|
1
Introdução
O cancro do colo do útero, é a segunda neoplasia mais frequente
nas mulheres de todo o mundo, calculando-se que surjam 490 000 novos casos
anualmente, pelo que continua a ser um grave problema de saúde
pública.
A Convenção do «National Cancer Institute» (USA)
em 1993 demonstrou que, no período de 1973 a 1990 a incidência
do cancro do colo tinha baixado em 35%, e a mortalidade em quase 40%,
ao mesmo tempo que aumentou de forma significativa a incidência
das lesões pré-malignas. Esta evolução, observou-se
também nos países comunitários, e é atribuída
à eficácia dos programas de rastreio, cujos resultados são
altamente significativos, desde que a colheita citológica seja
regular, tenha controlo de qualidade e envolva no mínimo 60% da
população alvo. A base destes programas de rastreio, são
os cuidados de saúde primários, sendo os médicos
de família os primeiros responsáveis pela realização
dos mesmos.
2
Epidemiologia
e factores de risco
Nos EUA, e em 1996, a incidência anual do cancro cervical evasivo
foi de 15 700 e a mortalidade anual de 4 900. As taxas de prevalência
do cancro «in situ», específicas para a idade, têm
uma distribuição bimodal, com o primeiro pico entre os 35
e os 39 anos e o segundo pico entre os 60 e os 64 anos. A maior incidência
observa-se no grupo dos 25 aos 29 anos. A prevalência do cancro
evasivo é superior nos grupos etários mais velhos, aumentando
bastante após os 50 anos (idade média 52.2). Em Portugal,
não temos elementos estatísticos muito rigorosos, mas em
1995 e segundo o IARC, o panorama era o seguinte (ver Quadro I).
9
Quadro I
|
Cancro
do colo de útero incidência e mortalidade |
Incidência
N.º de casos |
Taxa de Incidência por 100 000 |
Taxa de Incidência
Padronizada |
Óbitos |
Taxa de Mortalidade por 100 000 |
Taxa Padronizada
de Mortalidade |
|
1 009 |
19.63 |
18.76 |
374 |
7.27 |
6.26 |
85% dos casos
de cancro cervical, surge após os 45 anos, e a mortalidade neste
grupo etário tem vindo a diminuir nos últimos anos, de 2.200
óbitos em 1985 para 1.369 em 1994. No entanto 15% dos casos e 5%
dos óbitos, registaram-se em mulheres com menos de 35 anos, e tanto
a incidência como a mortalidade neste grupo etário, tem vindo
a aumentar desde a década de 60, provavelmente devido às
alterações do comportamento sexual.
A verdadeira etiologia, do carcinoma do colo do útero é
ainda desconhecida. São muitos os factores de risco que lhes estão
associados (Quadro II), estando a maioria relacionada com a actividade
sexual.
10
Quadro II
|
Factores
de risco do cancro do colo de útero |
- Início
de vida sexual activa antes dos 20 anos
- Múltiplos parceiros sexuais
- Parceiro sexual com múltiplos contactos
- Parceiro sexual com história de DST
- História de DST, especialmente virais (em particular as infecções
por HPV)
- Uso de anticonceptivos hormonais associado a hábitos tabágicos
- Imunossupressão |
A idade por
si só não é um factor de risco, mas a idade da primeira
relação sexual, é um dos factores mais importantes,
principalmente se esta tiver ocorrido antes dos 18 anos. Outro dos factores
mais consistentemente associados a alto risco, é a existência
de múltiplos parceiros sexuais. A identificação do
comportamento sexual, como factor de risco de neoplasia do colo do útero,
levou à investigação de agentes causadores de transmissão
venérea. Inicialmente as atenções centraram-se no
vírus Herpes Simplex, mas actualmente pensa-se que este vírus
será mais um co-factor, que o agente primário. O mesmo já
não se poderá dizer da infecção pelo HPV,
que tem sido descrito como um dos factores etiológicos chave, porque
de acordo com o relatório do NIH («National Institutes of
Health»), o DNA deste vírus, encontra-se em 93% dos cancros
do colo do útero e das lesões precursoras. Existem cerca
de 60 tipos deste vírus, mas é aos tipos 16 e 18 que têm
sido mais frequentemente associados as neoplasias intra epiteliais de
alto grau e o carcinoma invasivo. O tabagismo e a imunossupressão
parecem também estar relacionados. Segundo alguns estudos, o tabagismo
tornaria as mulheres mais susceptíveis aos efeitos oncogénicos
dos vírus, havendo também uma menor capacidade do sistema
imunitário para eliminar o HPV.
3
História
natural do cancro do colo do útero
O cancro do colo do útero desenvolve-se habitualmente, na zona
de transição entre o epitélio malpighiano do exocolo
e o epitélio glandular do endocolo. Sob o ponto de vista anatomo-patológico,
a forma mais frequente é o carcinoma espino-celular seguido pelo
adenocarcinoma. É um tumor de crescimento lento, havendo evidência
epidemiológica, de que a neoplasia do colo, deve ser encarada como
uma progressão de displasia ligeira até ao carcinoma invasivo,
passando pelo carcinoma «in situ». Apesar de haver discordância,
nos vários estudos já realizados, parece que só 10%
das displasias sofrem evolução para o carcinoma invasivo,
calculando-se em 10 anos o tempo necessário para que se dê
esta transformação (Figura 1). Há também
evidência que uma pequena percentagem de carcinomas «in situ»
recidivam espontaneamente.
8

Figura I
A classificação das lesões precursoras, tem sofrido
algumas alterações desde a inicialmente proposta pela OMS
(1960), que as classificava em displasia (ligeira, moderada e grave),
e carcinoma «in situ». Mais recentemente, uma outra classificação,
começou a usar a terminologia de neoplasia intra epitelial cérvico-uterina
(NIC). Os graus I e II correspondem à displasia ligeira e moderada,
sendo o grau III relacionado com a displasia grave e o carcinoma «in
situ». Actualmente está-se a utilizar cada vez mais a classificação
de BETHESDA (1988 e revista em 1991), cuja terminologia segue de perto
a terminologia histopatológica:
1. lesões
intraepiteliais escamosas de baixo grau (displasia ligeira ou NIC I) e
lesões citológicas correspondentes a infecção
por HPV;
2. lesões intraepiteliais escamosas de alto grau (displasia moderada
ou grave, NIC II e NIC III e carcinoma «in situ».
Estas lesões
pré-malignas, cursam com um período assintomático
muito longo, mas são detectadas por técnicas citológicas.
Assim, quanto mais precoce for o estádio clínico aquando
do diagnóstico e do tratamento, melhor será o prognóstico.
4
Princípios
de abordagem e diagnóstico
A maior parte das vezes, a mulher está assintomática, sendo
o diagnóstico da doença feito pelo esfregaço cervico-vaginal
(teste de Papanicolaou). O sucesso deste teste depende, da qualidade da
amostra, da técnica utilizada para a obter e da competência
do laboratório de citologia. Apesar de já existirem técnicas,
para a identificação dos tipos específicos de vírus
considerados de alto risco, ainda há pouca evidência da utilidade
da tipagem viral, no rastreio do cancro do colo e da sua aplicabilidade
na prática clínica diária. Por estes motivos, a pesquisa
de HPV mantém-se ainda, como instrumento de investigação.
O primeiro sinal de alerta, é normalmente uma perda hemorrágica
por via vaginal (coitorragias ou metrorragias), ou ainda uma ulceração
cervical detectada no exame ginecológico. Em fase avançada
da doença, a mulher pode referir um corrimento com odor desagradável
(necrose das células tumorais), por vezes sanguinolento, anorexia,
emagrecimento, dores pélvicas, disfunção vesical
e rectal, fístulas e uropatia obstrutiva. A doente deverá
ser imediatamente referenciada, se apresentar esfregaços cervico-vaginais
anormais (NIC II e NIC III), ou se o exame ginecológico detectou
uma ulceração cervical. Se o teste de Papanicolaou apresentar
lesões características de displasia ligeira com infecção
(NIC I), a doente deverá ser primeiro tratada, repetindo o esfregaço
três meses após. Se o resultado for novamente atípico,
a doente deverá ser então referenciada para realizar uma
colposcopia com biopsia dirigida, exames que permitem um diagnóstico
preciso.
Após o diagnóstico segue-se o estadiamento que se baseia
na biopsia, exame objectivo e estudo radiológico (linfangiografia,
TAC, RMN). (ver Quadro III)
5
Terapêutica
e prognóstico
Uma vez completa a informação, sobre o eºstádio em
que se encontra a doença, segue-se a decisão terapêutica,
a qual muitas vezes tem de ter em conta a idade e o desejo de a doente
ter ou não mais filhos.
ESTÁDIO 0 (carcinoma «in situ») - a terapêutica
de eleição tem sido a conização, podendo em
alternativa optar-se pela crioterapia ou terapêutica com laser,
se a doente se comprometer em ter uma vigilância apertada. A histerectomia
está reservada para aquelas mulheres, que não querem ter
mais filhos e/ou cuja biopsia da peça de conização,
revelou a existência de neoplasia intra epitelial nas margens desta
peça. A sobrevivência aos cinco anos está calculada
em 99%.
11
Quadro III
|
Estadiamento
do carcinoma do colo do útero |
|
CARCINOMA PRÉ-INVASIVO |
|
Estádio 0 |
Carcinoma «in situ», carcinoma intra-epitelial |
|
CARCINOMA INVASIVO |
|
Estádio I |
Estritamente confinado ao colo do útero |
|
IA
|
Carcinoma
pré-clínicos do colo do útero (aqueles que são
diagnosticados apenas através da microscopia) |
|
IA1 |
Invasão
mínima do estroma evidente microscopicamente |
| IA2 |
Lesões
detectadas microscopicamente que podem ser mensuráveis; o limite
superior das dimensões não deve ultrapassar uma profundidade
de invasão > 5 mm a partir da base do epitélio, quer
superficial quer glandular, e a disseminação horizontal
não deve exceder os 7 mm
|
|
IB |
Lesões de maiores dimensões do que as do estádio
IA2, quer sejam ou não clinicamente evidentes |
|
Estádio II |
O carcinoma
estende-se para além do colo do útero mas não atinge
a parede pélvica; o carcinoma envolve a vagina, mas não
o seu terço inferior |
|
IIA
|
Não há envolvimento evidente do paramétrio
|
| IIB |
Envolvimento
evidente do paramétrio |
|
Estádio III |
O carcinoma estende-se para a parede pélvica; no toque rectal não
existe espaço livre de tumor entre este e a parede pélvica;
o tumor envolve a terço inferior da vagina. Todos os casos com
hidronefrose ou rim não funcionante |
|
IIIA |
Sem extensão para a parede pélvica, mas com envolvimento
do terço inferior da vagina
|
|
IIIB |
Extensão para a parede pélvica e/ou hidronefrose ou rim
não funcionante devido ao tumor |
|
Estádio IV |
O carcinoma estendeu-se para além da região pélvica
ou existe envolvimento clínico da mucosa da bexiga ou do recto |
|
IVA |
Disseminação
para os órgão adjacentes (isto é, para o recto ou
para a bexiga, com uma biopsia positiva destes órgãos) |
|
IVB |
Disseminação
para órgãos distantes |
(Patient care, Abril 1998, p. 50)
ESTÁDIO IA1 (doença precoce, invasão inferior a 3
mm, raramente associada a metástases ganglionares pélvicas)
- se a mulher é jovem e quer ter mais filhos, a terapêutica
será a conização, seguindo-se um seguimento muito
apertado. Caso contrário a terapêutica de eleição
será a histerectomia radical. A sobrevivência aos 5 anos
é inferior a 95%.
ESTÁDIOS IA2, IB, IIA - são tratados com histerectomia radical
e linfadenectomia ou radioterapia. A cirurgia é o método
mais indicado para mulheres jovens, por conservar a função
ovárica e porque mantém a elasticidade vaginal (o que já
não acontece com a radioterapia). (ver sobrevivência Quadro
IV)
12
Quadro IV
|
Estádio,
terapêutica e prognóstico do cancro do colo do útero |
| Estádio |
Definição |
Opções
terapêuticas |
Sobrevivência
aos 5 anos |
|
O |
Carcinoma «in situ» |
Conização |
99% |
|
I |
Confinado ao cervix |
Conização |
95% |
|
IAI |
micro invasivo < 3 mm |
Cirurgia conservadora |
|
|
IA2 |
Micro-invasivo 3-5 mm |
Cirurgia radical
ou radioterapia |
80% |
|
IB |
Tumor visível |
|
|
|
IIA |
Extensão para os 2/3 superiores da vagina |
|
|
|
IIB |
Paramétrio |
Radioterapia radical |
50% |
|
III |
Extensão a: |
|
25% na globalidade |
|
IIIA |
Terço inferior da vagina |
|
|
|
IIIB |
Parede pélvica |
|
|
|
IVA |
Extensão à bexiga e ao recto |
|
37%
> a 10% |
|
IVB |
Locais distantes, eg pulmõesPaliação eg. quimioterapia |
|
0% |
(Adaptação do Update, Junho 1999, p. 41)
ESTÁDIO IIB E SEGUINTES - são tratados com radioterapia.
Se após o primeiro tratamento a doença recidivar, pode ser
tentada a modalidade terapêutica não utilizada anteriormente.
O papel da quimioterapia no cancro do colo tem sido desanimador em termos
de prognóstico, estando apenas reservado para o tratamento paliativo.
6
Complicações
1. A metastização regional origina muitas vezes a obstrução
dos ureteres, com consequente hidronefrose e por fim insuficiência
renal. Cerca de 1/3 das doentes não tratadas, morrem em uremia
quando a obstrução é bilateral;
2. Algias lombo-sagradas podem ser sinal de envolvimento neurológico;
3. Edemas acentuados dos membros inferiores, podem indicar compressão
vascular e linfática;
4. Infecção pélvica;
5. Fistulas rectais e para o tracto urinário são complicações
tardias;
6. Incontinência fecal e urinária surge em mulheres debilitadas;
7. A hemorragia é causa de morte de 10% a 20% das mulheres com
carcinoma invasivo.
7
Conclusão
O cancro do colo do útero, foi até hoje a única grande
vitória do rastreio em oncologia. O rastreio em massa em combinação
com o longo período de latência da doença, e a possibilidade
de cura das lesões iniciais, fazem com que esta neoplasia deixasse
de ser uma das principais causas de morte por cancro nas mulheres. Cada
vez mais, os médicos de família, devem estar conscientes
que o seu papel individual no rastreio, é extremamente importante
na luta contra este cancro. Só desta forma, e com uma informação
precisa e adequada, será capaz de envolver as suas utentes neste
tipo de cuidados preventivos.
13
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