Livros

Mónica Granja


MGFamiliar . - Tuesday, July 31, 2012

Leitura médica: "Em Defesa da Criança", de Teresa Ferreira, Editora Assírio & Alvim, 2002

Há médicos extraordinários que nunca olhei nos olhos mas de quem li tudo quanto consegui agarrar, sentindo-me quase perto do privilégio que seria trabalhar com eles.

Aconteceu com João dos Santos, que mudou não só a minha vida, como a dos meus filhos e a dos meninos de cuja saúde cuido.

Com Françoise Dolto, que me demoliu, reconstruindo-me em seguida. Com João Lobo Antunes, que me tornou uma pessoa e uma profissional melhor. E com Teresa Ferreira que, neste seu único livro (compilação póstuma da sua vasta obra), me deu um olhar parecido com o das crianças.

Pedopsiquiatra e psicanalista, conheceu (e terá compreendido como poucos) crianças que foram bebés sem direito algum, excepto o da vida. Referida por Pedro Strecht (um dos organizadores do livro) como "uma pessoa que se colocava de forma única na primeira linha de defesa das crianças", fala-nos do paradoxo (ou dos limites da intervenção) da pedopsiquiatria: as crianças que mais sofrem, são as que mais tarde (ou nunca) chegam aos seus cuidados.

São histórias de horror (de abandono, violência, abuso e loucura) as que conheceu e que a levam a repetir, com desânimo, em vários dos seus textos: "o bebé não vota". Fala-nos de capacidade maternal (distinguindo-a da capacidade reprodutiva) e diz: "há mães não-humanas. Também sabemos que elas não tiveram na própria origem uma mãe humana.

Sabemos que há uma translação intergeracional da violência. Pensamos que se deve tentar pará-la".

 

 

Outras leituras: "Uma história de Amor e Trevas", de Amos Oz, Editora ASA

Livro autobiográfico que conta, simultaneamente, a história do povo judeu, da construção de Israel e do nó do problema israelo-árabe. Não podia tratar de um mundo mais diverso do meu e, no entanto, é como se eu tivesse sido aquela criança um dia deitada ao entardecer a sentir-se uma migalha "num universo dentro de outro universo dentro de outro universo".

Mesmo quando o autor relembra a raiva que sentiu, aos 12 anos, pelo suicídio da mãe ("foi-se embora, sem me avisar"), mesmo aí, sem conhecer essa dor (que o amordaçou durante décadas, até ser capaz de escrever este livro), é como se eu soubesse exactamente onde ela me magoaria, insuportável, se me acontecesse.

Talvez todas as infâncias sejam amassadas assim: em partes iguais de luz e escuridão, de medo e de amor.

Como se pode sobreviver a uma infância como a dele: entre uma mãe que entristeceu de morte e um pai alegre mas com quem nunca falou da mãe ("o pai e eu parecíamos dois maqueiros transportando um ferido por uma encosta acima")? Entre uma ascendência de judeus europeus intelectuais (que o educaram como sobreviventes da humilhação) e trinta anos num Kibutz, (onde entrou com 15 anos, ferido a ponto de mudar de nome para escapar à sua história)? Entre o deslumbramento de assistir ao nascimento de uma nação e a desilusão da guerra interminável, do desencontro e da ausência de honestidade política? Como, não só se sobrevive mas, se acaba assim, como o descreviam em criança, "inundado de luz"?

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