Armando Brito de Sá, médico de
família, professor da Faculdade de Medicina de Lisboa
Leitura Médica
Aequanimitas. With other Addresses to Medical Students,
Nurses and Practitioners of Medicinede Sir William Osler.
New York: The Blakinston Division, McGraw-Hill, Inc. 1937
Sir
William Osler (1849-1919) é uma das figuras
marcantes da
prática e do ensino da
medicina do Século XX. Um conjunto de comunicações e
conferências por si produzidas foi editado pela primeira vez em
1904...
(cont.)
Outras leituras
Cidadelade Antoine de Saint-Exupéry.
Prefácio e tradução de Ruy Belo. Lisboa: Editorial Presença.
1996 (1ª Edição)
Os livros do final da adolescência
são, por norma, os mais marcantes nas nossas vidas. Não foi
excepção comigo – algumas das obras que mais prezo li-as nesse
tempo.
(cont.)
Reumatologia
FRAX® -
Instrumento de avaliação do risco de fractura da
OMS
Gostava de deixar a todos
alguns pensamentos sobre as ferramentas relacionadas com a osteoporose...
- FRAX -
Acho que o conceito de haver um calculador de risco de fractura na osteoporose é
algo que nos agrada a todos. Afinal, numa área tão polémica como a da
osteoporose, é bom ter algo de palpável para guiar as nossas decisões. Ainda por
cima, este calculador de risco é muito parecido com os que já conhecemos para as
doenças cardiovasculares, o que facilita a sua aceitação.
No entanto, quando há algum tempo atrás encontrei este site, fui procurar o
substrato científico que serve de base a este cálculo. Se formos consultar a
lista de referências do site verificamos que, não há uma única em que o Prof.
Kanis não seja autor. Ao mesmo tempo, quase todas as revistas em que os
trabalhos foram publicados estão ligadas à International Osteoporosis
Foundation ou à National Osteoporosis Foundation, dois dos grupos
conhecidos por terem das normas de orientação mais interventivas no que concerne
ao rastreio por densitometria e à terapêutica na osteoporose e na osteopénia.
Não querendo pôr em causa a validade do trabalho deste senhor, fica-se na dúvida
se será ele o único a investigar sobre o tema... A este propósito, foi
apresentado no Encontro uma revisão muito interessante nesta área: "Osteoporose:
factores de risco e densitometria óssea", das colegas Catarina Azevedo Gomes e
Susana Vilas Boas. Daquilo que me recordo, as conclusões principais
relativamente aos factores de risco eram no sentido de não existir consenso
entre as várias guidelines acerca de quais eram, nem haver evidência de
que qualquer dos instrumentos de avaliação de risco existentes tivesse
demonstrado um valor preditivo (positivo e/ou negativo) razoável. Mas, melhor
que eu, as autoras poderão elucidar-nos sobre as suas conclusões.
Resumindo e concluindo: o conceito de cálculo de risco de fractura é muito
interessante, mas eu teria algum cuidado ao utilizar este site.
- Normas da DGS -
As circulares da DGS são, como é hábito, resultado de um trabalho encomendado a
peritos. Não conhecemos os seus autores (neste caso, apenas o coordenador do
grupo), as fontes em que se basearam ou a sustentação científica das suas
conclusões. Que se saiba, também não existe um processo de revisão inter-pares.
Compare-se a actuação da DGS nesta matéria com o National Institute for Health
and Clinical Excellence (NICE) do Reino Unido, em que é possível conhecer todo o
processo de elaboração das recomendações (a de osteoporose, por exemplo, está em
desenvolvimento:
http://www.nice.org.uk/guidance/index.jsp?action=byID&o=11621). É certo
que a desproporcionalidade de meios é grande, mas acho que não nos faz mal
nenhum ambicionarmos ir um pouco além do que temos hoje. Voltando à osteoporose,
o que temos nesta recomendação é a visão do reumatologista, obtida por consenso
de peritos. Fico sem saber até que ponto foram incluídos na elaboração da
recomendação trabalhos como o artigo recente de Bolland e colaboradores que
mostrou que o número necessário tratar com suplementos de cálcio para prevenir
uma fractura sintomática é de 50, enquanto o NNT para provocar um evento
cardiovascular é de apenas 29 (ver clube de leitura "Suplementos de cálcio na
menopausa e eventos cardiovasculares" no número de Janeiro / Fevereiro da
Revista Portuguesa de Clínica Geral:
http://www.apmcg.pt/files/54/documentos/20080304173238203777.pdf).
Isto é, que poderemos estar a provocar quase dois eventos cardiovasculares por
cada fractura que prevenimos.
O mesmo raciocínio se aplica à circular sobre densitometrias. Assim sendo, qual
o grau de importância que devo dar a estas circulares da DGS?
Este tema parece-me de uma importância capital para aquilo que queremos que
venha a ser o futuro da medicina geral e familiar em Portugal. Neste momento há
muitas USFs ocupadas na elaboração de planos e normas de actuação internos, cada
qual para seu lado, com muito pouca discussão entre si. Porque há-de a pólvora
de ser inventada 100 vezes por pessoas diferentes, quando todos poderiam
trabalhar em conjunto e produzir algo de verdadeiramente meritório? O projecto
do Manual de Actividades Preventivas, do qual o Carlos é um dos mentores, é um
excelente passo nesse sentido. Parece-me que todos nós deveremos ser mais
exigentes com aquilo que se faz em Portugal, mas, ao mesmo tempo, estar
preparados para o acréscimo de responsabilidade que isso nos trará.