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Parte IV – Problemas clínicos
4.14. Abordagem do paciente com problemas dermatológicos
427. O paciente com alopecia e calvície
Carla Cardoso
Documento de trabalho
última actualização em Dezembro 2000

Contacto para comentários e sugestões: Lourenço, Rui

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Alopecia

A alopecia pode dever-se a várias causas e, cabe ao médico de família, fazer a sua abordagem inicial no sentido de investigar a sua etiologia. Deverá estar apto a fazer o aconselhamento do doente e instituir a terapêutica das formas mais comuns.
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Ciclo de Crescimento do Cabelo

Os cabelos crescem de uma forma cíclica que se pode dividir em três fases:
1. Fase de crescimento (anagénica)
2. Fase de involução (catagénica)
3. Fase de repouso (telogénica)
No couro cabeludo saudável 90 a 95% do cabelo está na fase de crescimento, menos de 1% está em involução e 5 a 10% está em repouso. Este ciclo é regulado por mensagens complexas entre o epitélio e a derme, mas o mecanismo ainda não está bem esclarecido. Os folículos podem aumentar ou diminuir de tamanho devido a factores locais ou sistémicos que alteram a duração da fase de crescimento e o volume da matriz pilosa.
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Queda do Cabelo

Diariamente podem cair até 100 cabelos da fase telogénica e um número semelhante de folículos entra na fase anagénica, o que leva a uma renovação total dos cabelos cada 3 a 5 anos. A queda dos pêlos designa-se por eflúvio e a condição dela resultante por alopecia. A alopecia divide-se em cicatricial e não cicatricial. A alopecia não cicatricial é reversível pois os folículos mantêm-se viáveis. Na alopecia cicatricial há sinais de inflamação tecidual, cicatrização ou atrofia da pele o que a torna uma situação irreversível. No quadro I indicam-se as várias causas de alopecia:

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Quadro I

Causa de alopecia
ALOPECIA NÃO CICATRICIAL ALOPECIA CICATRICIAL

Androgénica
Alopecia areata
Eflúvio telogénico
Eflúvio anagénico
Tricotilomania
Alopecia de tracção
Sifílis
Hipotiroidismo
Hipertiroidismo
Mal nutrição
Ferropenia
Tinha do couro cabeludo
Pós-gravidez
Lúpus Eritematoso Sistémico
Medicamentos
Infecções

Agentes físicos
- Queimaduras
- Radiações
Infecções
Neoplasias
Doenças do tecido conjuntivo
Pseudopelada
Defeitos congénitos
Lúpus Eritematoso Discóide

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Alopecia não cicatricial
As alopecias mais comuns na prática clínica são a androgénica e areata. Qualquer uma delas é de difícil aceitação pela parte do paciente e gera grande ansiedade.
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Alopecia Androgénica
- É uma forma de calvície com perda de cabelos induzida por acção dos androgénios sobre os folículos pilosos do couro cabeludo em indivíduos com predisposição genética e tem maior incidência no sexo masculino. Tem início após a puberdade, geralmente entre os 12 e os 40 anos. No padrão masculino a perda de cabelo tem início nas regiões parietais e leva ao aparecimento de uma reentrância em forma de "M". Posteriormente pode também surgir uma área de alopecia no vértex. Nas formas extensas a permanência de cabelos pode limitar-se às zonas laterais e posteriores do couro cabeludo. A alopecia no sexo feminino pode também seguir este padrão e nestes casos deve pensar-se em aumento de androgénios e pesquisar outras alterações sugestivas desse aumento. No padrão feminino a alopecia é mais difusa e geralmente menos intensa. As regiões central e frontal são as zonas mais atingidas.
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Alopecia Areata
- Caracteriza-se por uma perda de cabelo em áreas localizadas com um padrão circular ou oval e de limites bem definidos. A etiologia é desconhecida mas pensa-se que estejam envolvidos processos auto-imunes contra os folículos pilosos. Tem uma incidência igual nos dois sexos e atinge sobretudo adultos jovens e crianças. Podem coexistir alterações distróficas das unhas. A evolução é variável, pode ocorrer reaparecimento espontâneo dos cabelos ou, mais raramente, vão sempre surgindo novas áreas de alopecia até à calvície total. As recorrências são comuns. São indicadores de prognóstico desfavorável a alopecia total antes da puberdade, a existência de distrofias ungueais, os episódios repetidos e a confluência das lesões na região occipital.

A alopecia não cicatricial pode ainda dever-se a doenças sistémicas, infecções, alterações metabólicas ou uso de medicamentos, nomeadamente anticoagulantes varfarinicos, b-bloqueantes (metoprolol, propanolol), enalapril alopurinol, antitiroideus, glibenclamida, amiodarona e agentes antineoplásicos.
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Diagnóstico

Anamnese - Deve ser esclarecida a duração da queda do cabelo, a sua evolução e forma (localizada ou difusa), se há sintomatologia sugestiva de doenças sistémicas ou alterações metabólicas. Perguntar se há antecedentes de traumatismo físico dos cabelos, dietas ou gravidezes recentes. Esclarecer se há antecedentes familiares de alopecia androgénica de padrão masculino ou feminino. Verificar se há ou houve toma de medicamentos que possam causar alopecia.
Exame objectivo - Determinar o padrão de queda de cabelo. Procurar alterações cutâneas como inflamação ou zonas cicatriciais. Nas mulheres com alopecia de padrão masculino interrogar sobre irregularidades menstruais, infertilidade, hirsutismo ou acne.
Exames laboratoriais - A decisão sobre os exames a pedir baseia-se na história clínica e no exame físico. Considerar a realização de hemograma, VDRL, pesquisa de anticorpos anti-nucleares e doseamentos séricos das hormonas tiroideias, ferro, todos eles úteis para exclusão das causas de alopecia.
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Terapêutica

Todas as formas de alopecia causam uma grande perturbação nos doentes.
O médico de família deverá esclarecer, aconselhar e tranquilizar o doente que o procura devido à queda do cabelo. O tratamento da alopecia varia com a sua etiologia e deve ser dirigido à patologia subjacente.
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Alopecia Androgénica
- O objectivo da terapêutica é atrasar a progressão da alopecia e aumentar o número de cabelos do couro cabeludo.
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Padrão Masculino
- A aplicação de uma solução tópica de minoxidil disponível nas concentrações de 2% e 5%, permite diminuir a queda de cabelos e aumentar a espessura dos cabelos existentes. Um bom candidato para esta terapêutica é um homem com calvície há menos de 5 anos e com uma área de alopecia inferior a 10 em e localizada no vértex. A aplicação no couro cabeludo deve ser feita duas vezes por dia na dose de 1 ml de solução. O doente deve ser avisado que os resultados podem demorar cerca de seis meses até serem perceptíveis. Após este período de tempo é necessário continuar o tratamento para que os benefícios se mantenham. Se o tratamento for interrompido os resultados obtidos desaparecem num espaço de 6 a 12 meses e a densidade dos cabelos será a mesma do que seria sem tratamento. Os efeitos secundários mais frequentes são prurido e irritação local do couro cabeludo. Pode ocorrer hipertricose. Mais recente é a terapêutica com finasteride na dose de 1 mg diário em dose única oral. Esta substância é um inibidor de 5a-reductase e da sua acção resulta um aumento da espessura, comprimento e pigmentação dos cabelos. Os seus efeitos secundários são sobretudo a nível sexual com a diminuição da libido, disfunção eréctil e ejaculatória. Estes efeitos diminuem gradualmente com o tratamento prolongado e desaparecem ao fim de dois a três dias após interrupção do tratamento. Não deve ser usado em grávidas e crianças.

Nas mulheres com alopecia de padrão masculino cuja investigação revele excesso de androgénios pode ser usada espironolactona que se liga aos receptores androgénicos e bloqueia a acção da díhidrotestosterona.
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Padrão Feminino
- A solução tópica de minoxidil é a única terapêutica disponível para promover o crescimento de cabelo em mulheres com alopecia androgénica. Deve ser aplicada duas vezes ao dia e no caso de lavagem do cabelo, este deverá ser totalmente seco antes da sua aplicação. Os efeitos secundários são semelhantes aos descritos para o sexo masculino, à excepção da hipertricose que é mais comum. O finasteride está contra-indicado pelo seu efeito teratogénico.
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Alopecia Areata
- Na maioria dos casos é autolimitada e o reaparecimento dos pêlos é espontâneo. É muito importante o apoio do doente e o esclarecimento da sua situação. Ao nível dos cuidados primários as substâncias usadas são os corticóides e o minoxidil em aplicação tópica. As outras abordagens terapêuticas existentes devem ser reservadas para o Dermatologista e incluem para além das anteriores a injecção intralesional de corticóides, a aplicação local de antralina e os psoralenos com radiação ultravioleta (PLTVA). A decisão terapêutica baseia-se na idade do paciente e na extensão da alopecia.
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Bibliografia

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