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Parte IV – Problemas clínicos
4.11. Abordagem do paciente com problemas no aparelho genital
349. Queixas urinárias no homem
Anabela Vieira
Maria Alberta Magalhães
J. Teixeira de Sousa
Documento de trabalho
última actualização em Dezembro 2000

Contacto para comentários e sugestões: Baleiras, Sebastião

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Introdução
As queixas urinárias no homem são referidas frequentemente numa consulta de Cuidados de Saúde Primários, sobretudo no homem idoso. Estas estão mais vezes relacionadas com a Hipertrofia Benigna da Próstata (HBP), mas também podem estar associadas a litíase urinária, neoplasias da bexiga e da próstata, infecção do tracto urinário ou patologia uretral (estenose, uretrite).
Desta forma o termo "prostatismo" tem vindo a ser abandonado, substituído por sintomas do aparelho urinário inferior (LUTS: «Lower Urinary Tract Symptoms»), permitindo assim eliminar a relação excessiva entre "prostatismo" e a presença ou ausência de sintomatologia prostática.
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O problema na prática clínica
Os sintomas urinários baixos no homem podem ser divididos em obstrutivos (de esvaziamento vesical) e irritativos (de armazenamento). Dentro dos primeiros podem considerar-se a hesitação inicial, esforço miccional, diminuição do calibre e força do jacto urinário com micção prolongada e/ou intermitente, gotejamento terminal, retenção urinária, incontinência por «overflow» e sensação de esvaziamento incompleto da bexiga. Como sintomas irritativos consideram-se a polaquiúria, nictúria, imperiosidade com ou sem incontinência e baixo volume miccional.
No caso da HBP foi desenvolvido um questionário que consiste num conjunto de sete questões abrangendo os sintomas atrás referidos. Permite classificar os sintomas de prostatismo em ligeiros (score 0 a 7), moderados (score 8 a 19) e graves (score 20 a 35). Este questionário adaptado internacionalmente é conhecido como IPSS (International Prostate Symptom Score) (Quadro I).

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Quadro I- International Prostate Symptom Score

 

A HBP é sem dúvida a maior causa de queixas urinárias baixas no homem, mas numa avaliação inicial básica pode não ser possível realizar o diagnostico diferencial entre HBP e outras entidades que se apresentam com LUTS e simulam esta. Como por exemplo infecção urinária, estenose uretral, carcinoma da bexiga ou outra doença vesical primária e a litíase vesical ou ureteral (intra-mural).
De facto, múltiplas causas podem ser encontradas na origem destes sintomas, mas o processo natural de envelhecimento do homem é factor de importante reflexão. Assim, a descoberta da existência de dois fenómenos urodinâmicos distintos, a instabilidade idiopática do detrusor e a hipocontractilidade primária do detrusor em doentes idosos, para além da obstrução ao fluxo infra-vesical, levanta questões sobre o papel do envelhecimento na contribuição da sintomatologia urinária baixa aditiva.
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Avaliação diagnóstica
Na abordagem inicial de um doente que se apresenta à consulta com LUTS deverá ser colhida uma história clínica com avaliação pormenorizada dos sintomas. Esta deve avaliar a existência de diabetes mellitus, doença neurológica, cirurgias prévias e outras situações co-mórbidas. É também necessário identificar a presença de hematúria, infecção urinária, litíase urinária, episódios de retenção urinária, patologia uretral e eventual agravamento das queixas com medicação, nomeadamente com anticolinérgicos ou simpaticomiméticos.
A pesquisa de sintomas sistémicos relacionados deve ser feita. Assim, a fadiga crónica, perda de apetite e sonolência são sintomas relacionados à hidronefrose bilateral e insuficiência renal que acompanha as situações de uropatia baixa descompensada. Estas situações de descompensação do detrusor com estase ureteral facilitam a evolução de pielonefrites ascendentes, contribuindo para a deterioração progressiva da função renal.
O achado de estigmas de doença cardíaca e/ou vascular com mobilização nocturna de edemas periféricos, constitui um dado de grande valor para o diagnóstico diferencial de nictúria, sobretudo por ser este um sintoma muito frequente nas situações de HBP, mas que na realidade é por vezes mal interpretado, tratando-se sim de situações de poliúria nocturna.
O reconhecimento de outras patologias associadas a disfunção miccional deve ser sistematicamente efectuado. Incluem-se aqui as doenças neurológicas associadas a bexiga neurogénica, nomeadamente doença de Parkinson, esclerose múltipla, esclerose lateral amiotrófica, doença de Alzheimer e tumores do sistema nervoso central.
São ainda de valorizar as situações patológicas acompanhadas de neuropatia periférica e que se podem acompanhar de compromisso da inervação vesical, como sejam a diabetes mellitus, hipotiroidismo, uremia, mal nutrição (deficiência de vitamina B12) e doenças do tecido conjuntivo em geral.

As alterações do aparelho digestivo, nomeadamente a patologia proctológica, devem ainda ser referidas pelo seu papel no agravamento das situações de disfunção miccional.
Deve ainda ser pesquisada a ingestão de bebidas alcoólicas, fármacos anticolinérgicos e antagonistas dos canais de cálcio que diminuem a contracção vesical, bem como fármacos alfa-adrenérgicos e antidepressivos tricíclicos que aumentam o tónus uretral. Salienta-se o consumo de café e fármacos diuréticos, pelo seu potencial papel como agentes de "polaquiúria".
As situações de trauma pélvico anterior bem como a instrumentação uretral ou episódios de blenorragia devem ser avaliadas pelo seu potencial papel na génese de situações de uropatia obstrutiva baixa por estenose da uretra.

O exame físico do doente com queixas urinárias baixas deve contemplar uma exploração geral incluindo toque rectal e exame neurológico focalizado. Com eles pretende-se:
- determinar o volume e características da próstata e tonicidade do esfíncter anal;
- excluir neoplasia prostática ou rectal;
- detectar / excluir doença neurológica que possa estar na origem dos sintomas.
A presença de uma próstata dolorosa e de consistência mole pode indicar a presença de um quadro de prostatite associado ou não a infecção do tracto urinário. O achado de uma próstata endurecida pode ser devida a fenómenos de infecção crónica ou carcinoma, sobretudo se se acompanhar da presença de nódulos com consistência pétrea.

O exame neurológico sumário incluindo a avaliação da tonicidade do esfíncter anal e a pesquisa do reflexo bulbocavernoso são fundamentais no reconhecimento de lesões neurológicas passíveis de apresentar um quadro de disfunção miccional. Assim, a existência de um esfíncter anal excessivamente relaxado pode ser sinal da existência de doença neurológica que deve ser valorizada e pesquisada.
A palpação abdominal revelando rins palpáveis ou contacto lombar doloroso sugere a presença de hidronefrose e/ou pielonefrite. A presença de massa pélvica palpável habitualmente traduz uma situação de globo vesical constituindo uma das formas de apresentação e/ou complicação da HBP, ou seja, a retenção urinária aguda e crónica.
O pénis deve ser sistematicamente examinado para avaliar a existência de estenose do meato uretral, fimose acentuada ou neoplasia, situações estas que podem estar na génese de um quadro obstrutivo infra vesical.
A história recente de relações sexuais desprotegidas e a presença de exsudado uretral faz pensar numa doença de transmissão sexual, mais frequentemente a uretrite gonocócica, com consequências a longo prazo como sejam a orquiepididimite e a estenose da uretra.

Os exames auxiliares de diagnóstico de que dispomos devem ser focalizados para a hipótese de diagnóstico mais provável.
A determinação dos indicadores bioquímicos da função renal (ureia e creatinina séricas) permite avaliar a presença de insuficiência renal, associada ou não a processo obstrutivo (pós renal), sendo necessário o apoio de estudos imagiológicos para correcta clarificação.
A avaliação do sedimento urinário e urocultura permite a identificação de um processo infeccioso urinário, que deve ser prontamente tratado. O estudo do sedimento urinário pode ainda orientar o clínico para a presença de lesão renal primária, bem como para o despiste de hematúria, que pode traduzir a presença de lesões neoplásicas vesicais e do alto aparelho ou litíase urinária. Este exame constitui um auxiliar importante para a utilização selectiva e criteriosa de estudos imagiológicos e endoscópicos a realizar.
O doseamento do antigénio específico da próstata (PSA) é importante como rastreio do cancro da próstata. No entanto pode encontrar-se elevado em situações de HBP, prostatite aguda, enfarte prostático bem como após biópsia prostática, algaliação e outras instrumentações da uretra. O valor normal é inferior a 4 ng/ml, duvidoso de 4-10 ng/ml, e para valores acima de 10 ng/ml a biópsia está altamente recomendada. O seu uso é particularmente específico na monitorização da recidiva neoplásica.
O estudo ultrassonográfico dos rins, bexiga e próstata está estabelecido como método imagiológico ideal para avaliar o doente com LUTS. Permite uma correcta avaliação do volume prostático e do resíduo pós-miccional por via supra-púbica. Quando utilizado por via transrectal permite a visualização de forma mais precisa da zona periférica prostática, detectando tumores de tamanho superior a 5 mm com origem nesta zona, e permitindo efectuar no mesmo tempo a biópsia dirigida de lesões suspeitas. A ecografia permite ainda o estudo da bexiga, avaliando a hipertrofia do detrusor e detectando a presença de litíase e divertículos, potenciais complicações da uropatia obstrutiva baixa. É possível identificar o crescimento endoluminal da próstata bem como de neoplasias vesicais. A ultrassonografia do aparelho urinário alto é útil em situações de insuficiência renal, hematúria, hidronefrose, neoplasias e litíase renal. No estudo etiológico da hematúria são habitualmente necessárias outras técnicas imagiológicas nomeadamente a urografia endovenosa, permitindo a detecção de defeitos de preenchimento a nível da árvore pielo-calicial e/ou do uréter.
A urofluxometria constitui um método simples e não invasivo de avaliar o fluxo urinário. Quando o débito urinário é inferior a 15 ml/s habitualmente traduz obstrução. É recomendada nos doentes com HBP antes do início do tratamento para objectivar a obstrução e para avaliar os resultados do tratamento instituído. Não permite distinguir o fenómeno obstrutivo do causado por hipocontractilidade do detrusor, estando desta forma indicados os estudos de pressão / fluxo.
A uretrocistoscopia deverá ser realizada se existe história de hematúria, estenose uretral ou factores de risco para esta patologia, carcinoma da bexiga ou cirurgia prévia do aparelho urinário. Tem a capacidade de demonstrar o aumento prostático, observar obstrução a nível da uretra ou do colo vesical, identificar a presença de divertículos da bexiga. No entanto, além do desconforto para o doente, não é isenta de complicações, podendo causar infecção urinária e hematúria.
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Possibilidades de intervenção em Medicina Geral e Familiar
Dependendo da situação com que nos deparamos deve ser sempre ponderada a nossa intervenção terapêutica, assunto este abordado em outros capítulos:
- HBP
- Litíase urinária
- Infecções do tracto urinário
- Neoplasias da bexiga e da próstata
- Patologia uretral
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Pontos práticos a reter
- As queixas urinárias no homem são frequentes sobretudo no homem idoso.
- A causa mais frequente de sintomas urinários baixos no homem é a HBP.
- Os sintomas urinários baixos podem ser irritativos ou obstrutivos.
- A história clínica pormenorizada, com avaliação de antecedentes, bem como doenças e medicações associadas, exame físico dirigido com avaliação sistemática dos órgãos genitais externos e próstata são importantes.
- Os exames auxiliares de diagnóstico mais importantes são a avaliação da função renal, sedimento urinário e urocultura, doseamento PSA, ultrassonografia, urofluxometria, urografia endovenosa e uretrocistoscopia.
- A intervenção terapêutica do médico de família depende da patologia em causa.
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