Livros

Pedro Serrano


MGFamiliar . - Friday, July 15, 2011

Não foi fácil, decidir sobre dois livros que me “tocaram”, “um médico e um não médico”, como me foi pedido. Quanto ao médico, os livros que mais consumo são livros de epidemiologia e de metodologias de investigação na área biomédica, assunto demasiado secante para que o leitor médio, mesmo médico, lhe achasse graça ou, sequer interesse. Quanto ao livro não médico, a dificuldade foi ter de escolher apenas um e pela minha cabeça passaram obras como A Casa da Felicidade, de Edith Wharton, Retrato de uma Senhora, de Henry James, Anna Karenina, de Leon Tolstoi, Brideshead Revisited, de Evelyn Waugh, O Céu Que Nos Protege, de Paul Bowles, qualquer um dos volumes dos Contos de Anton Tchékhov, a lista foge por aí fora... Assim, aqui fica a plenitude possível:

 

Outras leituras: “Leite Derramado” de Chico Buarque, editora Dom Quixote, 2009

Dificilmente o livro poderia ser escrito por alguém com menos de 60 anos, não vejo um jovem escritor a poder fazê-lo de modo tão certeiro, isto só pode ser contado por alguém que tenha um passado a rebobinar, e saiba perspectivar, com os pés assentes no pó das estrelas, o previsível futuro que lhe resta.

Leite Derramado é a história de um velho que, numa cama de hospital, após a clássica fractura do fémur, tenta, desesperadamente, comunicar com o exterior, contar as histórias da sua vida, mais para ele próprio se orientar em si, do que por gosto de se exibir.

O homem está confuso, repete os mesmos episódios, mas nunca exactamente da mesma forma, e o leitor nunca sabe bem a quem o narrador se dirige: se a uma enfermeira atenta e bonita, se à filha que raramente o visita, se à memória da mulher, o amor da sua vida, que desapareceu da vida dele por traição, doença, loucura – as hipóteses variam conforme os dias, nunca são seguras, nada é estável na memória de um velho que, ainda por cima, voga à deriva nas brumas da analgesia e da solidão de um hospital.

Chico Buarque escreve sobre tudo isto tão magnificamente que, a primeira vez que li o livro, tive de me esforçar por fazer pausas, não despachar a leitura na sofreguidão de uma penada. É que, se por um lado, custa acabar o romance e deixar os personagens, por outro, cada capítulo ganha em ser lido na frescura de uma atenção desperta que atenda aos pormenores e às palavras escolhidas para os narrar.

Leia-o devagar, o mais devagar que conseguir e abandone-se ao ritmo confuso, titubeante, em circular espiralada, de uma memória que tem a consciência de que nada restará do que foi, testemunhou e sentiu, mal lhe cubram a face com um lençol.

 

 

Leituras médicas: "Musicofilia" de Oliver Sacks, editora Relógio d’Água, 2008

Oliver Sacks é um neurologista norte-americano que, há longos anos, se dedica, partindo, sobretudo, de relatos de casos clínicos, a teorizar sobre as relações entre o sistema nervoso, o corpo e os estado de alma. Um pouco à semelhança do que, anos mais tarde, faria o português António Damásio, Sacks usa uma meticulosa e inteligente história clínica (ainda mais do que as tecnologias modernas das imagens do cérebro em movimento, tão queridas a Damásio) para explorar a base biológica das emoções, dos sentimentos, das sensações, da alma e da consciência.

Musicofilia explora a relação entre a música e o cérebro, invocando a perplexidade inicial do porquê de algo tão inútil aos processos biológicos de causa e efeito, como o é a música, representar um papel tão importante na vida de centenas de milhões de pessoas! E tudo se torna ainda mais incrível ao sabermos que não existe nenhum centro musical no cérebro, havendo antes a participação de uma dúzia de redes neuronais, espalhadas pelo cérebro, que lidam com este milagre.

O livro constrói-se muito (à semelhança dos de Damásio) por defeito, isto é, com base na análise das consequências que acidentes vasculares cerebrais, formas graves de epilepsia, tumores e doenças degenerativas do sistema nervoso provocam na percepção, níveis de emoção e comportamento das pessoas afectadas, com a música.

E o leitor interessado no poder de um raciocínio clínico bem dirigido, exposto de uma forma clara e precisa, ficará de boca aberta com o poder da música como única forma de relacionamento com o mundo de indivíduos afectados por Alzheimer ou com a história do cirurgião ortopédico que, sem antecedentes musicais ou gosto especial por música, atingido por um raio durante uma trovoada, se tornou, aos 43 anos de idade, num pianista exímio e num compositor de música clássica...

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