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Projeto "3 desejos": dignificar a morte na UCI


MGFamiliar ® - Wednesday, October 28, 2015




Pergunta clínica: Em doentes internados em unidades de cuidados intensivos (UCI) em estado terminal, implementar um programa de três desejos, formulado pelo próprio, familiares ou profissionais de saúde, dignifica e humaniza os cuidados, a morte e o luto?

Desenho do estudo: O estudo incluiu 40 doentes terminais (probabilidade de morte na UCI superior a 95%) admitidos de forma consecutiva em 21 UCI, conjuntamente com familiares (50 no total) e 3 profissionais de saúde por cada doente. Foram registados três desejos solicitados pelo próprio (quando possível), familiares ou profissionais de saúde. Os desejos foram implementados antes ou depois da morte e foram classificados de acordo com cinco categorias: humanização do ambiente, tributos pessoais, reencontro familiar, rituais e cerimónias e atos benevolentes para com outros Foi recolhida informação demográfica, médica, e a pontuação dos familiares no questionário “Quality of End-of-life Care-10” (QEOFC-10). Foram realizadas entrevistas semiestruturadas a familiares e profissionais de saúde, posteriormente, integralmente transcritas e analisadas qualitativamente, mediante anonimato.

Resultados: Nos 40 doentes incluídos, com idade média de 68.1 anos, o tempo médio entre admissão na UCI e morte foi de 8,5 dias. Foram formulados um total de 163 desejos, 6.9% dos quais por iniciativa do doente, 39.0% dos familiares e 51.6% por sugestão do profissional de saúde..Cerca de metade foram implementados apenas após a morte do doente. Na maioria eram simples de concretizar e pouco dispendiosos. A pontuação média no questionário QEOFC-10 entre os familiares foi classificada como elevada. Da análise das entrevistas obteve-se como tema nuclear a personalização do ato de morrer, explanado por 3 domínios: dignificar o doente, dar voz à família integrando-a no processo de cuidar e fomentar a compaixão nos profissionais de saúde e a capacidade de humanizar os cuidados.

Comentário: Este estudo, que utiliza uma metodologia que valoriza qualitativamente a opinião de todos os intervenientes no processo de morte, mostra-nos como um programa simples de executar, centrado no desejo do doente e da sua família, pode promover a qualidade dos cuidados em fim-de-vida, um elemento crucial da prática médica. De fato, nas UCI, ambientes tecnológicos e vocacionados para a eficiência, a atenção com a humanização dos cuidados poderá ser dificultada. Os autores concluem que o projeto 3 desejos personaliza a morte, possibilitando cuidados individualizados e ajustados ao doente e a criação de memórias positivas e reconfortantes na família, atenuando o sofrimento do luto. Para os profissionais, o projeto promove o humanismo e permite integrar os cuidados paliativos e espirituais no exercício da medicina intensiva. Na nossa realidade, como será a experiência de morrer num hospital ou numa UCI? Será possível a implementação de programas similares?

Artigo original:Ann Intern Med

Por Albino Martins, USF S. Lourenço 






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