Médicos portugueses pelo mundo

Bernardo Pessoa @ Miami


MGFamiliar ® - Sunday, October 04, 2015





Porque optaste ir efetuar este estágio em Miami?

Durante o meu Internato complementar de Medicina Geral e Familiar tive a oportunidade de fazer um estágio opcional numa área que gostaria de aprofundar os meus conhecimentos e por isso escolhi a Medicina Desportiva. Neste âmbito, e por conhecer alguns médicos a residir em Miami, fiz todos os possíveis para visitar este centro de referência mundial na Medicina Desportiva assim como viver um pouco da realidade dos cuidados de saúde primários nos Estados Unidos.

Há quanto tempo estás em Miami? E pensas ficar por quanto tempo?

Por agora este estágio tem a duração aproximada de um mês. Já conhecia algumas das infraestruturas e corpo clínico deste centro mas desta vez foi-me possível integrar um pouco mais na prática clinica diária. Quanto ao futuro, só o tempo o dirá mas fica sem dúvida o desejo de voltar.

Quais os aspetos mais positivos desta tua experiência?

A recetividade foi sem dúvida o primeiro aspeto que superou as minhas expetativas. Estive perante alguns dos médicos mais consagrados a nível mundial na medicina desportiva e com eles estabeleci uma relação próxima e informal que tornou a minha aprendizagem extremamente produtiva. Por outro lado, ter acesso ao acompanhamento clínico dos atletas da equipa NFL Miami Dolphins e a oportunidade de participar ativamente na decisão terapêutica de alguns casos foi um privilégio difícil de esquecer.


E negativos?

O custo de vida é sem dúvida um fator a ter em conta para quem está habituado aos salários / custos em Portugal. Mesmo adotando um estilo de vida modesto, os custos dos bens essenciais são substancialmente mais caros e como se isso não bastasse… a “junk food” é um terço do preço de comida mais “natural” o que torna a alimentação saudável ainda mais difícil.

A participação ativa na anamnese e exame objetivo são também muito limitados para quem não tem um contrato ativo nos EUA. Esta limitação entende-se porque o sistema de saúde e os médicos em concreto são sujeitos a inúmeros processos judiciais tornando a prática clínica muito defensiva e obrigatoriamente protegida por um completo seguro profissional.

O que pensas da realidade da medicina e do sistema de saúde com que estás a contactar aí nos EUA?

A medicina que conheci aqui em Miami é o “state of the art” no que respeita a tratamentos de última geração e a recursos tecnológicos clínico-cirúrgicos. A nível hospitalar e ambulatório pratica-se uma medicina tão eficiente quanto defensiva. No entanto, os Estados Unidos são uma região demasiado vasta para individualizar uma simples opinião sobre a prática de medicina neste país. Refira-se por exemplo a área da MGF, em que nas grandes cidades os médicos de família encontram-se em clinicas ou em hospitais a exercer exclusivamente atividades altamente especializadas em contraste com os estados do interior em que a abrangência de competências do médico de família inclui desde apendicectomias, cesarianas, colonoscopias, etc.

Quanto ao sistema de saúde americano a expressão que melhor o descreve é “turned upside down”. Após o fascínio inicial dos primeiros dias com a dimensão das infraestruturas e recursos tecnológicos, vamos percebendo que na realidade, a população em geral não dispõe de um sistema de saúde de Cuidados de Saúde Primários minimamente comparável com o nosso. Os cidadãos são obrigados a ter um seguro de saúde que vão utilizando segundo o que entendem ser as suas necessidades e não de acordo com um plano de saúde protocolado e universalmente estabelecido no país. Esta realidade resulta numa disparidade social no acesso aos cuidados de saúde à qual nós, felizmente, não estamos habituados. O recente e tão proclamado plano Afordable Care Act mais conhecido por Obamacare é nada mais do que a intervenção do Governo na regulamentação da Saúde, tornando os cuidados de saúde mais universais e equitativos e neste sentido tendendo a assemelhar-se ao Sistema Nacional de Saúde português.

Da realidade que estás a vivenciar há algum aspeto que gostarias de ver replicado em Portugal?

De toda a tecnologia, recursos materiais e conhecimento médico que gostaria de levar comigo para Portugal, experienciei uma prática que vou tentar replicar com certeza. Apesar da agenda preenchida, os médicos reúnem-se semanalmente na casa do diretor de serviço para um encontro informal de “t-shirt, piza e cerveja” em que cada médico apresenta um artigo de interesse. No final da apresentação todos opinam sobre cada tema e faz-se um brainstorming sobre o que poderá melhorar a qualidade da prática clínica que exercem. É um evento tão social quanto científico e ao mesmo tempo que se fortalecem as relações humanas entre colegas em ambiente descontraído, faz-se uma pausa do quotidiano refletindo-se sobre as questões pertinentes ao serviço.

Um outro aspeto que tem tanto de cómodo quanto eficiente é que todos os registos e relatórios médicos são elaborados em computador por meio de reconhecimento de voz. Este método permite uma descrição mais detalhada e rápida da consulta e simultaneamente privilegia o tempo e interação humana médico-utente sem que se interponha o elemento “computador”.








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