Livros

Rosa Gallego


Carlos Martins - Sunday, August 10, 2008

Outras leituras: "O meu Pé de Laranja Lima" por José Mauro de Vasconcelos, Editora Dinapress.

Não é fácil escolher o livro que mais me tocou. Quando me recordo que a leitura foi o meu refúgio, desde que aprendi a ler. Não porque em que em casa abundassem livros. Havia-os, mas eram da minha tia professora primária e não estava autorizada a tocá-los, ou eram as novelas dos meus pais, que sendo da classe média baixa, não davam prioridade a leituras mais profundas, que a oferecida pelos romances de capa azul e apenas autorizados depois dos meus 12 anos.

Nos anos sessenta, a censura existia e em casa os valores e prioridades eram outros. Ainda hoje me pergunto como teria sido a minha adolescência se as bibliotecas não existissem, com a sua enorme colecção que me iam enchendo a imaginação como Pearl Buck, Jorge Amado, Erico Veríssimo, Tolstoi ou então se me tivessem deixado ler os livros escondidos…

Mas perguntaram-me que livro “ mais me tocou”…Bom, nessa questão não tenho dúvidas: “O meu Pé de Laranja Lima” de José Mauro de Vasconcelos, conseguiu ultrapassar a marca do "Pequeno Príncipe" de Saint-Exupéry ou do livro de St Michèlle.

O Zézé e o seu amigo Portuga foram meus companheiros tantas vezes, que pensei fazer parte do livro. Uma amiga, anos depois, ao contar-lhe esta experiência, perguntou-me quantos lenços de papel gastei com lágrimas ao ler o livro (parece ser comum a choradeira nas adolescentes)…Usei lenços de pano, mas eram tantas as lágrimas que sentia os olhos a arder…

O livro (1ª edição), para desgosto meu, desapareceu da minha prateleira, pois tanta vez o emprestei, mas está gravado na minha imaginação. O Zézé descrevia as suas descobertas (em regra discutidas com seu irmão mais novo, Luís, ou com o maravilhoso Pé de Laranja Lima, pequena árvore no seu pequeno quintal de casa), a sua raiva (contra as reacções do pai e outros que não conseguia compreender) e a gratidão (sobretudo para com o seu amigo Portuga, um taxista imigrado no Brasil) sempre de um jeito maravilhoso.

Descobertas: “Totoca vinha me ensinando a vida. E eu estava muito contente porque meu irmão mais velho estava me dando a mão e ensinando as coisas. Mas ensinando as coisas fora de casa. Porque em casa eu aprendia descobrindo sozinho e fazendo sozinho, fazia errado e fazendo errado acabava sempre tomando umas palmadas”

Raiva: “( Zézé chorando contou a Portuga) …não tema, vou matar meu pai mas não desse jeito. Eu o vou apagando devagarinho no meu coração até um dia não mais lá estar” Gratidão: (No fim do livro, já em adulto) “Foi você, quem me ensinou a ternura da vida, meu Portuga querido. Hoje sou eu que tento distribuir as bolas e as figurinhas, porque a vida sem ternura não é lá grande coisa. Às vezes sou feliz na minha ternura, às vezes me engano, o que é mais comum.” Não parei enquanto não li a colecção completa de José Mauro Vasconcelos, que com a sua escrita cheia de ternura escreveu ainda muitas outras parábolas maravilhosas, como “ rosinha minha canoa”, mas o Zézé será sempre o meu herói e companheiro nas descobertas da vida!

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