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| Documento
de trabalho última actualização em Dezembro 2000 |
Contacto para comentários e sugestões: Silva, Pedro Ribeiro |
| 1 Introdução De acordo com a “tradição” anglo-saxónica o termo “delirium” implica um estado alterado da consciência, o que exclui outra actividade delirante em que não exista alteração da consciência, como na esquizofrenia. Neste sentido, o “delirium” é comum nos pacientes dos cuidados de saúde primários, particularmente nos idosos. Embora a sua prevalência nos pacientes ambulatórios seja desconhecida, cerca de 10% dos pacientes com idade igual ou superior a 65 anos que são internados por situações médicas gerais irão desencadear este problema. À medida que aumenta o número de pacientes agudos que os médicos têm de tratar em ambulatório, pode-se esperar que os casos de “delirium” na comunidade também aumentem. O “delirium” enquadra-se dentro das chamadas perturbações mentais orgânicas em que vulgarmente se considera que os factores orgânicos estão implicados na sua etiologia. O “delirium” corresponderá a uma perturbação generalizada da actividade cerebral, traduzindo-se normalmente por uma diminuição da função cognitiva e por alteração da consciência. Pode ainda ser acompanhada por sintomas e sinais neurológicos. É uma perturbação de carácter agudo. Quando crónica e cursando sem alteração da consciência designamo-la por demência. Perturbações mais focalizadas podem originar apenas alterações da memória, do humor, ideação paranóide, mudanças de comportamento e de personalidade. O padrão de sintomas depende mais do tempo de evolução da doença e da parte do cérebro envolvida do que do tipo subjacente de patologia. A apresentação do quadro clínico passa por características de personalidade pré-mórbida do doente, vulnerabilidade pré-mórbida a perturbações psiquiátricas, experiência de vida, medicação actual e circunstâncias sociais. A sintomatologia destes pacientes pode assemelhar-se a sintomas neuróticos ou sobretudo psicóticos “clássicos” das perturbações ditas “funcionais”, apesar da relatividade e pouco rigor científico desta dicotomia. Contudo mostra frequentemente aspectos atípicos, tais como maior flutuação de sintomas, alucinações visuais vagas, ideias delirantes paranóides frustes e passageiras, manifestando-se pela primeira vez na meia-idade ou mesmo na velhice. No entanto, perturbações psiquiátricas podem coexistir, ou também surgir pela primeira vez, em idades mais avançadas, o que aumenta o espectro diagnóstico. Assim sendo, do ponto de vista da sintomatologia, as perturbações mentais orgânicas podem ser visualizadas no fluxograma anexo. 2 «Delirium» ou estado confusional agudo O delirium como estado de consciência reduzida do meio ambiente é acompanhado por anomalias da percepção, pensamento e humor. A percepção é difícil, demorada e sujeita a erros psicossensoriais, a pessoa identifica mal o mundo exterior e tem dificuldade na percepção do próprio corpo, dos familiares e de outros conhecidos. A síndrome da abstinência alcoólica (delirium tremens) é um exemplo comum, mas o delirium pode ser devido a qualquer condição médica aguda que afecte o cérebro. 3 Quadro Clínico A característica mais importante é o início brusco e a obnubilação da consciência. Este paciente “delirante” está confuso e desorientado temporo-espacialmente, com falsos reconhecimentos, muitas vezes inquieto, agitado, até agressivo ou amedrontado, mas outras vezes hipoactivo e retraído. É incapaz de manter um diálogo, devido à dificuldade em manter a atenção, por falta de capacidade de concentração. Frequentemente o paciente apresenta uma sucessão de alucinações visuais, auditivas e cinestésicas, algo descontínuas, muitas vezes temáticas (místicas, eróticas, ligadas à actividade profissional) e zoópsicas. Há adesão do “self” ao “delirium onírico”, o indivíduo vive o “seu sonho”, empenhando-se vivamente, lutando contra os “inimigos” ou fugindo dos “perigos”. As perturbações que constituem este quadro são flutuantes durante o dia e mais marcadas à noite. O ciclo sono-vigília está desorganizado. No modo de reagir do indivíduo há a sublinhar a importante participação de factores constitucionais, psicológicos e sociológicos. 4 Etiologia e Diagnóstico diferencial No Quadro I enumeram-se as causas mais comuns de delirium. 7
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Branco J. e Gomes A.A. (Ed.s), O Médico de Família e a Saúde Mental, Edições Especiais APMCG., Lisboa, 1994. Casey P. R., Manual de Psiquiatria nos Cuidados de Saúde Primários, 1ª Ed., Climepsi Editores, Lisboa, 1997. Gomes, A.A. e col.; Psiquiatria, Neurologia e Saúde Mental na Práxis do Clínico Geral, UCB, Lisboa, 1986. Harris, M. Jackuelyn, Psicose no idoso, PostGraduate Medicine (Ed. Port.), 1999; 11 (4): 67-70. Kathol, R.; Licamele, W.; Rund, D.A., Emergências psiquiátricas no consultório, Patient Care (Ed. Port.), 1999; 4 (42): 91-106. 9
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