Livros

Isabel Santos


MGFamiliar . - Friday, June 17, 2011

Leituras médicas e outras (em simultâneo): “Como decidimos” de Jonah Lehrer, Editado pela Lua de Papel /Leya.

Todos os dias se tomam decisões. Essas decisões podem ser visíveis ou invisíveis. Em Medicina só trabalhamos as visíveis e quando nos debruçamos sobre os processos de decisão cremos que estes se resumem a fluxogramas e que dependem da informação de que dispomos.

Apesar de em Medicina lidarmos muito mais com a incerteza do que com a certeza em geral , não encorajamos os argumentos conflituantes e temos tendência para silenciar a dissonância cognitiva. Esta, pequena, introdução serve, tão só, para justificar o meu gosto por livros sobre esta temática. Acabo de ler o livro “Como decidimos” de Jonah Lehrer, editado pela Lua de Papel /Leya.

Este livro, diz Steven Jonhson no editorial do Sunday Book Review do jornal New York Times, vê ao microscópio as nossas aptidões na toma de decisões. O seu autor, de 27 anos de idade, é um prodígio da divulgação cientifica popular, que já em 2007 publicou “Proust era um neurocientista”, também traduzido em português. A tese deste livro poderia resumir-se a que por vezes raciocinamos ponderando as nossas opções através das suas diferentes possibilidades e outras vezes precisamos ouvir as nossas emoções.

À medida que se obtêm mais conhecimento na área das neurociências mais livros vão surgindo sobre razão e emoção. O que este livro nos traz e que complementa outros é uma visão de dentro, saltitando entre os trabalhos mais recentes sobre a estrutura do cérebro e a função dessas estruturas. Ficamos a saber sobre o núcleus accumbens, o córtex prefrontal e a lingula. Muitas das experiências que nos são dadas a conhecer utilizaram a Ressonância Magnética cerebral no processo de tomar uma decisão.

Explicar a tomada de decisão de uma forma acessível, em jeito de livro de fim-de-semana relaxante, utilizando a escala neuronal, é um desafio que o autor vence de forma confiante e com humor elegante. Mesmo para quem já leu o “Erro de Descartes” de António Damásio ou a “Inteligência Emocional” de Daniel Goleman, entre outros, e reconheça alguns exemplos clássicos, este livro leva-nos um pouco mais longe na compreensão de algumas decisões.

Uma das questões importantes levantadas é o papel da recompensa “as certezas são agradáveis e as convicções firmes recompensam” e “quem tem certezas não está preocupado em errar”. Uma lista longa de experiências mostra as partes distintas do nosso cérebro que são activadas se a perda potencial se situa a curto prazo ou a longo prazo (pagar com dinheiro ou com o cartão de crédito faz toda a diferença).

Quando não temos recompensas sentimo-nos deprimidos. Existe um circuito de recompensa no nosso cérebro e daí a questão “o que ganho se decidir desta ou daquela forma?”Aprender que este processo é mediado pela dopamina não resolve o dilema mas ajuda-nos a perceber que as boas decisões raramente surgem de um falso consenso e que temos como o disse Alfred P. Sloan de “dar asas à discordância e adquirir provavelmente alguma compreensão” para se acordar numa boa decisão.

À medida que fui progredindo na leitura fui-me colocando várias questões, entre elas destaco a escolha da Medicina Geral e Familiar. Lidamos em simultâneo com um amplo campo de incerteza e temos que tomar centenas de diferentes decisões diariamente.

A tomada de decisão é isolada. Isto é pouco compensador e muito desconfortável. É certo que reduzimos o desconforto da incerteza reduzindo artificialmente o número de decisões carregando assim no botão da rotina. A escolha de qualquer um destes dois caminhos traz dissabores. Vou poupá-los às minhas diversas reflexões esperando assim que não se distraíam e leiam este livro. Quem quiser saber um pouco mais antes de se lançar na leitura vá a http://fora.tv/2010/01/05/jonah_Lehrer_How_We_Decide e ouvirá o próprio autor falar desta sua obra.

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