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Introdução
O feto é um discreto e sensível órgão alvo onde certos efeitos das drogas podem ser irreversíveis e inaparentes por vários meses ou anos.
Teoricamente a absorção das drogas, distribuição, metabolismo e excreção podem ser influenciados pelas mudanças fisiológicas que ocorrem durante a gravidez.
A resposta da mãe e feto/recém-nascido à administração das drogas na mulher grávida é determinada em grande medida pela disposição e eliminação entre a mãe e o feto.
Mudanças fisiológicas ocorrem na gravidez que podem resultar na redução das proteínas de transporte de plasma, no aumento do aparente volume de distribuição, num metabolismo mais rápido e «clearance» renal de certas drogas. Os efeitos são devido ao pico de concentração da dose única, à semi- vida e concentração da droga ao qual o feto está exposto via placenta.
A dose da maioria dos anti-convulsivantes, lítio, digoxina, ampicilina, cefuroxina e certos beta bloqueantes, deve ser alterada na gravidez.
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Efeitos adversos drogas por trimestre gravidez
As drogas dadas durante a gravidez podem afectar adversamente o equilíbrio do embrião e feto de muitas maneiras.
Na primeira semana depois da concepção, antes da implantação é provável que as drogas potencialmente perigosas tenham um total ou nenhum efeito, o embrião morre ou as células danificadas são substituídas por células potencialmente normais.
A diferenciação do embrião começa durante a 2ª semana e continua nas 8 semanas seguintes. Neste período de organogénese as drogas podem produzir malformações congénitas (teratogenicidade) e um dano mais severo pode resultar em aborto.
Durante o 2º e 3º trimestre malformações major não podem ser produzidas, mas as drogas podem afectar o crescimento e desenvolvimento funcional do feto. Em particular o SNC continua a desenvolver-se durante a gravidez e lesões do 1º trimestre podem produzir microcefalia e atraso mental.
As drogas raramente produzem anomalias específicas. A maioria dos agentes teratogénicos afecta aspectos particulares do desenvolvimento, as malformações produzidas dependem dos órgãos, que se estão a desenvolver na altura em que a droga é tomada.
O teste de drogas para a teratogenicidade em animais é de uso limitado porque são espécies diferentes em sensibilidade.
Em 1979, a FDA (Food and Drug Administration) dos EUA, estabeleceu 5 categorias para as drogas e medicamentos que podem ter efeitos adversos no feto.
Categoria A
Em estudos controlados, levados a cabo na espécie humana, não se demonstraram riscos para o feto. Existem poucos fármacos desta categoria (ex: multivitaminas).
Categoria B
Não se demonstrou a existência de risco para o feto em experiência animal, mas não existem estudos controlados na espécie humana; os efeitos adversos foram demonstrados em animais, mas não em estudos humanos controlados. Estão incluídos neste grupo drogas vulgarmente usadas como a penicilina.
Categoria C
Drogas para as quais não existem estudos adequados, quer animais quer humanos, ou drogas em que há efeitos adversos em estudos animais. Muitas drogas administradas na gravidez estão neste grupo, ex: dexametasona.
Categoria D
Há existência de risco fetal, mas os benefícios sobrepõem-se aos riscos. São exemplos a carbamazepina e a fenitoina.
Categoria X
É usada para as drogas que os riscos são superiores aos benefícios. A medicação para o acne, isotretinoina, que pode causar múltiplas anomalias do sistema nervoso central, facial e cardiovascular.
Na tabela em anexo estão sumarizadas as drogas mais usadas.
Estas categorias têm intenção de ser um guia terapêutico considerando os potenciais benefícios e os riscos fetais das drogas usadas na gravidez
Asma
Albuterol C
Corticosteroides B, C, D,
Cromolina B
Efedrina C
Epinefrina C
Metaproterenol C
Terbutalina B
Teofilina C
Cancro
Asatiopirina
Clorambucil D
Cisplatina D
Ciclofosfamida
Fluorouracilo D
Melfalana D
Metotrexato D
Procarbazina D
Vincristina D
Cardiovascular
Bloqueantes
Captopril D
Coumarina D
Digoxina C
Enalapril D
Furosemida C
Heparina C
Metildopa C
Procainamida C
Quinidina C
Tiazidas D
Verapamil C
Doenças convulsivas
Carbamazepina C
Fenobarbital D
Fenitoina D
Trimetadiona D
Ácido Valproico |
Hormonas
Clomifeno X
Contraceptivos X
Estrogéneos
Progestinas
Infecções
Aciclovir C
Anfotericina B
Aztreonato C
Cefalosporina B
Cloroquina C
Eritromicina B
Lindano B
Mebendazole C
Metronidazole B
Miconazole B
Nitrofuratoina B
Nistatina B
Penicilina B
Pirantelo C
Quinino D
Sulfonamidas B
Tetraciclinas D
Trimetropim C
Vancomicina C
Zidovudina C
Vários
Anti-histamínicos B, C
Barbitúricos C
Cafeína B
Cocaína C
Ciclosporina C
Dextroanfetamina C
Etretinato X
Guaifenesina C
Heroina B, D
Insulina B
Isotretinoina X
Tioureas D
Tiroide A |
Náuseas e Vómitos
Clorpromazina
Ciclizina B
Meclizina B
Proclorperazina C
Prometazina C
Trimetobenzanicida C
Dor e Inflamação
Acetaminofeno
Aspirina C
Codeina C
Ibuprofeno B
Indometacina B/D
Meperidina B
Morfina B
Doenças Psiquiatricas
Amitriptilina D
Clordiazepozido D
Diazepam D
Imipramina
Litio D
Nortriptilina D
FenotiazinaC |
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Drogas citotóxicas
Exercem o seu efeito predominante nas células de divisão rápida, podendo afectar o desenvolvimento fetal e causar aborto ou malformação congénita se dada no primeiro trimestre da gravidez.
O risco é maior com antagonistas do ácido fólico e com agentes alquilantes como a Ciclofosfamida e Bussulfam.
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Hipervitaminose A e análogos da vitamina A
Altas doses de vitamina A em animais são teratogêneas, mas falta a prova definitiva dos teratogeneos em humanos.
Não há dúvida da teratogenicidade humana dos derivados do ácido retinóide. Produzem padrões característicos de anomalias que incluem ausência ou (muito pequenos) pavilhões auriculares, deformações cardíacas, microcefalia, hidrocefalia e dismorfismo sexual.
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Anti-convulsivantes
A incidência de malformações no recém-nascido de mulheres epilépticas recebendo anti-convulsivantes é 2 a 3 vezes superior do que na população em geral.
As anomalias mais comuns são fendas orais, anomalias cardíacas e defeitos minor do esqueleto.
«Síndrome da hidantoína» consiste em anomalias craniofaciais, hipoplasia digital e das unhas, microcefalia, deficiência mental e ACIU.
Trimetadiona também produz um síndrome específico e a evidência sugere que é mais teratogénico que outros anti-convulsivantes. A evidência para um efeito específico do fenobarbital é inferior e parece ser mais seguro que a fenitoína.
Há alguma evidência que parte dos riscos podem ser devidos a factores genéticos associados com epilepsia e há um aumento de malformações em recém-nascido de pais epilépticos.
Foi sugerido que a teratogenicidade dos anti-convulsivantes possa estar relacionada com o seu efeito no metabolismo do feto. Há evidência que os suplementos de ácido fólico podem ter efeito protector, devemos assegurar-nos que todas as mulheres recebem suplementos de ácido fólico durante a gravidez –na dose de 100 – 1000 u mg/dia.
Confrontado com o problema do manuseamento da grávida epiléptica um bom controlo da epilepsia deve ser a primeira preocupação. Como há evidência que o risco teratogénico aumente com a dose e com número de drogas usadas, a monoterapia deve ser usada sempre que possível e deve manter-se a dose o mais baixo possível, compatível com efeito anti-convulsivante.
É razoável oferecer o rastreio pré natal para os defeitos do tubo neural numa mulher com epilepsia.
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Anticoagulantes
O uso de anticoagulantes orais na gravidez está associado com alta incidência de perda fetal por aborto, hemorragia fetal retroplacentar e intracerebral. Para além disso, o uso de anticoagulantes cumarínicos aumenta o risco de malformações.
A exposição durante o 1º trimestre, em particular entre a 6ª e a 9ª semana está associada com hipoplasia nasal e condroplastia pundacta.
A exposição entre o 2º e o 3º trimestre produz atrofia óptica, microcefalia, atraso mental e outras anomalias no SNC.
O risco de teratogénese com varfarina levou à recomendação da sua substituição pela heparina para tratamento e profilaxia do tromboembolismo venoso pelo menos no 1º trimestre. Contudo, como a heparina não é eficaz na prevenção do tromboembolismo arterial em mulheres com válvulas cardíacas artificiais ou com válvula mitral com fibrilhação auricular, a varfarina é geralmente usada.
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Lítio
A evidência actual sugere que o lítio é um provável teratogénico, deve pois evitar-se no 1º trimestre de gravidez.
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Álcool
Mulheres consumidoras de quantidades superiores a 40 gramas/dia durante a gravidez, estão associadas com um padrão característico das anomalias fetais «Sindroma Fetal Alcoólico» – atraso de crescimento fetal ou pós natal, anomalias craniofaciais, microcefalias, anomalias comportamentais e atraso mental.
As anomalias faciais incluem encurtamento das fissuras palpebrais, nariz com osso curto, nariz estreito, pregas epicanticas e micrognatia.
Outras anomalias como fenda-labial ou palatina, deformações do esqueleto e lesões cardíacas congénitas podem estar presentes.
Não há evidência que ingestão menor que 20 g/d seja teratogénica ou produza síndrome fetal alcoólico, mas atraso de crescimento isolado foi relacionado com uma ingestão regular pequena como 10 g/d .
Os efeitos teratogénicos ocorrem no 1º trimestre, mas o desenvolvimento do cérebro contínua vulnerável depois desse período e está especialmente em risco quando os neuroblastos estão em divisão, mais activa entre a 12ª e a 18ª semana.
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Hormonas sexuais
No primeiro trimestre as hormonas sexuais foram usadas como meio para diagnóstico de gravidez, ainda são usadas na terapêutica para prevenção de aborto espontâneo e podem ser tomadas inadvertidamente por mulheres que ficam grávidas acidentalmente tomando contraceptivos orais.
Androgénios, alguns progestagénios como etisterona, noretisterona e dietilbestrol podem causar virilização do feto feminino se dados à mulher precocemente no 1º trimestre, as pequenas quantidades de progesteronas presentes nos contraceptivos orais geralmente não dão.
O efeito teratogénico potencial de hormonas sexuais está menos bem estabelecido e a literatura é contraditória e confusa.
Um efeito teratogénico do contraceptivo oral não pode ser excluído, mas o risco, se existir deve ser muito pequeno.
Se há uma associação verdadeira entre hormonas esteróides sexuais e malformações congénitas não é devido a um efeito teratogénico directo dos esteróides.
A associação entre ingestão materna de dietilbestrol (DES) e adenocarcinoma de células claras da vagina foi descrita desde 1971, a adenose vaginal e outras anomalias estruturais são mais comuns. Anomalias não neoplasicas do trato genital masculino foram relatadas nos recém-nascido masculinos de grávidas expostas ao DES como criptorquidia, hipoplasia testicular e anomalia do sémen.
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Antibióticos
A maioria das drogas usadas para tratar infecções são provavelmente seguras na gravidez precoce. O trimetropin, que é antagonista do folato deve ser evitado. Apesar de não haver evidência que o trimetropin seja perigoso, outros antagonistas do folato são teratogénicos conhecidos e há a possibilidade que um estado de baixa do folato na gravidez esteja associada ao aumento de risco de malformações congénitas.
Pirimetamida, também um antagonista do folato, é usada na profilaxia da malária na gravidez e não há evidência de teratogenicidade. Estão recomendados suplementos de folato ou ácido folínico em mulheres que tomam pirimetamida no 1º trimestre.
Suspeitou-se que o quinino e cloroquina causariam dano fetal mas a evidência é pequena. Quinino em altas doses foi usado como anti abortivo; a hipoplasia do nervo óptico e surdez congénita foram relatados se não ocorria aborto.
Não há evidência que doses terapêuticas sejam teratogénicas.
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Vacina da rubéola
Uma vez que o vírus da rubéola pode atravessar a placenta e infectar o feto, deve evitar-se a gravidez 3 meses após a vacinação rubéola.
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Anestésicos
Muitos estudos sugerem que as mulheres que trabalham em Blocos Operatórios têm risco maior de aborto espontâneo e de produzir bebés com malformações congénitas. Evidências posteriores sugerem que os efeitos são devidos directamente à exposição de gases anestésicos e há forte evidência que o óxido nitroso é factor causal.
As mulheres anestesistas e enfermeiras do Bloco Operatório que usem inaladores anestésicos, que planeiem gravidez não devem trabalhar em blocos sem sistema de drenagem de gases.
Mulheres que sejam operadas no 1º trimestre de gravidez, que são expostas a altas doses de anestesia, o risco é desconhecido, mas não parece haver evidência que as anomalias congénitas aumentem.
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Anti-eméticos
A incidência de naúseas e vómitos na gravidez é maior no período de risco máximo de efeitos teratogénicos, e as drogas anti eméticas são muito usadas. É importante estabelecer a sua segurança na mulher grávida.
É improvável que anti eméticos, com excepção eventual da difenidramina sejam agentes teratogénicos humanos importantes.
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Drogas psicotrópicas
A questão de teratogenicidade das fenotiazidas ainda não foi estabelecida. O risco se existe é pequeno e inaparente em qualquer dos antieméticos que em geral incluem fenotiazidas.
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Sedativos e hipnóticos
Muitos estudos sugeriram que pode haver aumento da incidência de fendas orais associadas com o uso de diazepam, estudos subsequentes não o confirmaram e se houver algum risco é pequeno.
Os barbitúricos foram muito usados durante longo tempo e é improvável, com a eventual excepção do fenobarbital usado como anti-convulsivante, que tenham um importante efeito teratogénico.
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Outras drogas suspeitas de teratogenicidade
Aspirina – O «Prospectiv Collaboratiun Perinatal Project» não encontrou associação entre a aspirina e malformações congénitas.
Vitamina D – Foi sugerido que altas doses de vitamina D durante a gravidez podiam ser responsáveis pelo sindroma neonatal hipercalcemia.
Clomifene – Foram estudados vários casos de defeitos do tubo neural.
Penicilamina – Há 2 casos relatados de doença do tecido conjuntivo generalizado em bebés de mãe tomando altas doses de penicilamina, os estudos de recém-nascido de mulheres recebendo penicilamina para doença de Wilson, e artrite reumatóide não mostraram aumento do risco das mal-formações.
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Tabaco
Está bem estabelecido que o tabaco tem efeitos adversos no desenvolvimento do feto. Os efeitos são atraso do crescimento fetal, aumento do aborto espontâneo e aumento da mortalidade peri-natal.
Um decréscimo do peso ao nascer foi confirmado em muitos estudos e há aumento da incidência do recém-nascido pesando 2.500 kg ou menos, independentemente de outros factores associados como consumo de café, álcool, baixo nível económico, estado nutricional deficiente, etc. A redução de peso é relacionada com a dose.
Atraso de crescimento ocorre durante a 2ª metade da gravidez e se a mulher parar de fumar antes dos 4 meses o bebé terá um peso dentro da normalidade.
A frequência de aborto espontâneo aumenta na mulher fumadora, mas a maioria dos estudos não mostra qualquer aumento nas malformações congénitas.
O aumento da mortalidade peri-natal associado ao tabaco não é inteiramente explicado pelo baixo peso ou pelo aumento da incidência de partos prematuros.
Hemorragia ante parto é mais comum devido a aumento da incidência de abrutio placenta e placenta prévia e o risco também diminui se a mulher parar no 4º mês de gravidez.
Pouco se conhece acerca do risco de carcinoma no adulto em relação com o tabaco materno.
Deve aconselhar-se a mulher a deixar de fumar antes da gravidez, se tal não é possível, antes do 4º mês, visto que a nicotina é provavelmente o responsável por muito dano, e por isso as pastilhas com nicotina não devem ser permitidas como modo para deixar de fumar.
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Conclusão
Poucas drogas demonstraram ser definitivamente teratogénicas no Homem, contudo é também verdadeiro que nenhuma droga é segura na gravidez precoce.
Nenhuma droga deve ser dada a uma grávida a não ser que o benefício esperado dela seja maior que o risco para o feto, e as drogas que foram largamente usadas na gravidez e parecem, pelo menos estatisticamente seguras devem ser prescritas de preferência a moléculas recentemente descobertas.
A menor dose com efeito deve ser dada, porque efeitos teratogénicos estão provavelmente relacionados com a dose.
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Efeitos adversos das drogas na gravidez tardia
Efeitos adversos no feto e recém-nascido:
Depois do 1º trimestre as drogas não podem produzir anomalias estruturais grosseiras mas podem afectar o crescimento e o desenvolvimento funcional do feto e podem ter efeitos tóxicos nos tecidos fetais.
Os tecidos em desenvolvimento são mais susceptíveis aos efeitos farmacológicos e tóxicos das drogas e a lesão do feto ou recém-nascido pode ocorrer com doses terapêuticas para a mãe. Ao nascer a capacidade que o recém-nascido tem para metabolizar e excretar muitas drogas está pouco desenvolvida, e drogas dadas pouco tempo antes do termo ou durante o trabalho de parto podem persistir no recém-nascido e produzirem efeitos adversos depois do parto quando a eliminação pela circulação materna já não existe.
Há também a possibilidade da exposição à droga «in utero» poder ter efeitos retardados como carcinógenas tardia na vida.
Não há evidência definitiva que as drogas possam actuar directamente como carcinogeneos transplacentares no homem, mas isoniazida e fenitoína estão sob suspeita, com base em casos individuais.
Há evidência que os neurotransmissores são importantes regulando a proliferação cerebral no sistema nervoso, e drogas afectando a actividade neurotransmissora se dadas enquanto o cérebro se está a desenvolver podem interferir com a proliferação e diferenciação e terem efeitos permanentes na capacidade funcional tardia. Estudos extensos usando drogas, incluindo não apenas drogas psicotrópicas mas também algumas hipertensivas exercem o seu efeito alterando a actividade neurotransmissora, e a possibilidade de que alguns afectem adversamente o desenvolvimento do cérebro se dadas no 2º e 3º trimestre não pode ser desmentida.
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Drogas anti-microbianos
Tetraciclinas – Tetraciclinas são depositadas nos ossos e dentes. Os efeitos no desenvolvimento parecem ser mínimos, mas descoloração e hipoplasia dentária pode ocorrer desde final do 1º trimestre e afecta permanentemente os dentes no último trimestre.
Aminoglucosidos – Os aminoglucosidos são todos ototóxicos no adulto e a estreptomicina é indubitavelmente tóxica no ouvido fetal. Alteração da audição é o mais comum dos defeitos vestibulares e vai desde perda da alta-frequência até surdez severa bilateral. Recomenda-se que a Estreptomicina não deva ser usada na terapêutica da tuberculose na gravidez a não ser que outras drogas de 1ª linha estejam contra-indicadas. Há pouca informação acerca do uso de outros aminoglucosidos na gravidez. Gentamicina e Tobramicina são menos tóxicos que kanamicina, estreptomicina e para infecções severas como endocardite bacteriana o benefício potencial para a mãe supera o risco do feto.
Rifampicina – A experiência na gravidez é ainda limitada; a suspeita de ser teratogénica não foi confirmada nem rejeitada, mas tudo indica que pode aumentar o risco de hipoprotrombinemia e hemorragia no período peri-natal. Isoniazida e etambutol são as drogas de escolha para o tratamento da tuberculose na gravidez, mas a rifampicina não está contra-indicada quando uma terceira droga é necessário.
Cloroquina – Terapêutica a longo prazo com cloroquina produz dano ocular em adulto e corioretinite neonatal foi relacionada com o seu uso na gravidez. O risco parece ser pequeno e a cloroquina é a droga de escolha para o tratamento de um ataque agudo de malária na mulher grávida. pesar da triiodotiroxina atravessar a placenta não parece prevenir os efeitos das drogas antitiroides
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Drogas actuando no sistema endócrino
Drogas anti-tiroideias – Todas as drogas anti-tiroideias podem alterar a função tiroideia do feto, resultando num aumento de secreção fetal de TSH e bócio neonatal, com ou sem hipotiroidismo. Mesmo em recém-nascidos sem bócio ou evidência clínica de hipotiroidismo os níveis de sangue de TSH estão aumentados, reflectindo hipotiroidismo relativo in útero, mas recupera rapidamente depois do nascimento e não há evidência que haja efeitos residuais. A tiroxina atravessa a placenta e a na função fetal tiroideia, portanto não faz sentido prescrever hormonas tiroideias juntamente com drogas antitiroideias na gravidez. A menor dose possível destas drogas deve ser usada e deve-se tirar partido do facto da dose muitas vezes poder ser reduzida no final da gravidez.
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Corticosteroides
Terapêutica corticosteróide para doença materna durante a gravidez não parece trazer sérios problemas. Um estudo mostra aumento da mortalidade e morbilidade fetal devido a insuficiência placentar, muitos outros não encontraram qualquer efeito adverso. Houve um aumento da incidência de bebés de baixo peso num estudo, de mulheres tratadas com 10 mg/d de prednisona. Há relatos ocasionais de morte neonatal associados com altas doses de esteróides maternos onde a atrofia supra renal foi notada, sugerindo que altas doses podem produzir problemas maiores.
O uso de betametasona por curtos períodos para prováveis sindromas de dificuldades respiratórias nos pretermos reduz os níveis de cortisol no sangue, mas volta rapidamente ao normal depois do nascimento e a resposta do cortisol ao stress e a estimulação da ACTH mantém-se inalterada. O parto é um stress e cobertura com corticosteróides deve ser dada à mulher que faz corticoterapia e à que suspendeu a terapêutica nos últimos 2 meses.
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Drogas actuando no sistema cardiovascular
Antagonistas b adrenérgicos – Muitos beta bloqueantes podem ser usados na gravidez e o seu lugar no tratamento da HTA na gravidez está estabelecido. O uso de propanolol na gravidez é controverso. Alguns estudos não encontraram efeitos adversos, mas outros descreveram uma variedade de complicações fetais e neonatais, que incluem bradicardia, hipoglicemia, dificuldades respiratórias e ACIU. Bradicardia e hipoglicemia são provavelmente efeitos directos dos beta bloqueantes, no recém-nascido nas ACIU está menos claramente relacionado com os beta bloqueantes. A maioria dos estudos sugere que os efeitos adversos do propanolol só ocorrem na terapêutica da HTA severa. Os riscos associados do tratamento de outros, que não HTA severa parecem ser pequenos e podem ser minimizados pela paragem da terapêutica vários dias antes do início do TP. Propanolol aumenta a actividade uterina durante TP e bloqueia o efeito inibitório dos estimulantes Betadrenergicos como o isoxuprine. Estudos usando outros beta bloqueantes são, em geral, tranquilizantes pelo que não há evidência de que algum seja preferível ao propanolol.
Diuréticos tiazidicos – As tiazidas não devem ser usadas no tratamento de HTA e edema durante o 3º trimestre. São ineficazes na prevenção do desenvolvimento de pré-eclampsia e podem até agravá-la porque diminuem o volume plasmático, e o seu uso está associado com diminuição do peso fetal. Trombocitopenia neonatal foi atribuída à clorotiazida, mas apenas num único trabalho. Foi sugerido com base em estudos epidemológicos que o risco de hipoglicemia neonatal pode estar aumentada.
Antagonistas do cálcio – Nifedipina inibe as contrações uterinas tardiamente na gravidez. Foi usado na terapêutica de parto pretermo e pode inibir o trabalho de parto. Doses terapêuticas normais do verapamil não parecem inibir a actividade uterina.
Diazoxido – Quando usado durante o trabalho de parto o diazoxido inibe contracções uterinas, mas pode ser superado pela oxitocina. Se usado por períodos prolongados antes do parto pode causar alopecia e alteração da tolerância à glicose no recém-nascido, mas a hiperglicemia parece ser rara na terapêutica a curto prazo.
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Anticoagulantes
A evidência de que a Varfarina é teratogénica e que pode produzir anomalias fetais durante o 2º e 3º trimestre levou ao aumento do uso da heparina em vez da Varfarina na profilaxia da doença trombo embolica na gravidez. Terapia com Varfarina está associada com alta incidência de complicações hemorrágicas no fim da gravidez, e a mortalidade por hemorragia peri-natal é relatada em aproximadamente de 15%. Heparina subcutânea é eficaz na profilaxia do trombo embolismo venoso, mas não para as próteses cardíacas venosas. A Heparina também pode causar complicações hemorrágicas, não atravessa a placenta e não é teratogénica, mas estudos sugerem que o risco de morte fetal, nado morto e hemorragia fetal são tais que o término da gravidez pode ser mais seguro do que com varfarina.
Osteoporose é uma complicação reconhecida do uso prolongado de heparina nas doses convencionais e também foi relatado em mulheres recebendo heparina subcutânea durante a gravidez. Há evidência que desmineralização produzida pela heparina está relacionada com a dose. Em pacientes com prótese valvulares cardíacas a maior eficácia da varfarina provavelmente justifica o uso até às últimas semanas associado ao despiste de anomalias congénitas.
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Drogas actuando no SNC
Efeitos adversos severos de drogas actuando no SNC manifestam-se depois do nascimento. Dividem-se em 2 grupos:
- Efeito farmacológico directo da droga no RNA.
- Efeito de uma exposição prolongada «in útero».
Sedativos – Qualquer droga sedativa dada pouco tempo antes do parto pode deprimir a respiração fetal e neonatal. A magnitude do efeito depende da droga usada, da dose, do modo de administração, da velocidade com que atravessa a placenta e do intervalo de libertação da droga. Altas doses de diazepam (mais de 30 mg) dadas durante o parto foram relatacionadas com hipotonia neonatal, hipotermia. índices de APGAR baixos e relutância na alimentação; É pouco provável que uma dose superior a 30mg, cause efeitos maléficos, excepto na criança em risco. Efeitos similares foram relacionados com clordiazepóxido e com nitrazepan e pode também ser antecipado com as benzodiazepinas de longa acção, especialmente com os metabolitos activos. As benzodiazepinas de curta duração como o lorazepam e ternazepam são metabolizados para metabolitos inactivos, mas o seu metabolismo é também lento no recém-nascido e sedação e depressão respiratória foi descrita no uso de lorazepam antes do parto.
Antidepressivos – Antidepressivos tricíclicos são lentamente metabolizados pelo recém-nascido e efeitos adversos severos foram descritos tais como taquicardia, taquipneia, irritabilidade, tremor, espasmo muscular, convulsões e retenção urinária.
Fenotiazidas – Reacções extra piramidais nos recém-nascidos expostos a doses antipsicóticas de fenotiazidas no útero foram descritos em várias ocasiões, podem persistir por várias semanas depois do nascimento. Decanoato de pneufenazina foi relacionado com sintomas extrapiramidais, sintomas que começam 3 a 4 semanas pós parto. As fenotiazidas e decanoato de flulenazina respondem à difenidramina droga com propriedades anticolinérgicas. As propriedades anticolinérgicas desta droga, como obstrução intestinal do recém-nascido também podem aparecer.
Lítio – A exposição tardia na gravidez pode ter também efeitos adversos no feto e recém-nascido. A toxicidade do recém-nascido produz lipotimia e cianose dos casos associados com mau controlo da terapêutica com lítio materna. Em alguns casos a depleção de sódio ou terapêutica diurética associadas, podem aumentar a litémia. Se o lítio tem de ser usado até final da gravidez os níveis maternos devem ser cuidadosamente controlados e a depleção de sódio e a terapêutica diurética evitada. Bócio e hipotiroidismo são efeitos secundários bem reconhecidos com terapêutica com lítio nos adultos e casos isolados sugerem que a tiróide fetal pode ser afectada, resultando bócio ou hipotiroidismo transitório. Diabetes insípido nefrogénico foi também descrito em recém-nascido de gravida tomando lítio no final da gravidez, que se resolveu nos 3 meses seguintes; mas pode, no entanto, produzir desidratação grave se não reconhecido a tempo.
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Anti-convulsivantes
Terapêutica com fenitoína ou barbitúricos no final da gravidez produz defeitos da coagulação no recém-nascido que não estão presentes na mãe, parece que actuam de modo semelhante aos anticoagulantes cumarínicos, como antagonistas da vitamina K na carboxilação hepática do precursor da protrombina em protrombina. Está associado com o aumento do risco de hemorragia neonatal, difere da doença hemorrágica do recém-nascido em que a hemorragia ocorre precocemente na maioria das vezes nas primeiras 24 h. Pode ser prevenida pela vitamina K1 que deve ser dada rotineiramente à mãe antes do parto e ao recém-nascido ao nascimento. Plasma fresco deve ser dado ao recém-nascido que sangre. O risco com fenitoína, fenobarbitona e primidona são desconhecidos. Terapêutica anti-convulsivante é conhecido interferir com o metabolismo vitamina D e pode causar osteomalacia e raquitismo. Pouco se conhece sobre o efeito no feto, mas hipocalcemia severa e prolongada foi relatada nos recém-nascidos.
Anestésicos locais – Apesar dos anestésicos locais atravessarem rapidamente a placenta, a concentração no feto e recém-nascido é geralmente baixo. A toxicidade do anestésico pode ocorrer, especialmente a seguir ou bloqueio para cervical ou quando se usam grandes doses. Os sintomas são geralmente depressão neonatal com apneia, lipotimia e bradicardia, mas convulsões também podem ocorrer. Bupivacaina é provavelmente mais seguro que mepivacaina e lidocaína devido à sua maior ligação às proteínas, requerendo menor administração e mais rápida eliminação pelo recém-nascido.
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Efeitos de privação
Os efeitos de privação são um problema sério no manuseamento de bebés de mães dependentes de opiáceos. Dependência «in útero» pode também ocorrer com uso prolongado de analgésico incluindo a pentazocina, propoxifeno e codeína.
O sindroma de privação é bem conhecido nas crianças filhas de dependentes de barbitúricos. Efeitos de privação são raros com as benzodiazepinas, possivelmente devido à sua baixa eliminação pelo recém-nascido, mas foi descrito ocasionalmente após prolongado uso de diazepam e clordiazepoxido. Outras drogas, como os anti-histamínicos, defenidramina e hidroxizina. usadas em altas doses durante a última metade da gravidez pode ocasionalmente produzir efeitos de privação no recém-nascido.
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Dependência de drogas na gravidez
Muitos problemas estão associados na gravidez a mulheres tóxicodependentes e a incidência de complicações médicas e obstétricas é alta. Prematuridade e baixo peso são comuns e a mortalidade peri-natal está aumentada. Depois do nascimento o desenvolvimento mental e físico pode estar alterado. Bebés de grávidas tóxicodependentes desenvolvem sindromas de privação consistindo em irritabilidade, tremor, aumento do tónus muscular, taquipneia, convulsões. A morte pode ocorrer por desidratação e colapso circulatório. Pode ocorrer com o abuso de qualquer narcótico, mas é menos frequente com baixas doses de metadona, no entanto altas doses não são mais seguras que heroína morfina. Os efeitos de privação geralmente aparecem nas primeiras 24 h. após o nascimento, mas podem ser atrasadas dias se são devido à metadona. Efeitos de privação podem ocorrer durante a gravidez ou parto e pode produzir sofrimento fetal e morte intra-uterina. Efeitos de privação no parto podem ser evitados dando à mãe doses adequadas de analgésicos narcóticos. Pequena dose de naloxona deve ser dada se há evidência de depressão respiratória induzida por opiáceos, mas pode induzir efeitos de privação potencialmente letais.
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Analgésicos anti-inflamatórios
Os anti inflamatórios não esteróides – aspirina, indometacina, naproxeno – são inibidores da síntese das prostaglandinas e têm efeitos adversos na gravidez. A terapêutica com alta dose de aspirina durante os últimos 6 meses de gravidez está associada com aumento do tempo de gestação, alta incidência de post-maturidade e aumento da duração do trabalho de parto. Indometacina e outros são usados para suprimir o parto pré-termo e aumento da duração do trabalho deve ser esperado na mulher recebendo anti inflamatórios não esteróides para indicações não obstétricas como artrite reumatóide. Hipertensão pulmonar persistente foi descrita depois do uso de indometacina e naproxeno para atrasar o parto pré-termo e noutras situações em que indometacina e aspirina foram tomada em altas doses no 3º trimestre. A hipoxia induz vasoconstrição renal. O oligo-amnios e anemia transitória foram relatadas quando a mãe tomou aspirina e indometacina no 2º trimestre. A Aspirina altera a função plaquetária e prolonga o tempo de hemorragia e há aumento do risco de hemorragia antes e pós parto.
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Imunossupressores
Os problemas de bebés de mães com transplante renal incluem níveis reduzidos de imunoglobulinas, hipoplasia medular com trombocitopenia e leucopenia, infecções e ACIU a maioria pode ser atribuído à imunossupressão crónica ou aos efeitos citotóxicos da azatioprina. Depressão da hematopoiese fetal parece estar relacionada com a dose e pode ser prevenida reduzindo a dose da glucoconil transforese de maneira a manter os leucócitos maternos nos limites normais para a gravidez.
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Hiperbilirrubinémia neonatal
Os recém-nascidos conjugam pouco a bilirrubina na 1ª semana de vida devido à imaturidade da glucoconil transferase hepáticas.
Hiperbilirrubinemia é comum, especialmente nos recém-nascidos prematuros e tem risco potencial de Kernicterus. Apenas a bilirrubina não conjugada, que não é transportada no soro pela albumina pode ultrapassar a barreira hematoencefálica, então o Kernicterus só aparece quando a capacidade de transporte da albumina é excedida.
As drogas aumentam o risco de Kernicterus por vários processos:
1. deslocando a bilirrubina não conjugada da albumina nos recém-nascido ictéricos drogas que são transportadas pelas proteínas e que atingem grandes concentrações no soro podem deslocar bilirrubina suficiente e causam Kernicterus com excepção das sulfonamidas de longa-acção. Isto pode ocorrer teoricamente com a aspirina e tolbutamida;
2. aumenta a bilirrubina não conjugada do soro causando hemólise. Os glóbulos vermelhos do recém-nascido são mais sensíveis às lesões oxidativas do que as células maduras. Drogas que podem produzir hemólise são, sulfonamidas, sulfazalarina, dapsona, anti-maláricos, fenacetina, peracetina, naftaleno, nitrofurantoína e análogos sintéticos da vitamina K (não vit. K1). São necessárias grandes doses destas drogas para produzir hemólise, mas recém-nascido com deficiência de desidrogenase da glicose – fosfato mesmo com pequenas doses pode acontecer;
3. por aumento da bilirrubina não conjugada competindo com o mecanismo da glucoronil transferase. O exemplo bem documentado é a novobiocina (raramente usada).
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Oxitocina
Em 1970 muitos estudos sugeriram que a incidência de icterícia neo-natal estava a aumentar e isto estava associado com TP. induzidos e que o uso de oxitocina pode ser um factor causal, no entanto até hoje isto permanece em discussão.
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Metahemoglobinémia neonatal
Glóbulos vermelhos imaturos são deficientes na metahemoglobinemia redutase e têm aumento de susceptibilidade às drogas que induzem metahemoglobinemia como sulfonamidas e sulfazalazina, dapsona e anestésicos locais - pilocaina, procaina, tenacetina, primaquina e naftaleno.
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Bibliografia
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