Prescrição Racional

RCT: tansulosina na litíase ureteral distal


MGFamiliar ® - Wednesday, October 26, 2016




Pergunta clínica: Será a tansulosina eficaz no tratamento de pacientes com cálculos ureterais distais inferiores a 10 mm d diâmetro?

Enquadramento: a litíase renal é uma razão frequente de procura de cuidados médicos, com mais de um milhão de idas ao Serviço de Urgência por ano nos EUA, estimando-se afectar cerca de 12% dos homens adultos e 6% das mulheres ao longo da vida. A  expulsão espontânea do cálculo está dependente de inúmeros factores, como o diâmetro (cálculos superiores a 5 mm frequentemente necessitam de intervenção), a localização, o grau de espasmo muscular local, o edema e as características anatómicas individuais. São vários os fármacos utilizados no alívio da dor durante o episódio, contudo, relativamente à eficácia na expulsão do cálculo, e apesar de algumas recomendações “off-label” sugerirem os bloqueadores alfa, mais especificamente a tansulosina, os estudos existentes são escassos e de fraca qualidade metodológica.

Desenho do estudo: Estudo multicêntrico randomizado controlado e duplamente cego, comparando um grupo de pacientes tratados com tansulosina e um grupo com placebo. O objectivo era avaliar a eficácia e segurança da tansulosina como terapêutica médica  expulsiva de cálculos ureterais distais de diâmetro igual ou inferior a 10 mm. O estudo  apenas incluiu adultos cujos cálculos tivessem sido caracterizados por tomografia  computadorizada (TC). Como critérios de exclusão consideraram-se grávidas, temperatura corporal superior a 38ºC, TFG inferior a 60 mL/min por 1,73m2, cálculos  superiores a 10 mm, rim único, transplantados, estenoses ureterais conhecidas, alergia conhecida à tansulosina, medicados com bloqueadores canais de cálcio ou bloqueadores alfa e história de hipotensão (TA sistólica inferior a 100 mmHg). O grupo tratado com tansulosina recebeu uma dose diária de 0,4 mg durante 28 dias, tendo o grupo placebo sido tratado durante o mesmo período de tempo. Definiu-se como outcome primário a expulsão do cálculo aos 28 dias, auferida por TC e o tempo médio de expulsão.

Resultados: obtiveram-se inicialmente 403 pacientes, 202 alocados ao grupo tansulosina e 201 ao grupo placebo. A maioria pertencia ao sexo masculino (81,4%), sendo a idade média de 46 anos, sem diferenças estatisticamente significativas entre o diâmetro médio dos cálculos entre o grupo tratado com tansulosina e o grupo placebo. Dos 316 pacientes que realizaram TAC após 28 dias do tratamento, objectivou-se expulsão do cálculo em 87% dos pacientes do grupo tratado com tansulosina em comparação com 81,9% dos pertencentes ao grupo placebo, diferença de 5% (IC a 95%). No subgrupo dos pacientes com cálculos maiores (entre 5 e 10 mm) em 83,3% dos tratados com tansulosina ocorreu expulsão do cálculo e, comparativamente, no grupo placebo, esta apenas ocorreu em 61% dos pacientes, diferença de 22,4% (IC a 95%). Obteve-se, assim, um número necessário para tratar, neste subgrupo, de 4,5. Não se encontraram diferenças com significado estatístico relativamente à necessidade de intervenção urológica, dor/resposta à analgesia ou eventos adversos.

Comentário: Em resumo, este estudo não encontrou nenhum benefício global no tratamento com 0,4 mg diários de tansulosina como terapêutica expulsiva médica para pacientes com cálculos ureterais distais de diâmetro igual ou inferior a 10 mm. O subgrupo específico de doentes com cálculos de diâmetro igual ou superior a 5 mm parece ter benefício com esta terapêutica pelo que deve ser recomendada caso não existam contra-indicações. Assim, uma vez que passagem espontânea é muito provável nos pacientes com cálculos inferiores a 5 mm e não foi encontrado nenhum benefício na intervenção, a estratégia de observação e reavaliação periódica deve ser usado para este grupo.

Artigo original:Ann Emerg Med

Por Ana Rita Magalhães, USF Topázio 




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