índice parcial
Parte IV – Problemas clínicos
4.11. Abordagem do paciente com problemas no aparelho genital

356. Criptorquidia
Abílio Malheiro

Documento de trabalho
última actualização em Dezembro 2000

Contacto para comentários e sugestões: Baleiras, Sebastião


Designa-se por criptorquidia ou testículos não descidos a inexistência de um ou dos dois testículos no escroto.
Na idade embrionária dos rapazes, os testículos não se formam no escroto. Formam-se no interior da cavidade abdominal, perto dos rins, descendo para o interior do saco escrotal até ao 5º mês de vida fetal. Este processo migratório pode sofrer anomalias, resultando a inexistência de um ou dos dois testículos no escroto. Se um ou os dois testículos não são observados/manipulados no saco escrotal, é necessário um exame cuidadoso para verificar se são ou não palpáveis fora do escroto.
1
Testículos palpáveis fora do escroto

Testículos retrácteis (pseudo-criptorquidia)
Situação frequente. Resulta de um exagero do reflexo cremastérico. O diagnóstico pode ser feito pela história (os testículos podem já ter sido observados/manipulados no interior do escroto durante a infância) e por um exame físico cuidadoso. Geralmente é possível manipular o testículo para o interior do saco escrotal onde permanecerá sem tensão ou restrição. Se a manipulação for fácil e bem sucedida, deve aguardar-se e rever periodicamente. Se a manipulação for difícil ou existirem dúvidas, deve ser feita a referência para cirurgia pediátrica.

Síndrome do testículo ascendente ou subido
Surge habitualmente em rapazes dos 8 aos 10 anos de idade. Testículos anteriormente normais ou retrácteis tornam-se subidos devido à existência de um cordão espermático curto que os impede de permanecerem no interior do escroto. É necessária correcção cirúrgica.

Testículos ectópicos
Cerca de 10% dos testículos palpáveis fora do escroto. São testículos que desceram normalmente através do canal inguinal, mas que depois se desviaram para o períneo ou o triângulo femoral. São normais, mas é necessária orquidopexia.

Testículos não descidos
Podem ser definidos como os testículos que “foram travados”, em qualquer localização, no seu trajecto de descida para o escroto. Podem variar desde testículos intra-abdominais (impalpáveis), até testículos de localização inguinal superficial, palpáveis logo à saída do saco escrotal.
Cerca de 5% dos recém-nascidos de termo (25% dos prematuros) podem ter um testículo não descido na altura do nascimento. Aos 12 meses de vida, apenas em 2% se mantém a situação.

2
Testículos impalpáveis (dentro e fora do escroto)

Anorquidia
Não existem testículos.

Testículos displásicos
São pequenos e histologicamente anormais.

Testículos intra-abdominais
Testículos não descidos com localização no interior da cavidade abdominal. 
É importante tentar “encontrar” um testículo impalpável, dado que existe um risco aumentado de degenerescência maligna.
Meios complementares de diagnóstico a utilizar:
- Ecografias abdominal e pélvica, TAC abdominopélvico - exames não invasivos, muito úteis em crianças pequenas;
- Laparoscopia diagnóstica.
Exame invasivo, mas de grande certeza diagnóstica. Detecta a anorquidia e os testículos displásicos (muito pequenos) e permite uma planificação terapêutica apropriada dos testículos intra-abdominais.
Nas crianças com testículos impalpáveis bilaterais, é grande a probabilidade de terem outras anomalias congénitas tais como o Síndrome de Klinefelter ou o eunucoidismo. Devem ser referenciadas precocemente para estudo genético e/ou endocrinológico.

Avaliação/Tratamento cirúrgico
Depende da idade e dos testículos serem ou não palpáveis fora do escroto (Figura 1).
Cerca de 10-20% dos testículos não descidos estão associados a hérnia inguinal (indirecta) congénita. Deve ser feita referência para herniorrafia precoce com orquidopexia no mesmo tempo cirúrgico.
Actualmente a idade recomendada para efectuar a orquidopexia programada é de 1-4 anos, preferencialmente até aos 2 anos.
Razões que apoiam a orquidopexia precoce:
- Possibilidade de melhorar o desenvolvimento testicular e a espermatogénese,
- Possibilidade de reduzir o risco de degenerescência maligna,
- Melhoria cosmética.
3
Pontos práticos a reter
- Se um ou os dois testículos não são observados/manipulados no saco escrotal, é necessário um exame cuidadoso para verificar se são ou não palpáveis fora do escroto.
- Causas de testículos palpáveis (fora do escroto):
1. Testículos retrácteis (pseudo-criptorquidia);
2. Testículos ectópicos;
3. Testículos não descidos, com localização inguinal superficial
- Causas de testículos impalpáveis (dentro e fora do escroto):
1. Anorquidia;
2. Testículos displásicos;
3. Testículos não descidos, com localização intra-abdominal.
- Os testículos não descidos intra-abdominais têm um risco aumentado de degenerescência maligna.
- A criptorquidia (diagnóstico duvidoso ou de certeza) é sempre de referir para cirurgia pediátrica para opinião diagnóstico/terapêutica.

4
Quadro I

Classificação da criptorquidia

CRIPTORQUIDIA

Classificação

  CID 10 CID-9-MC* CIPS-2 Def. ICPC
Testículo ectópico, (unilateral ou bilateral) Q53.0 752.51 7525 Y83
Testículo não-descido, unilateral  Q53.1 752.51 7525 Y83
Testículo não-descido, bilateral Q53.2 752.51 7525 Y83
Criptorquidia não especificada Q53.9 752.51 7525 Y83
Testículos retrácteis, (pseudo-criptorquidia) Q53.9 752.51 7525 Y83
*1999


5

Figura 1 - Avaliação da criptorquidia


(Adaptado de Davenport, 1996)
6

Bibliografia
Davenport M. ABC of general paediatric surgery. Inguinal hernia, hydrocele, and the undescended testis. BMJ, 1996; 312 (7030): 564-7.