Livros

José Mendes Nunes


MGFamiliar . - Monday, April 06, 2009

Livro: "Maria Adelaide Coelho da Cunha: DOIDA NÃO E NÃO!" por Manuela Gonzaga da Bertrand Editora, 2009

Um Escândalo em Portugal no Início do Século XX

Manuela Gonzaga, licenciada em história, descreve nesta obra a biografia da Maria Adelaide Coelho da Cunha, filha de José Eduardo Coelho, fundador do Diário de Noticias.

O ritmo e o estilo narrativo aproximam-se de uma colectânea de peças jornalísticas que, no seu conjunto, constituem um todo lógico, que transformam esta biografia num romance trágico, contextualizado no tempo e na época, fundamentado em documentos reais. Temos o relato de um caso verídico com personagens reais que marcaram a sociedade portuguesa do primeiro quarto do século XX.

O curioso, na minha perspectiva, é que sendo uma biografia de uma figura portuguesa muito curiosa, que se destacou pela irredutibilidade das escolhas que fez na vida, sem que com isso tenha contribuído de modo notável para a sociedade, o relato das suas vicissitudes acaba por ser um profundo documento de reflexão sobre vários aspectos médicos, sociais e psicológicos.

Resumidamente podemos dizer que a obra descreve a história de Maria Adelaide Coelho da Cunha, filha de José Eduardo Coelho, Fundador do Diário de Noticias, casada com Alfredo da Cunha, secretário da direcção do mesmo diário, após a morte do seu fundador. Maria Adelaide, culta e educada na alta sociedade, abandona o Palácio de São Vicente (em Lisboa), para fugir, aos 48 anos, mais precisamente a 13 de Outubro de 1918, com o motorista (ou melhor chauffeur) da casa, 20 anos mais novo, abandonando a sua posição social e riqueza herdada, para se esconder, como vulgar mulher do povo, em Santa Comba Dão.

A história poderia ficar como muitas outras, que se limitam a ser tabus de família, porém, a reacção do marido desencadeia uma série de acontecimentos e de actos que reflectem os valores e comportamentos sociais de então mas, muito dificilmente, se poderá dizer que estão ultrapassados nos dias de hoje.

Para mim, como médico, o que mais choca é a utilização dos diagnósticos com fins que nada têm a ver com o interesse da doente. Confirma a realidade do diagnóstico como constructo teórico, que diz muito pouco acerca da realidade da saúde, da doença ou dos homens. A invocação de “santo nome” da ciência para justificar intervenções que visam coarctar a liberdade de um ser humano, demonstra como a perduração da “santa” inquisição se mantém ao longo dos séculos, com vestes diferentes mas omnipresente. Mais grave ainda, quando os “inquisidores” aqui são figuras de grande relevo na Medicina Portuguesa como Ega Moniz, Miguel Bombarda e Sobral Cid, que sem consciência do seu poder, confundindo a sua crença com a verdade, e argumentando a favor desta verdade avocando elementos pseudo-cientificos.

Embora nos tenhamos habituado a ver estas personalidades como iminentes cientistas, a verdade é que todo o seu comportamento neste processo revela uma incongruência básica de um cientista: não ter certezas. Os métodos dedutivos, utilizados neste processo para chegar ao diagnóstico, são paradigmáticos de como só se vê o que se quer e que a estratégia desenhada para provar o diagnóstico em vez de o tentar refutar, induz em erros, particularmente quando se não tem consciência dos esquemas mentais que modelam o raciocínio, os dados e a informação a favor da confirmação dos nossos preconceitos.

A história biográfica, em “Doida Não e Não”, é também um exemplo da utilização dos média, por partes desavindas, para esgrimir argumentos em defesa das posições, razões e direitos, em contextos em que a Justiça não desempenha o seu papel social. Quase com um século de antecedência, em Portugal, já se observava a mediatização da vida privada, o big brother dos nossos dias, a utilização indecorosa pelos média dos pormenores da desgraça allheia justificada pelos números das tiragens e, a face da mesma moeda, manipulação dos média como forma de alcançar objectivos pessoais.

A obra de Manuela Gonzaga é bastante representativa da opressão da mulher na sociedade portuguesa, a quem são reconhecidos todos os deveres e nenhuns direitos. Maria Adelaide surge, involuntariamente, como exemplo de luta pela liberdade das mulheres, ao fazer as suas escolhas em consciência e contra uma sociedade totalmente condenatória do seu comportamento.

Finalmente, esta obra tem ainda a virtude de nos localizar nos factos históricos dos primeiros anos da República, antes do Estado Novo. A ressonância desta história nos jornais, só poderia ser antes do Estado Novo e nunca num regime de censura. O próprio enamoramento entre Maria Adelaide e o seu chaffeur surge na sequência dos cuidados que ela lhe prestou quando contraiu a gripe espanhola. A dedicação dela despertou em Manuel Claro, o chauffeur, 20 anos mais novo, uma gratidão que se confunde com amor (platónico?), veneração e entrega sem limites que os une até ao fim da vida.

Esta não deixa de ser uma interpretação muito pessoal desta obra, pelo que desejo que não a “aceitem” de barato, que a leiam e, por favor, digam a vossa interpretação.

 

 

Livro: "O Último Negreiro" de Miguel Real, Editora Quidnovi

"O Último Negreiro", de Miguel Real, é um romance histórico que nos transporta à sociedade baiana do Século XVIII.

A forma como o autor descreve a realidade social da época é de um virtuosismo que me impressionou ao longo de toda a obra. Ela patenteia um trabalho hercúleo de investigação histórica, dos costumes sociais, dos lugares, da política, da economia e da linguística da época. De facto, enquanto leio esta obra, para além de desfrutar a beleza narrativa, dificilmente me consigo distanciar do trabalho de investigação que está por detrás da cada linha de texto.

A história é, em si, apaixonante. O leitor fica agarrado após um princípio difícil, até entrar na linguagem da época. Confesso que o primeiro quarto da obra foi lido em simultâneo com o dicionário. O realismo da narrativa transporta-nos não só para a linguagem baiana mas também para o contexto português do século XVIII.

O cenário é transcontinental, próprio de uma sociedade portuguesa transatlântica. Conta a história do mercador de escravos, Francisco Félix de Sousa que, após meia vida de humilhação e em luta constante pela sobrevivência, em São Salvador da Baía, no período das invasões francesas, foge (ou imigra) para as terras do Reino de Daomé (Benim) onde se torna num homem rico e poderoso. Aqui, cria um império comercial baseado no comércio de escravos, acumulando riqueza e poder que o recompensam da miséria da sua vida em São Salvador da Baía.

Por outro lado, é um documento que retrata a geopolítica da época e prenunciador da globalização, demonstrando como as decisões, tomadas na Europa, influenciavam a vida de povos distantes entre si e que transformaram o Oceano Atlântico num mero rio em que, numa margem, tinha o Brasil e, na outra, a África Portuguesa separada da Metrópole por um efluente.

O romance tem presente os valores da época e os jogos políticos. Os Europeus hipocritamente proibiam e condenavam a escravatura mas faziam vista grossa e enriqueciam com o tráfico de escravos, pilhados por todo o Continente Africano para serem vendidos no continente Americano, a muito bom preço, e após muitos perecerem no caminho durante a travessia do “rio Atlântico”.

A obra é densa e épica. As suas personagens variam entre a fraqueza humana e o heroísmo sobrenatural, com o seu lado divino e diabólico mas, acima de tudo, são seres humanos que tudo fazem para sobreviver numa sociedade e época extremamente difíceis e violentas.

Miguel Real é um pseudónimo que nos tem vindo a habituar com obras que reflectem o seu trabalho abnegado e o seu espírito de investigador rigoroso que não pactua com facilidades.

A leitura de qualquer obra é um acto subjectivo e, portanto, criativo. Neste caso particular, o autor é um amigo da minha adolescência, o Luís (Luís Martins). Tenho muita dificuldade de me lembrar de alguma vez o ter visto sem um livro na mão ou de baixo do braço. Os livros pareciam que faziam parte integrante da sua anatomia, como qualquer membro ou órgão. As histórias, que dele retenho, referem-se à dificuldade em conseguir financiar esse “vício”. Assíduo frequentador e amante das livrarias, por vezes encontrava livros que, por saberem que acabavam de encontrar um dono que os dignificava, teimavam em não se separar dele e, o Luís, via-se “obrigado” a “adoptá-los” correndo o risco de o acusarem de roubo.

Enfim, recursos de todos nós que, então, tínhamos dificuldades económicas para manter estas “drogas”. Já não o vejo há meia dúzia de anos e apetece-me dizer-lhe: “Luís, valeu a pena. Obrigado”

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