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A relação Médico-Doente


MGFamiliar ® - Tuesday, October 25, 2016




A visão de uma interna de Medicina Geral e Familiar

A relação médico-doente, que se inicia e/ou desenvolve no decorrer da consulta médica, constitui a matriz de toda a prática clínica. Uma boa relação médico-doente é uma condição básica para a prestação de cuidados de saúde de qualidade e, quando bem estruturada, ajuda a uma visão holística do utente por parte do médico, o que permite uma abordagem mais abrangente, integrando o seu contexto familiar e comunitário. Em todas as especialidades médicas, a relação médico-doente influencia fenómenos como os índices de satisfação dos doentes com a consulta médica e a adesão a cuidados promotores de saúde, preventivos ou terapêuticos, para além de poder facilitar a identificação dos problemas dos doentes e de, em última instância, aumentar a satisfação do próprio médico com a sua atividade profissional.

No entanto, como médica interna de Medicina Geral e Familiar, deparo-me frequentemente com inúmeras situações que me permitem constatar e consciencializar-me da complexidade, dificuldades e desafios que caracterizam esta relação. Parte dessa dificuldade pode advir das diferenças que existem, com frequência, entre os doentes e os médicos, no que diz respeito à idade, vivências ou até estatuto sociocultural. Por outro lado, existe uma grande assimetria na relação médico-doente, uma vez que é o médico quem detém os conhecimentos clínicos e quem domina o ritual da consulta. Alguns dos fatores determinantes e cruciais para uma relação médico-doente estruturada são a comunicação verbal (o que é dito expressamente em palavras) e não verbal (o que é transmitido através da postura, gestos, volume ou entoação do discurso) e a empatia. Esta última define-se como uma capacidade de o médico aceder ao que o doente sente e pensa no momento em que estão na presença um do outro, interpretando e sentindo esses pensamentos como se fossem seus, sem perder a sua identidade. Implica ainda que o médico perceba e conheça as emoções que transmite e que quer transmitir ao doente, o que, na minha opinião, nem sempre é fácil e exige muito treino e aprendizagem. Na sua essência, consiste em aprofundar a comunicação intrapessoal, aprendendo a conhecer-se a si próprio e às respetivas manifestações perante cada situação.

Por outro lado, considero que devem ser fonte de reflexão as dificuldades encontradas pelo médico na sua prática clínica, de um ponto de vista mais logístico, tais como as exigências informáticas relacionadas com o cumprimento assertivo dos programas de saúde em vigor, as imposições ao nível do agendamento das consultas e do tempo disponível para cada uma delas, para além das constantes falhas eletrónicas com as quais os médico se deparam no seu dia-a-dia. Não poderão estes fatores exercer uma influência negativa, acarretando dificuldades e constrangimentos à estruturação e manutenção de uma boa relação médico-doente?

Como futura Médica de Família, considero indispensável a criação de medidas que permita contornar estas dificuldades.

Desta forma, penso ser de extrema importância um investimento contínuo na formação dos médicos em áreas de comunicação, para o qual o internato de formação de Medicina Geral e Familiar contribui, quer através de um curso integrante no plano curricular, destinado à aquisição de competências de comunicação, quer através do desenvolvimento dessas competências na prática clínica diária, ao longo do internato. No entanto, considerando a complexidade do binómio médico-doente, dependente das características pessoais do médico e do doente em causa, inevitavelmente influenciado pelas exigências/dificuldades informáticas diárias, e tendo em conta o impacto da relação médico-doente ao nível dos cuidados de saúde prestados, na minha opinião, a formação médica deveria investir mais intensiva e assertivamente, numa fase pré-graduada e, posteriormente, como parte integrante da formação pós-graduada, de todas as especialidades médicas - e não apenas na Medicina Geral e Familiar - em formação na área da comunicação e da psicologia clínica. Idealmente, e, de acordo com a minha perspetiva, esta formação beneficiaria ainda por ser adaptada e personalizada às características pessoais de cada aluno de medicina e/ou médico, bem como às características da especialidade médica em causa. O objetivo seria um treino e aperfeiçoamento de capacidades técnicas, emocionais e comunicacionais fulcrais à prática clínica, dotando os médicos de melhores competências para proceder a uma avaliação clínica das vertentes psicossociais e emocionais da doença, interligando-as às dimensões físicas e biológicas da mesma.

Termino esta reflexão, parafraseando Sir William Osler, um dos ícones da medicina moderna: "é tão importante saber o tipo de doença que a pessoa tem, como o tipo de pessoa que tem a doença".

Por Helena Fernandes, USF do Mar, ACES Grande Porto IV, Póvoa de Varzim/Vila do Conde




Comments
Rita Matos commented on 02-Nov-2016 09:16 PM
Cara Helena acho que beneficiavas tu (e nesse sentido os teus doentes) em frequentar um grupo Balint. As tuas preocupações fazem todo o sentido. Sobretudo na nossa especialidade os aspetos psicossociologia e emocionais sobressaem e como médicos não podemos ficar indiferentes ou demitirmo-nos do "lidar com".


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