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Vacina da gripe: evolução da efetividade ao longo do tempo


MGFamiliar ® - Wednesday, October 19, 2016
Este artigo resulta de uma parceria com a Rede Médicos Sentinela





Pergunta clínica: O tempo decorrido desde a toma da vacina contra a gripe diminui a sua efetividade?

Enquadramento: A vacinação é a melhor forma de prevenir a infeção sazonal por Influenza. Na Europa, a maioria dos países recomenda 1 dose (ou 2 doses em crianças) entre setembro/outubro e para grupos de risco (>=65 anos, grávidas, profissionais de saúde), sendo expectável que a vacina confira proteção individual até ao final da época gripal (meados de maio na Europa).
O principal objetivo deste artigo foi perceber se a proteção induzida pela vacina diminui durante a época de gripe sazonal, e de que forma isso depende do início e duração da época da gripe.

Desenho do estudo: Estudo multicêntrico de tipo caso-controlo teste negativo que decorreu entre 2010/11 e 2014/15. Os doentes com Síndrome Gripal (SG) foram selecionados por médicos de família entre os doentes com SG que acorreram às suas consultas. A todos os doentes selecionados foi aplicado um questionário sobre aspetos demográficos, clínicos e epidemiológicos (idade, sexo, doenças crónicas, estado vacinal, data da vacina e tipo de vacina) e realizada uma zaragatoa para colheita de exsudado nasofaríngeo.  Os doentes com resultado laboratorial positivo para Influenza foram classificados como casos e os negativos como controlos. Para cada época foi usada uma regressão logística para calcular o odds ratio (OR) de estar vacinado nos casos versus controlos. A efetividade vacinal foi calculada como (1-OR)*100. A efetividade vacinal por tipo e subtipo, foi estimada para todas as épocas, para as fases inicial e final da época gripal e para diferentes grupos etários (toda a população e 60 ou mais anos).
O I-MOVE (2) é um estudo europeu multicêntrico que tem como objetivo estimar a efetividade da vacina contra a gripe; a componente portuguesa deste estudo designa-se EuroEVA e nela participam vários médicos de Medicina Geral e Familiar, alguns dos quais integram também a Rede Médicos Sentinela (3).

Resultados: A efetividade vacinal contra o vírus Influenza A (H3N2) atingiu 50,6% aos 38 dias após a vacinação e diminuiu até 0% após 111 dias. A efetividade vacinal contra o vírus Influenza A (H1N1) pdm09 atingiu 55,3% aos 54 dias, mantendo-se próximo de 50,3% até final da época. A efetividade vacinal contra o vírus Influenza do tipo B diminuiu de 70,7% aos 44 dias após a vacinação até 21,4% no final da época.

Conclusão: A diminuição de efetividade vacinal ao longo do tempo após vacinação pode ser explicada pelas variações antigénicas que ocorrem ao longo da época, sendo que as variações no vírus do tipo B e subtipo A(H1N1)pdm09 ocorrem de forma mais lenta que nos vírus do subtipo A(H3N2). De informação virológica anterior, sabe-se que o vírus A(H3N2) tem maior variabilidade antigénica que o vírus A(H1N1)pdm09. A diminuição da efetividade vacinal ao longo do tempo pode também ser explicada pela diminuição da imunidade conferida pela vacina independentemente das variações antigénicas que possam ocorrer. São necessários novos estudos sobre a efetividade da vacina antigripal ao longo do tempo, dado que estes resultados podem contribuir para a adaptação dos atuais programas de vacinação. 

Comentário: Uma limitação deste estudo é não permitir estimar qual o papel das variações genéticas do vírus Influenza na redução de efetividade vacinal. Parece ser necessário manter a monitorização de efetividade vacinal ao longo das épocas de modo a gerar evidência que possa contribuir para a adaptação dos programas de vacinação. 

Bibliografia:

  1. 1- Kissling E, Nunes B, Robertson C, Valenciano M, Reuss A, Larrauri A, Cohen JM, Oroszi B, Rizzo C, Machado A, Pitigoi D, Domegan L, Paradowska-Stankiewicz I, Buchholz U, Gherasim A, Daviaud I, Horváth JK, Bella A, Lupulescu E, O´Donnell J, Korczyńska M, Moren A, I-MOVE case–control study team. I-MOVE multicentre case–control study 2010/11 to 2014/15: Is there within-season waning of influenza type/subtype vaccine effectiveness with increasing time since vaccination?. Euro Surveill. 2016
  2. - IMOVE+.[online] [acedido a 17 outubro de 2016]. Disponível em: http://www.i-moveplus.eu/ 
  3. 3 - Rodrigues AP, Carvalho-Fonseca R, Dias CM. Rede Médicos-Sentinela como Instrumento de Vigilância em Saúde [Pública]. 2016.
Por Sara Lima Duarte e Ana Rodrigues








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