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A transição
para a velhice tem na reforma um evento maior. A reforma corresponde ao
período da vida do indivíduo em que este deixa de ter uma
actividade produtiva e passa a estar retirado dos negócios ou do
estado de empregado e recebe uma pensão. O seu início foi
convencionado aos 65 anos, mas varia entre profissões; quanto maior
a hierarquia socio-profissional mais elevada tende a ser a idade de reforma.
O tempo que decorre entre o momento da reforma e a morte tem vindo a aumentar
à medida que a esperança média de vida aumenta. Este
aumento de tempo livre pode ser vivido de forma negativa, com sentimentos
de inutilidade, improdutividade e tédio e consequências nefastas
na satisfação e percepção de bem-estar.
Uma das consequências do actual sistema de trabalho é a de
não permitir à pessoa que atingiu a idade da reforma reduzir
gradualmente o tempo que dedica a actividades remuneradas e aumentar pouco
a pouco o tempo em passatempos, viagens ou simplesmente a não fazer
nada. A transição de um estádio ao outro é
radical, sem etapas intermédias e numa mesma idade para toda a
gente. Esta rigidez adquire especial gravidade em momentos nos quais o
inevitável declínio físico tornaria muito mais aconselhável
uma retirada gradual do mundo laboral.
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Reacções
à reforma
A reforma é um tempo de mudanças e reajustes. Para a maioria
das pessoas, é um momento muito esperado, pois as pressões,
exigências e prazos próprios do trabalho deixam de existir.
Para outros, é uma experiência traumática envolvendo
perda de estatuto, baixa de auto-estima, falta de objectivos e sensação
de já não ser necessário.
A vivência da reforma varia com a sua duração e está
dependente de factores individuais (sexo, personalidade), económicos
(tipo de pensão, valores acumulados) e sociais (rede de amigos,
relação familiar, isolamento, local de residência).
A sensação de isolamento aumenta se as condições
económicas e de saúde são más e diminui se
existe um bom suporte familiar.
O trabalhador vê aproximar-se a idade da reforma com uma atitude
ambivalente. O seu lugar na sociedade mudou. Não é já
um trabalhador mas sim um membro da chamada terceira idade. Como toda
a pessoa que inicia uma nova etapa na sua vida, sente-se inseguro e é
ajudado pela certeza de que o melhor da vida já passou e de que
caiu em decadência. Apesar da experiência, é ultrapassado
pelos jovens em matéria de conhecimentos. Pela primeira vez na
vida, tem de preocupar-se em ter ocupações, um paradoxo
para quem teve até agora de arranjar tempo livre no meio dos dias
de trabalho.
As consequências da passagem à reforma dependem da própria
profissão e da forma como ela foi vivida pelo indivíduo.
De um modo geral, profissões dependentes das capacidades físicas
e da habilidade manual são as mais fortemente afectadas pelo envelhecimento
social. Do mesmo modo, existe provavelmente uma ligação
entre uma velhice "rabugenta" e o exercício prévio
de uma profissão destituída de interesse para o indivíduo.
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Modificações
positivas e negativas na vida do indivíduo
A reforma é um tempo de perdas e fracturas, causa perturbações
no equilíbrio físico e psicológico e tem repercussões
na saúde, no comportamento e nos vários campos de actividade:
- na vida activa: o indivíduo passa de um estado de actividade
profissional intensa a um estado de repouso compulsivo, livremente consentido
ou imposto;
- na organização das ocupações diárias:
subitamente, os horários de trabalho, de refeições
e de repouso, que atingiram um elevado grau de automatismo após
anos sem mudanças, tornam-se inúteis, deixam de corresponder
a uma situação objectiva. As actividades de lazer não
conseguem geralmente substituir este ritmo. Para a mulher que continua
a ocupar-se da sua casa como dantes, a mudança é menos profunda
do que para o homem ou a mulher que exercem uma profissão;
- na saúde: percepções de uma saúde pobre
conduzem a limitações na actividade e um auto-conceito negativo.
A saúde sofre alterações no plano físico e
psicológico. Foi observado que o índice de mortalidade é
mais elevado no primeiro ano após a reforma e que a depressão
atinge mais frequentemente aqueles que acabam de se reformar. Não
é raro que justamente após a reforma se dê um envelhecimento
que leva a um fim de vida precoce.
- na vida social: a falta de trabalho representa a exclusão do
circuito de actividade. Na reforma perde-se parte do eu social, abandona-se
um papel principal no mundo, com o que está implicada necessariamente
uma perda do significado social. Além de uma ruptura nas relações
profissionais, regista-se uma modificação na natureza de
certas relações (já não se pode usar a gíria
do emprego) e uma alteração radical nas relações
com o cônjuge (passou-se de 12 a 15 horas de vida comum para 24
horas por dia) de onde pode resultar uma perturbação no
equilíbrio afectivo do casal.
- na vida familiar: a perda do desempenho profissional modifica o papel
dentro da família, que adquire outra importância, com uma
acentuação das relações familiares ou do isolamento
prévio.
- nas condições económicas: a capacidade socio-económica
afecta os sentimentos de segurança, competência e controle
da vida. Com a reforma, o produtor-consumidor torna-se apenas consumidor,
assume o papel de "sustentado", o que o identifica mais com
a criança do que com os adultos e altera as suas relações
com a sociedade. O indivíduo "nasce" outra vez, tornando-se
consumidor e vivendo dos "dividendos" do trabalho realizado.
Por outro lado, a perda de uma parte dos rendimentos causa uma modificação
do orçamento, com as inevitáveis repercussões psicológicas
e fisiológicas.
- na vida cultural e nos lazeres: o indivíduo encontra-se de súbito
perante a necessidade de substituir o trabalho pelo ócio e passa
de uma situação em que pouco tempo é consagrado às
distracções para outra com muito mais tempos livres. Se
as horas de ócio o compensam amplamente desta perda de ganhos,
ele sente os benefícios da reforma. Se, pelo contrário,
as perdas associadas à reforma não são compensadas
pelo ócio, ele tem tendência para tentar perpetuar a situação
de trabalho, sentindo que a reforma o prejudica.
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Soluções
A reforma não pode ser um intervalo estéril entre o trabalho
e a morte, mas sim um período de bem-estar e uma oportunidade para
contribuir para a sociedade. Embora a transição para a reforma
seja feita habitualmente de forma fácil, a obtenção
de uma vida completamente satisfatória requer planeamento e antecipação.
A falha em preparar e planear a reforma resulta em ordenados inadequados,
objectivos de vida pobres e inactividade.
São os próprios indivíduos, com a contribuição
da sociedade, que devem criar as condições favoráveis
para que o reformado possa escolher o modo de vida que melhor se adapta
à sua personalidade. Na preparação das actividades
e lazeres convém ter em consideração a diminuição
física que frequentemente acompanha o envelhecimento.
A capacidade de se manter activo e desenvolver e manter relações
com terceiros é imperativa para o sucesso do envelhecimento. Não
se podem criar «hobbies»; só se podem aperfeiçoar
os que já existiam. Por isso, estão em melhores condições
de adaptação aqueles que já se dedicavam a outras
tarefas para além do trabalho.
Os sentimentos de inutilidade podem ser ultrapassados quando são
escolhidas actividades que promovem o conceito de competência. Uma
atitude positiva para com a vida influencia a satisfação
do indivíduo, bem como a satisfação com a reforma.
Os programas educativos sobre a reforma devem incluir questões
sobre o envelhecimento e os problemas do idoso. Nunca é demasiado
cedo para os abordar e o médico tem um papel nesta abordagem.
Em muitas partes do mundo fazem-se cursos pré-reforma, que incluem
aconselhamento e planeamento financeiro, avaliação da saúde,
«hobbies», relações interpessoais e filosofia
de vida. A Internet contém inúmeros locais dedicados à
reforma e à população reformada. Algumas empresas
conduzem programas de planeamento pré reforma para os seus empregados
e estão à disposição livros e manuais sobre
o tema para assistir os indivíduos a auto educarem-se para uma
vida activa, interessante e de sucesso após a reforma.
Normalmente é sugerida uma estratégia por passos, que envolve:
- recolha de material necessário sobre matérias financeiras,
habitação, saúde, boa forma física e passatempos,
se possível ainda durante a vida activa;
- discussão com outros indivíduos nas mesmas condições
ou conselheiros profissionais, que podem contribuir com ideias e perspectivas
diferentes;
- definição de um plano realista, específico e pessoal,
incluindo os aspectos financeiros, a manutenção da saúde
e forma física, habitação e uso dos tempos livres,
que deve ter em conta pelo menos uma ocupação individual
e uma actividade colectiva, uma actividade ao ar livre e um divertimento
em casa, um exercício físico e uma distracção
repousante (ex. passeios, leitura, jogos, prática de desportos,
interesse pelas artes, artesanato, jardinagem, animais de estimação,
universidades seniores, coleccionismo, etc.);
- pôr por escrito os objectivos e plano definidos e revê-los
periodicamente.
Reforma não implica ociosidade nem monotonia. A vida quotidiana
deve manter-se regrada, com horários de sono, de refeições,
etc. Para tal, é preciso ter hábitos, objectivos diários
a cumprir, tarefas regulares para que esta fase da vida possa ser vivida
de forma saudável.
As pessoas que aproveitam a reforma, vêm este período como
um desafio a acrescentar à experiência de uma vida passada.
Aqueles que tiveram a sorte de encontrar no trabalho a alegria e satisfação
ambicionadas pensarão que a reforma é a sequência
natural da sua vida de trabalho; os que não suportaram durante
dezenas de anos um trabalho de que não gostavam podem esperar da
reforma as satisfações que não tiveram.
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