MaisOpinião - Acácio Gouveia

Fake science no Parlamento

MGFamiliar ® - Wednesday, January 02, 2019




Há épocas em que a sociedade, tomada de pânico, se desvia da ciência e procura a salvação na ignorância.
Mikhail Saltykov-Stcherdrine

Um mundo sem ciência é a escravatura. 
Ernest Renan


Antes de mais, a declaração de interesses. Se tiver de escolher qual a mais bem sucedida inovação da história da Medicina responderei: as vacinas.

Contudo, pertenço ao número dos que discordam abertamente do alargamento do PNV por via parlamentar (política) à revelia do parecer(técnico-científico) definitivo da DGS.

Esta ingerência é preocupante, porque reflete uma confusão entre poder político e poder técnico-científico. O poder político tem a ver com a governança das comunidades humanas. O poder técnico-científico com o conhecimento do funcionamento da natureza e suas leis. O bom político será aquele que tem em conta o saber técnico-científico e toma decisões dentro da exequibilidade que circunstâncias que extravasam saber científico lho permitam.

O desrespeito pela independência da ciência é próprio dos regimes autoritários e obscurantistas. Nesses regimes, os políticos arrogam-se mesmo a ditar as “verdades” científicas! O terno Trump, Putin e Erdogan nega a responsabilidade da atividade humana nas alterações climáticas e o primeiro defende que  proliferação de armas aumenta a segurança dos cidadãos. O novo governo italiano decidiu que a vacina contra o sarampo é prejudicial. E isto só para citar exemplos mais recentes.

A travessura dos nossos deputados não se pode comparar com as vilanias acima citadas, mas convenhamos que pode ser vista como um precedente bastante preocupante.  Em defesa dos parlamentares que decidiram curto-circuitar os pareceres da DGS seja dito que se basearam em opiniões respeitáveis da Sociedade Portuguesa de Pediatria. Mas isso não chega. Historicamente é também verdade que anteriores recomendações dos pediatras neste particular acabaram por ser validadas pela DGS. Mas isso não basta. Há que não interferir com modus operandi da ciência e não tentar esborrachar o rigor que lhe é próprio, baseando-se em opiniões parcelares.

Como já foi dito o espírito científico não se coaduna com autoritarismos ideológicos ou religiosos. No Ocidente, a revolução científica helénica soçobrou com queda do Império Romano aliada à ascensão do absolutismo ideológico imposto pelo cristianismo, mergulhando-o num obscurantismo de mais de um milénio. Umas réstias de sabedoria antiga, que se mantiveram nas bibliotecas dos mosteiros, e a curiosidade e génio de alguns nomes isolados (discretos o suficiente para não pisarem linhas vermelhas) foram as centelhas de onde foi possível reacender a luz do livre pensamento, agora sob a forma de revolução científica. Incontornável se torna referir a contribuição islâmica para o progresso técnico e científico durante a noite obscurantista europeia. O quinteto Copérnio, Kepler, Galileu, Newton, Descartes iniciou uma longa epopeia de libertação do saber de experiência feito face ao totalitarismo da verdade revelada. Na política o equivalente a esta libertação encontra-se na democracia. Ora, já não há como negá-lo, a onda democratizante encontra-se em nítido refluxo em todo o mundo. Este crepúsculo do livre pensamento terá reflexos funestos na cultura científica. Surpreendente e alarmante é facto do obscurantismo anticientífico florescer, embora sub-reptício, nos próprios regimes democráticos, de que é exemplo o luso episódio.

Tendo em conta os partidos que se uniram nesta votação somos levados a crer que o móbil não foi minar a ciência, mas puramente e simplesmente de cariz populista. Seja como for, erodem o prestígio científico-técnico. Mas há outro efeito secundário potencialmente deletério. A ligeireza com que aprovaram a introdução de três novas vacinas no PNV, sem as cautelas devidas, é suscetível de dar força aos obscurantistas movimentos anti-vacinas.

Por Acácio Gouveia, aamgouveia55@gmail.com




Os nossos “SIRESP” ou os gigantones com pés de porcelana

MGFamiliar ® - Tuesday, July 11, 2017




Todos nós podemos errar, mas a perseverança no erro é que é loucura

Zenão de Citio

No rescaldo do trágico incêndio que devastou o centro de Portugal várias questões se têm levantado. Um dos temas em destaque tem a ver com as falhas  do sistema de comunicações entre os serviços chamados a intervir no caso de catástrofe: o tal SIRESP. A real dimensão das falhas e suas consequências farão ainda correr ainda muita tinta, mas não será este escultor de textos a contribuir para discussão com juízos baseados na ignorância. A outros fica a incumbência de, ou contribuírem com achas válidas para a discussão, ou de polui-la com pareceres nascidos da presunção e desconhecimento.  

Proponho-me, isso sim, opinar com conhecimento de causa, sobre o “nosso SIRESP”, que é como quem diz sobre as aplicações informáticas do Ministério da Saúde. Usadas como bandeira de propaganda dos sucessivos governos (ora aqui temos um verdadeiro pacto de regime!) são duma calamitosa efetividade. Se for verdade que o SIRESP claudicou num momento de aflição, isto é, se não cumpriu a função para a qual foi desenhado, escrutinemos os outros sistemas que estão a falhar nas suas missões  de forma continua, crónica, mas sem alarde. Deixem-me só referir a título de exemplo a PEM, aplicação recentemente premiada (!). Ora a PEM claudica diariamente, sem que venha a público o dano continuado daí decorrente. Pelo contrário, a eficaz propaganda do SPMS vai iludindo a opinião pública com anúncios de progressiva desmaterialização dos cuidados de saúde e de supostos benefícios. Aplicações e programas não faltam. Pena é que funcionem tão mal e sejam responsáveis por inaceitáveis perdas de produtividade e pelo desgaste psicológico dos profissionais no terreno, já para não falar nos erros que amiúde induzem no ato da prescrição. O mais irónico é que o utente vai culpabilizar o médico pelo erro induzido pela aplicação. Como dizem os espanhóis, a PEM “tira la piedra y quita la mano. 

A política de informatização da administração pública lembra a cega ganância dos nossos antepassados, que carregavam desmesuradamente as caravelas da carreira das Índias. Na ânsia de tudo ganhar acabavam, tantas vezes, no fundo dos oceanos. Toda gente já entendeu que o hardware e a rede de comunicações não aguentam o contínuo tirar da cartola de aplicações, cada vez mais lentas e sujeitas a falhas por sobrecarga. Porém, a aliança governantes/SPMS continua apostada numa fuga para a frente, alheia ao mundo real e recusando os avisos repetidos dos utilizadores.

A informatização da administração pública não deveria ser vista como um meio de propaganda, mas sim de agilização dos serviços prestados aos cidadãos. 

A ser verdade que o SIRESP tenha, em larga medida, sido responsável pela tragédia de Pedrogão Grande, não é menos verdade que não deverá o país focar-se apenas neste sistema e no que correu mal no que a ele concerne. É imperioso que outros SIRESP, disseminados pelo aparelho de estado, sejam perscrutados e corrigidas as suas disfunções. Podem crer os portugueses que a inépcia dos sistemas de informação dos cuidados de saúde (e não só - Finanças, Educação, etc.) estão inquinados de deficiências. Causam dano, só que em fogo brando.

Por Acácio Gouveia, aamgouveia55@gmail.com




Quo vadis

MGFamiliar ® - Wednesday, May 31, 2017




(...) mas alguns são mais iguais que outros

G. Orwell

Em pretérita crónica, ao opinar sobre o desempenho da atual equipe do ministério da saúde, abordámos o risco da interferência antitecnocrática na condução da política, nomeadamente na política de saúde. O segundo perigo tem a ver com a repetição do modus operandi do passado: contraste nítido entre a intenções de investir nos cuidados de saúde primários (CSP) e a prática de relegá-los para segundo plano. 

Seria injusto esquecer que sem a iniciativa política de Correia de Campos é pouco crível que tivesse havido reforma do CSP. Porém, daí em diante não se pode dizer que os seguintes ministros tenham demonstrado por atos (já nas palavras são sempre generosos) grande entusiasmo pela reforma dos CSP. Esta tem prosseguido mais por dinâmica endógena que por impulsos da tutela. A importância dos CSP continua a não ser reconhecida e a mentalidade hospitalocêntrica permanece firmemente enraizada no imaginário lusitano. Apesar de algum progresso, o médico de família (MF) continua ainda a ser visto, em certa medida, como um simpático e simplório profissional que passa uns atestados, umas receitas de medicamentos, já adquiridos na farmácia por moto próprio ou indicação duma pessoa conhecida, ou ainda dumas credências para uns “exames” que o vizinho da lado aconselhou. 

Para além destes equívocos pouco entusiasmantes embutidos na cultura popular, temos o lóbi das administrações hospitalares (AH) para quem o papel dos CSP se resume, mais coisa, menos coisa, a : 1) fornecer mão de obra para os serviços de urgência, com os custos a serem suportados pelos CSP (naturalmente!); 2) assumirem os custos com ECD e com prescrição, gerados nos cuidados de saúde secundários e 3) arcarem com as culpas quando sazonalmente claudicam os SU por maior afluxo.  Se é verdade que a primeira “missão” já faz parte do passado, quanto mais não fosse porque o contingente de MF encolheu dramaticamente, já quanto à segunda assiste-se a um recrudescimento da política de predação, com o aparente beneplácito da própria ARSLVT. Sobre esta aberração já tudo está dito sem que as AH defensores desta “colaboração” tenham sido capazes de contraditório minimamente convincente. 

Mas é a terceira que merece algum enfoque. Declarações recentes atribuem aos CSP “falta de capacidade resolutiva dos cuidados primários” para justificar a exagerada afluência de condições banais aos SU hospitalares. Mas será que há dados objetivos que confirmem inequivocamente essa “falta de resolubilidade”?  Onde temos estudos sérios que avaliem processos e/ou outcomes dos doentes assistidos em CSP e nos SU hospitalares? Não estaremos antes perante uma mera percepção de incapacidade? Dito doutro modo: essa falta de capacidade pode não ser (e não é) real, mas percebida (erroneamente percebida) pelos utilizadores dos cuidados de saúde. O veredicto que condena os CSP baseia-se, no fundo, na vox populi. Ora, o povo também se engana. Bastará evocar alguns mitos bem populares no domínio da saúde para demonstrá-lo. Por exemplo, quando se coloca a hipótese de referenciar um doente à neurocirurgia, emerge o fábula “da operação à coluna que deixa as pessoas em cadeira de rodas”. É a voz do povo, perfeitamente estulta neste caso. Também o recurso de tantos e tantos cidadãos às homeopatia, medicina quântica e quejandos não é prova da sua eficácia, ou da falência da “medicina alopática”. Quero com isto dizer claramente que a acusação de falta de capacidade resolutiva dos CSP se baseia simplesmente noutra fábula: “no centro de saúde ninguém atende as urgências”. Aliás, conviria recordar a obra “Saúde e doença em Portugal” da autoria de Manuel Villaverde Cabral, publicada em 2002, onde se afirma que as opiniões maioritariamente mais negativas sobre o SNS se encontravam entre os não utilizadores. Não havendo cuidado na recolha de informação sobre as “capacidades resolutivas” dos CSP, baseadas justamente nas declarações (vagas) daqueles que não os procuram, incorre-se num viés deplorável. 

Mas mesmo pondo em causa as premissas que desvalorizam os CSP mantém-se uma questão pertinente e objetiva: Porque estão os SU inundados por casos que não justificam assistência diferenciada? Se se recusa a acusação de falta de “resolubilidade” como explicar o afluxo desmesurado? 

A resposta será sociológica: os portugueses adoram o caos e odeiam a ordem. Nesse sentido o “banco” é o ideal: é só chegar e inscrever-se sem obediência a horários nem necessidade de marcações prévias. Aliás, os médicos são cúmplices do abandalhamento dos SU. Quando o protocolo de Manchester foi instituído, houve necessidade de juntar uma sexta cor às cinco originais: a branca, para classificar os doentes que se dirigiam ao SU por indicação prévia do médico de serviço. A ser verdadeira a informação então divulgada, e se a memória me não falha, no hospital da minha cidade 20% (!) das inscrições para o SU correspondiam a este critério heterodoxo. Admito que hoje seja diferente, mas a banalização do recurso indiscriminado ao banco foi fomentada no passado.

Por outro lado a sofisticação tecnológica própria da instituição hospitalar cria a diáfana ilusão da sua imprescindibilidade para o diagnóstico e tratamento de toda e qualquer maleita por mais banal que seja. 

Por obra destes (e doutros) ingredientes o banco de urgência degenerou numa verdadeira feira, onde se cruzam situações emergentes, banalidades e condições crónicas. Construiu-se uma tradição do SU hospitalar como o epicentro macrocéfalo do SNS. Para a desconstruir vai ser preciso tempo, engenho e vontade.

É importante reconhecer que o tipo de apreciações negativas e superficiais sobre a prestação dos CSP não têm grande pendor pedagógico. São contraproducentes, porque alimentam mais desconfiança nos CSP e consequente desvio de mais doentes para os SU hospitalares.

Por Acácio Gouveia, aamgouveia55@gmail.com



  



Três tristes (deputados) tabagistas

MGFamiliar ® - Wednesday, February 01, 2017




Outra originalidade dos Tupi-Kawahib: (...) não cultivam nem consomem tabaco. Ao ver-nos desembrulhar a nossa provisão de tabaco em rolo, o chefe da aldeia exclamou com sarcasmo: ianeatip, “são excrementos”. 

Claude Levi-Strauss in  Tristes Trópicos


Sob a liderança de três deputados - a constitucionalista Isabel Moreira, o economista Paulo Pereira e a ex-secretária de Estado para a Igualdade de Género, Elza Pais – há um movimento de opositores às medidas antitabágicas gizadas pelo executivo, nomeadamente no tocante à regulamentação dos cigarros electrónicos. As explicações para esta iniciativa são um tanto obscuras, não tendo ficado claro se querem promover o e-cigarro a método de desabituação tabágica, ou elegê-lo como substituto, supostamente menos lesivo que os tradicionais cigarros. Também argumentam com “direitos”, não se percebendo de quem: se dos consumidores, se da Big Tobacco. Ora, a verdade é que estamos a falar de nicotina, que causa dependência que é a antítese da liberdade. Falar em liberdade de se tornar dependente é uma falácia manchada de cinismo. Qualquer coisa do tipo “Nikotin macht frei”. Além do mais, a nicotina é um tóxico e continua a estar presente em muitos dos e-cigarros, constituindo um risco para a saúde dos consumidores. Por outro lado, é prematuro declarar inócuos os outros produtos que alegremente continuam a ser canalizados dos cigarros electrónicos até às vias aéreas mais profundas. O “e-cigar” é já uma epidemia entre os adolescentes americanos. Curiosamente, nos EUA, a continuada diminuição de consumo de tabaco que se vinha verificando desde há meio século foi interrompida em 2015, levantando a suspeita que, ao invés duma diminuição de cigarros fumados, resultado duma presumível migração para o cigarro electrónico, estamos perante um inesperado veículo de crescimento do consumo de tabaco em todas as formas. Mesmo da tradicional.

Posto isto, é mister perguntar: o que faz correr este trio?

Elza Pais estará indignada com a gritante desigualdade de prevalência de cancro de pulmão, resultado da machista discriminação no acesso ao cancerígeno por excelência. Que bizarra noção de igualdade!

Paulo Trigo estará apoquentado com a perspetiva de desemprego para as futuras gerações de pneumologistas, técnicos cardiopulmonares e outros profissionais de saúde, bem como dos bombeiros. Pelos vistos considera despiciendo que o tabaco seja promotor de pobreza, contribua para o desequilíbrio da balança de pagamentos e dê uma ajudinha para comprometer a sustentabilidade do SNS. Estranho economista!

Já a líder do trio tirou o dia para apagar o artigo 64º da Constituição da República Portuguesa e eleger a dependência a direito. A escravidão vira liberdade. Singular constitucionalista!

Insinuar que os cigarros electrónicos sejam uma mais valia para a saúde é duma arrogância obscurantista que julgávamos démodée. É mais um exemplo de negacionismo, próprio de quem tenha frequentado com distinção um curso de lissenkismo na universidade Urbano VIII, sediada na Trump Tower.

Piadas à parte, questionemo-nos de novo: qual o objetivo este trio? Já toda a gente percebeu que estes deputados estão filiados na Liga Portuguesa Promovedora do Cancro, isto é, estão cooptados pela industria tabaqueira.

É deplorável que representantes eleitos e pagos pelo Povo Português se dediquem a defender os interesses das tabaqueiras, traindo a nobre missão para que foram indigitados e mandem às ortigas a defesa da saúde dos portugueses.

Mas os danos desta campanha não se restringem aos previsivelmente infligidos à lusitana saúde pública: é o próprio regime parlamentar que fica fragilizado. Num tempo em que as ditaduras de várias cores se agigantam e ameaçam com uma nova idade das trevas, o que os regimes democráticos menos precisam é de campanhas como esta que fragilizem a imagem dos parlamentos.

Por Acácio Gouveia, aamgouveia55@gmail.com







A confiança e a desumanização

MGFamiliar ® - Tuesday, November 08, 2016



A nossa desconfiança justifica o engano alheio.

La Rochefoucauld

 

A  desumanização

Muito (e bem) se tem escrito sobre a humanização dos cuidados de saúde numa perspetiva centrada no paciente/utente. Humanizar significa proporcionar um ambiente  emocionalmente acolhedor que envolva o ato terapêutico.

Mas não é da humanização neste sentido que se aborda o tema hoje. Falo da desumanização do médico. Não do médico desumano para com o doente, agente de desumanização. Também não no sentido do médico/ser humano vítima de abusos por parte de terceiros (utentes ou empregadores), tema também já abordado (e com propriedade e oportunidade) por outros. Proponho uma reflexão sobre a alienação da vertente intelectual do médico e não da vertente emocional. A competência emocional na relação terapêutica tem sido objeto de múltiplas abordagens e hoje é explícita e consensualmente aceite como fundamental. Quanto às aptidões  de raciocínio, embora implicitamente ninguém se lembre de as contestar, estão sendo menosprezadas de forma paulatina e subtil. É uma forma bizarra de desumanização que se traduz  no desperdício das operacionalidade intelectual do médico e consequentemente da suas potencialidades, enquanto agente no processo terapêutico. Portanto, o médico desumanizado não é abordado nesta breve crónica enquanto a vítima mas sim como recurso desaproveitado.

E a desumanização do médico tem a sua génese na perda de confiança. 

A confiança perdida

Lembro com alguma saudade os meus tempos de  P, aquilo a que hoje se chama IAC e que está em vias de extinção (perspetiva arrepiante!). As noites de banco, à mingua de doentes eram, por vezes, longas. A equipes médicas, entre as 21 e as 9 horas eram constituídas por um interno e um colega sénior. Um destes, o Dr. Chambel, insone nos seus sessenta e muitos anos, ia protelando, à moda de Sherazade, a hora de nos recolhermos. Pouco convincente, dizia de quando em vez: “Vá-se deitar, vá!”. Hesitávamos, mais pelo prazer de ouvir que por cortesia, e ele apanhava a deixa para mais uma história ou um comentário. Estas conversas eram e são uma forma de ensino informal que convirá não descurar. Para além da transmissão de conhecimentos técnicos, são um veículo e aprendizagem, digamos, epistemológica.  Para além dos ensinamentos que a memória conscientemente evoca, outros haverá que inconscientemente vão modelar as futuras atitudes e valores do jovem médico. Um dia acompanhei o Dr. Chambel  numa prova de ... águas. Nem mais: em vez de tascas e tabernas visitámos as múltiplas fontes e fontenários da serra de S. Mamede! Terá sido nesse dia que me disse: “Sabe, Acácio, hoje o doente não tem confiança no médico” (estávamos nos inícios da década de oitenta). “Você salva literalmente e de forma  reconhecida a vida dum doente grave. Semanas depois, perante uma situação banal desse mesmo doente, vê-se confrontado com sugestões terapêuticas e de pedidos de ‘exames’. Confiam mais no resultado do exame que no seu juízo clínico”.

Ora, esta desconfiança advém dos avanços tecnológicos com a confiança a ser deslocalizada do médico (pessoa) para o exame complementar de diagnóstico (máquina). Convenhamos que esta mudança é compreensível. Quem não for do metier desconhece que  o diagnóstico se faz através (i) dos sentidos que “tocam” o real e (ii) o cérebro que “entende” o real. Ignora ainda que a  miríade de exame complementar de diagnóstico, sendo excelentes substitutos dos órgãos dos sentidos, não substituem o processo de interpretação dos signos pelos que o “real” escreve. Os notáveis progressos da tecnologia no domínio da semiologia levam o cidadão comum a acreditar na omnipotência dos exames complementares de diagnóstico, equívoco que é, repito, perfeitamente natural para quem não esteja por dentro do processo diagnóstico. 

Terá, pois, sido esta desumanização, resultante da hipervalorização da máquina face ao humano, que levou inconscientemente à perda de confiança no médico.

Paradoxos

Curiosamente, é o utilizador dos cuidados de saúde o maior perdedor.

Paradoxal é o facto de à medida que cresce a exigência na humanização da relação terapeuta-paciente/utente, por via duma maior participação amigdalina, se está remetendo, de forma inconsciente, a intervenção pré-frontal para um papel residual. Quer dizer: A relação médico doente está a evoluir dum desequilíbrio em que a emoção era mitigada, para um novo desequilíbrio em que a vertente intelectual é atrofiada. Isto, com ficou dito, devido à ilusão que os “exames” substituem a inteligência do médico.

Num tempo em que a medicina centrada no doente se está confundindo com a medicina centrada nas fantasias do doente/utente e que o empoderamento se faz à revelia da capacitação, corremos o risco do engano. Engano no duplo sentido: o engano induzido pelo exame complementar de diagnóstico pedido sem critério e interpretado de forma descontextualizada e o engano do médico que confunde cuidados centrados no doente, com cuidados centrados na fantasias deste, que é o mesmo que dizer MBE: medicina baseada nos exames. Outro paradoxo, corolário do acima citado, reside em que a excessiva importância dos exames complementares de diagnóstico mais afasta a emoção da relação médico-doente, ao centrar a atenção mais no exame que no doente/utente; logo é desumanizante para a relação com paciente/utente.

Compete aos profissionais de saúde, nomeadamente aos médicos, esclarecer sobre a real importância e limitações dos exames complementares de diagnóstico e seu lugar na metodologia semiológica. É urgente incrementar  a literacia no domínio da saúde, ou seja investir na capacitação do cidadão utilizador (ou potencialmente utilizador) dos cuidados de saúde.

Por Acácio Gouveia, aamgouveia55@gmail.com





Os cavalos do espanhol - I

MGFamiliar ® - Tuesday, June 07, 2016



Ver aquilo que temos diante do nariz requer uma luta constante.
Orwell


Nas últimas eleições foi reconfortante constatar que a promessa, por parte da PAF, PS e PCP, de resolver o problema da população sem médico de família (MF), foi sensatamente remetida para daí a dois anos, ou seja 2017. Até aqui, todos os concorrentes a ganhadores das eleições prometiam o que não podiam cumprir: resolver o problema duma penada. Evoluímos da demagogia irresponsável para o otimismo pouco realista. Já não foi mau! 


A luz dos números 
Os números, enquanto tal, não têm nenhuma importância.
A. Hitler


Permita-se ao escrevinhador opinar sobre os chavões, muitos repetidos e de fundamento assaz frouxo, que diabolizam os números, opondo-os às pessoas. De certo modo acusa-se a matemática de falsear a realidade. Ora é exatamente o contrário: para o conhecimento do real são imprescindíveis ferramentas rigorosas e a matemática (isto é, os números) será, quiçá, a primordial. E como só é possível resolver os problemas que afligem as pessoas conhecendo o real, são, afinal, os números de vital importância para favorecer as pessoas.

E o que nos dizem os números, disponibilizados em finais de março, sobre as necessidades de médicos de família  em Portugal? 

Dizem-nos que faltam 632 MF e que, se por um lado até ao final de 2017 é expectável que terminem o internato de MGF 705 clínicos, 254 atingirão o limite de idade. Portanto, o saldo positivo de 451 MF fica ainda aquém do necessário. Logo, o anunciado fim utentes sem MF, terá de ser empurrado para os finais de 2018, quando o superavit de MF seria de 8 elementos.

Contudo, os números não são omnipotentes enquanto meio de conhecimento. Sabemos que a ciência tem limites e a ingenuidade da crença na omnisciência científica, fortemente implementada até ao transpor do século XIX para o XX , esfumou-se e foi definitivamente banida por Heisenberg. Quer isto dizer que nem toda a verdade nos é revelável pelos números. Há imponderáveis no cálculo acima exposto e só o futuro revelará a dimensão das imprecisões que podemos já vislumbrar.

Primeiro, do lado das necessidades não serão de prever grandes alterações. O saldo demográfico fortemente negativo será parcialmente compensado pela contração do rácio nº utentes/unidades ponderadas, decorrente do envelhecimento da população. Isto é teremos menos gente, mas também listas com menos utentes. Por outro lado, a diminuição populacional far-se-á sentir sobretudo nos pequenos povoados do interior, onde, ao contrário dos grandes aglomerados urbanos, não é fácil fazer reduções dos lugares de médicos.

Quanto à oferta de recursos, os números redondos que usamos são irreais, são apenas aproximações. O contingente de jovens médicos disponíveis será menor do que os tais 705: nem todos os internos terão aprovação nos seus exames de saída e um número não despiciendo optará previsivelmente por emigrar ou por saídas profissionais fora do SNS. Também é preciso ter em conta que as perdas de MF em atividade serão superiores às previstas, quer por morte (desculpem lá, mas considerando a idades de muitos de nós será um facto incontornável), quer por reforma antecipada (por opção serão poucos, mas por doença serão seguramente significativos os abandonos precoces do exercício profissional).

Todavia, também é verdade que, do outro lado da balança, as baixas no efetivo de clínicos serão minimizadas pelos médicos reformados que regressem ao serviço, ainda que temporariamente, pelos que decidam não se aposentar por limite de idade e pelos MF estrangeiros que emigrem para Portugal.

Apesar de todos estes imponderáveis poderemos admitir que antes do fim da década toda a população tenha MF atribuído, que já em 2018 o número  de portugueses sem MF deixe de ser um problema e que em 2020 haverá muitos especialistas em MF no desemprego.

A estes imprevisíveis juntem mais um: a data do aumento da idade da reforma (a questão centra-se no “quando” e não no “se”), que baralhará as previsões e antecipará de forma drástica o fim da carência de MF, mas também o espectro do desemprego.

No próximo número passaremos a reflexões mais pertinentes. Fica prometido.

Por Acácio Gouveiaaamgouveia55@gmail.com

(artigo publicado também no Jornal Médico)




Dan Kahan

MGFamiliar ® - Thursday, April 14, 2016



“Pois o que é tudo senão o que pensamos de tudo?”

Álvaro de Campos


Há um ano e picos, este vosso criado especulava sobre a possível existência duma linha em J na relação entre literacia em saúde e status socioeconómico. Conjeturava então que o nível cultural ir-se-ia acompanhando de mais literacia até um certo ponto a partir do qual a crendice voltava a aumentar, justamente entre os mais cultos e sofisticados. Como imaginarão os meus leitores, foi com um sorriso de satisfação que tropecei nos trabalhos de Dan Kahan, que, de forma cientificamente fundamentada, afirma algo semelhante. Professor de Direito na Universidade de Yale, resvalou para a sociologia, acabando por desembocar na epistemologia. Interessado na credibilidade da ciências junto do grande público e como ela é afetada pelas crenças e valores, demostrou que, perante a discrepância entre factos científicos e crenças, estas têm uma força inusitada e sobrepõem-se frequentemente às revelações científicas. Ou seja, o obscurantismo é ubíquo.

A obra deste autor provocou um borbulhar de reflexões breves, embora cada uma delas justificasse, só por si, uma crónica.

1. Estamos perante mais um exemplo da relevância da interdisciplinaridade. As disciplinas não são estanques e a sua porosidade pode abrir janelas de oportunidade de progresso verdadeiramente espantosas e inusitadas. Neste caso foi um advogado, convertido em sociólogo que, por mero acaso, diríamos, se torna num pequeno guru no domínio da saúde.

2. Deixando correr o pensamento, é tentador ver encadeadas as teses de Dan Kahan na obra de António Damásio, que realça a importância dos sentimentos no funcionamento da mente. Duma forma simplista podemos estabelecer um paralelo entre as investigações da sociologia e os achados da neuropsicologia, já que é no cérebro profundo em que coabitam, não só instintos primitivos e o sentir somático do corpo, mas também o corpus das crenças, valores e atitudes apreendidos em momentos marcantes da vida.

3. Podemos interrogar-nos se não estaremos perante mais um salto epistemológico. Da medicina fechada sobre si mesma, já tínhamos evoluído para a medicina centrada no doente ou na pessoa. E não ficamos por aí: passamos a olhar a pessoa inserida no seu meio social, que a influencia. Como tal, assume-se que, para levar a bom porto a missão terapêutica na pessoa doente, é preciso ter em conta os valores, crenças a cultura do seu meio social. Porém, será que a sociologia não nos propõem ir um pouco mais além? Para tratar a pessoa doente (e sobretudo fazer prevenção primária) não será imperioso focar a nossa atenção na própria sociedade para garantir uma eficaz ação sobre o individuo, e não o contrário? Será que não precisamos do reforço da componente de marketing na saúde publica e da incorporação de educação epistemológica junto do grande público?

4. As conclusões a que o estudo do comportamento dos grupos e da influência dos componentes não racionais na génese das opiniões chegaram têm como corolário que o médico/terapeuta, na sua condição de humano, não está isento de idêntico efeito. As múltiplas interrogações a que ciência não consegue dar resposta deixam porta aberta para soluções fornecidas pelo corpo de crenças e valores do profissional de saúde, porque a necessidade de agir não se compadece com niilismo filosóficos. Mas a que preço e com que riscos?

Por Acácio Gouveiaaamgouveia55@gmail.com

(artigo publicado também no Jornal Médico)






Janízaros - II

MGFamiliar ® - Tuesday, February 16, 2016


É do alto do poder da sua indiferença

Que os chefes dos chefes dominam o mundo. 

Álvaro de Campos

 


Entre os séculos XIII e XIX o império otomano criou um corpo de militares  e de funcionários recrutados entre rapazes cristãos do império – os janízaros. Desenraizados das famílias e comunidades eram islamizados e submetidos a cuidada formação militar e cultural , constituíam o pilar do poder dos sultões turcos a quem devotavam uma fidelidade absoluta. Porém, com passar dos séculos, estes escravos soldados corporativizaram-se e tornaram-se os verdadeiros mandantes e predadores do império.

De tempos a tempos vem à baila a questão da escassez de médicos de família, para a qual a tutela tem proposto soluções mais ou menos imaginativas e de variável sensatez. Paradoxalmente, o mesmo ministério que se preocupa com a falta de médicos de família, despreza o trabalho dos poucos que estão em atividade. É como se em tempo de seca se ignorasse o desperdício resultante de canalizações rotas.

As disfunções informáticas não são de agora, mas este ministério não demonstrou afastar-se da canhestra política por outros iniciada. Nós, os utilizadores, sentimos que somos e somos a maioria silenciada neste processo. Os disparates sucedem-se e a caravana segue.

Sem dúvida que há muitas ferramentas úteis entre a panóplia que temos à mão, não fossem os bugs, que têm demorado a ser corrigidos . Mas também temos aplicações aleijadinhas de todo. O Alert é paradigmático. De génese obscura, e sem que tenham sido esclarecidas as razões que levaram à  escolha deste programa tão disforme, é pouco funcional e prega partidas a escorregar para o lúgubre. Frequente, os pedidos de consulta hospitalar, feitos através do SClínico, perdem-se no éter e não chegam aos hospitais porque o Alert dá-lhes sumiço, embora fiquem assinalados no SClínico como enviados. Em resumo, ficam o MF e utente convencidos que o caso foi referenciado. Porém, tal referência nunca chegou ao hospital.  Sinalizada por diversas vezes esta falha, indubitavelmente crítica, obtive do service desk uma resposta inaceitável e silêncio a mais das vezes. Aliás, perante a pusilanimidade do feedback (quando há direito a feedback!) que tenho recebido do SPMS, levaram-me a optar por não perder tempo a reportar a saraivada de bugs com que tropeço. Apostaria que não sou o único a  ter compreendido que não é rentável desperdiçar tempo a assinalar falhas, devidamente documentadas, a um helpdesk, que, baseado na minha experiência, é pouco mais que inútil.

Mas, mesmo com ótimo software, o envelhecido parque informático e a estreiteza de banda vigente estrangulam-lhes a produtividade. Bizarra é a ânsia de agigantar o efetivo de programas e aplicações, conservando os pés de barro de todo o edifício. As queixas são ubíquas e as disfunções consensualmente identificadas. A inoperância e a arrogância do SPMS são manifestas e, aparentemente, inamovíveis. Porquê? Vislumbro duas explicações possíveis.

Primeira hipótese: o ministério alinha na moda em voga: a omnipotência da política. Será o obstáculo técnico, mas a solução é política.! Os objetivos políticos (e pode nem estar em causa a sua bondade) são perseguidos ao arrepio da opinião dos técnicos e  da prática dos utilizadores, quer dizer da realidade. Assim sendo, sob a batuta cega dos políticos, o SPMS seria coagido a soluções abstrusas e temos a informatização a avançar como paquiderme em loja de porcelana.

Em alternativa temos a hipótese da “janizarização” dos SPMS. Aqui os políticos, abdicando do seu legitimo papel de condutores, permitiriam a usurpação do poder pelos técnicos. Estes, substituíam a sua missão pela a sua própria agenda. Ao arrepio das necessidades dos utilizadores e dos utentes, a máquina informática do ministério giraria em dos colaboradores do SPMS e com prejuízo da nação.

Um dia avariou-se o sensor biométrico do nosso centro de saúde. Dois dias depois, um técnico da ARSLVT fez mais de duzentos Km para compor a avaria. Contudo, desde há seis meses que se verificam sistemáticos apagões telefónicos no nosso centro de saúde e o nosso servidor tem falhas quase diárias, sem que possamos testemunhar qualquer iniciativa no sentido de corrigir estes  escândalos.

Por Acácio Gouveiaaamgouveia55@gmail.com

(artigo escrito em Setembro 2015 e publicado também no Jornal Médico)










Janízaros - I

MGFamiliar ® - Wednesday, December 02, 2015


Os bons prometem pouco e fazem muito; os maus prometem muito e fazem pouco

Talmude Babilónico 


Venho hoje cumprir uma promessa que há muito fiz a mim próprio.  Protelei-a tanto quanto a paciência mo permitiu, mas também esta tem um limite.

Durante longos meses, sempre que tropeçava nalguma das malvadezas informáticas e esbarrava na inoperância do helpdesk do SPSM, asseverava a mim mesmo  que iria expressar os meus agastamentos e frustrações. Contudo, fui procrastinando por mor da hierarquia das prioridades, até que chegou o dia fatídico, a gota de água. E, eis-me escrevinhando, uma vez mais, contra a desinformática  do ministério da saúde.

Pode dizer-se que começou mal o primeiro dia de regresso de férias. Logo

à entrada o biométrico deixou de reconhecer o meu dedo (uma vez mais!); seguiu-se outra surpresa: o telefone estava mudo; depois foi a PEM que borregou!; PDF disse-me que não me conhecia de lado nenhum e negou-me o acesso; emitir CIT foi um suplício, mas, apesar dos dois ou três minutos de espera lá se dignou a abrir; O Alert fez o jeito de não se negar, após, claro está, de se fazer caro e, ronceiramente, ter demorado o tempo que entendeu a arrancar; o SISQUAL (Pascoal, como foi alcunhado cá nas nossas bandas) estava inoperacional! Bom! Manda a isenção assinalar o que também houve de positivo (muito positivo mesmo!) nesse penoso dia: o servidor não falhou! Nem uma só vez nos deixou inativos, aguardando o reset. No meio da desgraça há sempre motivos para continuar a acreditar em milagres: no dia em que se conjugaram tantos fiascos informáticos manter-se firme e incólume o nosso servidor, reminiscente do Paleocénico, foi obra que merece registo para a posteridade!

Em meados de janeiro fui incluído no pequeno grupo de profissionais do meu ACES para assistir à apresentação do SClínico, organizada pela ARSLVT. Diga-se de passagem que a substituição do lastimável Novo SAM de má memória pelo SClínico foi positiva. Mas voltado à apresentação:  foi-nos dada a oportunidade de, uma vez mais, chamar a atenção  para as gravosas falhas dos sistemas informação dos cuidados de saúde e das funestas consequências para a qualidade dos serviços, da produtividade e da saúde mental dos trabalhadores. Fomos escutados com atenção. Em resposta, (ouvi com estes que os bicos do crematório hão-de abrasar) o responsável do departamento informático da ARSLVT fez dois anúncios: 1) a aquisição, para breve, de hardware e 2) a mudança de operadora da rede com as expectáveis melhorias consequentes.  O benefício da dúvida que este vosso criado atribuiu a estas boas novas esfriou na viagem de regresso ao país semiprofundo, perante o cepticismo das informáticas do ACES. E não é que as pitonisas tinham razão? 1) O prometido hardware atualizado nunca chegou. 2) quanto à mudança de operadora mais valia terem ficado quietos: foi um fiasco monumental. Se mal estávamos, pior (muito pior!) ficámos. Se houve aumento da largura de banda ainda não dei por nada, nos dois centros de saúde em que trabalho. Em contrapartida, fomos brindados com apagões telefónicos em vários centros de saúde. Meia dúzia de meses após a entrada em cena desta nova operadora a qualidade do serviço telefónico mantem-se ao nível de lixo e sujeito a réplicas dos tais apagões. E quando os utentes tentam em vão contactar telefonicamente as unidades de saúde, adivinhe o leitor quem é culpabilizado pela “tampa”! Assistentes operacionais e os telefonistas, claro está! Os verdadeiros responsáveis (a operadora e a tutela) passam incólumes. Em matéria de sistemas informáticos, a credibilidade do ministério da saúde aproxima-se vertiginosamente do zero. No momento em que escrevo estas linhas faz mais de duas semanas que no meu gabinete não tenho telefone: treze dias úteis.

Por Acácio Gouveiaaamgouveia55@gmail.com

(artigo publicado em simultâneo no MGFamiliar e no Jornal Médico)




Liga Portuguesa a Favor do Cancro

MGFamiliar ® - Wednesday, August 19, 2015

 

“Podeis enganar toda a gente durante um certo tempo; podeis mesmo enganar algumas pessoas todo o tempo; mas não vos será possível enganar sempre toda a gente.”

Abraham Lincon

 

Temos aí uma legislação anémica, (sob pressão da UE) pretensamente antitabágica, a merecer reparos escandalizados duma oposição preocupada, não com a timidez das medidas anunciadas, mas com o ataque ao bom nome do tabaco. Estes partidos mostraram-se ofendidos com a exposição de imagens chocantes nos maços de cigarros, prática já comum em muitos países com governantes efetivamente mais preocupados com a saúde dos seus cidadãos do que com os lucros das tabaqueiras. Falam de bullying – espante-se!

Para a oposição a praga (se é que a consideram praga!) do tabagismo combate-se ... com consultas. Não haverá entre os deputados médicos que expliquem aos colegas das respetivas bancadas que a prevenção primária é o caminho, sendo que a secundaria, neste capítulo, é duma eficiência paupérrima? O problema para a oposição não é haver muitos fumadores, o mal está em haver poucas consultas, ainda que com escasso sucesso. Para estes partidos os problemas de saúde resolvem-se derramando dinheiro sobre eles, mesmo que não se resolvam de todo. Efetividade é palavra vã.

Contudo, desengane-se quem vir no governo um guardião da saúde face à ofensiva tabagista. A liga pró cancro tem fervorosos adeptos na atual coligação governativa. Por exemplo: Paula Teixeira da Cruz, a tal senhora que quer pôr as farmácias a aviar charros. Pior: há mesmo quem diga que Portugal é a 5ª coluna das tabaqueiras dentro do fórum dos ministérios da saúde da UE. Depois de ouvir as declarações do nosso Secretário de Estado numa conferência da UE, em 2013, que conclusões podemos tirar? (*).

É muito preocupante constatar quão alargada e poderosa é a aliança de apoiantes da indústria tabaqueira e até que ponto o lóbi está enraizado entre a classe política.  Mais inquietante ainda é verificar que os médicos que militam em partidos políticos deixam as carteiras profissionais à porta, para se vergarem aos canones e estratégias prescritas pelos diretórios respetivos.  Que diabo: João Semedo, por exemplo, até é pneumologista e figura proeminente dum partido que não se submete a ortodoxias; porque raio pactua com os capitalistas da Big Tobacco? Muito falam os políticos nos governos e na oposições em direito à saúde, mas quando chega a hora de implementar políticas com real impacto nesse domínio, todos borregam face ao poder das tabaqueiras e outros lóbis antisaúde.

Por Acácio Gouveiaaamgouveia55@gmail.com

(artigo publicado em simultâneo no MGFamiliar e no Jornal Médico)

 

(*) As declarações podem ser visualizadas neste link a partir do min 01:41:00