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Parte III - Saúde e ambientes
3.1. Ambiente famíliar
109. A síndroma do «ninho vazio»
Luísa J. M. N. Brito da Luz
João Pedro A. Brito da Luz
Documento de trabalho
última actualização em Dezembro 2000

Contacto para comentários e sugestões: Laginha, Teresa

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Introdução
A saída de casa do último filho inicia uma nova fase para a família, designada por McIver em de «ninho vazio». O casal encontra-se de novo a sós, tal como no princípio do seu relacionamento. É um período caracterizado pela descoberta, afirmação e definição de uma nova relação marital.
Face às novas experiências que se avizinham, os pais que viveram relações familiares intensas, são tomados num primeiro momento por sentimentos de perda. É no entanto desejável que assim aconteça, dando lugar à transformação do «vazio» (perda), num novo espaço geracional.
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“Ninho Vazio” – uma crise?
Duvall e Hill deram os primeiros passos no estudo do desenvolvimento das diferentes fases do ciclo de vida familiar. Descreveram um conjunto de tarefas evolutivas, em que a família vive momentos de intenso «stress» e é obrigada a negociar para transitar ao longo dos diversos estádios (novos ajustamentos e adaptações).
Erickson introduz o termo «crise normativa» procurando enfatizar que o normal desenvolvimento ao longo dos estádios envolve particular tensão psicológica. Surgem incertezas, dúvidas sobre capacidades para enfrentar novas situações e talvez alguma resistência em largar a estabilidade do estádio anterior. Na chamada crise do «ninho vazio», surge o confronto com os limites da própria existência, que vem alterar não só a vivência conjugal mas também valores e prioridades da vida. Não podemos no entanto, reduzir esta crise aos seus aspectos meramente negativos (movimento descendente de perda, de saída, de luto).
É aceite pela maioria dos autores a proposta de Levinson que situou os eventos mais significativos desta fase da vida familiar na chamada meia idade («mid-life»), entre os 45 e os 55 anos.
Ainda possuidores de metade da vida para viver, estão numa posição que lhes permite desenvolver novas ambições e interesses complementares, incentivando a satisfação (individual) e a felicidade do casal. A chamada «crise do ninho vazio» é de acordo com as actuais ideias sistémicas, mais um «mito colectivo»,(Ana Paula Relvas) do que uma experiência da vida real.
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Uma geração que sai de casa
A saída dos filhos de casa dos pais é um desafio para as gerações envolvidas. Falamos da família multigeracional face a mudança, quase sempre brusca mas necessária. Se a geração dos pais procura restabelecer o seu relacionamento, a dos filhos procura construir a sua autonomia. Para ambos é um tempo de novidade, aprendizagem e conquista. 
Há filhos que saem sozinhos, simplificando a história familiar (só movimento de saída), outros saem constituindo desde logo novas famílias, o que complexifica este processo com o intercruzamento de novas histórias familiares. Todo o contexto familiar se refaz com novas adaptações e flexibilizando os seus relacionamentos.
Sentimentos ambivalentes podem manifestar-se de acordo com o grau de independência e autonomia alcançadas. Em muitos casos o pai ainda se mantém muito ligado às suas exigências profissionais, absorvendo grande parte da sua vida activa; a mãe por outro lado, pode reagir como se algo dela própria lhe fosse «arrancado», vivendo esta separação com tristeza, depressão ou mesmo hostilidade (no mundo ocidental há uma forte expectativa que ser boa mãe é sinónimo de dedicação contínua e auto-sacrifício).
Ocorrem por vezes situações em que comportamentos de manipulação no seio da família (conscientes ou não), se revelam através de sintomas psicossomáticos – ansiedade, depressão, patologia cardíaca ou respiratória, etc. – condicionando a saída do último filho.
Prevenir passa por preparar antecipadamente a partida dos filhos, o que pode ser uma tarefa que cabe aos técnicos, ajudando a família a descobrir e a dedicar-se a novos interesses exteriores.
A chegada dos netos vem por vezes restabelecer este período mais crítico elevando o papel dos avós a um suporte válido face às novas exigências familiares. Estes contribuem para o sentido de continuidade, história e pertença do sistema familiar.
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O casal volta a encontrar-se
O casal livre das tarefas parentais, termina agora um longo período da sua vida em que as responsabilidades inerentes a múltiplas funções quase fizeram esquecer a sua relação a dois. Subitamente o espaço físico (habitação) fica desadequado, é necessário reestruturar as relações sociais e familiares, as questões financeiras e as exigências profissionais alteram-se de acordo com rápidas mudanças da actividade produtiva. É desejável que cada elemento do casal realize novos investimentos quer em si mesmo, quer na relação mútua.
Existem sentimentos de libertação e satisfação marital em oposição a outros de vazio e de perda, dos quais é necessário realizar um eficaz trabalho de luto.
Quando se pensava que o sucesso de um casamento longo se devia a uma troca de interesses e partilha de estilos semelhantes de vida, um trabalho de Maas e Kuypers, vem trazer uma ideia inteiramente nova, oposta ao esperado: casamentos longos e felizes resultam de uma relação de igualdade, em que cada um gere com alguma independência os seus interesses e estilos de vida.
Outros aspectos assumem uma relevante importância: as questões de saúde e do bem-estar, a reforma de um ou de ambos os elementos, os novos papéis sociais e ainda a actividade sexual. Em suma, o casal reencontra-se e faz depender a construção de uma nova realidade, do grau de autonomia quer de um em relação ao outro quer como parceiros de uma entidade única. Para Ana Paula Relvas “...o que parece poder-se concluir é que os aspectos de maior dificuldade a todos os níveis, surgem imediatamente na sequência da saída dos filhos de casa. A este período segue-se um aumento geral de satisfação conjugal, mesmo em termos do relacionamento sexual, acompanhado por um renovar de interesses e participação em diversas actividades”.
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Cuidar das gerações anteriores
Como já descrito, esta fase da vivência familiar permite o reatar da relação conjugal, o alívio financeiro, oportunidades novas para os tempos de lazer, etc... Porém o casal, pode ver-se a cargo com o cuidar dos seus próprios pais idosos, doentes e dependentes. É muitas vezes a mulher, que planeou a sua vida para a fase após a saída dos filhos (Neugarten) (retomar a actividade profissional, dedicar-se a si própria e a novos interesses) quem fica mais constrangida pela responsabilidade em acompanhar os pais. Estas tarefas devem ser modeladas de modo a não interferir com o que está enraizado na geração mais velha (hábitos, rituais).
Na meia-idade, enfrentam-se os problemas de saúde dos familiares em simultâneo com o próprio risco de morbilidade aumentado (alterações relacionadas com a menopausa, doenças cardiovasculares, diabetes, etc.).
Talbot e Christie-Seely et al, referem que na realidade actual, perante a grande mobilidade geográfica que existe, há barreiras físicas impostas pelas distâncias que separam as famílias. Este facto pode impedir que este apoio aos idosos isolados se concretize. A resolução passa por alargar e enriquecer a rede de suporte social.
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Conclusão
Cabe ao médico de família antecipar em devido tempo as questões e sugestões que permitam ao casal nesta fase do seu ciclo de vida, utilizar da forma mais criativa o seu tempo (familiar, social e profissional); de forma suave ficam assim aptos, talvez com os filhos ainda em casa, a enfrentar este período de transição. 
Pretende-se que se mantenha uma sensibilidade muito especial para os problemas inerentes ao desenvolvimento da chamada crise da meia-idade, nomeadamente para os problemas de saúde associados. 
Antecipar o desenvolvimento de novas capacidades e aptidões, assim como promover cuidados de saúde e bem-estar, prepara o casal para a próxima e última fase do ciclo de vida familiar, enfatizando a importância da comunicação e suporte mútuo.
Deixamos ainda algumas questões para reflexão e investigação:
1. passam todos os casais pela síndroma do «ninho vazio»?
2. será esta fase do ciclo de vida familiar uma verdadeira crise?
3. quais as influências dos factores sociais, económicos, culturais, tecnológicos e civilizacionais nesta fase?
4. este estádio é vivido com a mesma intensidade afectiva e emocional para ambos os membros do casal?
5. será indiferente para o casal viver esta fase aos 40, 50 ou 60 anos?
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