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Parte III - Saúde e ambientes
3.3. Ambiente laboral
118. Desemprego e saúde
Valério Capaz
Documento de trabalho
última actualização em Dezembro 2000

Contacto para comentários e sugestões: Hespanhol, Alberto P.

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Introdução
Para o médico de clínica geral/medicina familiar importa reter a ideia de que o trabalho em si tem implicações quer positivas quer negativas na saúde e bem-estar do indivíduo e da sua família como sistema.
O conceito de saúde e bem-estar como tem sido apresentado pela Organização Mundial de Saúde necessita de ser reformulado para se tornar mais operacional, resultando que a saúde não será um fim em si mas antes um meio para atingir o bem-estar físico, psíquico e social. Dejour precisou o conceito de saúde que teria mais a ver com o grau de liberdade que cada um de nós em termos individuais e integrados numa família tem no seu dia-a-dia de: regular as variações ou os ritmos do seu organismo; organizar a sua vida de acordo com o seu desejo, necessidades e expectativas; e de agir só ou em conjunto (família e outros sistemas) sobre múltiplas variáveis que modelam o ambiente onde se vive, trabalha ou simplesmente se está.

O desemprego em si tem de um modo geral consequências sérias e graves na saúde do indivíduo e da família onde se encontra integrado quer de um modo imediato quer a longo prazo. Segundo Ian R. Mcwhinney «a perda de emprego com a subsequente perda de rendimento, de auto-respeito e de posição social, é traumática não só para o indivíduo mas também para família». A família, apesar das alterações que se vão processando, é uma organização ou sistema social que apresenta características comuns a outros sistemas, em que as várias partes e processos se interrelacionam entre si. O sistema familiar vai-se alterando com o decorrer do tempo e à medida de que cada indivíduo vai envelhecendo. Toda e qualquer modificação que surja numa das partes do sistema familiar repercutir-se-á em todos os elementos da família, o desemprego de um dos elementos representa um trauma a que a família está sujeita nessa altura e nesse momento sendo gerador de stress familiar, que se poderá prolongar muito tempo, dependendo da resposta que cada família der a esse evento.
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O problema na Clínica Geral – Medicina Familiar
O número de desempregados em Portugal, nestes últimos três anos (1996/1998) tem vindo a diminuir, segundo dados fornecidos pelo Instituto Nacional de Estatística, e no final do primeiro trimestre de 1999 a taxa que mede o número de população activa sem emprego estimava-se em 4.7%. Este cenário vem demonstrando uma crescente relação entre a evolução da economia e o emprego uma vez que não obstante o ritmo de crescimento ter registado uma variação mais modesta durante o referido trimestre, ainda assim, permitiu uma descida do número de desempregados. Efectivamente no primeiro trimestre do ano de 1998 o número de desempregados ultrapassava os 291 000, mas no final de Março de 1999 o desemprego só atingia 237 900 portugueses, verificando-se no entanto que as mulheres eram as mais atingidas com 54.5% do total de desempregados.
Em qualquer lista de utentes de um clínico geral/médico de família existe a categoria de população activa que, salvaguardadas as devidas assimetrias regionais, representará cerca de 45% a 50% do total do universo da lista, e assim é fácil depreender o valor de desempregados calculados em cada lista de utentes.
Como abordamos e lidamos no nosso dia-a-dia com esta situação?
Por vezes o que nos é apresentado é uma multiplicidade de queixas em diferentes membros da família como descreveremos abaixo.

Caso
Uma mãe trouxe o seu filho de 9 anos à consulta para serem os dois consultados. O motivo da consulta do seu filho prendia-se com uma informação escrita pela professora de mau rendimento escolar, ocorrido desde há algum tempo. A criança até a aí tinha tido um bom rendimento escolar. O motivo da consulta da mãe era a ansiedade motivada pelas queixas do seu filho. Procurámos averiguar o que poderia ter desencadeado estas duas consultas e ao fim de algum diálogo conseguimos aperceber-nos que há sensivelmente 4 meses atrás o pai estava desempregado e ultimamente fazia um consumo excessivo de bebidas alcoólicas.

A perda de emprego do mesmo modo que a perda de um ente querido, de uma gravidez, perda de saúde e mesmo de bens estimados são traumas emocionais que se repercutem no indivíduo. Essa perda terá efeitos profundos não só na mente como no corpo tornando a pessoa particularmente mais vulnerável a determinado tipo de doenças, levando normalmente a uma série de acontecimentos geradores de stress que se instalam desde a antecipação da perda do emprego propriamente dita, passando pelo próprio despedimento até à procura de um novo emprego e à preparação para o facto de voltar a trabalhar.
De entre as consequências que a perda de emprego implica no próprio indivíduo elas poderão ser a curto, a médio e a longo prazo.
A curto prazo podem traduzir-se em crise psicológica, diminuição da auto-estima, insegurança, sentimentos de medo, vergonha e impotência, fadiga, angústia e depressão, distúrbios emocionais, aumento de conflitual idade familiar e mesmo divórcio para além do aumento de consumo de álcool e tabaco. 
Infelizmente existem poucos estudos clínicos, epidemiológicos e sociais que abordem o problema do desemprego e as implicações na saúde, num dos estudos, da literatura anglo-saxónica, longitudinal, sobre o efeito da perda de emprego na saúde dos trabalhadores verificou-se aumentos significativos em determinados parâmetros bioquímicos como o cortisol, na prolactina, na hormona de crescimento, no colesterol total e nas HDL para além de diminuição em reacções imunes.
A médio e longo prazo as consequências poderão apresentar-se através de perturbações cardiovasculares (hipertensão arterial, doença isquémica do coração) problemas gástricos (úlcera péptica).
Dentro de todas as consequências para a saúde do indivíduo desempregado o suicídio foi o que apresentou, na bibliografia consultada, uma correlação francamente positiva com a condição de desempregado.
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Avaliação diagnóstica
O desemprego está descrito como estando associado a taxas mais elevadas de morbilidade e mortalidade. A prevalência de determinados distúrbios mentais como a ansiedade e a depressão está conscientemente relacionado com o desemprego, independentemente da classe social do desempregado. Segundo Ian R. Mcwhinney a família tem vários efeitos na saúde dos seus membros, a saber: todo o indivíduo é o produto do seu genótipo e o meio ambiente (consideramos aqui também a sua situação relativamente ao trabalho); algumas famílias são mais vulneráveis à doença do que outras sendo reconhecido que a estabilidade emocional de um dos progenitores, e no caso vertente desempregado, tem influência na taxa de doença na família no seu todo quer nas crianças quer nos progenitores; determinados factores familiares influenciam a morbilidade e a mortalidade, sendo o desemprego um factor gerador de stress que só por si é um dos factores de risco para as doenças cardiovasculares.
A própria utilização de serviços médicos através do número de consultas em períodos de stress familiar poderá ser o indício de doença, não obstante a visibilidade do clínico geral/médico de família ser praticamente nula para um desempregado (o que vou fazer ao médico de família se estou desempregado?... ).
A família também é importante na recuperação da doença, pois desde que esta forneça apoio e carinho e esteja minimamente envolvida nas soluções a desenvolver para a resolução do desemprego de um dos seus elementos funcionará como um óptimo suporte social.
A abordagem de clínica geral/ medicina familiar dos problemas que o desemprego poderá provocar na família passa por uma atitude adequada do clínico geral/médico de família no acto de «pensar a família», sendo sensível às tensões familiares não verbalizadas que por vezes estão por detrás da angústia e da depressão bem como de outros sintomas somáticos, e é necessário ter consciência de algumas armadilhas que vão aparecendo no decorrer do raciocínio clínico.
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Pontos práticos
As referências abaixo denominadas procuram resumir as tarefas a desenvolver por um clínico geral/médico de família em famílias com desempregados:
1. Procurar as famílias vulneráveis e fornecer-lhes apoio adicional;
2. Fornecer sempre informação útil sobre toda e qualquer pergunta;
3. Mostrar disponibilidade quer física e mental em períodos de crise;
4.Tenha em atenção o denominado «paciente oculto»;
5. Sempre que não se ache com capacidade para abordar o assunto sozinho alargue a outros profissionais (médicos e não médicos) o suporte social ao desempregado, trabalhando em equipa (Segurança Social, Centro de Emprego, Grupos de Auto-Ajuda). 
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