Médicos portugueses pelo mundo

Bernardo Pessoa @ Aahrus

MGFamiliar ® - Wednesday, November 02, 2016



Porque optaste ir efetuar este estágio na Dinamarca?

No âmbito dos cuidados de saúde primários o modelo de trabalho da Dinamarca é considerado uma uma referência a nível internacional. Se já tinha conhecido a realidade dos cuidados de saúde hospitalares nos Estados Unidos, faltava agora complementar a formação no local de excelência em que o modelo de saúde Português baseia algumas das suas práticas na Medicina Geral e Familiar. Em relação à cidade, embora Copenhaga seja a capital e referência turística, a dimensão e multiplicidade cultural próprias duma capital europeia fazem com que não seja aqui que se conheça a profunda e genuína realidade Dinamarquesa. Aahrus é uma cidade Universitária e com uma população dinâmica, culta e jovem. A hospitalidade e simpatia da população foram outros ingredientes que, embora desconhecesse, vieram desmistificar o preconceito de “frieza dos povos nórdicos” e acrescentar uma agradável surpresa a toda esta experiência.

Quais os aspetos mais positivos desta tua experiência?

Foram vários os aspetos que marcaram positivamente a minha estadia tanto pessoal como profissionalmente: O primeiro foi claramente a hospitalidade da população Dinamarquesa. Prova disso foi o convite insistente para ficar instalado em casa do médico que me iria receber e a forma informal com que a sua família acolheu no seu quotidiano um português totalmente desconhecido. A par desta hospitalidade encontrei na Dinamarca o expoente máximo do civismo entre cidadãos que se manifestavam por um enorme respeito, confiança e sentido comunitário.

Quanto aos aspetos profissionais, um dos que mais se destaca é sem dúvida a acessibilidade ao médico de família. A disponibilidade aos cuidados de saúde primários é garantida 24 horas por dia sendo respondida pelo próprio médico de família na sua clínica entre as 8h e as 16 horas nos dias de semana, e fora deste horário, através de um sistema de “call centre” organizado pelos mesmos médicos de família que, através de uma escala rotativa numa central telefónica, gerem a localização e disponibilidade do utente / médico e conforme a gravidade e urgência da situação clínica, canalizam o utente para uma de 4 soluções: 1. Permanecer em domicílio para cumprir ou não algum tratamento administrado pelo próprio utente, 2. Dirigir-se à unidade de atendimento onde se encontram médicos de família para avaliação clínica presencial, 3. Disponibilizar uma consulta domiciliária, 4. Referenciar a cuidados hospitalares em quadros clínicos de elevada gravidade.

Um outro aspeto que não posso deixar de referir é a total ausência de papel durante todo o dia de consultas e na comunicação entre todos os intervenientes da saúde do utente: médico de família / laboratório de análises / centros de imagiologia / hospital / utente. O sistema informático articula-se numa única plataforma e a comunicação entre médico – utente é quase sempre feita através de email. O utente dispõe ainda de uma página de internet onde pode marcar as suas consultas ou colocar questões diretamente ao seu médico.


E negativos?

Se tenho que apontar algum aspeto que seja menos positivo posso referir o longo Inverno nórdico que o comum Português não está acostumado. No entanto, note-se que todas as habitações são construídas com tecnologia eficiente de preservação do calor pelo que é fácil e barato ter a casa aquecida. Outra “pedra no sapato” é sem duvida a língua. Embora todas as gerações e classes sociais falem fluentemente inglês, é expectável que vivendo na Dinamarca tenhamos que mais tarde ou mais cedo “arranhar” o dinamarquês.

O que pensas da realidade da medicina e do sistema de saúde com que estás a contactar na Dinamarca?

Dos diferentes sistemas de saúde que já tive contato verifico que não há sistemas perfeitos mas sim aspetos mais ou menos positivos que gostaríamos de replicar no nosso país. E a Dinamarca não é exceção. O médico de família é a porta de entrada para o sistema de saúde e por essa razão privilegia-se a sua disponibilidade e acessibilidade. Dessa forma a população não sobrecarrega as urgências e serviços hospitalares. Exceto em situações de risco eminente de vida, o médico de família é a única forma de aceder ao Hospital quer por causas urgentes quer eletivas. A população percebe este modus operandi e não o entende como um entrave ao Hospital porque sabe que está sempre algum médico disponível para atender, por vezes mesmo o seu próprio médico de família. A relação entre médico e utente que se vive neste país só pode ser entendida quando compreendemos a cultura Dinamarquesa, porque na realidade, as diferenças culturais que nos distinguem deste povo são bem maiores do que as vantagens tecnológicas ou logísticas que possam ter.

Da realidade que estás a vivenciar há algum aspeto que gostarias de ver replicado em Portugal?

Um dos principais indicadores de qualidade da nossa atividade enquanto médicos de família é sem dúvida a acessibilidade do utente à consulta. Para agilizar este parâmetro, o sistema de saúde dinamarquês dispõe de determinadas medidas que seriam a ambição de muito médicos de família portugueses: 1. central telefónica em horário pós laboral do médico, 2 . o modelo de comunicação utente / médico através de email, 3. a triagem dos utentes aos cuidados hospitalares, 4. o sistema único informático da saúde, 5. A marcação de tempos de consulta conforme o número de problemas a ser abordados. Ou seja, se o utente necessitar abordar 2 problemas então são alocados 2 tempos de consulta e assim sucessivamente. Estas medidas agilizam os cuidados de saúde primários, aumentam o nível de acompanhamento e satisfação dos utentes e aliviam as urgências hospitalares. 





Liliana Laranjo @ Sydney

MGFamiliar ® - Sunday, February 21, 2016







Há quanto tempo estás na Austrália?

Iniciei funções na Austrália em Agosto de 2015, como Postdoctoral Research Fellow na Macquarie University, em Sidney.

O que te levou a optar por emigrar?

A paixão por viajar e conhecer novos lugares e pessoas. A necessidade constante de expandir a minha zona de conforto e enfrentar novos desafios. A vontade de explorar uma carreira académica onde tivesse melhores condições para o fazer. A desmotivação com a má gestão no SNS, sobretudo ao nivel das chefias, onde o desrespeito pelos profissionais de saúde e, sobretudo, pelos doentes, atingiu proporções intoleráveis.

A proposta para trabalhar no Australian Institute of Health Innovation - Centre for Health Informatics tornou-se irrecusável porque me permitia prosseguir a carreira académica na área em que realizei o meu doutoramento, além de me oferecer todas as condições para poder equilibrar a minha vida pessoal e profissional da melhor forma possível.

Claro que não foi uma decisão fácil, particularmente porque a Austrália fica do outro lado do mundo! As saudades da família e amigos custam muito e apenas são parcialmente aliviadas pelo Skype e Facebook.

O que te surpreendeu mais no primeiro contacto com a cultura académica australiana?

A multiculturalidade, que adoro, e a abertura e simplicidade das pessoas, que permite que a comunicação seja fácil, sem o constrangimento de formalidades ou hierarquias. Penso que isto é uma grande vantagem, sobretudo no meio científico, porque permite que o conhecimento avance e se transmita de forma mais célere, sem barreiras desnecessárias.

Outro aspeto passa pelas oportunidades de financiamento para projectos de investigação clínica, que é muito superior ao existente em Portugal. Finalmente, a flexibilidade de horário no meio académico é muito grande e, além disso, as oportunidades existentes para médicos seguirem paralelamente a carreira académica são muitas (virtualmente qualquer combinação de tempo entre as duas atividades é possível, sendo muito comum ver médicos a realizar prática clínica 1, 2, ou 3 dias da semana e o restante em investigação).

O sistema de saúde australiano pode ser um modelo para Portugal? Porquê? Sinceramente, sinto que ainda não conheço o sistema de saúde australiano suficientemente bem para poder fazer uma comparação justa. Daquilo que me apercebi até agora, uma das maiores vantagens do ponto de vista do médico de família tem a ver com a flexibilidade da prática clínica, que permite a conjugação fácil com outras atividades de valorização pessoal ou profissional. Do ponto de vista do utente, penso que existem bastante iniciativas "patient-centred", com vários protocolos em prática para a promoção da partilha de decisões de saúde ("shared decision-making"). Como pontos negativos, o sistema 'fee-for-service' utilizado na Austrália poderá ser uma causa de sobremedicalização, com todas as suas consequências nefastas.

Quais os conselhos práticos que podes dar a um colega português que queira emigrar para a Austrália?

O reconhecimento da licenciatura portuguesa em Medicina, bem como da especialidade feita em Portugal, não é automático na Austrália: é um processo lento, trabalhoso, e caro. Mas não é impossível. Há alguns sites que ajudam a explicar o processo:

- http://doctorconnect.gov.au/internet/otd/publishing.nsf/Content/skillsRecognition

- http://www.amc.org.au/about

- http://www.racgp.org.au/becomingagp/imgaus/specialist-pathway/

Uma maneira muito mais fácil de emigrar para a Austrália é conseguindo uma posição académica (e posteriormente iniciar o processo para poder exercer medicina aqui, se for esse o objetivo).

Recentemente criei o grupo no Facebook "Médicos Portugueses na Austrália", para que os colegas que aqui estejam a trabalhar e os que pensem emigrar num futuro próximo possam trocar ideias e dicas sobre todo o processo. Este grupo poderá, em breve, ser um canal útil para partilha de informações sobre a emigração de médicos para a Austrália.


Obrigado, Liliana, por partilhares esta tua experiência connosco! :)










Raquel Diz @ S. Paulo

MGFamiliar ® - Monday, November 16, 2015


Porque optaste por efetuar este estágio?

Na minha opinião o principal objetivo de realizar um estágio no estrangeiro é contactar com uma nova realidade, distinta da nossa, de forma a aumentar a flexibilidade, capacidade de adaptação a novas situações e alargar horizontes, do ponto de vista médico e pessoal. A atividade no terreno e possibilidade de acompanhar o dia-a-dia de um Médico de Família noutro país é a forma mais real de entender o funcionamento e organização dos Cuidados de Saúde Primários (CSP) desse mesmo país.

O estágio realizou-se em duas Unidades Básicas de Saúde (UBS), UBS Vila D’Alva e UBS Jardim São Jorge (equivalente aos Centros de Saúde em Portugal) durante o período de 1 mês, entre 6 de Março e 5 de Abril de 2014.

Porquê Brasil?

A opção pelo Brasil, concretamente pela cidade de São Paulo, foi influenciada por vários fatores, de natureza pessoal e profissional. O interesse pela cultura e particularidades socioeconómicas do Brasil e o conhecimento de que o serviço público de saúde neste país, denominado Serviço Único de Saúde (SUS) estava atravessar uma fase de mudança, nomeadamente no que diz respeito aos CSP, foram fatores determinantes nesta escolha. Profissionalmente acredito que o contato com patologias e problemas sociodemográficos caraterísticos deste país, nomeadamente doenças infetocontagiosas, problemas com o abuso de substâncias, precariedade das condições habitacionais e dificuldade de acesso aos cuidados de saúde me farão crescer e ampliar a minha visão acerca da problemática da saúde destas populações.




Com que impressões ficaste do Sistema de Saúde e da MGF exercida nesse país?

Ainda que tendencialmente público, o sistema nacional de saúde brasileiro (SUS), serve, maioritariamente, a população mais desfavorecida daquele país, já que as pessoas de classe média-alta, ainda que possam usufruir do mesmo, optam pelos seguros de saúde (Planos de Saúde no Brasil) e atendimento em instituições privadas. Apesar dos esforços políticos nesse sentido, sabemos que a oferta de instituições públicas para o atendimento aos doentes é escassa, quer a nível hospitalar, quer de CSP, levando à sobrelotação dos servições de urgência e internamento hospitalares e ao grande número de utentes por médico de família nas UBS, que pode ir até 4000 utentes por médico.

Em 1994, o Ministério da Saúde do Brasil, criou o Programa de Saúde da Família, atualmente designado Estratégia de Saúde da Família (ESF), cujo principal propósito era reorganizar a prática da atenção à saúde em novas bases e substituir o modelo tradicional (neste modelo o atendimento nas Unidades era da responsabilidade de médicos especialistas em Medicina Interna, Pediatria, Ginecologia, não dispondo de profissionais da área de Medicina Geral e Familiar ou “Medicina da Família e Comunidade”, como é designada no Brasil), levando a saúde para mais perto da família e, com isso, melhorar a qualidade de vida dos brasileiros. As prioridades da ESF são ações de prevenção, promoção e recuperação da saúde das pessoas, de forma integral e contínua. O atendimento é assegurado pela Equipa de Saúde da Família (médico, enfermeiro, auxiliar de enfermagem e agente comunitário de saúde), na Unidade ou no domicílio, criando vínculos de coresponsabilidade entre a população e os profissionais. Cada UBS trabalha com um território de abrangência definido e é responsável pelo registo e acompanhamento da população vinculada a esta área.




Da realidade que vivenciaste, há algum aspeto que gostarias de ver replicado em Portugal?

A atenção e abordagem ao doente como um todo, como um ser biopsicossocial, tendo em conta o seu contexto social, familiar e na comunidade em que se insere. No Brasil, dada a escassez de recursos disponíveis, seja de meios complementares de diagnóstico e terapêutica ou resposta hospitalar a referenciações, a abordagem do médico de família é tendencialmente virada para a resolução dos problemas psicossociais e menos centrada na doença orgânica.

Maior tempo por consulta disponibilizado para o atendimento aos doentes e uma maior multidisciplinaridade das equipas, sendo que cada UBS no Brasil dispõe de profissionais das mais diversas áreas (medicina dentária, psicologia, terapia da fala, terapia ocupacional, fisioterapeuta, educadores físicos, bem como especialidades hospitalares, em regime de consultadoria).

Este estágio mudou algum aspeto na forma como exerces a tua prática clínica?

Sim. Alertou-me e sensibilizou-me para alguns aspetos, nomeadamente a gestão de recursos mais conscienciosa e uma abordagem mais centrada na pessoa.

Tens algum conselho para partilhar com colegas que estejam a ponderar efetuar um estágio internacional?

Uma palavra de incentivo e motivação. Escolham um país ou uma realidade que vos desperte interesse e vão à luta. Vão voltar com certeza mais ricos, pessoal e profissionalmente e enriquecer, com a vossa experiência, o local por onde passarem.




Obrigado, Raquel Diz, Interna de Medicina Geral e Familiar da UCSP Santa Maria II de Bragança, por nos teres concedido esta entrevista.  :)






Bernardo Pessoa @ Miami

MGFamiliar ® - Sunday, October 04, 2015





Porque optaste ir efetuar este estágio em Miami?

Durante o meu Internato complementar de Medicina Geral e Familiar tive a oportunidade de fazer um estágio opcional numa área que gostaria de aprofundar os meus conhecimentos e por isso escolhi a Medicina Desportiva. Neste âmbito, e por conhecer alguns médicos a residir em Miami, fiz todos os possíveis para visitar este centro de referência mundial na Medicina Desportiva assim como viver um pouco da realidade dos cuidados de saúde primários nos Estados Unidos.

Há quanto tempo estás em Miami? E pensas ficar por quanto tempo?

Por agora este estágio tem a duração aproximada de um mês. Já conhecia algumas das infraestruturas e corpo clínico deste centro mas desta vez foi-me possível integrar um pouco mais na prática clinica diária. Quanto ao futuro, só o tempo o dirá mas fica sem dúvida o desejo de voltar.

Quais os aspetos mais positivos desta tua experiência?

A recetividade foi sem dúvida o primeiro aspeto que superou as minhas expetativas. Estive perante alguns dos médicos mais consagrados a nível mundial na medicina desportiva e com eles estabeleci uma relação próxima e informal que tornou a minha aprendizagem extremamente produtiva. Por outro lado, ter acesso ao acompanhamento clínico dos atletas da equipa NFL Miami Dolphins e a oportunidade de participar ativamente na decisão terapêutica de alguns casos foi um privilégio difícil de esquecer.


E negativos?

O custo de vida é sem dúvida um fator a ter em conta para quem está habituado aos salários / custos em Portugal. Mesmo adotando um estilo de vida modesto, os custos dos bens essenciais são substancialmente mais caros e como se isso não bastasse… a “junk food” é um terço do preço de comida mais “natural” o que torna a alimentação saudável ainda mais difícil.

A participação ativa na anamnese e exame objetivo são também muito limitados para quem não tem um contrato ativo nos EUA. Esta limitação entende-se porque o sistema de saúde e os médicos em concreto são sujeitos a inúmeros processos judiciais tornando a prática clínica muito defensiva e obrigatoriamente protegida por um completo seguro profissional.

O que pensas da realidade da medicina e do sistema de saúde com que estás a contactar aí nos EUA?

A medicina que conheci aqui em Miami é o “state of the art” no que respeita a tratamentos de última geração e a recursos tecnológicos clínico-cirúrgicos. A nível hospitalar e ambulatório pratica-se uma medicina tão eficiente quanto defensiva. No entanto, os Estados Unidos são uma região demasiado vasta para individualizar uma simples opinião sobre a prática de medicina neste país. Refira-se por exemplo a área da MGF, em que nas grandes cidades os médicos de família encontram-se em clinicas ou em hospitais a exercer exclusivamente atividades altamente especializadas em contraste com os estados do interior em que a abrangência de competências do médico de família inclui desde apendicectomias, cesarianas, colonoscopias, etc.

Quanto ao sistema de saúde americano a expressão que melhor o descreve é “turned upside down”. Após o fascínio inicial dos primeiros dias com a dimensão das infraestruturas e recursos tecnológicos, vamos percebendo que na realidade, a população em geral não dispõe de um sistema de saúde de Cuidados de Saúde Primários minimamente comparável com o nosso. Os cidadãos são obrigados a ter um seguro de saúde que vão utilizando segundo o que entendem ser as suas necessidades e não de acordo com um plano de saúde protocolado e universalmente estabelecido no país. Esta realidade resulta numa disparidade social no acesso aos cuidados de saúde à qual nós, felizmente, não estamos habituados. O recente e tão proclamado plano Afordable Care Act mais conhecido por Obamacare é nada mais do que a intervenção do Governo na regulamentação da Saúde, tornando os cuidados de saúde mais universais e equitativos e neste sentido tendendo a assemelhar-se ao Sistema Nacional de Saúde português.

Da realidade que estás a vivenciar há algum aspeto que gostarias de ver replicado em Portugal?

De toda a tecnologia, recursos materiais e conhecimento médico que gostaria de levar comigo para Portugal, experienciei uma prática que vou tentar replicar com certeza. Apesar da agenda preenchida, os médicos reúnem-se semanalmente na casa do diretor de serviço para um encontro informal de “t-shirt, piza e cerveja” em que cada médico apresenta um artigo de interesse. No final da apresentação todos opinam sobre cada tema e faz-se um brainstorming sobre o que poderá melhorar a qualidade da prática clínica que exercem. É um evento tão social quanto científico e ao mesmo tempo que se fortalecem as relações humanas entre colegas em ambiente descontraído, faz-se uma pausa do quotidiano refletindo-se sobre as questões pertinentes ao serviço.

Um outro aspeto que tem tanto de cómodo quanto eficiente é que todos os registos e relatórios médicos são elaborados em computador por meio de reconhecimento de voz. Este método permite uma descrição mais detalhada e rápida da consulta e simultaneamente privilegia o tempo e interação humana médico-utente sem que se interponha o elemento “computador”.








Dra. Vera Barbosa @ Oxford

MGFamiliar ® - Sunday, June 21, 2015



Porque optaste ir trabalhar para Oxford?

Optei por Oxford pela qualidade da investigação e a aposta na educação médica no Reino Unido. Desde há algum tempo que me interesso por investigação. Oxford pareceu-me a opção mais interessante para progredir no meu treino médico porque oferece a possibilidade de trabalhar com excelentes clínicos que são também excelentes investigadores.

O ensino da prática clinica é baseado em casos práticos reais  e em evidence based medicine e existe oportunidade para médicos mais inexperientes participarem na elaboração de procedimentos, auditorias e serviços de melhoria de qualidade.

Há quanto tempo estás em Oxford e pensas ficar por quanto tempo?

Inicialmente, completei o meu curso de medicina pela Universidade de Southampton. No Reino Unido, depois de se terminar o curso, concorre-se ao Foundation Programme a nível nacional. O Foundation Programme são dois anos em que se passa por várias rotações clinicas e/ou académicas de forma a obter-se experiência nas varias especialidades de medicina para depois se optar por uma especialidade clínica.

De momento estou a concluir o meu último ano deste programa em Oxford e a fazer a rotação de General Practice.

Pretendo iniciar a Especialidade de Anestesia em Agosto onde regressarei ao Deanery the Wessex e onde estarei nos proximos três anos como Anestesista junior.

Quais os aspectos mais positivos desta tua experiência?

A possibilidade de experimentar varias especialidades médicas permite obter experiência em outras áreas da medicina e obter mais conhecimentos que serão uteis em qualquer especialidade. Permite também desenvolver a prática clinica.

Oxford foi uma excelente oportunidade em particular, porque permitiu trabalhar com equipas clínicas com uma vertente de investigação muito forte. Tive a oportunidade de trabalhar com vários médicos de renome, nomeadamente em cirurgia, e aprender muito com eles. As aulas, que decorrem paralelamente à prática clinica, foram muitas vezes dadas por especialistas nas diferentes áreas a serem lecionadas.

Em General Practice tem sido enriquecedor aprender como é feito o financiamento do NHS, para além de perceber a interligação entre os cuidados primários e secundários.

E negativos?

A parte mais negativa ao fazer estas rotações é que se muda frequentemente de equipa e de hospital. Esta constante necessidade de adaptação a novas equipas torna-se, por vezes, cansativa, assim como a necessidade frequente de se mudar de casa.

Até ao momento, a minha experiência em General Practice permitiu-me observar que, para além da prática clínica, os médicos de família precisam de gerir os fundos monetários, já que são eles que financiam os cuidados secundários prestados aos seus doentes. Existe muitas vezes uma necessidade em repensar os casos clínicos para perceber se realmente justificam ser referenciados para cuidados de especialistas ou se podem ser geridos na comunidade. Isto gera muita pressão sobre os médicos de família que precisam de justificar todos os exames e cuidados fora da comunidade. Muitas vezes, existe um conflito de interesses entre o que o doente gostaria de fazer e o que realmente se justifica em termos clínicos.



O que pensas do Sistema de Saúde inglês?

Não existe nenhum sistema perfeito e o National Health System tem os seus pontos menos fortes. No entanto, a sua estrutura e princípios são um exemplo a seguir.

Acho que consegue aliar boa prática clínica com frequentes auditorias para melhoramento de serviços e a prática de “evidence based medicine”.

Actualmente, está a atravessar uma fase de mudança devido ao aumento dos cuidados médicos para uma população mais envelhecida, sedentária e com problemas crónicos.

Mas muito se tem feito para melhorar a saúde da população em geral e na responsabilização dos doentes pela sua própria saúde.

Da realidade que estás a vivenciar em Oxford o que gostarias de ver replicado em Portugal?

A investigação e auditorias são prática comum em medicina e penso que em Portugal estas vertentes deveriam de ser também práticas comuns. O tempo dedicado à realização de auditorias que tem como objectivo melhorar a prática clinica. Todos os médicos têm de fazer estes projectos, o que obriga a uma constante actualização de conhecimentos clínicos.

Acho que o Reino Unido é, sem dúvida, um exemplo a seguir na maneira como concilia investigação e prática clinica.





Dr. David Brito @ Zurique

MGFamiliar ® - Sunday, April 26, 2015

 

 

Quando participaste no Programa Hippokrates?

O estágio decorreu entre 6 e 19 de Outubro de 2013, tendo em conta os dias de receção e partida.

Quanto tempo estiveste no estágio?

A duração foi de duas semanas, como está padronizado. Parece-me uma duração bastante adequada ao tipo de experiência dado que inclui pelo menos um fim-de-semana, que pode sempre ser um período de descoberta, na área médica ou não.

O que te levou a optar por ir para a Suíça?

Optei pela Suíça pelo interesse no sistema de saúde tão distinto do português, pelo desafio e experiência cultural, pela qualidade expectável da experiência e pela possibilidade de rever familiares.

Em que cidade estiveste?

O programa foi acordado após disponibilização de um médico com prática em Zurique. Zurique é a capital financeira da Suíça, mas um local com muita personalidade e reveladora do carisma e particularidades Suíças. Não deixa de ser apenas uma faceta do incrível mosaico de ideias, culturas e línguas que caracteriza o país, bastante distinta de outro locais que conheci no país.

O que te surpreendeu mais no estágio?

É evidente que a experiência é por si só uma surpresa, pois esse é o seu objetivo: conhecer uma realidade diferente relativamente à prática da Medicina Geral e Familiar.

A esse nível, o dos Cuidados de Saúde, não posso deixar de destacar as relações e organização. E refiro-me a vários tipos: as relações institucionais governamentais, as relações das instituições da comunidade, as relações interdisciplinares médicas, e principalmente a relação médico-doente.

Na realidade o mosaico também existe no que diz respeito à forma descentralizada como os cuidados se organizam. A responsabilidade centra-se em cada cantão (dos 26 existentes) que, apesar de integrar a rede organizada e gerida pelo governo federal, tem uma autonomia substancial para definir políticas de saúde. Determinados assuntos, sobretudo relativos a assistência social a desfavorecidos ou cuidados domiciliários, são ainda definidos a nível municipal.

A nível da comunidade verifica-se que a própria natureza do sistema de saúde, baseado em seguros obrigatórios e regulamentados e em clínicas privadas, dita necessidades específicas. Observa-se uma oferta de cuidados muito distintos, da medicina ocidental a terapias e terapêuticas alternativas, com uma interessante colaboração entre elas, ambas cobertas pelos planos de seguros, e aparentemente contribuindo para a satisfação (e saúde?) dos utentes.

A prática médica difere entre o meio rural e urbano. Globalmente centra-se nos cuidados oferecidos pelos Médicos de Família (de acordo com as suas preferências e treino) e pela própria unidade de saúde (exames complementares, serviços específicos, etc.), variando de clínica para clínica. O seu bom funcionamento decorre das boas relações (bilateralmente cuidadas) entre o Médico de Família e laboratórios ou clínicas de outras especialidades, que dependem entre si para obterem sucesso. Distintamente da relação por vezes pouco colaborativa entre diferentes níveis de cuidados, que se observa em Portugal. Para o fazer utilizam um eficaz sistema de comunicação por fax e estafetas (ex: amostras para análise), que retira a burocracia e processos de diagnóstico das mãos dos doentes, poupando inconvenientes e perdas de informação.

Por fim, a gestão do ficheiro e prestação de cuidados centrada nas competências e disponibilidade dos próprios profissionais, possibilita uma importante satisfação laboral e pessoal. Esse facto permite que o próprio médico defina o número de doentes que considera possível cuidar com qualidade, e consequentemente uma gestão flexível da agenda e do tempo de consulta. O tempo dedicado ao doente, apesar de variável (e tarifado de acordo), torna possível uma excelente relação de cuidados, sem as interferências indesejadas da pressão da agenda, e provavelmente com impacto nos resultados em saúde.

Outros aspetos surpreendentes existiram: a multiculturalidade e os desafios que coloca, os hábitos e costumes particulares, aspetos da prática clínica (técnicas terapêuticas, orientações e circuitos delimitados pelas seguradoras), entre outros, que dariam pano para mangas.

O sistema de saúde suíço pode ser um modelo para Portugal? Porquê?

Parece-me que retirar de um sistema de cuidados de saúde o modelo ideal, de entre vários que constituem a realidade Europeia, está longe de ser realista ou fácil. Essa variedade de sistemas reflete aliás diferentes necessidades e limites para esses cuidados.

Poderia salientar algumas das vantagens previamente expostas, ou a qualidade e satisfação gerada globalmente pelo sistema Suíço. Mas não sem pensar noutros aspetos negativos como os custos globais (3º sistema de saúde mais caro do mundo, seguindo a Alemanha e os EUA), as deficiências na organização da rede de cuidados (ex: rastreios populacionais organizados, cuidados primários pediátricos e obstétricos, etc. ), nos cuidados primários preventivos (ex: cuidados programados e multidisciplinares), ou na abordagem dirigida da família, entre outras.

Por outro lado, comparamo-nos frequentemente com aqueles que têm cuidados de saúde primários com aspetos piores do que o sistema português, para justificar as limitações que nos são colocadas paulatinamente. Parece-me também justo que se possa refletir nos aspetos que estarão na origem da grande satisfação e qualidade de cuidados observados nesse ou noutros países. Essa reflexão deixou-me algumas questões, partindo da experiência Suíça:

Onde estará o limite para o aumento exponencial das listas de utentes, e consequentemente para a industrialização e evolução taylorista e burocrata da consulta? Como permitir espaço para as opções profissionais individuais e oportunidades formativas ou académicas de forma equilibrada?  Poderá existir uma flexibilização das agendas e sistemas informáticos para que se adequem aos cuidados e exigências da população? Deveremos adotar sistemas mais justos e equilibrados de tarifação e pagamento de cuidados? Poderemos dotar os cuidados primários de recursos materiais (farmácia alargada, exames de diagnóstico primário, instrumentos calibrados e de qualidade, etc.) e humanos (profissionais com treino diversificado e de qualidade reconhecida, agenda e remuneração proporcionada, organização descentralizada e multidisciplinar) que permita a melhoria dos cuidados a esse nível? Como será possível uma maior mobilização em prol de resultados centrados na qualidade e satisfação? Poderemos evoluir sem abdicar dos aspetos positivos do sistema existente?...

A verdade é que os sistemas se encontram em mutação, e que existe experiência suficiente (em Portugal, na Europa e no Mundo) para se poderem obter as melhores soluções para os cuidados de saúde primários. Este estágio realçou aquele que deve ser, na minha opinião, o principal aspeto do sistema de cuidados a adotar, ter a pessoa e o doente no centro dos seus objetivos.

Quais os conselhos práticos que pode dar a um colega português que queira estagiar na Suíça?

Qualquer estágio está dependente dos orientadores de formação, e reconheço que esse aspeto foi fundamental no estágio que pude realizar na Suíça.  Num país multicultural como é a Suíça a língua poderá ser um fator determinante, embora seja frequente a existência de profissionais que comunicam em espanhol, inglês, além das 3 línguas oficiais do país, e também português, como no caso do médico que me acolheu. Deverá portanto ser um fator a considerar na submissão do pedido.

Globalmente é um estágio dispendioso, face ao nível de rendimentos do país, quando comparado com outros locais. O alojamento constituirá provavelmente a grande maioria dos gastos em estágio pelo que a avaliação das condições, preços e métodos de reserva/pagamento são importantes. A excelente rede de transportes Suíça é uma importante mais-valia, pelo que a localização poderá não ser decisiva.

As experiências de Hippokrates na Suíça têm sido muito diferentes entre participantes e as realidades muito variáveis entre locais. Penso que seria possível conciliar um período de prática urbana e rural, o que daria uma perspetiva muito interessante e mais representativa dos cuidados de saúde.

Na experiência prática sugiro que seja tão diversificada quanto possível desde que o orientador o facilite (várias unidades/clínicas/médicos, diferentes instituições: universidade, laboratórios, lares de terceira idade, etc.), dada a variabilidade entre locais.

Por fim, comer fondue.. só uma vez! ;) Bons Hippokrates!

Entrevista conduzida por Luís Monteiro



 

 

 

Dra. Ana Luísa Neves @ Londres

MGFamiliar ® - Sunday, January 25, 2015




Porque optou ir trabalhar para Londres?

Na verdade, no início, a minha única convicção era a de querer continuar a fazer investigação. Ao longo do meu internato, trabalhei de perto com várias pessoas muito inspiradoras e algumas das quais compatibilizavam atividade clínica e investigação.

Graças a elas, fui-me apercebendo que a nossa prática clínica é em si uma fonte inesgotável de perguntas e, acima de tudo, fui descobrindo o quão gratificante era para mim tentar trabalhar nas suas respostas.

Nos últimos anos trabalhei sempre na área cardiovascular, porque me intrigava (e continua a intrigar) como uma área com tanto impacto e morbi-mortalidade, continua a ter mecanismos dos quais conhecemos tão pouco, e por isso esse foi o critério inicial quando selecionei os departamentos a visitar. 

No Imperial College, estavam reunidas as duas características que me interessavam: um projeto interessante e com uma componente clínica importante (MetaCardis). As garantias de financiamento foram também algo que pesou na decisão, porque permite-me focar toda a energia no projeto em si (a procura de fundos para investigação é normalmente um processo que consome demasiado tempo e energia). Por fim, permite-me manter uma ligação com a formação pré-graduada, que é uma componente da qual sempre gostei.

Há quanto tempo está em Londres e pensa ficar por quanto tempo?

Estou no Imperial College há quase um ano, e ficarei em principio até Janeiro de 2017.



Sir Alexander Fleming Building, Imperial College London

 

Quais os aspetos mais positivos desta sua experiência?

Profissionalmente, é para mim muito gratificante sentir que tenho boas condições para desenvolver o meu trabalho. Falo das questões relacionadas com o projeto (financiamento, organização, planeamento), mas também de pequenos detalhes relacionados com o conforto e a rapidez dos serviços de suporte no local de trabalho, e que me permitem usar o tempo de uma forma mais eficaz. Gosto do facto das pessoas serem abertas às críticas, o que faz com que o feedback seja muito transparente e que se consiga premiar de acordo com os resultados.

Gosto de estar num ambiente multicultural, e com pessoas com formações diversas (médicos, biólogos, bioquímicos, matemáticos, físicos), e cujas perspetivas externas me fazem questionar as minhas falsas-certezas médicas, e descobrir o quanto delas é empírico ou (apenas não-tão-científico assim).

Pessoalmente, gosto de viver numa cidade que é uma descoberta constante, cheia de bairros encantadores invisíveis aos turistas - e na qual se pode ter uma qualidade de vida surpreendentemente boa.

E negativos?

A fase inicial é sempre complicada, principalmente aprender novas funções, diferentes formas de trabalhar e de lidar com as pessoas, um novo contexto cultural. Diria que o mais difícil inicialmente é o afastamento da família e amigos, de tudo o que nos é fácil e confortável.

Mas, à medida que o tempo passa, aprendemos a gerir melhor a distância (as deslocações são rápidas e não particularmente caras, e as novas tecnologias ajudam muito!), e começamos a reconhecer o quanto do novo país começa a ser a nossa casa também.

Da realidade que está a vivenciar em Londres o que gostaria de ver replicado em Portugal?

Na minha opinião, é fundamental aproximar a investigação e a prática clinica, uma vez que são atividades naturalmente sinérgicas. A clínica alimenta as perguntas de investigação através dos seus desafios diários, e a investigação modula e aperfeiçoa a clínica com as suas respostas. Por isso, penso que há um real beneficio em compatibilizar ambas as atividades.

No Reino Unido, há uma opção de carreira médica chamada "Academic GP". Tipicamente o "Academic GP" dedica parte do seu tempo a actividades clinicas num centro de saúde, e o restante a actividades de investigação e letivas numa faculdade médica. Isto permite aos Médicos de Família manterem um contacto próximo com as necessidades da MGF (prioridades de investigação, patient-centered outcomes), proporcionando-lhes por outro lado carga horaria e suporte institucional para desenvolver o seu trabalho como investigadores. Este modelo existe, de resto, noutros paises (ex.: Chef de Clinique, em Franca), e é, sem dúvida, algo que gostaria de ver replicado em Portugal.



Dra. Ana Luísa Neves: obrigado por nos ter concedido esta entrevista!






Dr. Diogo Pereira @ Roma

MGFamiliar ® - Saturday, December 06, 2014



Quando participaste no Programa Hippokrates da APMGF?

De 2 a 13 de Dezembro de 2013.

 

Quanto tempo estiveste no estágio? O que te levou a optar por ir para Itália? Em que cidade estiveste?

A duração de um estágio do Programa Hippokrates é geralmente de 2 semanas, embora, por vezes, há quem opte por fazer um estágio mais curto, de apenas 1 semana. Como era a primeira vez que estava a participar num estágio no estrangeiro, no âmbito dos cuidados de saúde primários (CSP), em que a curiosidade, à partida, era imensa optei por ficar as 2 semanas. Sem dúvida, foi o tempo ideal.

O Programa Hippokrates, inserido no Movimento Vaco da Gama, nasce da necessidade dos médicos em formação, completarem a sua prática diária com a exploração novos caminhos, tal como fez Vaco da Gama, há 5 séculos atrás, quando iniciou a era da Globalização. Assim, este estágio permite-nos ter uma perspetiva mais ampla, e isso, de certa forma, acaba por ser independente do local escolhido para o realizar. É pois um período em que, além de conhecermos um novo Sistema de Saúde, melhoramos o conhecimento que temos sobre o nosso próprio SNS, e também estamos mais abertos para refletir sobre os processos de organização e gestão dos cuidados de saúde. A escolha por Itália (Roma) prendeu-se com o facto de ser um dos locais com disponibilidade para me receber, por ter alguns conhecimentos básicos de italiano, pela admiração que tenho pela cultura e pelo país, além da possibilidade de poder saber como é trabalhar numa capital europeia

 

O que te surpreendeu mais no estágio?

Antes de partir, sabia que havia algumas diferenças, embora nunca tenha pensado que essas diferenças, tanto nas competências do Médico de Família (MF) como na própria organização dos cuidados, fossem tão acentuadas.

Uma das diferenças mais notórias é que os MF Italianos trabalham de forma mais isolada, não existindo o trabalho em grupo que temos nas nossas unidades. Além disso, cabe aos MF serem responsáveis por gerir o consultório médico com o ordenado que recebem do estado (são eles que pagam aos administrativos, o aluguer do espaço, o sistema informático, o material, as contas…). A ausência de enfermeiros nos CSP também me surpreendeu, sendo esta lacuna justificada pela menor necessidade e pela questão de ser mais um custo no orçamento que o médico tem para gerir.

Outro aspeto que me surpreendeu foi a menor abrangência de cuidados realizada pelos MF. Estes não fazem consulta a crianças com menos de 12 anos e não fazem a vigilância em Saúde da Mulher (gravidez e planeamento familiar).

 


O sistema de saúde italiano pode ser um modelo para Portugal? Porquê?

Uma das virtudes que tive com a realização deste estágio e com experiências trocadas com outros colegas foi a de entender que as palavras, tantas vezes escritas e ditas, de orgulho no nosso SNS afinal não são ocas, nem são de patriotismo exagerado. A criação do nosso modelo de SNS foi um marco importante para a melhoria dos nossos indicadores de saúde. Além disso, a reforma dos CSP iniciada em 2005 tem sido relevante para a satisfação tando dos profissionais como da população, devendo ser sempre salvaguardada, no entanto, a importância da pessoa sobre os indicadores. Ainda, com a criação e afirmação da nossa especialidade, estão a formar-se novos MF, que também irão contribuir para colocar os nossos cuidados de saúde primários noutro patamar. Perante isto, penso que não precisamos de importar o modelo italiano, mas sim, apenas limar alguns aspetos menos positivos do nosso Sistema de Saúde.

Entre alguns pormenores do modelo visitado, destaco apenas a desmaterialização das incapacidades temporárias, em que o empregador tem também acesso a um sistema central, eliminando papéis neste processo.

 

Quais os conselhos práticos que pode dar a um colega português que queira estagiar em Itália?

Em primeiro, que não hesite, pois a realização de um estágio no estrangeiro é uma experiência extremamente enriquecedora no campo profissional e pessoal, onde as competências técnicas são desenvolvidas ou reforçadas ao mesmo tempo que se conhece uma sociedade diferente, fazendo-se no processo novas amizades.

Por outro lado, a língua e o clima não são certamente uma barreira e as pessoas são bastante hospitaleiras e simpáticas.

Se houver interesse por um esquema de trabalho mais semelhante ao nosso, embora raro em Itália, existem algumas clínicas que funcionam em equipas de trabalho, como a do estúdio médico de Scandiano.

Entrevista conduzida por Luís Monteiro




Dr. Pedro Silva @ Tel-Aviv

MGFamiliar ® - Monday, June 23, 2014

 

 

Quando e onde foi a tua participação Programa Hippokrates da APMGF?

Eu participei no Programa Hippokrates de 20 a 31 de maio de 2013, na Tel Nordau Clinic em Tel-Aviv, Israel.

O que te levou a optar por Israel?

A minha opção por Israel foi algo fortuita. O meu plano inicial era visitar um país do norte da Europa mas após alguns contratempos e depois de visitar novamente a página do Movimento Vasco da Gama, apercebi-me que o projeto se tinha alargado recentemente a Israel. Após uma breve pesquisa decidi arriscar e visitar uma realidade completamente desconhecida para mim, tanto a nível da prática clínica como a nível da vida quotidiana. Fui atraído por um país conhecido pelos seus extremos: tecnologia de ponta e conflitos, história e insegurança.

Em que atividades participaste?

Durante o estágio acompanhei principalmente a atividade clínica diária da minha anfitriã, a Dr.ª Lyn Solod.  Observei também pontualmente outras atividades que a clínica disponibiliza aos utentes, nomeadamente consultas de genética, dermatologia e cuidados de enfermagem.

Após sugestão do coordenador nacional do Programa Hippokrates em Israel, tive também oportunidade de visitar durante 2 dias o kibbutz Revivim, uma coletividade comunitária no sul de Israel, e conhecer a prática clínica de um médico nessa realidade.

O que te surpreendeu mais no estágio?

Aquilo que mais surpreendeu foi a cidade de Tel Aviv. É uma cidade jovem, liberal, multicultural. Encontrei um país seguro, aberto aos visitantes, com os cidadãos dispostos a discutir a sua história e os problemas atuais ... e excelentes praias.

O sistema de saúde israelita pode ser um modelo para Portugal? Porquê?

Acho que podemos aprender algumas coisas com o modelo que eles aplicam. O sistema israelita baseia-se na subscrição obrigatória de seguros de saúde que garantem um pacote uniformizado de benefícios. Os utentes podem mudar de seguradora uma vez por ano. O financiamento é feito diretamente pelos utentes (com pagamentos de aproximadamente €15 por mês) e impostos progressivos. Alguns serviços são administrados diretamente pelo Ministério da Saúde.

Este sistema parece abranger também toda a população, com a vantagem de que pode resultar numa maior competitividade. Potencialmente, isto pode resultar num melhor atendimento para os utentes, especialmente na rapidez do acesso a determinadas consultas de especialidade, e na qualidade das instalações (dou estes exemplos porque são problemas em algumas áreas de Portugal). No entanto, também pode resultar em piores condições de trabalho para os médicos de família , com mais horas de trabalho, menos tempo para cada paciente e piores salários, condicionando sua prática clínica. Um dos aspetos negativos de que eu me apercebi foi o grande volume de consultas, sem suficiente intervalo entre cada paciente de modo a refletir adequadamente sobre cada caso.

Quais os conselhos práticos que podes dar a um colega português que queira estagiar em Israel?

O único pré-requisito que recomendo a quem queira fazer um estágio semelhante em Israel é ter um conhecimento razoável da língua inglesa. A maioria dos israelitas domina adequadamente este língua e praticamente todos as interações são feitas em inglês. Não me pareceu que aprender hebraico fosse necessário para aproveitar melhor este estágio de curta duração.

Relativamente à viagem, as autoridades alfandegárias são muito minuciosas e fazem muitas perguntas sobre a nossa estadia em Israel. O ideal, de forma a agilizar o processo, é levar uma impressão de todos os documentos do processo de estágio, incluindo o correio eletrónico trocado com o anfitrião e coordenadores. Depois, é só participar no Programa Hippokrates. De certeza que não se vão arrepender.

 Entrevista conduzida por Luís Monteiro

 

Dra. Susana Silva @ Dublin

MGFamiliar ® - Sunday, March 02, 2014

 

 

 

Desde quando saíste de Portugal?

Saí de Portugal em Outubro de 2013.

 

O que te levou a optar por ir para a Irlanda?

Escolhi a Irlanda, primeiro porque é um pais de língua inglesa, onde me sinto mais à vontade, e depois porque era onde podia trabalhar com Médica de Família, como é a minha formação. Noutros países como o Reino Unido ou a Austrália, essa formação não é automaticamente reconhecida.

 

O que te surpreendeu mais até agora?

Ainda é tudo muito recente, mas existem diferenças muito significativas. O trabalho burocrático que temos em Portugal [aqui] é muito facilitado pela administrativa que trata da prescrição crónica e até dos pedidos de referenciação. A  colheita de sangue e urina para analise é feita no próprio centro de saúde pela enfermeira. O medico de família realiza mais procedimentos, como a crioterapia ou a colocação de catéteres urinários, por exemplo.

 

O sistema de saúde irlandês pode ser um modelo para Portugal? Porquê?

Ainda não estou de todo familiarizada com este sistema, mas julgo que o sistema de saúde português é muito melhor. Cá apenas a Saúde Materna é gratuita, e crianças a partir das 6 semanas já pagam consulta, num sistema de saúde que é privado. Cerca de um terço das pessoas tem um cartão que permite livre acesso aos cuidados de saúde primários, tendo de pagar todo o resto. E os medicamentos não têm qualquer comparticipação do estado. Por outro lado, e decorrente do facto de ser privado, as pessoas são mais criteriosas na hora de recorrer ao medico, as instalações são muito boas e o material necessário esta sempre disponível.

 

Quais os conselhos práticos que podes dar a um colega português que queira estagiar/trabalhar na Irlanda ?

Quanto a conselhos práticos, havendo alguma flexibilidade, não há problemas de maior. Os irlandeses estão habituados a ter médicos estrangeiros e facilitam ao máximo a integração. São muito prestáveis e compreensivos! Basta um sorriso e ajudam-nos no que for preciso! Nestas três semanas não senti por um minuto que estava sozinha, mas numa equipa multidisciplinar de enfermeira, farmacêutico, fisiatra, e até de saúde pública!

 

Onde te imaginas daqui a 10 anos?

Honestamente, não sei muito bem onde estarei sequer para o ano, mas com certeza não voltarei tão cedo para Portugal...

 

Entrevista conduzida por Luís Monteiro