Médicos portugueses pelo mundo

Bernardo Pessoa @ Aahrus


MGFamiliar ® - Wednesday, November 02, 2016



Porque optaste ir efetuar este estágio na Dinamarca?

No âmbito dos cuidados de saúde primários o modelo de trabalho da Dinamarca é considerado uma uma referência a nível internacional. Se já tinha conhecido a realidade dos cuidados de saúde hospitalares nos Estados Unidos, faltava agora complementar a formação no local de excelência em que o modelo de saúde Português baseia algumas das suas práticas na Medicina Geral e Familiar. Em relação à cidade, embora Copenhaga seja a capital e referência turística, a dimensão e multiplicidade cultural próprias duma capital europeia fazem com que não seja aqui que se conheça a profunda e genuína realidade Dinamarquesa. Aahrus é uma cidade Universitária e com uma população dinâmica, culta e jovem. A hospitalidade e simpatia da população foram outros ingredientes que, embora desconhecesse, vieram desmistificar o preconceito de “frieza dos povos nórdicos” e acrescentar uma agradável surpresa a toda esta experiência.

Quais os aspetos mais positivos desta tua experiência?

Foram vários os aspetos que marcaram positivamente a minha estadia tanto pessoal como profissionalmente: O primeiro foi claramente a hospitalidade da população Dinamarquesa. Prova disso foi o convite insistente para ficar instalado em casa do médico que me iria receber e a forma informal com que a sua família acolheu no seu quotidiano um português totalmente desconhecido. A par desta hospitalidade encontrei na Dinamarca o expoente máximo do civismo entre cidadãos que se manifestavam por um enorme respeito, confiança e sentido comunitário.

Quanto aos aspetos profissionais, um dos que mais se destaca é sem dúvida a acessibilidade ao médico de família. A disponibilidade aos cuidados de saúde primários é garantida 24 horas por dia sendo respondida pelo próprio médico de família na sua clínica entre as 8h e as 16 horas nos dias de semana, e fora deste horário, através de um sistema de “call centre” organizado pelos mesmos médicos de família que, através de uma escala rotativa numa central telefónica, gerem a localização e disponibilidade do utente / médico e conforme a gravidade e urgência da situação clínica, canalizam o utente para uma de 4 soluções: 1. Permanecer em domicílio para cumprir ou não algum tratamento administrado pelo próprio utente, 2. Dirigir-se à unidade de atendimento onde se encontram médicos de família para avaliação clínica presencial, 3. Disponibilizar uma consulta domiciliária, 4. Referenciar a cuidados hospitalares em quadros clínicos de elevada gravidade.

Um outro aspeto que não posso deixar de referir é a total ausência de papel durante todo o dia de consultas e na comunicação entre todos os intervenientes da saúde do utente: médico de família / laboratório de análises / centros de imagiologia / hospital / utente. O sistema informático articula-se numa única plataforma e a comunicação entre médico – utente é quase sempre feita através de email. O utente dispõe ainda de uma página de internet onde pode marcar as suas consultas ou colocar questões diretamente ao seu médico.


E negativos?

Se tenho que apontar algum aspeto que seja menos positivo posso referir o longo Inverno nórdico que o comum Português não está acostumado. No entanto, note-se que todas as habitações são construídas com tecnologia eficiente de preservação do calor pelo que é fácil e barato ter a casa aquecida. Outra “pedra no sapato” é sem duvida a língua. Embora todas as gerações e classes sociais falem fluentemente inglês, é expectável que vivendo na Dinamarca tenhamos que mais tarde ou mais cedo “arranhar” o dinamarquês.

O que pensas da realidade da medicina e do sistema de saúde com que estás a contactar na Dinamarca?

Dos diferentes sistemas de saúde que já tive contato verifico que não há sistemas perfeitos mas sim aspetos mais ou menos positivos que gostaríamos de replicar no nosso país. E a Dinamarca não é exceção. O médico de família é a porta de entrada para o sistema de saúde e por essa razão privilegia-se a sua disponibilidade e acessibilidade. Dessa forma a população não sobrecarrega as urgências e serviços hospitalares. Exceto em situações de risco eminente de vida, o médico de família é a única forma de aceder ao Hospital quer por causas urgentes quer eletivas. A população percebe este modus operandi e não o entende como um entrave ao Hospital porque sabe que está sempre algum médico disponível para atender, por vezes mesmo o seu próprio médico de família. A relação entre médico e utente que se vive neste país só pode ser entendida quando compreendemos a cultura Dinamarquesa, porque na realidade, as diferenças culturais que nos distinguem deste povo são bem maiores do que as vantagens tecnológicas ou logísticas que possam ter.

Da realidade que estás a vivenciar há algum aspeto que gostarias de ver replicado em Portugal?

Um dos principais indicadores de qualidade da nossa atividade enquanto médicos de família é sem dúvida a acessibilidade do utente à consulta. Para agilizar este parâmetro, o sistema de saúde dinamarquês dispõe de determinadas medidas que seriam a ambição de muito médicos de família portugueses: 1. central telefónica em horário pós laboral do médico, 2 . o modelo de comunicação utente / médico através de email, 3. a triagem dos utentes aos cuidados hospitalares, 4. o sistema único informático da saúde, 5. A marcação de tempos de consulta conforme o número de problemas a ser abordados. Ou seja, se o utente necessitar abordar 2 problemas então são alocados 2 tempos de consulta e assim sucessivamente. Estas medidas agilizam os cuidados de saúde primários, aumentam o nível de acompanhamento e satisfação dos utentes e aliviam as urgências hospitalares. 





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