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Revisão sistemática: colesterol LDL não aumenta mortalidade acima dos 60 anos


MGFamiliar ® - Wednesday, July 27, 2016




Pergunta clínica: O colesterol LDL (LDL-C) associa-se à mortalidade das pessoas com idade superior a 60 anos?

Enquadramento: Tem vindo a ser demonstrado que a relação do colesterol total com a mortalidade cardiovascular e por todas as causas não é tão forte como se julgava. Estudos epidemiológicos e de revisão sistemática com meta-análise revelaram inclusive que o colesterol total associava-se inversamente com o risco cardiovascular à medida que a idade aumentava. De acordo com hipótese do colesterol, esperar-se-ia que a associação do colesterol total com a mortalidade CV fosse pelo menos tão forte nas pessoas idosas como nas pessoas mais jovens. Poderão existir factores de confundimento, uma vez que o colesterol total inclui o HDL-C e o aumento deste parâmetro demonstrou conferir menor risco CV.

Desenho do estudo: revisão sistemática de estudos de coorte indexados à PubMed em Inglês publicados até 17 Dezembro de 2015, onde o LDL-C tenha sido investigado como um factor de risco para mortalidade cardiovascular e por todas as causas, nos indivíduos da população geral com idade igual ou superior a 60 anos.

Resultados: Foram incluídos 19 artigos, num total de 30 coortes (68 094 idosos). Verificou-se uma associação inversa entre a mortalidade por todas as causas e os níveis de LDL-C em 16 coortes (14 deles com significância estatística), representando 92% do número de participantes. Em duas coortes, a mortalidade cardiovascular foi maior no percentil mais baixo de LDL-C (com diferenças estatisticamente significativas) e em 7 coortes não se obteve associação.

Conclusão: Níveis elevados de LDL-C estão inversamente associados com a mortalidade das pessoas com mais de 60 anos. Dado que as pessoas com um LDL-C elevado vivem tanto ou mais anos que aquelas que têm um LDL-C baixo, os resultados deste estudo questionam a validade da “hipótese do colesterol” e por outro lado, constituem um motivo para rever as recomendações do tratamento farmacológico do LDL-C como componente preventivo cardiovascular.

Comentário: Sabemos que não há dogmas em medicina e que o método científico tem a sua base na tentativa e erro. Os rastreios oncológicos também passaram por uma fase de enamoramento, onde o seu benefício era inquestionável na óptica dos profissionais de saúde e utentes, porém nos últimos anos este paradigma tem mudado consideravelmente. O papel do colesterol na doença cardiovascular e no impacto na mortalidade global poderá igualmente ser revisto no futuro à medida que nova evidência é reunida e ganha corpo.

Esta revisão sistemática publicada na reconhecida BMJ, é a primeira a estudar o LDL-C como um factor de risco para a mortalidade no idoso. O outcome escolhido (mortalidade), é o marcador mais importante orientado para as pessoas e muito pouco passível de introduzir dúvidas nas definições nos diferentes estudos. Porém, apenas foram pesquisados artigos na PubMed num única língua, alguns participantes iniciaram tratamentos com estatinas/dieta durante o período de observação e vários autores deste artigo escreveram livros criticando a “hipótese do colesterol”. Um dos autores tem ainda uma patente de um protocolo para a diminuição de homocisteína. Apesar de os autores avançarem com hipóteses, muitas questões aguardam ainda resposta, como porque motivo o colesterol total elevado é um factor de risco nos jovens e de “meia-idade” mas não nos idosos? Porque é que idosos com níveis de LDL-C elevado vivem mais que aqueles com LDL-C baixo? 

Artigo original: BMJ Open

Por Vítor Cardoso

Entrevista com um dos autores do estudo e confrontação com outro colega...






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