Memórias

Médico de valência


MGFamiliar ® - Sunday, November 29, 2015






O ano de 1984 estava ainda no seu começo quando foi publicado o primeiro número da Revista Portuguesa de Clínica Geral, o primeiro daquela que ainda hoje é a principal publicação científica da Medicina Geral e Familiar portuguesa, atualmente denominada Revista Portuguesa de Medicina Geral e Familiar.

Na capa, em agradáveis tons de azul, com um grafismo atraente, vemos uma fotografia muito interessante: uma família, em ambiente rural, de uns avós e um neto ou neta abraçada ao gato. Mas, olhando para a fotografia, é fácil perceber o bom humor e o gozo daqueles momentos, apesar da prontidão para a ação dos avós, talvez pelo receio de que a criança aperte demasiado o gato e este possa reagir... Mas não deixa de ser curioso como a fotografia nos leva a pensar e a compreender facilmente a necessidade de oferecer Cuidados de Saúde Primários àquelas pessoas. Talvez este pensamento seja influenciado pelo facto de sabermos que foi por essa altura que o Serviço Nacional de Saúde, bem como a Medicina Geral e Familiar, deu os seus primeiros, importantes e irreversíveis passos.

No seu interior encontramos algumas pérolas. E, destas pérolas, a que hoje partilho convosco,  é um artigo escrito pela nossa colega Maria José Tovar, sob o título “Médico de valência – Médico de Família, Uma opção?”. Este artigo é uma pérola porque nele é muito bem retratada a realidade que se vivia naquela época, uma realidade de transição em que os médicos sentiam no terreno as dificuldades, mas também as virtudes de mudanças importantes na forma como trabalhavam. Outra das preciosidades deste artigo são as imagens que nele encontramos... Olhem-nas demoradamente e contemplem-nas. Destaco a mais pequena, a do estendal e a sua legenda “Como compreender as cefaleias de certa mulher, sem saber que, após 8 horas de trabalho numa fábrica, chega a casa para lavar toda a roupa do varal?”.

Foi com um o prazer enorme que partilhei, há dias, esta pérola com a sua autora, a nossa colega Maria José Tovar, e aproveitei para lhe colocar algumas questões...



Cara Maria José Tovar, explique-nos, por favor, o contexto em que escreveu este artigo. O que era um "médico de valência"? Será que nos pode contar algo sobre as fotografias e as imagens que acompanham o artigo? Passados estes anos todos, ao reler este artigo, que memórias, que emoções lhe surgem?

Maria José Tovar:

"Faltam-me 2 anos e meio para a reforma, e ao reler este artigo passa-me pelo espírito a grande aventura que tem sido a construção do enorme edifício do nosso Serviço Nacional de Saúde, Deus o proteja...

Concluí a licenciatura no glorioso ano de 1975, nessa época em que todos os sonhos eram possíveis. Ao começar a trabalhar em Águeda com um grupo de jovens profissionais que lançou o movimento a favor da integração de crianças com deficiência nas  escolas regulares, demo-nos conta que não existia ainda, em Águeda, Centro de Saúde. Fizemos então uma campanha  a favor da sua criação (o objectivo era, justamente, prevenir as  deficiências melhorando a assistência materno-infantil, numa época em que as complicações da gravidez, do parto e das doenças infantis eram ainda causas de muitas mortes e morbilidade .

O Centro de Saúde veio a abrir em 1981 e nós, médicos a aguardar a entrada na especialidade, assegurávamos as valências de Saúde Infantil, Saúde Materna e a novíssima valência de Planeamento Familiar. O Centro de Saúde assegurava, também, a implementação do Programa Nacional de Vacinação. Com estas valências, às quais por vezes se juntava a Saúde Escolar, considerava-se garantida a Medicina Preventiva. Os cuidados curativos eram prestados nas "caixas" (Caixa de Previdência para os operários e Casas do Povo para os agricultores).

Note-se que, numa época em que ainda se apanhavam percevejos à mão nas enfermarias dos hospitais da universidade (hospital velho), o Hospital Pediátrico de Coimbra era um oásis no deserto. Uma forte ligação deste hospital com os jovens médicos que por lá tinham passado durante o "estágio policlínico"  e se haviam espalhado pelos Centros de Saúde permitia assegurar uma boa qualidade na medicina preventiva, com forte impacto na redução da mortalidade infantil (recorde-se que as gastroenterites eram ainda uma das principais causas de morte na primeira infância). Ao emergir a Medicina Geral e Familiar, integrando os cuidados, vinha bulir com esta rede preventiva ainda frágil, arriscando-se, num primeiro momento, a fazer recuar os ganhos obtidos... 

Em Águeda, nós que assegurávamos estas valências entrámos para o internato de Medicina Geral e Familiar, continuando a fazer as consultas preventivas em regime de voluntariado. Numa fase seguinte, como explica no artigo, procurámos fazer uma transição pacífica dum modelo para outro, ao contrário do que aconteceu noutros locais em que se abandonou radicalmente o sistema de valências, correndo o risco de criar um vazio nos cuidados materno-infantis enquanto o novo modelo de medicina familiar não ganhava solidez.

Mas esta não foi a única batalha: houve ainda que convencer os médicos de saúde pública que nós, médicos de família, não éramos os seus inimigos naturais, (acusavam-nos de lhe roubar a atividade clínica)... mas isso são outras guerras.

Os médicos nas fotografias são o Adriano Domingues e o Agostinho Lobo. 

Obrigada, Carlos Martins, por estas boas recordações."


Cara Maria José, muito obrigado pelas suas interessantíssimas respostas e pela gentileza das suas palavras. 

Caros colegas, leiam o artigo original, vale a pena! Espero que sintam tanto prazer na sua leitura como a mim me deu escrever e preparar este artigo para vós. Obrigado :)

Carlos Martins








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