|
1
Introdução
A progressão para a insuficiência renal crónica é
incidiosa. Poliúria e noctúria podem ser os primeiros sinais.
Mais tarde as queixas de astenia, insónia, mal estar, anorexia,
mau gosto na boca, náusea,
vêm associando-se ao quadro.
A taxa de filtração glomerular (GFR) à medida que
a função renal se deteriora vai diminuindo, aumentando os
níveis de ureia sanguínea.
Mas, é no exame de urina fresca que se encontram as primeiras alterações
que ajudam ao diagnóstico e muitas vezes pouco valorizadas.
A anemia, em geral normocítica e normocrómica é em
regra proporcional ao grau de azotemia, embora os mecanismos que levam
à anemia crónica na insuficiência renal crónica
sejam complexos, ficando para abordar em tema próprio, mais tarde.
A diminuição da capacidade de concentrar a urina leva para
além da perda de água, à perda de sódio e
à retenção de potássio.
Mais ou menos 40-60 mEq de ácido (H+) é excretada normalmente
pelo rim numa pessoa que ingira ± 70g de proteína/dia. A
maior parte é produzida no corpo por oxidação. Aproximadamente
metade do componente ácido é excretado na urina sob a forma
de NH4+, sendo o restante tamponado pelo fosfato. Nos doentes com insuficiência
renal a capacidade de produzir NH4+ está reduzida.
Baixar o pH urinário vai requerer um aumento da acidose sistémica.
O gasto de bicarbonato e a incapacidade de o reabsorver contribui para
a retenção de H+ nos fluídos e consequente produção
ou manutenção da acidose, metabólica. O excesso de
ácido produzido é neutralizado pelos "tampões"
(body buffers), incluindo o osso e contribuindo para a osteoporose e balanço
de cálcio negativo, com todas as alterações inerentes
de cálcio, fósforo, PTH, a seguir referidas.
2
Análise da urina
O exame da urina está entre as práticas mais antigas da
medicina, remontando ao tempo dos físicos da Babilónia,
há 6000anos atrás. Hoje em dia a "simples" análise
de urina continua a ser um dos pilares na avaliação da doença
renal.
É um dos mais simples e mais úteis métodos laboratoriais
na medicina clínica.
Os testes urinários apesar da pouca especificidade, são
habitualmente sensíveis na detecção de doença
parenquimatosa renal ou do tracto urinário, particularmente numa
variedade de afecções tratáveis que se não
detectadas atempadamente, conduzem à insuficiência renal
crónica.
A análise urinária é uma "ferramenta" valiosa
no rastreio de uma larga variedade de doenças que afectam o tracto
urinário, e na monitorização do seu curso, devendo
ser, portanto, efectuada de rotina em todos os doentes, tal como se faz
a avaliação da pressão arterial, do peso e da altura.
3
1.
Colheita da amostra
Para evitar contaminações da urina pelo conteúdo
da uretra ou da vagina, durante a colheita, deverá ser apenas aproveitada
a urina obtida do jacto médio, após limpeza adequada da
área circundante ao meato urinário.
Para que se obtenha mais informação do exame, deverá
ser colhida uma amostra da primeira urina da manhã, porque esta
é habitualmente mais concentrada - permitindo-nos uma avaliação
inicial sobre capacidade de concentração urinária
- e mais ácida - preservando melhor as células e os cilindros.
A urina deve ser examinada logo que possível (não mais do
que 2 h após a colheita), uma vez que com o tempo, as características
químicas e físicas da urina se alteram e os elementos do
sedimento se deterioram, dificultando a interpretação.
4
a)
análise macroscópica
COR E ASPECTO - A urina pode variar de incolor a amarelo claro ou âmbar.
A concentração de urocromo (pigmento ainda mal caracterizado)
é o responsável pela cor normal da urina.
Uma cor anormal não significa necessariamente presença de
doença, havendo uma grande variedade de alimentos e agentes farmacológicos
que causam variação na coloração normal da
urina (Quadro I).
19
Quadro I
|
Substâncias
que podem alterar a coloração da urina
|
| SUBSTÂNCIAS |
COR |
Fosfatos
precipitados
Leucocitúria abundante
Quilo |
Leitosa |
Bilirrubina
Nitrofurantoína
Cloroquina
Sulfasalazina
Riboflavina
Serotonina
|
Amarela/Ambar |
Hemoglobina,
mioglobina, eritrócitos
Fenotiazinas
Catárticos contendo senne, cáscara, aloé
Fenitoína sódica
|
Castanha/Vermelha |
Melanina
Ácido homogentísico
Fenol
Metildopa
Metronidazol
Quinina
|
Castanha/Preta |
Infecção
por Pseudomonas
Amitriptilina
Azul de metileno |
Azul/Verde |
In Disease of the Kidney.R.W. Schrier and C.W. Gottschalk. Little, Brown
and Company
5
Cheiro - É de importância clínica limitada.
6
Densidade específica - A densidade específica da
urina é a razão entre o peso de um volume de urina e o peso
de um volume idêntico de água destilada, estando dependente
tanto do peso como do número das partículas na solução
e correlacionando-se bem com a osmolalidade, na urina normal.
A densidade da urina pode variar de 1.001 a 1.035, no entanto, sob condições
normais varia entre 1.008 e 1.030, correspondendo uma urina concentrada
a uma densidade específica elevada (>1.020) e uma urina diluída
a uma densidade baixa (<1,005).
Se eventualmente a urina contém uma substância com peso molecular
mais elevado do que os constituintes normais (p. ex: proteínas,
glicose, agentes radiográficos de contraste), há um aumento
desproporcionado da densidade específica relativamente à
osmolalidade. Nestas circunstâncias, a densidade está fora
dos parâmetros fisiológicos (> 1.040) e não reflecte
a concentração urinária.
Existem várias técnicas para avaliar a densidade urinária
- hidrometria, refractometria -,mas a mais frequentemente usada é
a da tira reagente e que assenta na presença de um indicador de
pH que detecta alterações na concentração
iónica urinária.
7
pH - O pH urinário flutua entre 4,5 e 8. No entanto, na
urina normal o pH está entre valores de 5 e 6,5 reflectindo a excreção
obrigatória dos ácidos gerados pelo metabolismo (principalmente
o das proteínas).
O pH tende a ser mais ácido na primeira urina da manhã e
a aumentar após as refeições.
O aumento da ingestão proteica resulta numa urina persistentemente
ácida, enquanto uma dieta vegetariana torna a urina mais alcalina.
Outras causas de urina ácida incluem: febre, gota, depleção
severa de potássio, hiperaldosteronismo, acidose metabólica,
ileostomia, diarreia, administração de cloreto de amónia
ou ácido ascórbico.
A urina mantém-se alcalina em doentes com alcalose metabólica,
com acidose tubular renal distal ou nas infecções do tracto
urinário por organismos produtores de urease e durante a administração
de bicarbonato de sódio, citrato de sódio ou acetazolamida.
8
Proteínas - A excreção anormal de proteínas
na urina é um marcador de muitas doenças renais e a sua
quantificação ajuda-nos a diferenciar uma doença
glomerular de uma túbulointersticial.
A taxa normal de excreção de proteínas é de
100 a 150 mg/ dia o que corresponde a @ 10 mg/ dl. Sessenta por cento
das proteínas urinárias são provenientes do filtrado
glomerular (40% albumina; 15% imunoproteínas; 5% outras) as restantes
40% são mucoproteínas de Tamm-Horsfall (segregadas pelas
células da ansa da Henle e dos segmentos mais distais do túbulo).
O exercício, a febre e o ortostatismo podem aumentar transitoriamente
a filtração das proteínas séricas.
O método mais comum para avaliar a proteinúria, é
o uso de tiras de reagentes colorimétricos, impregnadas de azul
de tetrabromofenol. Falsos positivos podem ocorrer em urinas muitos alcalóticas
ou se houver hematúria maciça. As proteínas de baixo
peso molecular, nomeadamente as cadeias leves das imunoglobulinas, não
são detectadas por este método.
Deve-se salientar que a determinação da proteinúria
por tira-teste, numa amostra isolada de urina, não traduz necessariamente
a excreção urinária de proteínas nas 24 horas.
Uma proteinúria significativa pode, por exemplo, não ser
detectada por tira -teste, se o débito urinário for muito
elevado, mas uma leitura de 4+ representa uma proteinúria >
1,5g/ 24h.
O doseamento da excreção de proteínas numa colheita
de urina de 24 horas, apesar de ser um método largamente usado,
não deixa de apresenta alguns inconvenientes: o incómodo
para o doente e a possibilidade de incorrecções por colheita
incompleta.
O doseamento simultâneo de creatinina na amostra de urina de 24
horas pode ser útil na detecção de erros de colheita.
Em doentes com função renal estável, a excreção
diária de creatinina varia entre 1000 e 2000 (16 a 26 mg/ kg) no
homem, e 750 e 1400 (12 a 24 mg/ kg) na mulher.
Estudos recentes revelaram uma correlação estreita entre
a excreção urinária de proteínas nas 24 horas
e a razão proteínas / creatinina duma amostra randomizada
de urina. A razão normal é @ 0.1 (100 a 150 mg de proteínas
/ 24 h e 1000 a 1500 mg de creatinina / 24 h). Uma razão de 1.0
correlaciona-se bem com uma proteinúria quantitativa de 1g/ 24h,
uma razão de 2.0 com 2g/ 24 h, 3.0 com 3g/ 24h,...
Pequenas elevações da excreção urinária
de albumina (microalbuminúria = 30 a 300 mg/ 24h) em doentes com
DMID têm valor preditivo no desenvolvimento de nefropatia diabética.
9
Glicose - A pesquisa de glicose na urina é por rotina usada
para rastreio de diabetes e raramente de glicosúria renal. Em doentes
com função renal normal, o limiar renal para a glicose é
uma concentração sérica de 160 a 180 mg/ dl. Uma
vez que a glicose na urina é detectada empregando uma enzima específica
para a glicose, não se detectam outras substâncias redutoras.
A presença de glicose na urina com valores plasmáticos normais
indica redução da capacidade de reabsorção
tubular de glicose. Este fenómeno é comum durante a gravidez.
10
Nitritos - É um teste usado para detecção
de infecções do tracto urinário. Os nitritos não
estão presentes na urina normal, mas quando há bactérias
na urina estas reduzem os nitratos provenientes da dieta a nitritos. É
um teste qualitativo e a sua positividade indica a presença de
mais de 10 org./ ml. Falsos-negativos resultam do facto das bactérias
presentes na urina não serem produtoras de nitritos, p. ex.,muitos
cocos Gram + e fungos, ou da presença de níveis elevados
de ácido ascórbico.
11
Estearase leucocitária - É um teste usado para detectar
leucócitos na urina, baseado na libertação de estearase
leucocitária pelos neutrófilos O teste é positivo
se houver mais de 5 leucócitos /campo de maior ampliação
(hpf). A estearase leucocitária pode ser detectada na urina mesmo
quando não é possível identificar leucócitos
no exame microscópico do sedimento.
Este teste usado em combinação com o anterior, no rastreio
de infecções do tracto urinário, tem uma sensibilidade
de 87% e uma especificidade de 74%.
12
Sangue e hemoglobina - Eritrócitos, hemoglobina e mioglobina
podem ser detectados na urina pelas tiras reactivas colorimétricas.
Este teste é muito sensível detectando números reduzidos
de glóbulos rubros (3 GR/ hpf) na urina.
Um "tira-teste" positivo para sangue, acompanhado de ausência
de eritrócitos no exame microscópico do sedimento é
uma evidência importante da presença de pigmentúria.
A presença de falsos-positivos pode ocorrer por contaminação
da urina com povidona iodada, e falsos-negativos, na presença de
ácido ascórbico.
13
b)
exame microscópico do sedimento
O exame microscópico do sedimento urinário geralmente segue
a análise macroscópica da urina. O sedimento é examinado
microscopicamente para a presença de células, cilindros
e cristais.
A urina normal contém uma pequena quantidade destes elementos que
podem ser identificados no sedimento (Quadro II). Um sedimento urinário
anormal contém, ou constituintes normais da urina em número
anormalmente elevado, ou constituintes que não estão habitualmente
presentes na urina em qualquer quantidade.
20
Quadro II
|
Células
e cilindros encontrados no sedimento
|
| |
Normal |
Anormal |
| Células
|
|
|
| GR |
3-5/
hpf |
>5
/ hpf |
| GB |
3-5/ hpf |
>5
/ hpf |
| Epiteliais |
0-2
/ hpf |
>5
/ hpf |
| Corpos
gordos ovais |
- |
+ |
| Cilindros
|
poucos |
muitos |
| Hialinos |
poucos |
muitos |
| Granulares |
- |
+ |
| Eritrocitários |
- |
+ |
| Leucocitários |
- |
+ |
| Epiteliais |
- |
+ |
| Pigmentares |
- |
+ |
| Gordos |
- |
+ |
| "Waxy" |
- |
+ |
"+"significa presença de células; "-"
significa ausência de células;
hpf - ampliação de 400x
In Disease of the Kidney.R.W. Schrier and C.W. Gottschalk. Little, Brown
and Company
14
Eritrócitos
- É aceite que indivíduos "normais", sem lesão
renal aparente ou doença urológica conhecida excretem, ocasionalmente,
glóbulos rubros na urina, principalmente na sequência de
febre ou exercício extenuante.
A maioria dos clínicos aceita como critério de divisão
entre o normal e o anómalo o valor de 3 a 5 gr / hpf.
Quando se avalia um doente com hematúria microscópica, é
importante poder distinguir entre hematúria glomerular e hematuria
proveniente do tracto urinário. Foi observado que os eritrócitos
de origem glomerular têm um volume corpuscular médio menor
e são dismórficos. A contra-análise de Coulter permite
fazer esta distinção.
15
Leucócitos - Normalmente o sedimento urinário tem
uma média de 3 leucócitos / hpf.
A presença de um grande número de leucócitos implica
inflamação (i. e.,nefrite intersticial) ou infecção,
sendo esta última a causa mais frequente de piúria.
O leucócito predominante na urina é o neutrófilo
polimorfonuclear. Em situações de nefrite intersticial aguda
podem ser encontrados eosinófilos no sedimento urinário
usando a coloração de Wright ou a de Hansel, tendo esta
última maior sensibilidade. A contagem de eosinófilos na
urina é feita em termos percentuais; quanto maior for a percentagem
de eosinófilos na urina (5%) maior a probabilidade de estarmos
perante um quadro de nefrite intersticial aguda.
16
Células epiteliais - podem ser de três tipos: tubular
renal, do epitélio de transição e escamosas. Aparecem
em pequeno número, na urina normal, menos de 3 a 5 / hpf.
Um aumento do número de células tubulares renais, no sedimento,
indica doença túbulo-intersticial, especialmente necrose
tubular aguda.
A presença de células do epitélio de transição
pode significar neoplasia do tracto urinário inferior e a existência
de células escamosas, na urina de uma mulher é sinal de
contaminação da mucosa vaginal.
Na presença de proteinúria pesada o sedimento caracteriza-se
pelo aparecimento de corpos gordos ovais, gotículas de gordura
e pela presença de "Cruzes de Malta" à luz polarizada.
17
Cilindros - Os cilindros são formados no túbulo renal
como consequência da gelificação da mucoproteína
de Tamm- Horsfall, adquirindo assim a forma do lúmen do túbulo
onde foi formado. Um pequeno número de cilindros hialinos e granulares
podem ser vistos numa urina normal. A febre, o exercício e os diuréticos
podem causar um aumento transitório na excreção de
cilindros que desaparece ao fim de 24-48 horas. A urina ácida e
concentrada favorece a formação de cilindros, tal como uma
concentração elevada de cálcio, sódio, albumina,
agentes de contraste ou proteínas de Bence-Jones.
Enquanto que os cilindros hialinos e granulosos nem sempre indicam uma
condição patológica, todos os outros cilindros são
anómalos e a sua presença sugere doença renal:
Hialinos -formam-se nos túbulos distais e tubos colectores. Aparecem
em número reduzido na urina normal, mas podem ser vistos em abundância
em situações patológicas, quase sempre acompanhados
de outras anomalias urinárias. Quando estes cilindros se formam
em nefrónios lesados, dilatados ou hipertrofiados são maiores
do que o habitual ("broad casts") e traduzem doença renal
severa;
Granulares - são encontrados numa grande variedade de doenças
renais de origem glomerular ou túbulointersticial. Os seus grânulos
resultam da agregação de restos celulares e de proteínas.
A excreção profusa destes cilindros muito pigmentados ("waxy
casts") é característica da necrose tubular aguda;
Eritrocitários - são quase patognomónicos de glomerulonefrite
ou de vasculite renal. O achado de apenas um cilindro eritrocitário
dirige a avaliação subsequente do doente, no sentido da
doença glomerular, eliminando a necessidade de estudo urológico.
Leucocitàrios - são observados frequentemente em situações
de nefrite intersticial aguda ou crónica e podem ser vistos em
grande número nas glomerulonefrites agudas. No contexto de infecção
do tracto urinário identificam o rim como local de infecção;
Celulares (de células tubulares renais) - podem estar associados
com qualquer lesão tubular, mas são mais frequentemente
encontrados na necrose tubular aguda;
Gordos - têm as mesmas características e significado clínico
das gotículas de gordura. São também um achado clássico
da embolia gorda, ocasionalmente após fracturas severas de ossos
longos.
18
Cristais - Uma vez que a maioria dos cristais associados a nefrolitíase
também aparecem na urina normal, a sua presença no sedimento
habitualmente não tem qualquer significado clínico. Os cristais
observados na urina normal estão listados não Quadro III.
No contexto de nefrolitíase, o tipo de cristais observados pode
ser uma pista diagnóstica quanto à origem do cálculo.
Os cristais que têm sempre significado patológico incluem:
cistina, tirosina e leucina.
|
Cristais
na urina normal
|
| Cristais |
pH |
| Urato
amorfo |
ácido |
| Ácido
úrico |
ácido |
| Oxalato
de cálcio |
ácido |
| Fosfato
amorfo |
alcalino |
| Trifosfato |
alcalino |
| Biurato
de amónia |
alcalino |
| Carbonato
de cálcio |
alcalino |
In
Disease of the Kidney.R.W. Schrier and C.W. Gottschalk. Little, Brown
and Company
22
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urinalysis and renal biopsy", In The Kidney;
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23
Metabolismo fosfo-cálcio
O metabolismo fosfo-cálcio no doente renal torna-se ainda mais
complexo e constitui sempre um desafio para quem se propõe regulá-lo
(Fig.1). O controlo dietético tem de ser rigoroso e, ao ponderar
todas as alterações fisiológicas, visa manter, a
cada instante, a homeostasia interna.
A insuficiência renal crónica (IRC) está associada
a alterações do equilíbrio orgânico de cálcio,
fósforo bem como do metabolismo da vitamina D.
À medida que a IRC se torna mais grave, mais graves se tornam estas
alterações podendo desencadear desequilíbrios irreversíveis.
A regulação do cálcio e do fósforo depende
fundamentalmente de dois sistemas hormonais, a hormona paratiróide
(PTH) e o 1,25-dihidroxicolecalciferol (calcitriol), metabolito activo
da vitamina D. A estimulação da PTH resulta de baixa calcemia
e induz a elevação do cálcio sérico por mobilização
óssea, aumento da sua reabsorção renal e estimulação
da síntese de calcitriol no rim. Este metabolito é também,
o principal regulador da absorção intestinal de cálcio.
A acção conjunta da PTH e calcitriol leva a uma excreção
renal de fósforo aumentada e consequente diminuição
do fósforo sérico. O aumento de calcitriol inibe a secreção
da PTH. À medida que a doença renal avança, todo
este sistema hormonal sofre profundas modificações, pois
o rim, para além de ser o regulador por excelência do metabolismo
fosfo-cálcio, é o local onde o se produz calcitriol.
A deterioração progressiva do parênquima leva a desajustes
graves neste metabolismo aumentando de forma significativa o desgaste
do tecido ósseo. A franca diminuição da capacidade
excretora leva à acumulação de fósforo que
contribui para o aparecimento de hiperparatiroidismo.
O cálcio é o catião mais abundante do organismo.
Um homem adulto de 70Kg tem aproximadamente 1200g de cálcio. Cerca
de 99% deste cálcio está no esqueleto depositado sob a forma
de sais de cálcio, não se encontrando por isso prontamente
disponível para a homeostasia diária deste catião.
Uma pequena quantidade está presente nos fluídos orgânicos
(espaço extracelular) onde parte se encontra ionizado. Esta pequena
quantidade de cálcio ionizado tem uma grande importância
na coagulação e na normal repolarização e
excitabilidade do coração, músculos e nervos, bem
como para a diferenciação da permeabilidade das membranas.
As trocas de cálcio entre o osso e os fluídos extracelulares
ocorrem mediadas essencialmente por dois mecanismos: o processo constante
de remodelação óssea e o mecanismo regulador da concentração
sérica de cálcio. A concentração de cálcio
no plasma varia entre 9 e 10,4 mg/dl. Aproximadamente 40% deste cálcio
está ligado a proteinas, 75 a 90 % desta fracção
está ligada à albumina, 10% encontra-se em variados complexos
aniónicos e o restante 50% encontra-se numa forma livre denominado
por cálcio ionizado.
Na absorção de cálcio através da mucosa intestinal
estão implicados dois mecanismos, o transporte activo transcelular
regulado pela vitamina D e a difusão passiva paracelular mediada
pelo fluxo de água e/ou pelo gradiente electroquímico. É
no intestino delgado que o processo activo tem lugar e onde a vitamina
D actua provocando uma maior sensibilidade; no restante intestino ocorre
a absorção passiva que depende da concentração
luminal de cálcio.
Outros factores que favorecem a absorção intestinal de cálcio
são a PTH, a hormona de crescimento e os estrogénios, que
contribuem para um aumento da síntese de calcitriol. A lisina,
arginina e lactose presentes na alimentação favorecem directamente
a sua absorção. A presença de glucocorticóides,
diuréticos tiazidicos e de acidose metabólica diminuem a
absorção intestinal de cálcio. Neste grupo, encontram-se
também substâncias como fosfatos, oxalatos, ácidos
gordos de cadeia longa e fibras, veículados pela alimentação.
Para manter um balanço de cálcio neutro, o rim excreta uma
quantidade de cálcio igual à absorção intestinal
(@200mg). Aproximadamente 70% do cálcio filtrado é reabsorvido
no túbulo contornado proximal, 20% no ramo ascendente da ansa de
Henle, 5 a 10% no tubúlo distal e 4% no colector. São vários
os mecanismos implicados na regulação metabólica
do cálcio pelo rim. Factores dietéticos, nomeadamente dietas
com altos teores de sódio ou cálcio, fazem aumentar a excreção
deste elemento. Pelo contrário, níveis altos de fósforo
diminuem a sua excreção e estimulam a secreção
de PTH. Factores hormonais e alterações metabólicas
como a acidose, estão associadas a uma excreção aumentada.
Na IRC a absorção está alterada, estudos feitos com
cálcio marcado demonstram que a absorção deste ião
em doentes urémicos se encontra diminuida até duas horas
após a ingestão, no entanto, às quatro horas iguala
a absorção, quando comparada com individuos normais. Assim,
nos doentes sujeitos a hemodiálise, após o tratamento, a
sua absorção é maior, diminuindo à medida
que a ureia sobe. Depois do transplante renal e se os níveis de
creatinina forem inferiores a 2,0mg/dl a absorção de cálcio
é normal.
Os distúrbios do metabolismo do cálcio na doença
renal estão directamente relacionados com o grau de IRC. Para além
da deficiente absorção intestinal, a ingestão é
habitualmente baixa, pois para tentar controlar o fósforo são
necessariamente retirados os produtos lácteos daí resultando
uma diminuição da ingestão daqueles alimentos que,
curiosamente, são os que têm uma melhor biodisponibilidade,
pois apresentam uma relação cálcio/fósforo
ideal. A suplementação de cálcio a longo prazo tem
sido associada com efeitos benéficos, como o aumento da sua concentração
sérica, diminuição dos níveis de fósforo,
fosfatase alcalina, PTH, e redução da reabsorção
óssea. Contudo, esta suplementação necessita óbviamente
da ingestão concomitante de vitamina D. A suplementação
de cálcio em altas doses pode levar a quadros de hipercalcemia,
principalmente em doentes com IRC avançada, sendo esta situação
mais frequente quando, concomitantemente, os níveis séricos
de fósforo são baixos (</= 2,0mg/dl). Se os níveis
de fósforo são altos (> 5,5mg/dl) a administração
de cálcio pode levar a um aumento do produto fosfo-cálcio
favorecendo a calcificação dos tecidos moles. Assim, na
presença de hiperfosfatemias graves devem ser usados planos alimentares
restritos em fósforo e/ou que diminuam a sua absorção.
Podem ser utilizadas substâncias quelantes tais como carbonato e/ou
acetato de cálcio, antiácidos contendo hidróxido
de alumínio, ou mais recentemente polímeros não absorvíveis.
A eficácia da quelação do fósforo pelo cálcio
só se verifica se este fôr tomado com as refeições.
Se pretendermos aumentar os níveis séricos deste elemento
deve sugerir-se ao doente a sua ingestão no intervalo das refeições.
O fósforo também é um constituinte importante do
esqueleto. O fosfato é fundamental para inúmeras acções
celulares e, tal como o cálcio, a sua homeostasia depende da interacção
de três orgãos, o sistema gastrointestinal, o osso e o rim,
dependendo também da acção das duas hormonas, PTH
e calcitriol.
Existem aproximadamente 600 a 700g de fósforo num homem de 70kg,
85% no esqueleto e dentes, 14% nos tecidos moles e 1% no sangue e fluídos
extracelulares. A quantidade de fósforo inorgânico na célula
é muito pequena, mas muito importante, dado ser esta a fracção
que está na origem do ATP. Um adulto normal necessita de uma ingestão
que ronda os 800 a 1600mg/dia e 1/3 deste é absorvido no duodeno
e jejuno. Esta absorção ocorre por difusão pela via
paracelular e é proporcional à ingestão, no entanto
também existe transporte activo, envolvendo uma ligação
ao sódio na bordadura em escova da membrana. A energia para este
processo é fornecida através da ATPase Na/K. Esta segunda
via de absorção é mediada pela vitamina D e é
geralmente utilizada em condições de stress ou quando as
necessidades em fósforo estão aumentadas. Há factores
que influenciam a absorção, nomeadamente, o teor em cálcio
da dieta (quanto maior quantidade menor a absorção) e a
existência de iões bivalentes tais como o magnésio
que retêm a sua difusão. Em geral, 200mg de fósforo
entram e saem diariamente do osso e aproximadamente 900mg são excretados
pelo rim.
O rim é o principal órgão de regulação
do fósforo que reabsorve em cerca de 80% a nível tubular.
A excreção urinária de fósforo tem um papel
fundamental na regulação da concentração plasmática
e reservas corporais, contudo os principais mecanismos são influenciados
pela ingestão dietética e níveis séricos de
PTH.
Quando a função renal está gravemente comprometida
os níveis séricos aumentam devido à incapacidade
de excreção renal. Este aumento resulta na estimulação
da PTH, por hipocalcemia secundária e diminuição
da síntese de calcitriol, conduzindo ao aparecimento de hiperparatiroidismo
secundário. O tratamento de eleição é diminuir
a ingestão de fósforo na dieta. No entanto, gostavamos de
deixar claro que esta diminuição muitas das vezes é
dificil, pois estes doentes estão já com dietas hipoproteicas,
que à partida diminuem o aporte de fósforo. Nos doentes
em hemodiálise, cujo aporte proteico tem de ser superior ao dos
doentes com IRC não terminal, os problemas de elaborar um plano
alimentar exequível, com distribuição de macro e
micronutrientes equilibrada de forma a manter um bom estado nutricional
torna-se difícil.
As recomendações diárias em vit. D para os adultos
são de 600 a 800UI. Além da obtida por síntese cutânea,
a vit. D pode provir dos alimentos, sob a forma de D2 ou ergolcalciferol,
não activa. Para posterior activação, sofre duas
sucessivas hidroxilações, a primeira no fígado e
a segunda no rim de forma a tornar-se no metabolito activo 1,25- -dihidroxicolecaciferol,
conhecido também por calcitriol.
O principal alvo do calcitriol é o intestino, onde promove a absorção
de cálcio, e o osso, onde modela o seu metabolismo. A produção
renal de calcitriol é regulada directamente pela PTH, e indirectamente
pelo cálcio e fósforo.
A nível do intestino, a acção do calcitriol na regulação
da absorção quer do cálcio quer do fósforo
ainda não está perfeitamente definida, no entanto, parece
que esta hormona também regula a produção de proteínas
transportadoras. No osso tem um papel importante na diferenciação
dos percursores dos osteoclastos a células definitivas. Assim,
a mineralização dos osteóides parece ser consequência
de um conjunto de acções que tentam manter normais as concentrações
extraceculares de cálcio e fósforo. Sendo o rim a maior
fonte endógena de calcitriol, quando a massa renal activa diminui,
há redução da sua produção levando
a um aumento da PTH para, de forma directa, se produzir mais calcitriol.
No entanto, existem outros factores, nomeadamente a acidose, que podem
contribuír para a diminuição da produção
de calcitriol.
Muitas vezes torna-se necessária a suplementação
oral em vit. D3, sendo importante uma monitorização rigorosa,
visto que um dos efeitos indesejáveis desta terapêutica é
a possibilidade de suprimir, de forma exagerada, a PTH, o que resulta
em doença adinâmica do osso, agravamento da hiperfosfatémia
e aumento do produto fosfo-cálcio, com risco de deposição
extra-óssea, nos tecidos moles e até mesmo a nível
vascular.
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Resumo
A Insuficiência
Renal provoca alterações na função das paratiróides
levando ao hiperparatiroidismo que pode conduzir ao aparecimento de osteíte
fibrosa.
A Insuficiência
Renal leva à diminuição de calcitriol que provoca
hipocalcemia e induz ao hiperparatiroidismo.
A Insuficiência
Renal leva à retenção de fosfatos, consequente hipocalcemia
e hiperparatiroidismo, podendo resultar em calcificações
metastáticas.
A diminuição
da produção de calcitriol e a retenção de
fosfatos aliados a outros factores leva à doença adinâmica
do osso.
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