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Ensaio RCT: rastreio de cancro oculto após tromboembolismo venoso


MGFamiliar ® - Tuesday, October 20, 2015





Pergunta clínica: Após o primeiro episódio de tromboembolismo venoso (TEV) idiopático o rastreio de cancro oculto combinado com tomografia computorizada (TC) abdomino-pélvica é mais eficaz do que um rastreio limitado?

Enquadramento: O TEV pode ser um sinal precoce de cancro. Estes autores propuseram-se avaliar a eficácia e segurança do rastreio de cancro oculto combinado com TC abdomino-pélvica nos doentes que apresentaram um primeiro episódio de TEV Idiopático.

Desenho do estudo: Estudo randomizado, controlado e multicêntrico. Investigação decorreu em 9 centros no Canadá. A população incluía doentes com diagnóstico de primeiro episódio de TEV idiopático em que não se identificou causa predisponente. Ocorreu randomização em dois grupos: um realizou rastreio de cancro oculto limitado (doravante mencionado como “Rastreio Limitado”) que incluía anamnese, exame físico, estudo analítico básico, radiografia torácica e rastreio de cancros da mama, colo do útero e próstata; o segundo realizou o “Rastreio Limitado” associado a TC abdomino-pélvica (daqui em diante referido como “Rastreio Combinado”). O período de follow-up foi de um ano. O objectivo primário foi o diagnóstico definitivo de cancro durante o período de follow-up que não foi detetado pelas estratégias de rastreio.

Resultados: Dos 854 doentes randomizados, 33 (3.9%) tiveram diagnóstico de cancro oculto: 14 dos 431 doentes (3.2%) no grupo de “Rastreio Limitado” e 19 dos 423 doentes (4.5%) no grupo de “Rastreio Combinado”(P=0.28). Na análise do objectivo primário, 4 cancros ocultos (29%) não foram diagnosticados pelo “Rastreio Limitado”, enquanto 5 (26%) não foram diagnosticados pelo “Rastreio Combinado” (P=1.0). Não se verificou diferença estatisticamente significativa entre os dois grupos no tempo médio para o diagnóstico (4.2 meses no “Rastreio Limitado”e 4.0 meses no “Rastreio Combinado”, P=0.88) ou na mortalidade relacionada com cancro (1.4% e 0.9%, respetivamente, P=0.75).

Conclusão: O rastreio que inclui TC abdomino-pélvico não mostrou benefício clínico significativo.

Comentário: Mais do que a poupança monetária no estudo complementar, estes resultados relembram-nos da importância da prevenção quaternária, nomeadamente na evicção da exposição a radiações da TC e na não sujeição do doente a ansiedade para resultados espectáveis. Portanto uma estratégia de rastreio com anamnese cuidada, exame físico, estudo analítico básico, radiografia torácica e programas de rastreios de base populacional, específicos para idade e sexo, poderá ser suficiente nestes doentes. A salientar que neste estudo a prevalência de cancro oculto foi baixa nos doentes com primeiro episódio de TEV idiopático: cerca de 3.9% e não 10%, como descrito noutros artigos. Tal pode ser justificado com o facto dos rastreios populacionais estarem bem organizados no Canadá. Este estudo, pelas suas conclusões, contribui para o uso mais racional dos exames complementares de diagnóstico no seguimento dos doentes com TEV.





Artigo original:NEJM

Por Débora Monteiro, USF Pirâmides




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