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O livro que mais me tocou

Armando Brito de Sá, médico de família, professor da Faculdade de Medicina de Lisboa

Leitura Médica

 

Aequanimitas. With other Addresses to Medical Students, Nurses and Practitioners of Medicine de Sir William Osler. New York: The Blakinston Division, McGraw-Hill, Inc. 1937

 

Sir William Osler (1849-1919) é uma das figuras marcantes da prática e do ensino da medicina do Século XX. Um conjunto de comunicações e conferências por si produzidas foi editado pela primeira vez em 1904...  (cont.)

 

Outras leituras

 

Cidadela de Antoine de Saint-Exupéry. Prefácio e tradução de Ruy Belo. Lisboa: Editorial Presença. 1996 (1ª Edição)

 

Os livros do final da adolescência são, por norma, os mais marcantes nas nossas vidas. Não foi excepção comigo – algumas das obras que mais prezo li-as nesse tempo. (cont.)

 

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Atividade sexual e doença cardiovascular

Por Lígia Torres Lima, USF São João de Sobrado, publicado em 02/02/2012 

 

 

A atividade sexual é um componente importante da qualidade de vida do indivíduo com doença cardiovascular (DCV) e do seu parceiro. Neste sentido, a American Heart Association desenvolveu um documento, baseado na revisão de vários estudos e guidelines, com o objectivo de sintetizar os dados relativos a atividade sexual e DCV, providenciando recomendações que facilitem o aconselhamento por parte dos profissionais de saúde.

Quais as principais conclusões?

-  O sexo é a causa de eventos cardíacos agudos em menos de 1% dos casos.

-  Estudos sugerem que apenas 0,6 a 1,7% das mortes súbitas estão associadas a atividade sexual. A maioria destes casos envolveu sexo extramatrimonial, muitas vezes com um parceiro mais jovem, em locais não familiares, assim como consumo excessivo de alimentos e/ou bebidas alcoólicas, (provavelmente, por maior ansiedade ou maior libertação de adrenalina).

-   A dor torácica associada a atividade sexual (angina coital) também é pouco comum (menos de 5% dos casos de angina).

-    A atividade sexual é segura para a maioria dos doentes com DCV estável [doença coronária, após enfarte agudo do miocárdio (EAM), insuficiência cardíaca (IC), arritmias/pacemakers, doença valvular, doença cardíaca congénita, cardiomiopatia hipertrófica].

-    Os doentes com doença cardíaca descompensada, instável e/ou gravemente sintomática com actividade física mínima ou em repouso devem diferir a atividade sexual até se encontrarem estabilizados.

-    Os fármacos prescritos para a DCV, que melhoram os sintomas e aumentam a sobrevida, nunca deverão ser suspensos por preocupações com o seu potencial impacto na função sexual.

-    É seguro utilizar fármacos para tratamento da disfunção eréctil em homens com doença cardíaca estável, excepto se estiverem medicados com nitratos (contra-indicação absoluta). Estes não deverão ser administrados nas 24 a 48h seguintes à toma de inibidores da 5-fosfodiesterase.

-    Os doentes devem ser acautelados relativamente ao uso de produtos de ervanária para o tratamento da disfunção eréctil, dados os potenciais efeitos adversos causados por ingredientes desconhecidos.

-    É de ponderar a avaliação dos doentes com doença cardíaca diagnosticada de novo, através da história clínica e exame físico, antes de retomar a sua atividade sexual.

-    A reabilitação cardíaca e exercício físico regular, poderão reduzir o risco de complicações associadas à atividade sexual em doentes com história de EAM ou IC.

-     As mulheres em idade pré-menopáusica deverão ser avaliadas e aconselhadas relativamente ao melhor método anticoncepcional e à gravidez.

-     É seguro retomar a atividade sexual:

- 1 ou mais semanas após EAM, excepto se houver complicações;

- alguns dias após angioplastia não complicada;

- 6 a 8 semanas após bypass coronário ou outras cirurgias de coração aberto.

Na presença de DCV, a atividade sexual está, frequentemente, reduzida devido à presença de ansiedade e/ou depressão e não devido à medicação. Também são importantes os receios do parceiro. A abordagem deste tema é adequada para homens e mulheres de todas as idades e os profissionais de saúde deverão estar aptos a discutir e esclarecer as principais preocupações sexuais do doente e seu parceiro.

Artigo original:  http://circ.ahajournals.org/content/early/2012/01/19/CIR.0b013e3182447787.full.pdf+html

 

 

 

 

Fibrilação auricular assintomática e o risco de AVC isquémico

 

Por Pedro Azevedo, IFE MGF - USF Fânzeres, publicado em 26/01/2012

 

 

 

Um quarto dos AVCs isquémicos são de causa desconhecida, e a fibrilação auricular pode ser um fator etiológico comum. Os pacemakers podem detetar episódios subclínicos de frequência auricular aumentada.

Um total de 2580 doentes, com hipertensão, idades superiores a 65 anos e sem história de fibrilação auricular nos quais um pacemaker ou um desfibrilador tivera sido implantado recentemente foram monitorizados durante 3 meses para detetar episódios de taquiarritmias auriculares subclínicas (>190 bpm durante 6 min) e seguidamente monitorizados por um período médio de 2,5 anos para aferir se tinham algum AVC isquémico ou embolismo sistémico.  Verificou-se que as  taquiarritmias auriculares subclínicas eram, de facto, fatores de risco para AVC e embolia, mesmo após ajuste dos fatores de risco (fator de risco, 2.50; 95% CI, 1.28 a 4.89; P=0.008).

Este é um exemplo que pode justificar muitos dos AVCs em pacientes de suposto “baixo risco” que nos aparecem na clínica e que até aqui considerávamos de natureza “criptogénica”. A investigação epidemiológica pode ser uma ferramenta poderosa na eliminação de termos como este, entre outros, que apenas denotam que muitas vezes sabemos muito pouco da verdadeira etiologia por detrás de determinado desfecho clínico. Vale a pena pensar nisto.

Artigo original: http://www.nejm.org/doi/full/10.1056/NEJMoa1105575

 

 

 

Esófago de Barrett e risco de adenocarcinoma do esófago

Por Lígia Torres Lima, USF São João de Sobrado, publicado em 18/01/2012

 

 

O artigo Incidence of Adenocarcinoma among Patients with Barrett’s Esophagus, publicado em Outubro, no New England Journal of Medicine, relata um estudo de coorte, no qual foram utilizados os Registos Nacionais de Patologia dinamarqueses, para identificar os doentes com diagnóstico de esófago de Barrett, com ou sem displasia, e determinar a taxa de incidência de adenocarcinoma e displasia de alto-grau, entre 1992 e 2009.

Foram identificados 11028 doentes com esófago de Barrett, sendo encontrada uma taxa de incidência de adenocarcinoma, após uma média de 5,2 anos de seguimento, de 1,2 casos por 1000 pessoas-ano [Intervalo de confiança (IC) 95%, 0,9-1,5]. Este valor é cerca de 4 a 5 vezes inferior aos encontrados em estudos anteriores. O risco relativo de adenocarcinoma, após um diagnóstico de esófago de Barrett, comparando com a população em geral, foi de 11,3 (IC 95%, 8,8-14,4) - também inferior a resultados prévios.

A deteção de displasia de baixo grau na biopsia inicial associou-se a risco absoluto e relativo de adenocarcinoma substancialmente mais elevados, comparando com a ausência de displasia.

A taxa de incidência de adenocarcinoma e displasia de alto-grau aumenta com a idade (sendo mais elevada após os 70 anos de idade) e é superior no sexo masculino.

Os autores concluem que muito poucos indivíduos com diagnóstico de esófago de Barrett desenvolverão adenocarcinoma. Assim, sendo o risco tão insignificante, a importância da vigilância de rotina destes doentes, na ausência de displasia, é posta em causa.

Artigo original: http://www.nejm.org/doi/full/10.1056/NEJMoa1103042

 

 

Auto-monitorização da hipocoagulação oral: uma nova realidade?

Por Diana Carneiro, USF Horizonte, Publicado em 12/01/2012

 

 

Uma meta-análise (MA) sobre a auto-monitorização da hipocoagulação oral foi publicada na revista Lancet em Dezembro de 2011, tendo como objetivo clarificar o valor da mesma.

Nesta MA foram incluídos 11 estudos (com um total de 6417 participantes) que compararam os efeitos da auto-monitorização da hipocoagulação oral com o controlo efetuado por profissionais de saúde. Os resultados avaliados foram os seguintes: tempo decorrido até à morte, primeiro episódio de hemorragia major e primeiro evento tromboembólico.

Os autores desta MA reportaram uma redução significativa nos eventos tromboembólicos no grupo da auto-monitorização (odds ratio=OR= 0,51, intervalo de confiança= IC=95%, 0,31-0,85). Não se verificou uma redução significativa nos eventos hemorrágicos (OR= 0,88, IC=95%, 0,74-1,06) nem no tempo decorrido até à morte (OR=0,82, IC=95%, 0,62-1,09).

Os participantes com idade inferior a 50 anos evidenciaram uma redução significativa nos eventos tromboembólicos (OR=0,33, IC=95%, 0,17-0,66), assim como os participantes com válvula cardíaca mecânica (OR=0,52, IC=95%, 0,35-0,77).

Esta MA evidencia que a auto-monitorização da hipocoagulação é uma opção segura para os doentes de todas as idades. Contudo esta revisão apresenta algumas limitações: grupo de participantes com idades heterogéneas nos diferentes estudos, número superior de participantes do sexo masculino, estudos realizados em países diferentes, duração dos estudos muito variável.

Em tempo de crise… vale apena refletir.

Será que estamos preparados para capacitar mais um grupo de doentes crónicos?

Será que os doentes estão prontos para se responsabilizarem pela sua doença?

Será que o Sistema Nacional de Saúde está preparado para esta nova realidade?

Artigo original: http://www.thelancet.com/journals/lancet/article/PIIS0140-6736(06)68139-7/abstract

 

 


USPSTF: ECG e prova de esforço como rastreio de doença cardíaca 

 

Por Pedro Azevedo, IFE MGF - USF Fânzeres, publicado em 13/12/2011

 

 

Esta revisão sistemática da evidência da U.S. Preventive Services Task Force, publicada no Annals of Internal Medicine em Setembro de 2011, tem como objectivo aferir se o ECG e o  ECG com prova de esforço são exames indicados para o rastreio de alterações electrocardiográficas em indivíduos assintomáticos. Foram revistos artigos desde 2002 até 2011 na MEDLINE e Cochrane Library (até 2010) sendo seleccionados apenas ensaios controlados randomizados e estudos de coorte prospectivos.

Os estudos encontrados (sessenta e três) referiam uma associação entre a detecção de alterações no ECG e ECG com prova de esforço e o aumento do risco de eventos cardiovasculares após ajustamento para os factores de risco.

Na interpretação das implicações clínicas de estudos desta natureza é necessário algum cuidado. Assim, embora este estudo demonstre de facto que o ECG pode ser um exame efectivo na detecção de alterações em indivíduos assintomáticos, a revisão não esclarece se o mesmo traz benefício associado às intervenções após a  descoberta das referidas alterações ou se são custo-efectivas. Este artigo não deve ser considerado como uma justificação para o uso do ECG como método de rastreio generalizado em indivíduos assintomáticos. Vale a pena pensar nisto.

 

Artigo original: http://www.annals.org/content/155/6/375.full.pdf+html

 

 

 

 

 

 

A vitamina E e o risco de cancro da próstata

 

Por Pedro Azevedo, IFE MGF - USF Fânzeres

 

 

 

O artigo "Vitamin E and the Risk of Prostate Cancer" publicado no Journal of American Medical Association (JAMA) a 12 de Outubro de 2011 vem abordar o problema da suplementação de vitamina E e selénio na prevenção do cancro prostático. Os estudos preliminares do estudo SELECT, já haviam demonstrado que estes dois suplementos não contribuíam para a prevenção do cancro prostático, chamando a atenção que a vitamina E poderia mesmo ter um efeito deletério, não provado. Este estudo vem no sentido de clarificar essa relação.

O estudo foi elaborado pela randomização de 35533 homens com PSA menor que 4, idade superior a 55 anos (ou 50 para raça negra) e toque rectal inocente, que foram divididos num grupo sem suplementação (placebo), outro com suplementação de vitamina E, outro com suplementação com selénio e outro ainda com suplementação de selénio e vitamina E.

Os resultados demonstram que a suplementação com vitamina E mostrou um "Hazard Ratio" de 1,17 com p=0,008 demonstrando um aumento do risco de cancro da próstata com a toma destes suplementos. Tal associação não ficou provada no grupo do selénio nem no grupo da suplementação conjunta.

Este artigo vem-nos chamar a atenção para os riscos da suplementação com polivitamínicos sem a devida evidência cientifica que o suporte. Não é só o risco de estarmos a aumentar custos para os nossos doentes, é também o risco de estarmos a pôr em risco a sua saúde. Vale a pena pensar nisso.

 

Artigo original: http://jama.ama-assn.org/content/306/14/1549.full

 

 

 

 

 

 

Stent em comparação com terapêutica médica agressiva na estenose arterial intracraniana

 

Por Pedro Azevedo, IFE MGF - USF Fânzeres

 

 

Segundo o artigo “Stenting versus Aggressive Medical Therapy for Intracranial Arterial Stenosis” publicado em Setembro de 2011 no New England Journal of Medicine a terapia médica agressiva isolada apresentou vantagens em relação à combinação da mesma com a colocação de Stent (Wingspan) na Estenose Arterial Intracraniana. Este foi o primeiro ensaio randomizado sobre o tema, numa amostra de 451 pacientes. Comparou-se  os resultados nos dois grupos (com terapia médica agressiva e com terapia médica agressiva + stent) em relação à morte ou enfarte até aos 30 dias e enfartes após 30 dias. Concluiu-se que havia diferença em todas as variáveis de resultado, com melhores resultados no grupo com realização exclusiva  de terapia médica intensiva.

O Dr. Bruce Ovbiagele do Journal Watch Neurology escreve sobre este artigo, referindo que a abordagem médica destes pacientes deve seguir o lema “agir rápido e com intensidade'".

Este é um dos vários exemplos de áreas em que a medicina se tornou intervencionista e hospitalar com a melhoria das técnicas, aptidões operatórias e de monitorização. No entanto, está-se a constatar que muitas destas técnicas não vencem intervenções farmacológicas que podem fazer parte, muitas vezes, da intervenção em cuidados de saúde primários.

Numa sociedade em contenção de custos, vale a pena pensar nisto.

 

Artigo original: http://www.nejm.org/doi/full/10.1056/NEJMoa1105335

 

 

 

 

Rastreio de sífilis na gravidez

Joana Costa, IFE MGF, USF das Conchas - Lumiar

 

De acordo com a OMS, mais de 2 milhões de grávidas têm sífilis ativa a cada ano, maioritariamente em países economicamente carenciados, que quando não tratada ou tratada inadequadamente desencadeia resultados adversos na gravidez em cerca de 69% das mulheres infetadas. O The Lancet lançou recentemente uma revisão sistemática acerca da importância do rastreio da sífilis na gravidez, de forma a evidenciar a eficácia do mesmo na prevenção da sífilis congénita e outros resultados adversos na gravidez e, assim, atrair maior atenção para esta questão.

A pesquisa efetuada pelos autores foi, de certa forma, dificultada pelo facto de que

os estudos controlados e randomizados necessários à prova da eficácia, não serem mais considerados éticos. Posto isto, os mesmos conseguiram reunir 10 estudos,

tendo em conta três premissas: um aumento da execução de testes de rastreio e das taxas de tratamento e uma redução dos resultados adversos. Apenas 2 encorajavam as mulheres a procurarem cuidados precocemente no início da gravidez. Face às intervenções descritas nos artigos selecionados, foi possível encontrar uma redução da mortalidade perinatal (RR de 3 estudos 0.46, IC 95% 0.26-0.82) e de nados-mostos (RR de 3 estudos 0.42, IC 95% 0.19-0.93), bem como uma redução da incidência de sífilis congénita em todos os 4 estudos que mediram este resultado.

Os autores concluíram que as intervenções para melhorar a cobertura e efeito dos programas de rastreio para a sífilis pré-natal reduzem a incidência de nados-mortos ou morte perinatal atribuíveis à sífilis em 50%. Mais, os recursos necessários à implementação de programas de rastreio pré-natal são um investimento bastante vantajoso na medida em que se pode reduzir alguns dos resultados adversos na gravidez, bem como melhorar a sobrevida neonatal e infantil, principalmente em países mais carenciados.

Artigo original: http://www.thelancet.com/journals/laninf/article/PIIS1473-3099%2811%2970104-9/abstract

 

 

Brometo de tiotrópio no tratamento da DPOC: aumento do risco de mortalidade?

Por Diana Carneiro, IFE MGF, USF Horizonte, publicado em 10/10/2011

 


Os autores de uma recente meta-análise, publicada no British Medical Journal, compararam o risco de mortalidade associado ao uso de brometo de tiotrópio ou de placebo em doentes com o diagnóstico de Doença Pulmonar Obstrutiva Crónica (DPOC).

Foram incluídos nesta meta-análise 6522 doentes com DPOC, dos quais 3686 doentes estavam a realizar brometo de tiotrópio (2839 a realizar a dose de 5µg/dia) e 2836 doentes pertenciam ao grupo placebo.

Os resultados obtidos foram:

- O uso de brometo de tiotrópio ( 5 ou 10 µg/dia) esteve associado a um aumento estatisticamente significativo do risco de mortalidade (2.44% vs 1.66%, RR=1.52, IC=1.06-2.16, p= 0.02) durante um período de tratamento entre 3 a 12 meses.

- Também foi encontrado um aumento estatisticamente significativo do risco de mortalidade nos estudos em que compararam o uso de 5µg/dia de brometo de tiotrópio com o placebo (2.43% vs 1.66%, RR 1.46, IC= 1.01-2.10, p=0.04).

Os resultados demonstraram um aumento do risco de mortalidade associado ao brometo de tiotrópio, contudo esta meta-análise apresenta importantes limitações (populações heterogéneas, doses diferentes, duração do tratamento diferente).

Assim, ao prescrever brometo de tiotrópio devemos ter em consideração estes novos resultados, contudo esta decisão deve ser partilhada com o doente tendo em conta a preferência do sistema de inalação e o preço. O sistema de inalação analisado nesta meta-análise foi o Respimat(R) Mist Inhaler. 

Artigo original: http://www.bmj.com/content/342/bmj.d3215.full.pdf

 

 

 

 

 

 

Rastreio de cancro do pulmão – TAC de baixa dose vs radiografia de tórax convencional

Por Helena Cabral, IFE MGF – USF Garcia de Orta, publicado em 29/08/2011

 

 

Depois de divulgados em Novembro de 2010, foram agora publicados os resultados do National Lung Screening Trial, um ensaio do National Institute of Health: o rastreio por TAC de baixa dose reduz a mortalidade por cancro do pulmão.

Este ensaio pretendia comparar o uso de TAC de baixa dose para rastreio de cancro do pulmão com o uso de radiografia de tórax convencional em fumadores e ex-fumadores (cerca de 53000), com consumo de pelo menos 30 UMA e idades compreendidas entre os 55 e 77 anos. Foi feito rastreio anual durante 3 anos, não havendo depois protocolo formal para resultados positivos.

Durante os 6 anos e meio de seguimento, comprovou-se uma diminuição significativamente maior da mortalidade específica por cancro do pulmão no grupo submetido a TAC de baixa dose (1.33% vs 1.66%). Para prevenir 1 morte foi necessário rastrear 320 indivíduos. No entanto, a taxa de falsos positivos foi elevada, dos 39% no grupo de TAC de baixa dose e 16% no grupo de radiografia convencional com pelo menos 1 rastreio positivo, 95% foram falsos positivos.

No grupo submetido a rastreio por TAC de baixa dose, no seguimento de um resultado positivo, foram efectuados diversos exames e procedimentos diagnósticos invasivos, com 12% dos pacientes a quem foi eventualmente diagnosticado cancro de pulmão a terem complicações major, bem como < 1% dos pacientes a quem não foi diagnosticado cancro.

Foi possível concluir que, apesar da diminuição de mortalidade comprovada realizando rastreio com TAC de baixa dose, se deverá aguardar por estudos de custo-efectividade para que esta medida possa ser aplicada na comunidade, uma vez que este é um exame ainda pouco disponível e a elevada taxa de falsos positivos poderá trazer elevados custos e morbilidade para os pacientes.

Artigo original: http://www.nejm.org/doi/full/10.1056/NEJMoa1102873

 

 

 

 

Ver televisão antes da hora de deitar e assistir a conteúdos violentos afecta o sono das crianças

Por Lígia Torres Lima, USF São João de Sobrado, publicado em 27/07/2011

 

 

Os autores do estudo “Media Use and Child Sleep: The Impact of Content, Timing, and Environment”, publicado na revista Pediatrics em Março de 2011, investigaram a relação entre o uso de tecnologias media e os hábitos de sono, entre cerca de 600 crianças em idade pré-escolar (3-5 anos).

Verificou-se que as crianças que usufruem de televisão, computador ou vídeo-jogos após as 19h têm mais alterações do sono (por exemplo, despertares repetidos durante a noite, pesadelos, fadiga diária). A observação de conteúdos violentos em qualquer altura do dia também se associa a problemas do sono. As crianças que possuem televisão no seu quarto assistem mais frequentemente a conteúdos violentos e têm maior probabilidade de ter alterações do sono. Ainda é escassa a informação sobre a forma como a escolha dos conteúdos e a co-utilização pelos adultos poderá afectar esta associação.

Os pais devem ser aconselhados a reduzir o acesso a conteúdos violentos e o uso das tecnologias media a partir do fim da tarde. Da mesma forma, não devem permitir que as crianças tenham televisão, computador ou vídeo-jogos no quarto. Quando as famílias são mais relutantes em alterar os seus hábitos, a chamada de atenção para este efeito do uso das tecnologias media sobre o sono poderá ajudar a motivar os pais/educadores a tomar as medidas correctas.  

Artigo original: http://pediatrics.aappublications.org/content/early/2011/06/23/peds.2010-3304.abstract

 

 

 

O efeito do rastreio na mortalidade por cancro do ovário

Por Joana Costa, IFE MGF, UCSP Póvoa de Santa Iria publicado em 16/06/2011

Muito recentemente, o JAMA publicou um artigo relativamente ao rastreio do cancro do ovário com o marcador tumoral CA-125 e a ecografia ginecológica endovaginal, fazendo referência ao desconhecimento do efeito do mesmo sobre a mortalidade.

Desenho do estudo e amostra – foi ensaio randomizado controlado com uma amostra de 78216 mulheres com idades compreendidas entre os 55 e os 74 anos, que foram submetidas a rastreio anual (n=39105) e a cuidados usuais (n=39111) em 10 centros dos Estados Unidos da América (EUA), de Novembro de 1993 a Julho de 2001.

Intervenção – ao primeiro grupo, efectuou-se rastreio anual com CA-125 durante 6 anos e com ecografia ginecológica endovaginal durante 4 anos. Os participantes e seus médicos de família recebiam os resultados e controlavam a avaliação dos que fossem anormais. O grupo de cuidados usuais não fez este rastreio, recebendo apenas os cuidados de saúde habituais. Os participantes foram seguidos por um período máximo de 13 anos (mediana 12.4) para um diagnóstico de cancro ou morte até 28 de Fevereiro de 2010.

Resultados – o cancro do ovário foi diagnosticado em 212 mulheres (5,7 por 10000 pessoas-anos) no grupo submetido a rastreio e em 176 (4,7 por 10000 pessoas-anos) no grupo controlo. Houve 118 mortes causadas por cancro do ovário (3,1 por 10000 pessoas-anos) no primeiro grupo e 100 no segundo (2,6 por 10000 pessoas-anos) (RR de mortalidade, 1.18; 95% CI, 0.82-1.71). Das 3285 mulheres com resultados falso-positivos, 1080 foram submetidas a follow-up cirúrgico; e destas, 163 tiveram pelo menos uma complicação grave. Houve 2924 mortes por outras causas (excluindo cancro do ovário, pulmão e colo-rectal) no primeiro grupo (76,6 por 10000 pessoas-anos) e 2914 (76.2 por 10000 pessoas-anos)  no segundo (RR, 1.01; 95% CI, 0.96-1.06).

Conclusões – os autores chegaram à conclusão que na população geral feminina dos EUA, que fazem simultaneamente rastreio com CA-125 e ecografia ginecológica endovaginal e em comparação com os cuidados de saúde habituais, não houve redução na mortalidade por cancro do ovário. Mais, a avaliação diagnóstica após um resultado falso-positivo esteve associada a várias complicações.

Artigo original: http://jama.ama-assn.org/content/305/22/2295.full.pdf+html

 

 

Uma abordagem organizada para o acompanhamento da doença crónica

Por Diana Carneiro, IFE MGF, USF Horizonte, publicado em 22/05/2011

A monitorização em consulta do progresso de um doente crónico necessita de tempo, o qual por vezes escasseia. Muitos médicos de família certamente já se interrogaram acerca do seu desempenho no seguimento destes doentes.

Foi precisamente esta questão que os autores deste artigo colocaram. Após análise estatística concluíram que o seu desempenho neste campo não era tão positivo como pensavam. Decidiram mudar o seu comportamento no seguimento destes doentes, mas queriam fazê-lo com uma abordagem organizada e uma equipa multidisciplinar.

Começaram por formar uma equipa líder do projecto constituída por um médico, um enfermeiro e um administrativo. Esta equipa líder tinha como função aprender como monitorizar o progresso de um doente crónico e posteriormente ser educadora e motivadora do restante pessoal. A constituição de uma equipa líder teve como objectivo tentar mudar o comportamento dos profissionais na prática clínica, sensibilizando-os para o acompanhamento centrado no doente. Realizaram reuniões em conjunto onde abordaram os seguintes temas: entrevista motivacional, teoria das fases de mudança de comportamento, estabelecimento de metas, desenvolvimento de planos de acção e suporte da auto-monitorização dos doentes.

Os resultados obtidos pelos autores conseguiram responder a algumas questões pertinentes, como:

- A constituição de uma equipa que acompanhe os doentes crónicos requererá pessoal adicional? Esta equipa não sentiu necessidade de o fazer, contudo afirma que é fundamental distribuir funções e responsabilidades pelos membros e educar o restante pessoal a encontrar o conjunto de habilidades necessárias.

- Os profissionais sentir-se-ão sobrecarregados com o aumento de trabalho e com as alterações no seu comportamento na prática clínica? Os autores sentiram uma grande satisfação profissional, uma vez que fizeram parte de uma equipa que tinha como objectivo a melhoria da assistência ao doente crónico. Contudo, os autores alertam que é necessário distribuir o trabalho pelos profissionais para conseguirem resultados positivos.

- Os médicos aceitarão uma abordagem partilhada no acompanhamento dos seus doentes crónicos? Muitos médicos apreciaram os recursos adicionais disponíveis para aumentar a adesão aos planos de seguimento acordados entre os médicos e os seus doentes.

- A produtividade sofrerá com as reuniões e os planos adicionais? O envolvimento pró-activo dos doentes resultou realmente num aumento de consultas, fazendo com que os doentes se responsabilizassem mais pela sua saúde.

- Estas mudanças de comportamento por parte dos profissionais de saúde obterão realmente melhorias na assistência aos doentes crónicos? Os autores obtiveram melhorias nas taxas de controlo metabólico e lipídico, nas taxas de vacinação e taxas de rastreio como demonstra a tabela seguinte.

- Os doentes gostarão desta abordagem? Nem todos os doentes responderam positivamente a esta nova abordagem. Contudo, muitos ficaram impressionados com a atenção que receberam e tornaram-se mais activos pela melhoria da sua saúde.

Os autores consideram que definindo claramente as funções de cada membro da equipa, aprimorando o processo de acompanhamento, usando os instrumentos correctos e envolvendo activamente os doentes; os médicos de família podem melhorar os resultados no acompanhamento dos seus doentes crónicos, o que beneficiará a sua prática clínica.

Artigo original: An organized approach to chronic disease care, Family Practice Management http://www.nxtbook.com/nxtbooks/aafp/fpm_20110506/#/28

 

 

 

Médicos devem aconselhar os pais a monitorizar o comportamento online das crianças

Um relatório publicado recentemente na Pediatrics recomenda que os pediatras aconselhem os pais a assumirem um papel central de vigilância das actividades online das suas crianças.  Parece-nos evidente que tal recomendação será igualmente aplicável aos médicos de família.  

Este relatório cita um estudo que aponta para um uso intensivo das redes sociais pelos adolescentes: um em cada cinco  visita sítios de redes sociais mais de 10 vezes por dia.

Eis algumas das recomendações para os profissionais de saúde:

- Incentivar os pais a falar com as crianças sobre o uso da Internet, incluindo as redes sociais, como o Facebook. Os pais devem estar cientes dos potenciais problemas, incluindo depressão, cyberbullying, e questões de privacidade.

- Incentivar os pais a conhecerem as novas tecnologias que os filhos usam.

- Recomendar que as famílias desenvolvam "planos de uso online". Estes planos irão encorajar "comportamentos online saudáveis" como, p.ex. verificações regulares da privacidade.

- Aconselhar os pais a activamente supervisionarem os seus filhos em vez de confiarem nos softwares de monitorização.

A American Academy of Pediatrics também aconselha os médicos a aprenderem sobre as novas tecnologias para também eles estarem melhor preparados na abordagem destas temáticas relevantes com os pacientes e suas famílias.

Por Carlos Martins, em 04-04-2011

 

Artigo original: Pediatrics article 

AAP's tips on social media and sexting 

AAP's Internet safety website 

 

 

 

 

Comparação dos efeitos cardiovasculares das tiazolidinedionas

A revisão sistemática e meta-análise de estudos observacionais intitulada: “ Comparative cardiovascular effects of thiazolidinediones” foi publicada no British Medical Journal em Março de 2011.

Previamente a esta revisão já era conhecido o aumento do risco de Insuficiência Cardíaca Congestiva (ICC) associado tanto à rosiglitazona como à pioglitazona. O risco de eventos cardiovasculares isquémicos parece ter sido associado principalmente à rosiglitazona. Contudo, a comparação entre os diferentes efeitos cardiovasculares provocados pelas tiazolidinedionas ainda não está totalmente esclarecida.

Os autores pretenderam com esta revisão comparar os efeitos das tiazolidinedionas (rosiglitazona e pioglitazona) na ocorrência de Enfarte Agudo do Miocárdio (EAM), de ICC e na taxa de mortalidade em doentes com Diabetes Mellitus tipo 2. Após uma pesquisa realizada na Medline e na Embase em Setembro de 2010, os autores encontraram 16 artigos que satisfaziam os critérios definidos (12 estudos retrospectivos e 4 estudos de caso-controlo).

Os resultados obtidos foram os seguintes: O uso de rosiglitazona foi associado a uma probabilidade significativamente maior de ocorrência de EAM (Odds ratio – OR=1.16, Intervalo de confiança - IC= 1.07-1.24, p<0.001),  de ICC (OR=1.22, IC=1.14-1.31, p<0.001) e de morte (OR=1.14, IC=1.09-1.20, p<0.001).

Os mecanismos biológicos responsáveis por esta diferença encontrada no risco cardiovascular e na mortalidade ainda são incertos. Contudo, diferenças significativas foram encontradas na influência das tiazolidinedionas no metabolismo lipídico. A rosiglitazona causa uma maior elevação nos níveis de triglicerídeos e de lipoproteínas de baixa densidade (LDL-c) do que a pioglitazona. Além disso, o maior efeito agonista sobre os receptores renais PPARу da rosiglitazona, leva a uma maior retenção de líquidos, podendo assim explicar o maior risco de ICC.

Estes achados têm implicação na prática clínica de todos nós, no que concerne ao tratamento dos diabéticos tipo 2. A continuação da administração de rosiglitazona neste grupo de doentes, pode levar a um maior número de eventos cardiovasculares e consequentemente ao aumento da taxa de mortalidade. Apesar de já conhecermos alguns efeitos adversos associados às tiazolidinedionas (maior risco de fractura em mulheres), mais estudos são necessários para investigar outros efeitos secundários possíveis. Enquanto estes estudos não surgem, é necessário ter em atenção aos riscos/benefícios das tiazolidinedionas em diabéticos tipo 2.

Por Diana Carneiro, IFE MGF1, USF Horizonte, em 24-03-2011

Artigo original: http://www.bmj.com/content/342/bmj.d1309.full.pdf

 

 

 

Qual o valor alvo ideal da tensão arterial na doença renal crónica? 

Foi publicada uma meta-análise na revista Annals of Internal Medicine, englobando 3 estudos controlados randomizados que comparam valores alvo de tensão arterial mais baixos (125/75 – 130-80 mmHg) e mais elevados (< 140/90 mmHg) em adultos com doença renal crónica.

Não se provou que houvesse benefício clínico em atingir valores mais baixos de tensão arterial, ainda que a duração dos estudos ficasse aquém do desejado, sendo que esses doentes necessitavam de doses mais elevadas de anti-hipertensores e a taxa de eventos adversos era ligeiramente superior. Pareceu, no entanto, haver benefício com a redução maior dos valores de tensão arterial em doentes com proteinúria entre 300 e 1000 mg/d.

Uma grande limitação destes estudos é a não inclusão de doentes com diabetes mellitus.

É sugerido que os profissionais definam valores alvo de tensão arterial de acordo com o risco-benefício de cada doente, tendo em atenção que valores mais baixos requerem maior vigilância.

Helena Cabral, IFE MGF – USF Garcia de Orta

Artigo original: Annals of Internal Medicine

 

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Medição Convencional da Tensão Arterial versus Medição Automática em Doentes de Cuidados de Saúde Primários com Hipertensão Arterial Sistólica

O estudo Conventional versus Automated Measurement of Blood Pressure in the Office (CAMBO) compara o efeito da medição automática (MA) da tensão arterial (TA) em doentes com hipertensão arterial (HTA), na consulta de Cuidados de Saúde Primários (CSP), com a medição manual (MM), por um período de dois anos.

O artigo Conventional versus Automated Measurement of Blood Pressure in Primary Care Patients with Systolic Hypertension: Randomised Parallel Design Controlled Trial, publicado no British Medical Journal, apresenta resultados da primeira fase do CAMBO. 

Este ensaio incluiu 555 doentes com HTA sistólica (>45 anos, sem comorbilidades importantes, sem história de má adesão terapêutica, com creatinina sérica inferior ao dobro do normal e que não mediam a TA no domicílio), sob o cuidado de 88 médicos de CSP, de 67 instituições clínicas da comunidade, em 5 cidades do este do Canadá.

Foi registado o valor de TA da última consulta pré-estudo (C0) – os doentes sem tratamento teriam que ter TA sistólica (TAs) >= 160 mmHg e diastólica (TAd) <= 95 mmHg e os doentes tratados TAs>= 140mmHg e TAd<=90mmHg.

Realizou-se Medição Ambulatória da Pressão Arterial – MAPA antes da primeira consulta após início do estudo (C1), sendo calculada a média dos valores do “período acordado” (mean awake blood pressure).

No grupo controlo foi feita a MM da TA na C1, sem que fossem dadas instruções aos profissionais sobre a técnica de medição. No grupo de intervenção, o doente era colocado sozinho num gabinete e eram feitas 5 MA em intervalos de 2minutos.

Os valores obtidos nas medições feitas em consultório foram comparados antes e após o início do estudo nos dois grupos e com os obtidos no MAPA. 

Os resultados demonstraram que:

- a MM registada na C0 foi superior à MA;

- no grupo controlo houve descida do valor da TA da C0 para a C1;

- a TA foi significativamente inferior no grupo de intervenção, comparando com o grupo controlo;

- os valores obtidos no grupo de intervenção tiveram maior correlação com o MAPA que os do grupo de controlo

Os resultados apresentados apoiam a MA da TA em detrimento da MM. A descida dos valores da TA no grupo de controlo da C0 para C1 pode ter-se devido a vários factores, nomeadamente, maior adesão ao tratamento após inclusão no estudo ou alteração da forma de leitura pelos profissionais.

O efeito de “bata branca” foi eliminado na MA, uma vez que o doente ficava sozinho. Contudo, na realidade que conhecemos, nem sempre é possível despender de mais tempo nem ter mais que um gabinete disponível, com ambiente calmo. Por outro lado, não foram dadas instruções aos profissionais sobre a correcta MM da TA, o que certamente teria melhorado a qualidade das avaliações.

Fica o alerta para o facto de alguns utentes poderem estar desnecessariamente medicados, por um diagnóstico de HTA feito sob um efeito de “bata branca”.

Neste ensaio foram apenas incluídos doentes sem outras patologias relevantes, sendo necessários mais estudos para que os resultados possam ser extrapolados a outras populações.

Lígia Torres Lima, USF São João de Sobrado, 05/03/2011

 

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Doses baixas de desmopressina oral para a poliúria nocturna em doentes com hiperplasia benigna da próstata

 

No estudo “Low Dose Oral Desmopressin for Nocturnal Polyuria in Patients With Benign Prostatic Hyperplasia: A Double-Blind, Placebo Controlled, Randomized Study”, publicado no The Journal of Urology (Janeiro de 2011), são avaliadas a eficácia a longo prazo e a segurança de doses baixas de Desmopressina oral em doentes idosos com HBP e sintomatologia acompanhante (noctúria e poliúria nocturna).

Este estudo decorreu no período de Outubro de 2007 a Dezembro de 2009. Foram incluídos doentes com mais de 65 anos com o diagnóstico de HBP, com noctúria (duas ou mais necessidades de levantar durante a noite para esvaziar a bexiga), poliúria nocturna (volume urinário nocturno > 30% do total de volume urinário diário) e um IPSS ≥ 14. Todos os doentes receberam placebo ou 0.1 mg de Desmopressina oral ao deitar. Foram observados em quatro consultas (1, 3, 6 e 12 meses) após o início do tratamento. Durante o estudo, os doentes registaram diários miccionais e em cada consulta foram avaliados os seguintes itens: International Prostate Symptom Score (IPSS), qualidade de vida, urina II, sódio urinário, osmolalidade urinária, ionograma, PSA, ecografia prostática transrectal, urofluxometria e resíduo pós-miccional.

Foram incluídos 115 doentes no estudo (58 no grupo placebo e 57 no grupo Desmopressina). Como podemos verificar nos gráficos apresentados abaixo, a Desmopressina reduziu a produção nocturna de urina e o número de episódios de noctúria, tendo também prolongado o período de sono até ao primeiro episódio de necessidade do doente se levantar para urinar.

Comparativamente aos valores registados antes do tratamento, a Desmopressina reduziu gradualmente o nível sérico de sódio e induziu uma hiponatremia estatisticamente mas não clinicamente significativa, após doze meses de tratamento. Não se registarem complicações sistémicas graves durante o período de tratamento. Como efeitos adversos foram detectados: cefaleias (4 placebo vs 3 Desmopressina), tonturas (4 placebo vs 4 Desmopressina), náuseas (1 placebo) e hiponatremia sem sintomas (10 placebo vs 9 Desmopressina).

Este estudo demonstrou que a Desmopressina, em doses baixas, é um tratamento eficaz e bem tolerado para a poliúria nocturna nos doentes com HBP. O tratamento a longo prazo com Desmopressina reduz o nível sérico de sódio e pode induzir hiponatremia mesmo nos doentes sem história anterior. Assim, nos tratamentos a longo prazo, o sódio sério deve ser avaliado cuidadosamente, pelo menos, uma semana após o início do tratamento.

Sendo os sintomas do tracto urinário baixo muito comuns nos homens idosos e estando associados a um impacto negativo na qualidade de vida destes doentes, este estudo traz esperança no controlo destes sintomas tão incómodos para muitos dos nossos doentes.

Artigo original: http://download.journals.elsevierhealth.com/pdfs/journals/0022-5347/PIIS0022534710045362.pdf

Diana Carneiro, IFE MGF, USF Horizonte, em 30/01/2011

 

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U.S. Preventive Services Task Force recomenda o rastreio de osteoporose para as mulheres acima de 65 anos de idade

A U.S. Preventive Services Task Force publicou uma actualização da sua recomendação sobre rastreio de osteoporose.

As principais recomendações em relação ao uso de osteodensitometria  como rastreio de osteoporose nas mulheres são:

- Rastrear  todas as mulheres de idade igual ou superior a 65 anos;

- Rastrear as mulheres com idade inferior a 65 anos se o seu risco de fractura a 10 anos é superior ou igual ao risco das mulheres com 65 anos de idade sem factores de risco adicionais: cerca de 9%.

É recomendado o uso do FRAX para estimativa do risco de fractura.

Em relação aos homens, a USPSTF concluiu não haver evidência suficiente para determinar se o rastreio é benéfico ou prejudicial.

Artigo original: Annals of Internal Medicine 

FRAX (OMS): ferramenta para estimar o risco de fractura a 10 anos

Por Carlos Martins, Departamento de Clínica Geral, FMUP

 

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Rastreio do cancro da próstata: revisão sistemática e meta-análise de ensaios clínicos aleatorizados

 

O cancro da próstata é o cancro não-cutâneo mais prevalente no sexo masculino e o rastreio tem sido preconizado como um meio de detecção precoce que propiciaria uma intervenção local com intenção curativa para diminuir a mortalidade específica e global. Contudo, os riscos e benefícios desta abordagem têm sido alvo de forte controvérsia.

Sabemos que os rastreios de base populacional devem ser assentes em evidência científica de elevada qualidade proveniente de revisões sistemáticas de ensaios aleatorizados e controlados que documentem um impacto positivo nos resultados orientados para o doente. Assim sendo e depois da revisão da Cochrane de 2006 que concluiu não haver evidência suficiente a favor ou contra qualquer tipo de rastreio, foi feita uma revisão sistemática e meta-análise para dar resposta à questão se, em homens sem história prévia de cancro da próstata, o rastreio através do teste PSA (prostate specific antigen) combinado ou não com o toque rectal comparativamente ao não rastreio, afecta os dois resultados mais importantes para os doentes - mortalidade específica e global.

Assim, foram incluídos seis ensaios aleatorizados e controlados com um total de 387 286 participantes e da sua análise resultou que o rastreio estava associado com uma maior probabilidade de diagnóstico (RR 1.46 95%CI 1.21-1.77 p<0.001), ou seja, um aumento relativo de 46% no ramo de rastreio comparativamente ao não rastreio. Contudo, não tem impacto significativo na mortalidade por cancro da próstata ou na mortalidade global. Uma limitação importante prende-se com o facto de não serem fornecidos dados sobre os potenciais malefícios do rastreio.

Dada a complexidade da controvérsia sobre o rastreio do cancro da próstata nomeadamente no que diz respeito às consequências eventualmente nefastas do "overdiagnosis" e do "overtreatment" e aos efeitos na qualidade de vida, aspectos que não foram adequadamente abordados nos ensaios incluídos, conclui-se que é crucial a realização de estudos com um adequado tempo de follow-up que permita avaliar o impacto do rastreio no diagnóstico precoce, na evolução natural da doença e na mortalidade.

Artigo original: Djulbegovic M, Beyth RJ, Neuberger MM et al. Screening for prostate cancer: systematic review and meta-analysis of randomised controlled trials

Por Maria Manuel Marques, IC MGF, USF Brás Oleiro - CS Rio Tinto e S.Pedro da Cova

 

 

 

 

Medição da pressão arterial - quem o faz e como o faz realmente importa

No estudo “Definition of ambulatory blood pressure targets for diagnosis and treatment of hypertension in relation to clinic blood pressure: prospective cohort study” publicado no British Medical Journal, em Abril de 2010, chegaram à conclusão que as medições da pressão arterial (PA) efectuadas em consulta por uma equipa treinada e usando métodos de medição considerados como “gold-standard” são em média 6/3 mmHg mais altas do que as medições da PA em ambulatório (MAPA) e em média 9/7 mmHg mais baixas que as medições em consulta efectuadas por médicos. Este estudo sugere que as medições de PA obtidas na consulta por médicos são substancialmente mais elevadas do que as obtidas pela equipa treinada. Se confirmado, isso poderia ter um impacto profundo no diagnóstico e tratamento. Os valores limiar de diagnóstico e alvo terapêutico sugeridos neste estudo como equivalentes entre o MAPA e PA na consulta podem ser úteis para as consultas de referência hospitalar. Contudo, as orientações NICE não recomendam o uso rotineiro do MAPA (ou o uso de aparelhos de medição da PA no domicilio) nos cuidados de saúde primários porque a sua utilidade/importância ainda não está bem esclarecida. O que recomendam é que sejam usadas de forma rotineira, técnicas meticulosas de medição da PA pelos profissionais de saúde.

Artigo original: Head GA, et al. Definition of ambulatory blood pressure targets for diagnosis and treatment of hypertension in relation to clinic blood pressure: prospective cohort study. BMJ 2010;340:c1104

Por Vanessa Xavier, Centro de Saúde de Paranhos - UCSP Vale Formoso

 

 

 

Rastreio do Cancro da Próstata: interpretação dos resultados do estudo europeu

 

 

 

 

 

Artigo original: Schröder FH, Hugosson J, Roobol MJ, Tammela TLJ, Ciatto S, Nelen V, et al. Screening and prostate-cancer mortality in a randomized European study. N. Engl. J. Med. 2009 Mar 26;360(13):1320-1328.

 

 

 

 

 

 

Novo teste de rastreio rápido para perturbações de humor e de ansiedade: My Mood Monitor

 

Num artigo recentemente publicado na revista Annals of Family Medicine, os autores apresentam uma ferramenta que poderá vir a ser muito útil como ferramenta de rastreio de perturbações de humor e ansiedade. A ferramenta, designada como "My Mood Monitor" não ocupa mais do que uma página, pode ser facilmente preenchida pelos pacientes na sala de espera e está também disponível em formato web. Permite despistar situações como depressão, ansiedade, perturbação bipolar e stress pós-traumático com bons valores de sensibilidade e especificidade. Por enquanto, a partilha desta ferramenta é efectuada por mera curiosidade científica pois a sua aplicabilidade em Portugal necessitará de uma tradução, adaptação e a respectiva validação.

 

 

 

Test Result Depression Bipolar Anxiety PTSD Any Diagnosis
Sensitivity (95% confidence interval) 0.84 (0.77 - 0.89) 0.88 (0.77 - 0.95) 0.82 (0/75 - 0.87) 0.88 (0.74 - 0.96) 0.83 (0.77 - 0.88)
Specificity (95% confidence interval) 0.80 (0.76 - 0.83) 0.70 (0.66 - 0.74) 0.78 (0.74 - 0.81) 0.76 (0.73 - 0.80) 0.76 (0.72 - 0.80)
Positive M-3 screen 34% 35% 39% 28% 44%
Diagnosed by Mini International Neuropsychiatric Interview 22% 9% 28% 6% 35%

 

Artigo original: Gaynes BNDeVeaugh-Geiss JWeir S et al. Feasibility and diagnostic validity of the M-3 checklist: a brief, self-rated screen for depressive, bipolar, anxiety, and post-traumatic stress disorders in primary care. Ann Fam Med. 2010 Mar-Apr;8(2):160-9.

My Mood Monitor: http://www.mymoodmonitor.com

 

 

 

 

Revisão da Cochrane: cancros da mama diagnosticados desnecessariamente nos programas de rastreio

 

De acordo com uma meta-análise publicada no British Medical Journal "Overdiagnosis in publicicly organized mammography screening programmes: systematic review of incidence trends" BMJ 2009; 339: b2587, um em cada três cancros da mama detectados por um programa de rastreio populacional é sobrediagnosticado, sendo que o sobretratamento ocorrerá na mesma proporção pois não há forma de distinguir entre Cancro potencialmente letal ou "inofensivo" (não causaria morte ou sintomas).  O rastreio oncológico pode levar à detecção precoce de cancros letais mas também detecta os "inofensivos" que não causariam morte ou sintomas pelo seu crescimento indolente. Ora, define-se sobrediagnóstico como a detecção destes últimos. Este é já um problema conhecido relativamente ao cancro da próstata. Neste artigo os investigadores reviram a taxa de incidência de cancro da mama sete anos antes e sete anos depois da implementação de programas de rastreio populacional no Reino Unido, Canadá, Austrália, Suécia e Noruega. Após exclusão do carcinoma in situ, a proporção de sobrediagnóstico foi de 1/3. Assim, mais do que saber se o sobrediagnóstico ocorre importa saber quão frequentemente isso acontece e ao optar por uma estratégia de rastreio saber o balanço entre o número de mortes evitadas e o número de cancros sobrediagnosticados.

Por Maria Manuel Marques, IC MGF, US Brás Oleiro - CS Rio Tinto e S.Pedro da Cova

Visualize o vídeo que inclui entrevista a de um dos autores do estudo:

 

 

VIDEO: Overdiagnosis of Breast Cancer by Screening Mammography Estimated at 52% (Interview with Dr. Karsten Jorgensen, MD, Nordic Cochrane Centre)

 

 

 

 

Precauções em relação à vacina Gardasil®

A FDA reviu em 09/06/2009 o aviso de segurança / precauções em relação à vacina Gardasil®.  Têm-se registado casos de síncope (desmaio) no período imediato após a vacinação com alguns traumatismos graves relacionados com a queda aquando da síncope. Nalguns casos de síncope também se tem verificado movimentos tónico-clónicos simulando crises convulsivas.

 

Recomendação preventiva: as jovens vacinadas devem permanecer sentadas ou deitadas no centro de saúde, sob vigilância, por um período de 15 minutos após a administração da vacina.

 

A jovem e o acompanhante devem ser informados para estarem atentos. Se verificarem alguma das seguintes situações:

     - palidez

     - falta de forças

     - sensação de desfalecimento

     - tonturas

     - alterações da visão ou da audição

     - suores

              ...deverão imediatamente chamar a atenção do profissional de saúde!

 

Também já se têm registado casos de síncope associadas a outras vacinas administradas na adolescência. A FDA pondera se deverá alargar esta recomendação a outras vacinas.

 

Artigo original

  

 

 

 

Cuide do seu e-mail!...

O e-mail é suposto ser uma ferramenta que visa poupar tempo, aumentar a eficiência e facilitar o trabalho das pessoas. Contudo, pode tornar-se num fardo bem pesado… EI algumas das sugestões efectuadas pelos autires deste artigo:

- Diminua a quantidade de e-mails indesejados. Separe os e-mails de trabalho do correio pessoal.

- Faça uma gestão disciplinada das mensagens que recebe. NO agendamento do seu dia-a-dia, reserve um espaço dedicado à leitura do e-mail.

- Apague as mensagens de spam sem ver imagens ou filmes e sem clicar nos links.

- Nunca abra e feche uma mensagem sem ter tomado qualquer atitude em relação a ela: apagá-la, arquivá-la, tê-la reencaminhado ou respondido…

 

Artigo original: Mehta N, Atreja A, Jain A. Take charge of your e-mail! Cleveland Clinic Journal of Medicine 2008 Aug l 75(8) 577-83.
 

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Eventos cardiovasculares durante o Campeonato Mundial de Futebol

Em 2006, durante o último Campeonato Mundial de Futebol que decorreu na Alemanha, os emergencistas da área de Munique efectuaram uma avaliação prospectiva dos eventos cardiovasculares. Foram avaliados 4279 pacientes. Nos dias dos jogos que envolviam a selecção alemã, a incidência de emergências cardíacas foi 2,66 vezes superior em relação ao período controlo (IC 95%, 2.33 a 3.04; P<0.001). Nos homens, a incidência foi 3,26 vezes superior (IC 95%, 2.78 a 3.84; P<0.001) em relação ao período controlo. O pico de incidência destes eventos registou-se nas primeiras duas horas após a hora do início dos jogos. Dos pacientes que tiveram eventos coronários, 47% já tinham antecedentes conhecidos de doença coronária em comparação com 29% no período controlo.

Teremos que informar e aconselhar os nossos doentes acerca deste risco? Em particular nos pacientes com antecedentes conhecidos de doença cardíaca...

 

Educação para a saúde: Viva o futebol saudavelmente e... Força Portugal!

 

Artigo original: Wilbert-Lampen U et al.Cardiovascular events during World Cup soccer. N Engl J Med. 2008 Jan 31;358(5):475-83.

 

1 comentário:

Berta Nunes escreveu em 11/06/2008: Vem a propósito do momento...muito bem.

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