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Parte IV – Problemas clínicos
4.13. Abordagem do paciente com problemas de saúde mental
392. O paciente com manifestações de «delirium»
José Augusto Simões
João Amílcar Teixeira
Documento de trabalho
última actualização em Dezembro 2000

Contacto para comentários e sugestões: Silva, Pedro Ribeiro

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Introdução
De acordo com a “tradição” anglo-saxónica o termo “delirium” implica um estado alterado da consciência, o que exclui outra actividade delirante em que não exista alteração da consciência, como na esquizofrenia.
Neste sentido, o “delirium” é comum nos pacientes dos cuidados de saúde primários, particularmente nos idosos. Embora a sua prevalência nos pacientes ambulatórios seja desconhecida, cerca de 10% dos pacientes com idade igual ou superior a 65 anos que são internados por situações médicas gerais irão desencadear este problema. À medida que aumenta o número de pacientes agudos que os médicos têm de tratar em ambulatório, pode-se esperar que os casos de “delirium” na comunidade também aumentem.
O “delirium” enquadra-se dentro das chamadas perturbações mentais orgânicas em que vulgarmente se considera que os factores orgânicos estão implicados na sua etiologia.
O “delirium” corresponderá a uma perturbação generalizada da actividade cerebral, traduzindo-se normalmente por uma diminuição da função cognitiva e por alteração da consciência. Pode ainda ser acompanhada por sintomas e sinais neurológicos. É uma perturbação de carácter agudo. Quando crónica e cursando sem alteração da consciência designamo-la por demência.
Perturbações mais focalizadas podem originar apenas alterações da memória, do humor, ideação paranóide, mudanças de comportamento e de personalidade.
O padrão de sintomas depende mais do tempo de evolução da doença e da parte do cérebro envolvida do que do tipo subjacente de patologia. A apresentação do quadro clínico passa por características de personalidade pré-mórbida do doente, vulnerabilidade pré-mórbida a perturbações psiquiátricas, experiência de vida, medicação actual e circunstâncias sociais.
A sintomatologia destes pacientes pode assemelhar-se a sintomas neuróticos ou sobretudo psicóticos “clássicos” das perturbações ditas “funcionais”, apesar da relatividade e pouco rigor científico desta dicotomia. Contudo mostra frequentemente aspectos atípicos, tais como maior flutuação de sintomas, alucinações visuais vagas, ideias delirantes paranóides frustes e passageiras, manifestando-se pela primeira vez na meia-idade ou mesmo na velhice.
No entanto, perturbações psiquiátricas podem coexistir, ou também surgir pela primeira vez, em idades mais avançadas, o que aumenta o espectro diagnóstico.
Assim sendo, do ponto de vista da sintomatologia, as perturbações mentais orgânicas podem ser visualizadas no fluxograma anexo.
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«Delirium» ou estado confusional agudo
O delirium como estado de consciência reduzida do meio ambiente é acompanhado por anomalias da percepção, pensamento e humor. A percepção é difícil, demorada e sujeita a erros psicossensoriais, a pessoa identifica mal o mundo exterior e tem dificuldade na percepção do próprio corpo, dos familiares e de outros conhecidos. A síndrome da abstinência alcoólica (delirium tremens) é um exemplo comum, mas o delirium pode ser devido a qualquer condição médica aguda que afecte o cérebro.
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Quadro Clínico
A característica mais importante é o início brusco e a obnubilação da consciência. Este paciente “delirante” está confuso e desorientado temporo-espacialmente, com falsos reconhecimentos, muitas vezes inquieto, agitado, até agressivo ou amedrontado, mas outras vezes hipoactivo e retraído. É incapaz de manter um diálogo, devido à dificuldade em manter a atenção, por falta de capacidade de concentração.
Frequentemente o paciente apresenta uma sucessão de alucinações visuais, auditivas e cinestésicas, algo descontínuas, muitas vezes temáticas (místicas, eróticas, ligadas à actividade profissional) e zoópsicas. Há adesão do “self” ao “delirium onírico”, o indivíduo vive o “seu sonho”, empenhando-se vivamente, lutando contra os “inimigos” ou fugindo dos “perigos”.
As perturbações que constituem este quadro são flutuantes durante o dia e mais marcadas à noite. O ciclo sono-vigília está desorganizado. No modo de reagir do indivíduo há a sublinhar a importante participação de factores constitucionais, psicológicos e sociológicos.
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Etiologia e Diagnóstico diferencial
No Quadro I enumeram-se as causas mais comuns de delirium.

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Quadro I

Causas mais comuns de «delirium»

Infecções, sistémicas ou intracranianas
Tumores e traumatismos cerebrais
Insuficiência de órgão vital (fígado, rins, pulmões, coração)
Hipo ou hiperglicemia
Hipotiroidismo
Pós-cirurgia, especialmente operações de coração aberto e às cataratas
Abstinência do álcool ou de certas drogas
Intoxicação, nomeadamente pelos anticolinérgicos, anticonvulsivantes, antihipertensores, antiparkinsónicos, antidepressivos, antipsicóticos, lítio, esteróides, digitálicos, venenos industriais
Desidratação ou intoxicação pela água
Desequilíbrio electrolítico
Deficiência nutricional
Epilepsia


O Delirium distingue-se da Demência pelo seu início súbito, breve duração, níveis flutuantes do estado de consciência, alterações da percepção e desorganização do ciclo sono-vigília. Contudo muitas vezes coexistem (Quadro II).

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Quadro II

Diferenciação Clínica entre Delirium e Demência. (Lipowsky, 1980)

Delirium  Demência
Início Agudo Geralmente insidioso, se agudo precedido por coma ou delírio
Duração Geralmente menos de um mês Pelo menos um mês, normalmente mais
Orientação Deficiente, sobretudo o tempo, daí a tendência para falsos reconhecimentos de lugares e pessoas Pode ser correcta nos casos médicos, começa por ser afectado o espaço
Pensamento  Oniróide Empobrecido
Memória  Recente comprometida Recente e remota comprometidas
Atenção  Invariavelmente perturbada, difícil de manter ou dirigir Pode estar intacta
Consciência Sempre reduzida tende a flutuar durante o dia e a piorar à noite Usualmente intacta
Vigília Aumentada ou diminuída Normal ou diminuída
Percepção  Ilusões e alucinações Ilusões e raras alucinações
Ciclo Sono-Vigília Sempre alterado Usualmente normal para a idade

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Atitude Terapêutica
A primeira prioridade é diagnosticar e tratar a causa médica, por exemplo, diagnosticando uma infecção aguda, reconhecendo a abstinência alcoólica ou de benzodiazepinas ou identificando uma reacção adversa a medicações do tipo antidepressivos tricíclicos ou digitálicos.
O fluxograma apresentado pode servir de orientação.
O tratamento sintomático com fármacos, preferivelmente com antipsicóticos em doses baixas iniciais, e aumentadas se necessário, pode ser exigido para reduzir a inquietação ou a angústia.
A maior parte dos casos ligeiros podem ser tratados no domicílio, se houver apoio familiar, os restantes e os graves, em enfermaria de medicina interna de hospital geral, com apoio da psiquiatria.
A assistência prestada por familiares pode ser importante e inclui vigilância relativamente aos líquidos ingeridos, funções da bexiga e intestinos, repouso num quarto com boas condições climatéricas e de iluminação, não ter muita gente estranha à volta, protecção contra certos riscos como fumar na cama.
Pode-se sumariar a abordagem terapêutica da seguinte forma:
- Identificação da causa ou causas e sua eliminação.
- Colaboração entre o Médico de Família, o Internista e o Psiquiatra.
- Medidas sintomáticas gerais, de recuperação e de prevenção, correcção de desequilíbrios hidro-electrolíticos, terapêutica vitamínica, colocação do doente, se possível, num quarto sossegado e bem iluminado. Procurar informá-lo do seu estado e apoiá-lo emocionalmente e na sua reorientação.
- Anti-Psicóticos: o haloperidol será a droga de escolha. A dose depende da idade, peso e estado físico. Como dose inicial 2 a 10 mg IM, repetindo de hora a hora até controle da agitação.
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Prognóstico
Os resultados dependem da causa e variam entre a recuperação completa, recuperação parcial com demência residual e morte. Para doentes internados nos hospitais gerais, o desenvolvimento de delirium é sinal de risco aumentado de morte ou implica uma estada mais prolongada nos hospitais e eventual alojamento subsequente noutra estrutura assistencial. Assim sendo a detecção e o tratamento precoce do delirium são essenciais.
Concluindo pode haver:
- Total recuperação do funcionamento preexistente, que é o mais comum, sendo a duração geralmente de uma semana, menos frequentemente de algumas semanas e mais raramente de alguns meses.
- Demência ou outra perturbação mental orgânica.
- Mais raramente uma perturbação mental não orgânica, como paranóia.
- Coma e morte.

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Bibliografia
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Kathol, R.; Licamele, W.; Rund, D.A., Emergências psiquiátricas no consultório, Patient Care (Ed. Port.), 1999; 4 (42): 91-106.

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