A não perder

Alergia ao amendoim


MGFamiliar ® - Wednesday, March 01, 2017




Pergunta clínica: A evicção de amendoim em idade precoce reduzirá a probabilidade do desenvolvimento de alergia em idade mais tardia?

Enquadramento: O amendoim é responsável por uma alergia alimentar relativamente comum e simultaneamente com potencial risco de vida associado, pelo que requer determinadas estratégias preventivas e terapêuticas. Em Israel, um snack muito popular entre as crianças, chamado “Bamba”, contém amendoim na sua composição. De facto, verificou-se nesta população uma reduzida taxa de alergia, mesmo quando comparada com o mesmo tipo de população, a residir noutros países do mundo. Esta constatação levou à realização de 2 estudos.

Desenho do estudo: Num primeiro estudo (LEAP Trial) foram randomizadas 640 crianças inglesas em risco elevado de desenvolver alergia a amendoim em 2 grupos: consumo precoce (primeiro ano de vida) vs. evicção completa de amendoim. Um total de 628 crianças completou o estudo e foram avaliadas quanto à presença de alergia ao fim de 60 meses. Foi posteriormente realizado um estudo de follow-up (LEAP-On), que incluiu 556 participantes (88,5% dos participantes do 1º estudo) em que foi efectuada uma evicção completa por um período de 12 meses. Foi posteriormente avaliada a presença de alergia a amendoim aos 72 meses de idade.

Resultados: No LEAP Trial, as taxas de alergia a amendoim foram de 3,6% no grupo com consumo precoce e de 18,8% no grupo com evicção de amendoim (P<0,001; NNT=7). O benefício do consumo persistiu no LEAP-On, verificando-se uma taxa de alergia de 4,8% no grupo do consumo contra uma taxa de 18,6% no grupo da evicção (P<0,001; NNT=7). Em cada grupo constataram-se 3 novos casos de alergia ao fim dos 12 meses, contudo este valor não foi estatisticamente significativo no grupo do consumo (P=0,25). Os efeitos adversos foram mais frequentes no grupo da evicção de amendoim.

Conclusão: Entre crianças com elevado risco de alergia em que o amendoim foi introduzido no primeiro ano de vida e continuado até os 5 anos de idade, um período de 12 meses de evicção do amendoim não foi associado a um aumento na prevalência da alergia ao amendoim. Não se conhecem todavia os efeitos a mais longo prazo.

Comentário: Estes estudos vêm contrapor o paradigma seguido habitualmente quer pelos pais quer pelos próprios médicos, acerca da evicção de amendoim nos primeiros anos de vida em crianças em risco de modo a “prevenir” o surgimento de alergia. Não só o estudo demonstra que a evicção aumenta o risco de alergia, como também põe em causa o mito de que um período de evicção após exposição aumenta o risco de alergia. Assim, parece claro que a introdução precoce de amendoim em crianças em risco e a sua manutenção durante pelo menos 4 anos pode ser visto como uma estratégia preventiva eficaz, restando, contudo averiguar os seus benefícios a mais longo prazo no sentido da prevenção do desenvolvimento de alergia durante o curso da vida do indivíduo. 

Artigo original: NEJM

Por Pedro Santos, UCSP Ansião




 

Comments
Post has no comments.

Post a Comment




Captcha Image


Recent Posts


Tags

 

Archive