Livros

"Silence"

MGFamiliar ® - Thursday, February 16, 2017





Livro: Silence de Shusaku Endo



Em 1640 o jesuíta português Sebastião Rodrigues inicia uma jornada arriscada rumo ao oriente. Outrora uma nação acolhedora, o Japão tornara-se um local perigoso para os católicos. Os poucos relatos que chegam via Macau descrevem uma perseguição cruel que culmina, pasme-se, na apostasia de missionários incluindo o seu mentor Ferreira que Rodrigues tem como exemplo.

Estas são as linhas iniciais do romance do japonês Shusaku Endo (1923-1996).

Mas engane-se o leitor se pensa que se trata de “apenas” mais um romance histórico.

De facto “Silêncio” é considerada uma das principais obras nipónicas do séc. XX pois aborda magistralmente o diálogo – por vezes doloroso – entre fé e dúvida, ocidente e oriente, comunidade e indivíduo.

A biografia do escritor explica a sua capacidade para descrever estes paradoxos.

Natural de Tóquio, Endo cresceu em Kobe e foi baptizado numa época em que os cristãos representavam menos de um por cento da população.

Enquanto o Japão avançava na espiral da segunda guerra, o romancista via o ocidente como destino. Em França a doença (tuberculose), a discriminação e a dúvida assolaram o escritor.

A passagem pela Palestina criou luz na sombra e a ficção foi o palco escolhido por Endo para expressar a sua interpretação de Deus e da sua aparente ausência.

A profundidade de “Silêncio” marcou o realizador Martin Scorsese, que confessa no prefácio desta edição pela “Picador Classic”, ter lido várias vezes a obra que acabou por trazer para o grande ecrã.

Uma sugestão de leitura de Luís Monteiro







"Cartas do Tibete"

MGFamiliar ® - Sunday, November 06, 2016




Livro: Cartas do Tibete de António de Andrade


Saber que foi um português o primeiro europeu a chegar ao Tibete em 1624, pode constituir apenas uma curiosidade histórica.

Mas o que torna este livro interessante é a oportunidade de lermos o relato na primeira pessoa dessa verdadeira epopeia.

Há nestas cartas do jesuíta António de Andrade - reunidas pela primeira vez no mesmo volume - uma sinceridade que nos transporta para outro tempo e lugar em que as motivações (e ilusões?) nos parecem estranhas mas, ao mesmo tempo, inspiradoras.

E no atual contexto editorial  - quase monotemático  - é de louvar a persistência de editoras independentes como a "Livros de Bordo"  que publica livros sobre a Ásia e Oriente.

Por Luís Monteiro, Médico de Família






"A minha breve história"

MGFamiliar ® - Monday, December 14, 2015










Livro: A minha breve história de Stephen Hawking


Nesta sucinta autobiografia o célebre físico Stephen Hawking partilha como ultrapassou a Esclerose Lateral Amiotrófica e detalha (em termos ao alcance do leitor não-técnico) como decorreu o seu trabalho. Inicialmente Hawking mostrou que a relatividade geral não se aplica às singularidades no Big Bang e nos buracos negros. Mais tarde provou como a teoria quântica pode prever o que acontece no princípio e fim do tempo.

“A minha breve história” é uma oportunidade única de, sem voyeurismo,  percebermos a complexidade, as rotinas e os momentos marcantes do percurso pessoal e profissional do cientista. Uma vida extraordinária que esteve sempre ligada aos outros rompendo com a imagem fantasiosa do génio solitário.

Luís Monteiro







Glória Neto: "O Perfume"

MGFamiliar ® - Sunday, October 18, 2015



Livro: O Perfume - História de um Assassino de Patrick Suskind 



Desafiada a entreabrir as folhas de um livro que me tivesse marcado, não foi difícil surgir-me na memória “O Perfume”, que li de um fôlego só, num Verão de há já algum anos. Este livro foi-me aconselhado por um amigo que talvez me conhecesse bem. Narra a vida de Jean Baptista e tocou-me por ser um livro diferente, pela descrição de perceções em relação ao meio ambiente e às alterações psicológicas que nos podem provocar e como nos podem influenciar. Fala-nos das diferenças e deficiências que todos os seres humanos têm. A descrição dos cheiros de cada lugar e situação levou-me a senti-los intensamente, o que torna o livro muito marcante.

Nesta história só aparentemente simples descreve-se a vida de Jean, que nasceu com uma capacidade ímpar para detetar cheiros e, por causa dessa capacidade, persistentemente procurou o perfume perfeito. Passou por várias trabalhos, teve algumas vitórias ao criar aromas ímpares, mas nunca satisfeito  resolveu parar e repensar no que queria mesmo atingir, nessa altura faz uma descoberta surpreendente: não tinha cheiro. Essa revelação sobre si próprio levou-o a querer descobrir a receita do perfume humano e nessa busca obcecada tornou-se um assassino, passando o resto da vida a tentar ser “completo”, a roubar aos outros o que lhe faltava a ele...  será que podemos ter e ser alguma coisa que não venha de nós ou seja o reflexo de nós próprios?

Agradou-me a questão das diferenças - somos todos diferentes -, a persistência, os limites e como os conhecer e a demonstração de quando os cheiros podem influenciar o nosso estado psicológico.

Daqueles livros “de férias” que afinal nos acompanham para toda a vida!

Glória Neto








Philippe Botas: “A mão que nos opera..."

MGFamiliar ® - Monday, July 20, 2015





Livro: “A mão que nos opera - confissões de um cirurgião sobre uma ciência imperfeita” de Atul Gawande


Este livro fala da falibilidade, do mistério e da incerteza na medicina. Palavras que nos fazem recordar muitos casos da nossa prática clínica. Uma leitura fácil e estimulante, com uma honestidade que nos faz sentir humanos. O autor partilha casos que acompanhou durante o internato de Cirurgia Geral, mas que se enquadram em todas as áreas da medicina. Fala do processo de aprendizagem e das suas particularidades, muitas vezes desconhecidas pelos próprios consulentes. Uma reflexão sobre as nossas falhas, que muitas vezes queremos (mesmo inconscientemente) disfarçar, sob um manto da nossa profissão. A partilha e reconhecimento das nossas fragilidades deve ser aceite por todos. Sem ataques e sem medos. Sem dúvida, um livro que todos devemos ler. Um agradecimento especial ao meu orientador Luiz Miguel Santiago que me aconselhou este livro.

Philippe Botas









Luís Monteiro: "História da Ciência em Portugal"

MGFamiliar ® - Saturday, May 02, 2015

 

 

Livro: "História da Ciência em Portugal" de Carlos Fiolhais

 

 

 

Neste recente  “História da Ciência em Portugal”, o Prof. Doutor Carlos Fiolhais passa em revista o percurso da ciência no nosso país. São sete séculos de um trajecto tortuoso marcado por sombras e por alguns períodos de luz e progresso.

A visão global do Professor Catedrático do Departamento de Física da Universidade de Coimbra ajuda o leitor a identificar acasos curiosos, opções conscientes e consequências.

É de valorizar a capacidade de síntese expressa na cronologia no final do livro e o dicionário de cientistas portugueses ou estrangeiros que trabalharam entre nós.

Luís Monteiro

 

 

 

 

 

 

Luís Monteiro: "Como mentir com a Estatística"

MGFamiliar ® - Sunday, October 26, 2014

Livro: “Como mentir com a Estatística” de Darrell Huff 



A premiada colecção Ciência Aberta da Gradiva contribui para a divulgação científica de forma exemplar e sem enveredar por obras soturnas. Um dos recentes exemplos é este “Como mentir com a Estatística” de Darrell Huff. A obra tornou-se um best-seller na segunda metade do século XX e é fácil perceber porquê: os casos concretos e o humor que caracteriza o livro seduz e ensina o leitor interessado.

A Gradiva enriquece o título com o prefácio de Dinis Pestana. O professor de Estatística da Universidade de Lisboa contextualiza a obra e salienta que sobre o uso indevido da Estatística há capítulos ainda por escrever.

Se o leitor estiver atento ao discurso mediático e aos labirintos da pirâmide do poder  facilmente concluirá que este clássico é absolutamente actual.

Luís Monteiro





João Lobo Antunes

MGFamiliar ® - Monday, August 25, 2014

 

 

 

 

 

Livro: “Os Maias” de Eça de Queirós

 

 

 

Luís Monteiro: "A Casa dos Deuses"

MGFamiliar ® - Wednesday, April 09, 2014

 

Livro: “A Casa dos Deuses” (“The House of God”) de Samuel Shem 

 

 

XIII lei da Casa dos Deuses:

 

"Prestar cuidados médicos consiste em fazer o máximo de nada tanto quanto possível”

 

Dois milhões de exemplares vendidos em todo o mundo desde 1978, converteram “A Casa dos Deuses” num livro de culto.

Stephen J. Bergman (médico psiquiatra em Harvard) usa o pseudónimo Shem, para assinar uma história mordaz que nos relata o internato de Roy Bash. Roy vai descobrir a verdade da prática da profissão em que não há salvações heroicas, mas sim ignorância, incerteza e um prolongamento artificial da morte dos mais idosos, criando os retratados Gomer´s (acrónimo para Get Out of My Emergency Room).

Ainda que alguns se possam escandalizar com a realidade crua (a narrativa é, admito, demasiado caricatural e cruel) este livro vale por isso mesmo, para provocar uma pedrada no charco que é, muitas vezes, o discurso politicamente correto.

 Luís Monteiro

 

Ana Rita

MGFamiliar ® - Thursday, March 13, 2014

 

 

Livro: “A Máquina de Fazer Espanhóis” de Valter Hugo Mãe

 

 


 

Valter Hugo Mãe é sem dúvida um escritor que derrama em palavras muito daquilo que sentimos ao falar com aquele consulente, idoso, viúvo, com a mágoa de quem perdeu a vontade de viver e não sabe como sair do ciclo vicioso que é envelhecer. Ou aquela idosa, obstinada que nos aponta o dedo como “razão do mal que traz”. A Máquina de Fazer Espanhóis é um livro que todos os profissionais de saúde mas, também, filhos e filhas, pais e avós deviam ler. Não é um livro feliz embora seja deliciosamente divertido, é sim um livro real, cruelmente real, acerca do Senhor Silva, que poderia ser o Senhor Sousa ou o Senhor Campos. Um octogenário, viúvo recente, a envelhecer subitamente sem o amor de uma vida, a debater-se desesperadamente com a entrada no lar de idosos e a incapacidade de lidar com o processo natural de envelhecimento. A marginalidade com que se sente tratado retrata a nossa sociedade de exclusão dos idosos mas também mascara a terrível separação entre o viver e o existir. Uma obra magnífica que nos faz pensar quantas histórias estarão por trás do sorriso teimoso da Dona Augusta, do olhar austero do Senhor Acácio ou da insolência do Senhor Amaro..

 

Ana Rita Magalhães, USF Topázio- Eiras, Coimbra