Li-o, a primeira vez, aos nove anos e a magia poética deste conto marcou-me, permanecendo como símbolo da importância de valores fundamentais como a responsabilidade, o sentido do dever e a humildade.

O primeiro exemplar perdeu-se, entretanto, nas curvas da vida mas comprei-o, mais tarde, para os meus filhos. Ou seria isso apenas uma desculpa para o voltar a ler e continuar a acreditar em fadas?

«- Chegou a noite! Como o tempo passou depressa!
Então lembrou-se de que era a hora de ir visitar o seu amigo Poeta. Porque a única pessoa crescida a quem Oriana podia aparecer era ao Poeta. Porque ele era diferente das outras pessoas crescidas.
O Poeta morava no fundo da floresta, numa torre muito alta e muito antiga, coberta de heras, de glicínias e de roseiras.
Oriana voou sobre as árvores através do primeiro azul da noite. A porta da torre estava aberta, mas Oriana entrou pela janela com a brisa. As rosas da trepadeira estremeceram e dançaram quando ela chegou.»

Outras leituras: “Poemas de Alberto Caeiro” de Fernando Pessoa, 10.ª edição, 1993, Lisboa, Edições Ática (1.ª edição, 1946)

Uma valente bofetada, que me deixou completamente atordoado, foi exactamente o que senti quando li, pela primeira vez, os poemas de Alberto Caeiro, nos longínquos anos da minha adolescência.

Apercebi-me, com esse enorme safanão, da força e do poder das palavras e a referência a este livro surge apenas como uma homenagem a toda a poesia (“o autêntico real absoluto”, segundo Novalis) e a todos os poetas que me têm acompanhado, desde então.

«A Criança Nova que habita onde vivo
Dá-me uma mão a mim
E a outra a tudo que existe
E assim vamos os três pelo caminho que houver,
Saltando e cantando e rindo
E gozando o nosso segredo comum
Que é o de saber por toda a parte
Que não há mistério no mundo
E que tudo vale a pena.»

Leituras médicas: "Sinto Muito" de Nuno Lobo Antunes, Editora Verso da Kapa, 2008, Lisboa

Dos livros lidos mais recentemente, este foi realmente marcante. É um livro médico, no sentido em que só um médico o poderia ter escrito, e que todos os médicos deveriam ler.

São pequenas crónicas, ‘textos mais ligados ao sentimento do que à razão’, nas palavras do autor, neuropediatra que trabalhou muitos anos em oncologia.

Livro de confissões, memória dos olhares, dos sons e dos cheiros de muitas vidas, reflexão sobre a vida e a morte, testemunho da coragem de pessoas que sabem dar significado ao sofrimento, sentido à dor.

Como médicos, tentamos criar mecanismos de defesa para conseguir lidar com o sofrimento alheio e evitar que isso nos atinja, mas como seres humanos, por vezes é-nos difícil manter essa carapaça e as emoções podem tomar conta de nós.

Escrever, do modo como o faz Nuno Lobo Antunes, é partilhar essas emoções e dizer aos outros que vale sempre a pena!

«É preciso afirmar aquilo em que se acredita. É preciso usar as palavras: fé, amor, vergonha, coragem. É preciso dizer que a paixão, mais que a razão, redime e nos torna em santos.
E, sem pudor dos afectos, confessar que sinto muito.»

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