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1-Introdução e generalidades
O risco de ocorrência de interacção medicamentosa é função, não apenas do tipo e número de drogas em uso, mas também do estado do sujeito que se encontra doente. Assim, é indispensável considerar com particular atenção relativamente ao risco, os idosos, os doentes em polifarmácia, os doentes com má reserva homeostática, os que se apresentam em estado de falência orgânica (cardíaca, hepática ou renal), os sujeitos a medicamentação profiláctica (epilépticos, imunossuprimidos, ou a tomar anovulatórios), bem como os que são acompanhados por mais do que um médico e os grandes consumidores de medicamentos não sujeitos a receita médica ou à base de ervas. Relativamente às drogas, existem factores facilitadores, explicativos da maior propensidade de certos grupos, como o baixo índice terapêutico (varfarina, digoxina, citostáticos, lítio, aminoglicosidos, teofilina), a dependência de sistemas enzimáticos induzíveis ou inibíveis (contraceptivos orais, fenitoína, teofilina, varfarina), ou uma curva dose resposta tipo exponencial (varfarina, antidiabéticos orais), pressupondo mecanismos farmacocinéticos ou farmacodinâmicos. A diferente afinidade das drogas para as proteínas plasmáticas é um factor competitivo determinante de interacções. Também a ingestão de café ou álcool e a presença ou ausência de alimentos, pode interferir, limitando ou acentuando o efeito dos fármacos.
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2-Medicamentosas
A natureza crónica de muitas situações do fôro músculoesquelético, condiciona o recurso frequente, quando não crónico, a fármacos para alívio dos sintomas ou indução de remissão, como no caso da artrite reumatóide. Abordaremos nesta súmula os AINE, os corticóides, outros imunossupressores, os fármacos modificadores da doença, os opióides e os antigotosos.
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2.1-Anti-inflamatórios não esteróides
Apesar da sua enorme diversidade, todos os AINE apresentam elevada afinidade para as proteínas plasmáticas, o que justifica o seu elevado potencial interactivo com outros fármacos, potenciando a acção da varfarina e outros cumarínicos; reduzindo a potência dos diuréticos, sendo que, em associação com a furosemida podem precipitar ou agravar uma insuficiência renal; decrescendo a acção antihipertensiva dos inibidores da enzima de conversão da angiotensina; retardando a depuração do lítio; aumentando o risco de toxicidade pelo valproato; diminuindo a depuração da digoxina; aumentando ainda o efeito das sulfonilureias; e embora raro, a sua associação às cefalosporinas, penicilinas semi-sintéticas e aminoglicosidos, pode precipitar insuficiência renal aguda. O uso concomitante de antiácidos e antifúngicos, pode diminuir o efeito dos AINE. Os inibidores dos H2 podem aumentar a toxicidade dos AINE e estes a do metotrexato.
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2.2-Corticosteróides
Os corticóides podem diminuir o efeito dos salicilatos. Podem igualmente aumentar a toxicidade da teofilina e do metotrexato. O uso concomitante de: antiepilépticos (carbamazepina, fenitoína e primidona); antiácidos; inibidores da bomba de protões (omeprazol); rifampicina, pode diminuir o efeito dos corticóides. Os estrogénios e os macrólidos (eritromicina e troleandomicina) aumentam a toxicidade dos corticóides. A associação com betassimpáticomiméticos (fenoterol, albuterol) e diuréticos (tiazidas, furosemida, ác. etacrínico) pode levar à hipopotassémia.
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2.3-Outros imunossupressores
A azatioprina aumenta a sua toxicidade quando associada ao alopurinol ou às sulfamidas, diminuindo o efeito da varfarina. O metotrexato aumenta a sua toxicidade se associado aos AINE ou aos corticóides, penicilina, sulfamidas e amiodarona, reduzindo a sua actividade quando co-administrado com aminoglicosidos.
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2.4-Agentes modificadores da doença
Os sais de ouro quando associados ao naproxeno podem provocar pneumonite. Pode surgir reacção nitritóide (rubor, náusea , tontura, sensação de desmaio) quando associados aos inibidores da enzima de conversão da angiotensina. A cloroquina aumenta a sua toxicidade quando associada ao paracetamol e à cimetidina, aumentando a toxicidade da penicilamina e das fenotiazinas.
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2.5- Opióides
A sonolência provocada pelos opióides é potenciada quando co-administrados com outras drogas sedativas (benzodiazepinas, hipnóticos). A carbamazepina diminui o efeito do tramadol e do fentanil, e aumenta a produção de um metabolito potente da codeína. O uso concomitante de tramadol e inibidores da MAO, aumenta a toxicidade destes.
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2.6- Antigotosos
Os antiácidos diminuem o efeito terapêutico do alopurinol. A toxicidade do alopurinol aumenta quando associado às tiazidas. A associação do alopurinol: com os inibidores da enzima de conversão da angiotensina condiciona maior susceptibilidade à síndrome de Stevens-Johnson e reacções de hipersensibilidade ao captopril; aos anticoagulantes orais, aumenta o efeito destes; com a teofilina, a azatioprina, a mercaptopurina ou a ciclosporina, aumenta a toxicidade destes.
A eritromicina aumenta a toxicidade da colchicina e esta a da ciclosporina.
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3-Não medicamentosas
3.1- Relacionadas com os alimentos
A presença de alimentos diminui a absorção da penicilamina, diclofenac e dextropropoxifeno. A ingestão de alimentos ou leite reduz os efeitos gástricos dos AINE. Os alimentos ricos em proteínas encurtam o t máx. do paracetamol. A biodisponibilidade da morfina e os seus níveis séricos aumentam com a presença de alimentos.
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3.2- Com a cafeína
A cafeína aumenta a biodisponibilidade e a velocidade de absorção dos salicilatos.
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3.3- Com o álcool
A associação do álcool com o paracetamol pode ser hepatotóxica. O álcool aumenta o tempo de hemorragia nos doentes medicados com salicilatos. O álcool aumenta a sedação provocada pelos opióides.
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Bibliografia
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