Livros

Vasco Queiroz


MGFamiliar . - Saturday, February 25, 2012

Leituras médicas: “Follies and Fallacies in Medicine” por Petr Shrabaneck (Médico Endocrinologista e Oncologista) e McCormick (Presidente do Colégio Irlandês de Clínicos Gerais), Editora Tarragona Press, 1989

Não hesitei na escolha deste livro porque ainda me recordo das deliciosas insónias que me induziu, por alturas do final do meu Internato Complementar da Especialidade, ao abalar tremenda e definitivamente alguns dogmas para mim até então inquestionáveis. Já o mesmo havia acontecido algum tempo antes, pelos meus 15 anos, quando a leitura de “Porque Não Sou Cristão” de Bertrand Russell me tirou da confortável Fé Cristã e me lançou num perturbador agnosticismo que o tempo tem vindo a serenar.

O livro de Shrabanek e McCormick, escrito num registo algo iconoclasta e muito bem humorado e de uma luminosa clareza (passe o quase pleonasmo) pondo em destaque e de início a importância do efeito placebo, disseca a causalidade e as suas determinantes bem como a natureza do erro e do enviesamento dos raciocínios, a argumentação falaciosa e as conclusões espúrias ou abusivas, por vezes fraudulentas, que suportam grande parte da informação técnica que nos chega.

A Medicina Preventiva e alguns dos seus tabus são questionados e a chamada “Medicina Alternativa” é colocada no seu devido lugar, fora da ciência. Um livro que deveria ser obrigatório em todas as escolas médicas, recomendado a todos os médicos mas igualmente acessível a leigos cuja exigência intelectual esteja um pouco acima dos programas da manhã dos canais generalistas da tv.

 

 

 

Outras leituras: “D. Quixote de La Mancha” por Miguel de Cervantes Saavedra, com prólogo e tradução de Aquilino Ribeiro, Edição – Público Comunicação Social SA, 2005

Ainda hoje me penitencio por ter passado tantos anos sem ter lido esta obra monumental em grandiosidade e talento e ter finalmente compreendido porque é considerada uma obra-prima da literatura universal. Julgava eu erradamente tratar-se de uma historieta de 2 pataratas montados em pilecas investindo pateticamente contra moinhos de vento numa simples metáfora de idealismo picaresco e que devia a fama à antiguidade e a ter sido escrito por um espanhol na altura em que eram donos do mundo. Coro de vergonha ao confessar a minha ignorância. Em 2005 o jornal Público, associando-se às comemorações dos 400 anos da 1ª edição, proporcionava aos leitores a possibilidade de adquirir com o jornal e o pagamento de um acréscimo que se me revelou absolutamente irrisório em função da qualidade da obra uma excelente reedição em 2 volumes com prólogo e tradução de Aquilino Ribeiro e ilustrações de Gustave Doré. Um luxo!

A genial história que Cervantes ofereceu à humanidade é considerada a primeira novela moderna e foi publicada em Madrid pela primeira vez em 1605.

Ao longo de 126 delirantes capítulos (que lamento não serem pelo menos 1260) Cervantes relata as peripécias de um decadente fidalgote a quem a leitura obsessiva de romances de cavalaria acabaria por toldar o juízo levando-o a ele próprio se considerar cavaleiro carregado de responsabilidades éticas inerentes à condição e destinado portanto a deambular em busca de aventuras com o firme propósito de combater o mal, repor a justiça aonde ela fosse deficitária e, claro, realizar a suprema ambição de satisfazer a amada Dulcineia, que ele sabia senhora de uma beleza esfuziante e delicadíssimas qualidades, na realidade uma campónia robusta e desajeitada.

Determinado a levar a inadiável e imperiosa missão por diante consegue convencer um seu criado, campónio, gordo e analfabeto a acompanhá-lo no périplo que haveriam de cumprir por terras de La Mancha, Aragão e Catalunha. Continuamente se sucedem incríveis episódios em que desfilam todo o género de personagens num esplendoroso mosaico retratado com um humor somente ao alcance dos génios.

Ao longo da novela Cervantes conta uma história, retrata um povo, recria um género literário, critica todo o mundo, desde nobres a religiosos, de cristãos velhos a judeus, de boçais a eruditos, de campónios a aristocratas. O contraste permanente entre o idealismo do Quixote e o bom senso de Sancho conduz-nos ao eterno dilema entre o idealismo e a realidade, entre o que é e o que queremos que seja ou gostaríamos que fosse.

Emocionantes os momentos em que, embriagados nos acontecimentos, o “cavaleiro de triste figura” se chega a “Sanchizar” enquanto o criado se “Quixotiza”. Finalmente e de volta a casa D.Quixote, febril e moribundo recupera o tino pouco antes de falecer algo arrependido mas satisfeito por voltar à lucidez numa clara inversão do normal fim dos heróis épicos que geralmente deliravam no último suspiro. Se as obras geniais também se avaliam pelas suas sequelas tudo o que já foi escrito sobre esta e os filhotes que gerou nas artes, na literatura, no teatro, na ópera, no cinema, na poesia, e em todo o imaginário de todos os povos aí estão para o sublinhar. O meu grande desgosto é saber que nunca, nunca mais vou ter o enorme prazer de ler o D. Quixote pela primeira vez como alguns felizardos que agora lêem este arrazoado.

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