Maria João Xará

Escolher MGF: O desafio de dar mais de si


MGFamiliar ® - Wednesday, May 17, 2017



Hoje em dia, a Medicina Geral e Familiar tornou-se uma especialidade com currículo bem definido e com uma série de tarefas bem delineadas para cumprir. Cresceu em número e em maturidade. Limou arestas, alisou superfícies por vezes bem rugosas e está muito diferente. Estando diferente, chamou a si pessoas diferentes. Médicos capazes de muito mais do que prescrever, que aperfeiçoam a cada dia a escuta ativa, a empatia, a proximidade, a confiança. Médicos que vivem de perto as conquistas das famílias e são porto de abrigo nos momentos de maior fragilidade. 

Acredito que muitos de nós são movidos pelo desafio extra de atuar na prevenção, saber ser o contacto próximo, conseguir adivinhar o que move cada indivíduo e de não querer desistir de o acompanhar nas diferentes etapas da vida. Ser O médico da Pessoa, num vínculo que se cria ao longo do tempo, e reconhecer-se como o clínico que melhor conhece a Família.

Para este Dia Mundial do Médico de Família, reuni alguns testemunhos de colegas de internato e de especialistas que me dizem muito. Perguntei-lhes por que razão cada um deles escolheu MGF. Cada um à sua maneira, com mais ou menos palavras, mostraram um pouco de si, do que pensam e sentem. 

Mantive-me na MGF porque tinha acabado de descobrir que eu poderia fazer a diferença. Poderia estudar, investigar, estar mais próxima das pessoas e principalmente fazer aos outros aquilo que eu gostaria que me fizessem a mim. (Ler mais no texto 1)
 
Eduarda Vidal, USF Terras Santa Maria 


É ver crianças a crescer, ver famílias a envelhecer e saber que fazemos parte dessa história e que contribuímos de alguma maneira. Eu escolhi fazer parte da vida dos meus doentes, escolhi Medicina e Geral e Familiar. (Ler mais no texto 2)
Filipa Carvalho, interna de MGF, USF Entre Margens


É a especialidade que mais nos permite ajudar a aliviar a dor e o sofrimento das pessoas e, por isso, exige tanto de cada um de nós. Mais tarde, a entrega porque, se não posso aliviar a dor que a vida produz, pelo menos tento aliviar a dor dos outros.
Lurdes Romão, USF Entre Margens


Talvez tenha “escolhido MGF” por querer aprender a cuidar de pessoas com doença e não apenas tratar das doenças das pessoas.
Maria da Luz Loureiro, Coordenadora do Internato de MGF da Zona Norte 


Encontramos pessoas na nossa vida que nos marcam por diferentes motivos e isso mais tarde impele-nos para diferentes caminhos. (…) foram pessoas que me fizeram querer ser médica de pessoas e não de doenças. (Ler mais no texto 3)
Maria Miguel Sá, interna de MGF, USF Famílias


Escolhi MGF porque é a única especialidade que segue a mesma pessoa desde os primeiros dias de vida até à morte e que tem o privilégio de contactar com cada fase da vida de uma pessoa, abarcando todas as tarefas, obstáculos e problemas que surgem em cada uma.
Michelle Oliveira, interna de MGF, UCSP de Mira


A relação empática e a comunicação efetiva inigualáveis que se estabelece entre o Médico de Família e os vários elementos, de qualquer idade e sexo, de diferentes famílias de uma comunidade que se perpetuam no tempo enfrentando uma variedade de problemas de saúde, inatingível por qualquer outra especialidade.
Nivalda Pereira, interna de MGF, Centro de Saúde do Porto da Cruz, SESARAM, EPE


O que gosto mais é de ouvir, de ajudar as pessoas, sem usar medicamentos. Senti que onde conseguia fazer mais isso, e melhor, era em MGF.
Ricardo Silva, interno de MGF, USF Egas Moniz


A personalização, a continuidade e a globalidade de cuidados médicos.
Rui Nogueira, Coordenador do Internato de MGF da Zona Centro


Estou certa que contactar com profissionais assim me tornará também a mim uma melhor Médica de Família e estou muito grata por isso. 

Quando escolhi Medicina Geral e Familiar tinha a certeza que teria que dar muito de mim mas não podia ainda imaginar o quanto se recebe em troca! E é este continuum de dar e receber que me move e me dá alento para, todos os dias, independentemente de tudo o resto, ter um sorriso para oferecer aos que comigo se cruzam. 

Hoje, convido-o também a si a refletir: "E a si? O que o move?"

Por Maria João Xará


 

Testemunhos integrais (ler mais sobre…):

Texto 1

MGF ou Clínica Geral como era conhecida no meu tempo não era, de todo, a minha opção de vida. Queria ser médica do hospital, fazer grandes feitos, tratamentos, salvar vidas. Não queria ser “médica da caixa”. 

Fiz o exame uma vez e tive 50, não deu. Repeti, tive 55, não deu. Na terceira tentativa já eu tinha dois filhos e adormecia-os a ler o enfarte do miocárdio ou a pneumonia da comunidade e deu 67. Quase que entrava em Medicina Interna ou Psiquiatria, mas quis o destino que entrasse na carreira de MGF. Ainda repeti o exame outra vez, mas mantive-me na MGF porque tinha acabado de descobrir que poderia fazer a diferença. Poderia estudar, investigar, estar mais próxima das pessoas e principalmente fazer aos outros aquilo que eu gostaria que me fizessem a mim. 

E é isso que eu todos os dias questiono antes de me deitar: o que poderias fazer melhor pelo outros em geral e pelos utentes em particular? E é isso que me faz sentir bem na MGF. É estar mais próxima das pessoas para que tenham a saúde que merecem e o melhor acompanhamento na doença e poder também estar a apoiar os familiares amigos. 

Sou uma apaixonada por aquilo que faço e passados tantos anos acho que o destino me conhecia melhor do que eu própria. Adoro o que faço porque sei estar no local certo para fazer o bem, para fazer o que me levou a entrar em Medicina. 

 

Texto 2

Enquanto somos estudantes, todos perguntam qual a especialidade que vamos escolher. São tantas e nós mal sabemos o que responder. E se gosto agora, será que vou gostar daqui a uns anos? E se me arrependo? E se não me sentir bem nessa especialidade? São imensas as perguntas que fazemos a nós próprios. Quando ainda estava nessa fase, pensei várias vezes no que gostava realmente... Gosto de falar com as pessoas, gosto de aprender com elas, preocupo-me com os doentes e gosto de saber como estão não só naquele dia mas nos dias seguintes. E ser médico é isso mesmo, é envolver-nos com o doente, e com a sua família... É ver crianças a crescer, ver famílias a envelhecer e saber que fazemos parte dessa história e que contribuímos de alguma maneira. Eu escolhi fazer parte da vida dos meus doentes, escolhi Medicina Geral e Familiar.

 

Texto 3

Encontramos pessoas na nossa vida que nos marcam por diferentes motivos e isso mais tarde impele-nos para diferentes caminhos. 

Dois médicos de família motivaram-me a ser como eles, nenhum deles está já entre nós. 

Um deles nem o cheguei a conhecer a parte do que o meu avô me contou. Provavelmente não era médico de família mas foi o médico da minha família. O carinho e reconhecimento com que sempre ouvi falar nele fez-me querer que estivesse assim no coração de alguém. Não porque fez algum diagnóstico fantástico ou indicou um medicamento de última linha, mas porque era reconhecido por se preocupar com o doente, por estar lá, ao longo da vida. Por se poder confiar não sendo impositivo nem paternalista.

A segunda figura que marcou a minha escolha era marido de uma grande amiga e dos médicos de família da velha guarda que ajudaram a mudar a nossa especialidade. A forma tranquila, assertiva e, no entanto, sempre correta como sempre conduziu a sua prática foi mais uma fonte de inspiração.

Foi por estas pessoas que quis ser médica de família. É engraçado nunca ter pensado nisto nestes termos mas sim, foram pessoas que me fizeram querer ser médica de pessoas e não de doenças.






Comments
Post has no comments.

Post a Comment




Captcha Image