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Introdução
As queixas urinárias no homem são referidas frequentemente numa consulta
de Cuidados de Saúde Primários, sobretudo no homem idoso. Estas estão
mais vezes relacionadas com a Hipertrofia Benigna da Próstata (HBP), mas
também podem estar associadas a litíase urinária, neoplasias da bexiga
e da próstata, infecção do tracto urinário ou patologia uretral
(estenose, uretrite).
Desta forma o termo "prostatismo" tem vindo a ser abandonado,
substituído por sintomas do aparelho urinário inferior (LUTS: «Lower
Urinary Tract Symptoms»), permitindo assim eliminar a relação excessiva
entre "prostatismo" e a presença ou ausência de sintomatologia
prostática.
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O problema na prática clínica
Os sintomas urinários baixos no homem podem ser divididos em obstrutivos
(de esvaziamento vesical) e irritativos (de armazenamento). Dentro dos
primeiros podem considerar-se a hesitação inicial, esforço miccional,
diminuição do calibre e força do jacto urinário com micção
prolongada e/ou intermitente, gotejamento terminal, retenção urinária,
incontinência por «overflow» e sensação de esvaziamento incompleto da
bexiga. Como sintomas irritativos consideram-se a polaquiúria, nictúria,
imperiosidade com ou sem incontinência e baixo volume miccional.
No caso da HBP foi desenvolvido um questionário que consiste num conjunto
de sete questões abrangendo os sintomas atrás referidos. Permite
classificar os sintomas de prostatismo em ligeiros (score 0 a 7),
moderados (score 8 a 19) e graves (score 20 a 35). Este questionário
adaptado internacionalmente é conhecido como IPSS (International Prostate
Symptom Score) (Quadro I).
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Quadro I- International Prostate Symptom Score
A HBP é
sem dúvida a maior causa de queixas urinárias baixas no homem, mas numa
avaliação inicial básica pode não ser possível realizar o diagnostico
diferencial entre HBP e outras entidades que se apresentam com LUTS e
simulam esta. Como por exemplo infecção urinária, estenose uretral,
carcinoma da bexiga ou outra doença vesical primária e a litíase
vesical ou ureteral (intra-mural).
De facto, múltiplas causas podem ser encontradas na origem destes
sintomas, mas o processo natural de envelhecimento do homem é factor de
importante reflexão. Assim, a descoberta da existência de dois fenómenos
urodinâmicos distintos, a instabilidade idiopática do detrusor e a
hipocontractilidade primária do detrusor em doentes idosos, para além da
obstrução ao fluxo infra-vesical, levanta questões sobre o papel do
envelhecimento na contribuição da sintomatologia urinária baixa
aditiva.
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Avaliação diagnóstica
Na abordagem inicial de um doente que se apresenta à consulta com LUTS
deverá ser colhida uma história clínica com avaliação pormenorizada
dos sintomas. Esta deve avaliar a existência de diabetes mellitus, doença
neurológica, cirurgias prévias e outras situações co-mórbidas. É
também necessário identificar a presença de hematúria, infecção urinária,
litíase urinária, episódios de retenção urinária, patologia uretral
e eventual agravamento das queixas com medicação, nomeadamente com
anticolinérgicos ou simpaticomiméticos.
A pesquisa de sintomas sistémicos relacionados deve ser feita. Assim, a
fadiga crónica, perda de apetite e sonolência são sintomas relacionados
à hidronefrose bilateral e insuficiência renal que acompanha as situações
de uropatia baixa descompensada. Estas situações de descompensação do
detrusor com estase ureteral facilitam a evolução de pielonefrites
ascendentes, contribuindo para a deterioração progressiva da função
renal.
O achado de estigmas de doença cardíaca e/ou vascular com mobilização
nocturna de edemas periféricos, constitui um dado de grande valor para o
diagnóstico diferencial de nictúria, sobretudo por ser este um sintoma
muito frequente nas situações de HBP, mas que na realidade é por vezes
mal interpretado, tratando-se sim de situações de poliúria nocturna.
O reconhecimento de outras patologias associadas a disfunção miccional
deve ser sistematicamente efectuado. Incluem-se aqui as doenças neurológicas
associadas a bexiga neurogénica, nomeadamente doença de Parkinson,
esclerose múltipla, esclerose lateral amiotrófica, doença de Alzheimer
e tumores do sistema nervoso central.
São ainda de valorizar as situações patológicas acompanhadas de
neuropatia periférica e que se podem acompanhar de compromisso da inervação
vesical, como sejam a diabetes mellitus, hipotiroidismo, uremia, mal nutrição
(deficiência de vitamina B12) e doenças do tecido conjuntivo em geral.
As alterações do aparelho digestivo, nomeadamente a patologia proctológica,
devem ainda ser referidas pelo seu papel no agravamento das situações de
disfunção miccional.
Deve ainda ser pesquisada a ingestão de bebidas alcoólicas, fármacos
anticolinérgicos e antagonistas dos canais de cálcio que diminuem a
contracção vesical, bem como fármacos alfa-adrenérgicos e
antidepressivos tricíclicos que aumentam o tónus uretral. Salienta-se o
consumo de café e fármacos diuréticos, pelo seu potencial papel como
agentes de "polaquiúria".
As situações de trauma pélvico anterior bem como a instrumentação
uretral ou episódios de blenorragia devem ser avaliadas pelo seu
potencial papel na génese de situações de uropatia obstrutiva baixa por
estenose da uretra.
O exame físico do doente com queixas urinárias baixas deve
contemplar uma exploração geral incluindo toque rectal e exame neurológico
focalizado. Com eles pretende-se:
- determinar o volume e características da próstata e tonicidade do esfíncter
anal;
- excluir neoplasia prostática ou rectal;
- detectar / excluir doença neurológica que possa estar na origem dos
sintomas.
A presença de uma próstata dolorosa e de consistência mole pode indicar
a presença de um quadro de prostatite associado ou não a infecção do
tracto urinário. O achado de uma próstata endurecida pode ser devida a
fenómenos de infecção crónica ou carcinoma, sobretudo se se acompanhar
da presença de nódulos com consistência pétrea.
O exame neurológico sumário incluindo a avaliação da tonicidade do esfíncter
anal e a pesquisa do reflexo bulbocavernoso são fundamentais no
reconhecimento de lesões neurológicas passíveis de apresentar um quadro
de disfunção miccional. Assim, a existência de um esfíncter anal
excessivamente relaxado pode ser sinal da existência de doença neurológica
que deve ser valorizada e pesquisada.
A palpação abdominal revelando rins palpáveis ou contacto lombar
doloroso sugere a presença de hidronefrose e/ou pielonefrite. A presença
de massa pélvica palpável habitualmente traduz uma situação de globo
vesical constituindo uma das formas de apresentação e/ou complicação
da HBP, ou seja, a retenção urinária aguda e crónica.
O pénis deve ser sistematicamente examinado para avaliar a existência de
estenose do meato uretral, fimose acentuada ou neoplasia, situações
estas que podem estar na génese de um quadro obstrutivo infra vesical.
A história recente de relações sexuais desprotegidas e a presença de
exsudado uretral faz pensar numa doença de transmissão sexual, mais
frequentemente a uretrite gonocócica, com consequências a longo prazo
como sejam a orquiepididimite e a estenose da uretra.
Os exames auxiliares de diagnóstico de que dispomos devem ser
focalizados para a hipótese de diagnóstico mais provável.
A determinação dos indicadores bioquímicos da função renal (ureia e
creatinina séricas) permite avaliar a presença de insuficiência renal,
associada ou não a processo obstrutivo (pós renal), sendo necessário o
apoio de estudos imagiológicos para correcta clarificação.
A avaliação do sedimento urinário e urocultura permite a identificação
de um processo infeccioso urinário, que deve ser prontamente tratado. O
estudo do sedimento urinário pode ainda orientar o clínico para a presença
de lesão renal primária, bem como para o despiste de hematúria, que
pode traduzir a presença de lesões neoplásicas vesicais e do alto
aparelho ou litíase urinária. Este exame constitui um auxiliar
importante para a utilização selectiva e criteriosa de estudos imagiológicos
e endoscópicos a realizar.
O doseamento do antigénio específico da próstata (PSA) é importante
como rastreio do cancro da próstata. No entanto pode encontrar-se elevado
em situações de HBP, prostatite aguda, enfarte prostático bem como após
biópsia prostática, algaliação e outras instrumentações da uretra. O
valor normal é inferior a 4 ng/ml, duvidoso de 4-10 ng/ml, e para valores
acima de 10 ng/ml a biópsia está altamente recomendada. O seu uso é
particularmente específico na monitorização da recidiva neoplásica.
O estudo ultrassonográfico dos rins, bexiga e próstata está
estabelecido como método imagiológico ideal para avaliar o doente com
LUTS. Permite uma correcta avaliação do volume prostático e do resíduo
pós-miccional por via supra-púbica. Quando utilizado por via transrectal
permite a visualização de forma mais precisa da zona periférica prostática,
detectando tumores de tamanho superior a 5 mm com origem nesta zona, e
permitindo efectuar no mesmo tempo a biópsia dirigida de lesões
suspeitas. A ecografia permite ainda o estudo da bexiga, avaliando a
hipertrofia do detrusor e detectando a presença de litíase e divertículos,
potenciais complicações da uropatia obstrutiva baixa. É possível
identificar o crescimento endoluminal da próstata bem como de neoplasias
vesicais. A ultrassonografia do aparelho urinário alto é útil em situações
de insuficiência renal, hematúria, hidronefrose, neoplasias e litíase
renal. No estudo etiológico da hematúria são habitualmente necessárias
outras técnicas imagiológicas nomeadamente a urografia endovenosa,
permitindo a detecção de defeitos de preenchimento a nível da árvore
pielo-calicial e/ou do uréter.
A urofluxometria constitui um método simples e não invasivo de avaliar o
fluxo urinário. Quando o débito urinário é inferior a 15 ml/s
habitualmente traduz obstrução. É recomendada nos doentes com HBP antes
do início do tratamento para objectivar a obstrução e para avaliar os
resultados do tratamento instituído. Não permite distinguir o fenómeno
obstrutivo do causado por hipocontractilidade do detrusor, estando desta
forma indicados os estudos de pressão / fluxo.
A uretrocistoscopia deverá ser realizada se existe história de hematúria,
estenose uretral ou factores de risco para esta patologia, carcinoma da
bexiga ou cirurgia prévia do aparelho urinário. Tem a capacidade de
demonstrar o aumento prostático, observar obstrução a nível da uretra
ou do colo vesical, identificar a presença de divertículos da bexiga. No
entanto, além do desconforto para o doente, não é isenta de complicações,
podendo causar infecção urinária e hematúria.
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Possibilidades de intervenção em Medicina Geral e Familiar
Dependendo da situação com que nos deparamos deve ser sempre ponderada a
nossa intervenção terapêutica, assunto este abordado em outros capítulos:
- HBP
- Litíase urinária
- Infecções do tracto urinário
- Neoplasias da bexiga e da próstata
- Patologia uretral
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Pontos práticos a reter
- As queixas urinárias no homem são frequentes sobretudo no homem idoso.
- A causa mais frequente de sintomas urinários baixos no homem é a HBP.
- Os sintomas urinários baixos podem ser irritativos ou obstrutivos.
- A história clínica pormenorizada, com avaliação de antecedentes, bem
como doenças e medicações associadas, exame físico dirigido com avaliação
sistemática dos órgãos genitais externos e próstata são importantes.
- Os exames auxiliares de diagnóstico mais importantes são a avaliação
da função renal, sedimento urinário e urocultura, doseamento PSA,
ultrassonografia, urofluxometria, urografia endovenosa e
uretrocistoscopia.
- A intervenção terapêutica do médico de família depende da patologia
em causa.
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