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Parte II – Promoção e protecção da saúde nas diferentes fases de vida
2.8. Saúde do idoso
96. Reforma e função social Maria José Ribas

Documento de trabalho
última actualização em Dezembro 2000

Contacto para comentários e sugestões: Ribas, Mª José


A transição para a velhice tem na reforma um evento maior. A reforma corresponde ao período da vida do indivíduo em que este deixa de ter uma actividade produtiva e passa a estar retirado dos negócios ou do estado de empregado e recebe uma pensão. O seu início foi convencionado aos 65 anos, mas varia entre profissões; quanto maior a hierarquia socio-profissional mais elevada tende a ser a idade de reforma.
O tempo que decorre entre o momento da reforma e a morte tem vindo a aumentar à medida que a esperança média de vida aumenta. Este aumento de tempo livre pode ser vivido de forma negativa, com sentimentos de inutilidade, improdutividade e tédio e consequências nefastas na satisfação e percepção de bem-estar.
Uma das consequências do actual sistema de trabalho é a de não permitir à pessoa que atingiu a idade da reforma reduzir gradualmente o tempo que dedica a actividades remuneradas e aumentar pouco a pouco o tempo em passatempos, viagens ou simplesmente a não fazer nada. A transição de um estádio ao outro é radical, sem etapas intermédias e numa mesma idade para toda a gente. Esta rigidez adquire especial gravidade em momentos nos quais o inevitável declínio físico tornaria muito mais aconselhável uma retirada gradual do mundo laboral.
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Reacções à reforma
A reforma é um tempo de mudanças e reajustes. Para a maioria das pessoas, é um momento muito esperado, pois as pressões, exigências e prazos próprios do trabalho deixam de existir. Para outros, é uma experiência traumática envolvendo perda de estatuto, baixa de auto-estima, falta de objectivos e sensação de já não ser necessário.
A vivência da reforma varia com a sua duração e está dependente de factores individuais (sexo, personalidade), económicos (tipo de pensão, valores acumulados) e sociais (rede de amigos, relação familiar, isolamento, local de residência). A sensação de isolamento aumenta se as condições económicas e de saúde são más e diminui se existe um bom suporte familiar.
O trabalhador vê aproximar-se a idade da reforma com uma atitude ambivalente. O seu lugar na sociedade mudou. Não é já um trabalhador mas sim um membro da chamada terceira idade. Como toda a pessoa que inicia uma nova etapa na sua vida, sente-se inseguro e é ajudado pela certeza de que o melhor da vida já passou e de que caiu em decadência. Apesar da experiência, é ultrapassado pelos jovens em matéria de conhecimentos. Pela primeira vez na vida, tem de preocupar-se em ter ocupações, um paradoxo para quem teve até agora de arranjar tempo livre no meio dos dias de trabalho.
As consequências da passagem à reforma dependem da própria profissão e da forma como ela foi vivida pelo indivíduo. De um modo geral, profissões dependentes das capacidades físicas e da habilidade manual são as mais fortemente afectadas pelo envelhecimento social. Do mesmo modo, existe provavelmente uma ligação entre uma velhice "rabugenta" e o exercício prévio de uma profissão destituída de interesse para o indivíduo.
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Modificações positivas e negativas na vida do indivíduo
A reforma é um tempo de perdas e fracturas, causa perturbações no equilíbrio físico e psicológico e tem repercussões na saúde, no comportamento e nos vários campos de actividade:
- na vida activa: o indivíduo passa de um estado de actividade profissional intensa a um estado de repouso compulsivo, livremente consentido ou imposto;
- na organização das ocupações diárias: subitamente, os horários de trabalho, de refeições e de repouso, que atingiram um elevado grau de automatismo após anos sem mudanças, tornam-se inúteis, deixam de corresponder a uma situação objectiva. As actividades de lazer não conseguem geralmente substituir este ritmo. Para a mulher que continua a ocupar-se da sua casa como dantes, a mudança é menos profunda do que para o homem ou a mulher que exercem uma profissão;
- na saúde: percepções de uma saúde pobre conduzem a limitações na actividade e um auto-conceito negativo. A saúde sofre alterações no plano físico e psicológico. Foi observado que o índice de mortalidade é mais elevado no primeiro ano após a reforma e que a depressão atinge mais frequentemente aqueles que acabam de se reformar. Não é raro que justamente após a reforma se dê um envelhecimento que leva a um fim de vida precoce.
- na vida social: a falta de trabalho representa a exclusão do circuito de actividade. Na reforma perde-se parte do eu social, abandona-se um papel principal no mundo, com o que está implicada necessariamente uma perda do significado social. Além de uma ruptura nas relações profissionais, regista-se uma modificação na natureza de certas relações (já não se pode usar a gíria do emprego) e uma alteração radical nas relações com o cônjuge (passou-se de 12 a 15 horas de vida comum para 24 horas por dia) de onde pode resultar uma perturbação no equilíbrio afectivo do casal.
- na vida familiar: a perda do desempenho profissional modifica o papel dentro da família, que adquire outra importância, com uma acentuação das relações familiares ou do isolamento prévio.
- nas condições económicas: a capacidade socio-económica afecta os sentimentos de segurança, competência e controle da vida. Com a reforma, o produtor-consumidor torna-se apenas consumidor, assume o papel de "sustentado", o que o identifica mais com a criança do que com os adultos e altera as suas relações com a sociedade. O indivíduo "nasce" outra vez, tornando-se consumidor e vivendo dos "dividendos" do trabalho realizado. Por outro lado, a perda de uma parte dos rendimentos causa uma modificação do orçamento, com as inevitáveis repercussões psicológicas e fisiológicas.
- na vida cultural e nos lazeres: o indivíduo encontra-se de súbito perante a necessidade de substituir o trabalho pelo ócio e passa de uma situação em que pouco tempo é consagrado às distracções para outra com muito mais tempos livres. Se as horas de ócio o compensam amplamente desta perda de ganhos, ele sente os benefícios da reforma. Se, pelo contrário, as perdas associadas à reforma não são compensadas pelo ócio, ele tem tendência para tentar perpetuar a situação de trabalho, sentindo que a reforma o prejudica.
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Soluções
A reforma não pode ser um intervalo estéril entre o trabalho e a morte, mas sim um período de bem-estar e uma oportunidade para contribuir para a sociedade. Embora a transição para a reforma seja feita habitualmente de forma fácil, a obtenção de uma vida completamente satisfatória requer planeamento e antecipação. A falha em preparar e planear a reforma resulta em ordenados inadequados, objectivos de vida pobres e inactividade.
São os próprios indivíduos, com a contribuição da sociedade, que devem criar as condições favoráveis para que o reformado possa escolher o modo de vida que melhor se adapta à sua personalidade. Na preparação das actividades e lazeres convém ter em consideração a diminuição física que frequentemente acompanha o envelhecimento.
A capacidade de se manter activo e desenvolver e manter relações com terceiros é imperativa para o sucesso do envelhecimento. Não se podem criar «hobbies»; só se podem aperfeiçoar os que já existiam. Por isso, estão em melhores condições de adaptação aqueles que já se dedicavam a outras tarefas para além do trabalho.
Os sentimentos de inutilidade podem ser ultrapassados quando são escolhidas actividades que promovem o conceito de competência. Uma atitude positiva para com a vida influencia a satisfação do indivíduo, bem como a satisfação com a reforma.
Os programas educativos sobre a reforma devem incluir questões sobre o envelhecimento e os problemas do idoso. Nunca é demasiado cedo para os abordar e o médico tem um papel nesta abordagem.
Em muitas partes do mundo fazem-se cursos pré-reforma, que incluem aconselhamento e planeamento financeiro, avaliação da saúde, «hobbies», relações interpessoais e filosofia de vida. A Internet contém inúmeros locais dedicados à reforma e à população reformada. Algumas empresas conduzem programas de planeamento pré reforma para os seus empregados e estão à disposição livros e manuais sobre o tema para assistir os indivíduos a auto educarem-se para uma vida activa, interessante e de sucesso após a reforma.
Normalmente é sugerida uma estratégia por passos, que envolve:
- recolha de material necessário sobre matérias financeiras, habitação, saúde, boa forma física e passatempos, se possível ainda durante a vida activa;
- discussão com outros indivíduos nas mesmas condições ou conselheiros profissionais, que podem contribuir com ideias e perspectivas diferentes;
- definição de um plano realista, específico e pessoal, incluindo os aspectos financeiros, a manutenção da saúde e forma física, habitação e uso dos tempos livres, que deve ter em conta pelo menos uma ocupação individual e uma actividade colectiva, uma actividade ao ar livre e um divertimento em casa, um exercício físico e uma distracção repousante (ex. passeios, leitura, jogos, prática de desportos, interesse pelas artes, artesanato, jardinagem, animais de estimação, universidades seniores, coleccionismo, etc.);
- pôr por escrito os objectivos e plano definidos e revê-los periodicamente.
Reforma não implica ociosidade nem monotonia. A vida quotidiana deve manter-se regrada, com horários de sono, de refeições, etc. Para tal, é preciso ter hábitos, objectivos diários a cumprir, tarefas regulares para que esta fase da vida possa ser vivida de forma saudável.
As pessoas que aproveitam a reforma, vêm este período como um desafio a acrescentar à experiência de uma vida passada. Aqueles que tiveram a sorte de encontrar no trabalho a alegria e satisfação ambicionadas pensarão que a reforma é a sequência natural da sua vida de trabalho; os que não suportaram durante dezenas de anos um trabalho de que não gostavam podem esperar da reforma as satisfações que não tiveram.
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