MaisOpinião - Ana Lídia Dias

Medo

MGFamiliar ® - Sunday, May 10, 2015

 

 

 

O  medo é uma das emoções básicas da vida. Talvez a mais universal, aquela que todos já experimentaram, e dela tomaram consciência.

O medo é uma emoção tão básica à sobrevivência que todos os animais a sentem. A diferença é que nós, os humanos, temos a capacidade de elaborar mentalmente sobre o que sentimos. É essa elaboração mental que nos leva a recear o próprio medo.

Sendo uma emoção primária consegue, por vezes, ser paralisante, levando-nos a agir, não raras vezes, de forma instintiva.

Contudo, convém que consigamos controlar o medo  e sobretudo evitar dramatizar excessivamente, procurando interiorizar a sua utilidade enquanto mecanismo de protecção que nos ajuda a percepcionar riscos e perigos eminentes ou futuros.

Se perguntarmos a uma pessoa adulta qual é o seu maior medo, o mais provável é que nos responda que é o medo da morte.

Na verdade, embora a morte seja um “território” desconhecido e sobre o qual se adensam infindáveis dúvidas, paradoxalmente, é uma certeza universalmente adquirida, à qual ninguém escapará.

Quando exploramos um pouco mais esse medo, ele desagrega-se em múltiplos medos: o medo de sofrer, o medo de fazer sofrer os que amamos, o medo da saudade da vida, porque sabemos como ela é ou pode ser boa, e portanto, não é tanto a morte que receamos, nem o desconhecido, mas o sentimento de perda e sofrimento que lhe associamos.

Esta é uma emoção que a mim, como futura médica, me deixa intrigada, curiosa e, simultaneamente, receosa, por saber que vou acolher pessoas nas quais essa emoção vai estar à flor da pele.

Todos nós, quando vamos ao médico, mesmo que seja uma consulta de rotina ou para a qual não antecipamos um possível diagnóstico, temos o medo preparado para entrar em acção a qualquer momento. E se este já estiver a ser experimentado, podemos mesmo tentar não exteriorizá-lo ou verbalizá-lo, estando contudo à espera que, na consulta, o médico nos acalme e nos conforte, com a possibilidade da esperança, por mais ténue que ela seja.

Creio que para um Médico esse é um dos maiores constrangimentos humanos, porque esses doentes estarão sempre à espera de conforto, reacção adequada à expressão desse medo, ou até a leitura e percepção dele mesmo quando o doente não o verbaliza claramente e, por vezes, mais difícil ainda, à espera que sejamos fonte da esperança que tanto deseja.

Ainda enquanto estudante, há uma outra questão que vejo ser discutida nos grandes fóruns de debate científico onde se encontram os grandes pensadores da Medicina e, sobretudo, dos cuidados em saúde: os cuidados paliativos.

Pese embora a aparente fuga ao tema desta minha prosa, os cuidados paliativos surgem numa fase da vida, quando a doença de que uma pessoa padece se revela incurável e a sua vida entra num estado terminal. Portanto, não se trata de uma fuga, mas de uma variação ao tema principal porquanto a questão da gestão do medo da morte assume nesse momento contornos ainda mais complexos.

Assim o médico, nos cuidados paliativos, vive com pessoas nas quais o medo já está a ser experimentado e não apenas à espera para sair. O doente vive activamente o medo fundamental da vida ou aquilo que ele sabe ser um acontecimento inevitável e anunciado que irá ocorrer a curto prazo.

O grande dilema que se coloca à Medicina hoje, a meu ver, é perceber se o medo, nos doentes terminais, não deve ser uma emoção que tem de ser considerada e tratada como um dos principais cuidados paliativos a administrar. E será que devemos neste momento dar esperança de cura pelo medo ser a morte ou devemos dar qualidade de vida e apoio aos entes queridos, pelo medo de sofrimento pessoal e das pessoas que o doente ama? Eu, enquanto estudante, e mesmo pensando que poderei vir a ser eu a estar na posição do doente, não saberia o que escolheria... Escolheria enfrentar um dos medos, sem dúvida, mas qual? Qual é mais Humano eu enfrentar? Teria medo de decidir, porque conseguiria antecipar múltiplas consequências de cada decisão que pudesse tomar, no fundo, medo de ter medo...

Ana Lídia Rouxinol Sampaio Dias

 

 

 

 

 

Faria sentido integrar as artes no ensino da medicina?...

MGFamiliar ® - Wednesday, July 09, 2014

 

Questiono-me muitas vezes se não seria benéfico integrar de algum modo as artes no ensino da medicina. E não me refiro apenas às artes plásticas, mas a outras formas de expressão artística, como a música, a literatura, o teatro, o cinema e as novas artes performativas.

Numa era em que existe uma enorme preocupação, sobretudo por parte dos corpos docentes, das nossas faculdades de medicina, no sentido de assegurar, com a maior eficiência possível, a dimensão humanista da formação que é ministrada aos futuros médicos, creio que a integração nos planos curriculares de uma cadeira que permitisse uma abordagem crítica das diversas formas de expressão estética poderia ajudar muitos estudantes de medicina a desenvolver a sua sensibilidade humanista e, desse modo, melhorar a sua capacidade de captar e interpretar as inúmeras formas de expressão que cada pessoa, enquanto paciente, pode aportar no seu contacto com o médico.

Ainda recentemente, quando assistia a um filme comentado pelo Prof. Dr. Roma Torres, integrado num ciclo de cinema organizado pela comissão de curso dos alunos do 4º ano da Faculdade de Medicina do Porto, dei comigo a reflectir sobre algumas das questões éticas que o filme levantava, a partir de perspectivas de análise dos problemas que vão para além das abordagens científicas que integram os cânones académicos. Confesso que, nesse dia, saí dali sentindo que na minha mente houve assim como um clique que me despertou para outras visões do Mundo e, particularmente, da pessoa humana, que não encontro nos conteúdos programáticos das várias cadeiras do curso de Medicina.

Por outro lado, quando ouço música, principalmente aquela que tem por base histórias e dramas de vida, em que a palavra também é convocada para tomar parte na composição do objecto estético musical, tomo também consciência de que a natureza humana, na sua vulnerabilidade à doença e sensibilidade ao sofrimento qualquer que ele seja, mental, físico ou espiritual, permanece quase imutável.

Para quem, como eu, deseja abraçar a medicina como vocação para servir, talvez não seja nenhum disparate aceitar que faria algum sentido ver no curriculum dos cursos de medicina uma área de formação no âmbito das artes, como aliás, já houve em tempos idos.

Claro está que, a ser possível, o enriquecimento do ensino da medicina com uma cadeira ou um seminário versando o tema da saúde e da doença, tendo como centralidade as formas de expressão estética do ser humano, teria de ter um enquadramento adequado à cultura dominante em cada sociedade.

Mas se tal não for possível, penso que haveria todo o interesse e vantagem, em apoiar a intensificação da vida artística e cultural protagonizada pelos alunos de medicina, em saudável interacção com os professores, de modo a facilitar o estabelecimento de uma comunicação de maior proximidade, liberta dos rigores hierárquicos académicos, graças à partilha de opções de gosto e interesses artísticos e culturais comuns.

A eficiente capacitação científica e técnica é um desiderato vital que todos os médicos devem adquirir na sua formação, mas essa dimensão, será tanto mais útil e eficaz, se a dimensão humana acompanhar esse alto perfil e alto desempenho.

Creio, mas creio profundamente, que se os jovens estudantes de Medicina tiverem acesso à formação de uma consciência estética e cultural crítica e tiverem oportunidade de estimular a sua sensibilidade ao Belo Humano, através de uma cultura da atenção a tudo quanto é expressão do corpo e da alma, hão-de tornar-se médicos portadores de uma melhor visão holística, de cada pessoa que vier a precisar dos seus cuidados.

Ana Lídia Rouxinol Dias

 

 

Somos Mourinho

MGFamiliar ® - Wednesday, April 16, 2014

 

Relembrando a nossa infância, num gesto ubíquo a toda a humanidade, encontramos uma das maiores lições para o crescimento saudável e equilibrado: errar faz parte do Homem e é essencial à sua felicidade. Na aprendizagem de uma conquista ancestral, a posição bípede, todos enfrentamos o fracasso e não desistimos.
A chave crucial para a não desistência foi a motivação, o encorajamento pelos nossos pais e a confiança mútua na nossa capacidade de ser bem sucedidos.
A resiliência, qualidade inata que a todos pertence, tem de ser alimentada em todo o desenvolvimento da vida humana.
Sendo lusitanos, e depois Portugueses, esta virtude está enaltecida na nossa natureza. Mesmo antes de 1143 que somos incansáveis lutadores e corajoso vencedores. Tomemos os exemplos mais remotos como Viriato que não desistiu enquanto enfrentava a  ocupação romana; D. Afonso Henriques que não baixou os braços até fundar o nosso Portugal; Infante D. Henrique que projectou uma aventura de 200 anos ambicionando sempre maiores conquistas e não declinando com cada intempérie e ilusão de vidas de bravos marinheiros.
No Portugal do século XX, foi de novo essa indómita vontade de romper velhas fronteiras, de rasgar novos horizontes e propor novos modos de viver em sociedade que impulsionaram homens como João de Barros, João de Deus, Teófilo Braga e outros ilustres pensadores que lutaram por um ideal republicano e democrático, ímpeto revolucionário que renasceu nos capitães de Abril
Este ADN cultural que ciclicamente se vem revelando na nossa História, com maior ou menor intensidade, tem conhecido recentemente, dois exemplos de excelência, no desporto, com os quais me identifico. Refiro-me a Cristiano Ronaldo que pelo árduo trabalho e motivação, alcançou por duas vezes a bola de ouro e aludo também a  José Mourinho que se destacou nos campos de futebol pela execução de uma função muito distinta, e que tantas vezes os nossos pais e educadores interpretam ao longo da nossa vida, iluminar o espírito com persistência e confiança na transformação das qualidades inerentes a cada um em produto.
Enquanto estudante de Medicina, tem acrescido relevo como ídolos perante pequenas vicissitudes que possam surgir no decorrer da vocação que abracei há 3 anos, grandes médicos como Ricardo Jorge que foi questionado na sua visionária proposta de medidas profiláticas contra a peste bubónica que assombrou a invicta no século XIX, Sousa Martins que nunca desistiu da prática da Medicina humanista e sensível à complexidade de um Homem que se iguala na sua pura unicidade a qualquer par, independentemente de qualquer ideologia, nível sociocultural, cor ou religião; o neurologista Egas Moniz que honrou o homónimo que há mais de 800 anos havia também sido exemplo de grande rectidão e lealdade, ao ser galardoado com o Nobel de Fisiologia e Medicina em 1949, na quinta proposta apresentada como candidato ilustre e merecedor desse destaque na medicina mundial e, na actualidade, portugueses que se destacam na investigação como António Damásio, Sobrinho Simões e altivo o professor Carlos Caldas, que sem dúvida representou uma forte motivação na minha escolha da Medicina como área de estudo e vida profissional, pois, além de exemplo de inovação e construção da medicina da actualidade, pelos trabalhos na luta contra o cancro da mama, demonstrou que seria possível tamanho sucesso sem nunca esquecer que por vezes também se falha "em ciência as coisas mais importantes são: 1- saber fazer perguntas, 2- duvidar das perguntas 3- perseverança, pois na maior parte das vezes as experiências não funcionam"1.
Somos portugueses, herdamos uma plêiade de heróis que não desistiram, caíram mas aprenderam a andar.  O desafio que se nos coloca é saber transmitir aos mais novos e aos vindouros esta ideia de que errare humanum est, mas que a audácia e inteligência nos faz aprender com o erro, seguir em frente e fazer bem aquilo que se nos impõe, o devir.
Se não fôssemos Mourinho, desde esses tempos imemoriais, será que nos poderíamos orgulhar de sermos, neste século XXI, uma das nações, ou melhor, uma das culturas mais estáveis do Mundo?...
Ana Lídia Rouxinol Sampaio Dias



[1] Entrevista a Professor Carlos Caldas, por Ana Lídia Rouxinol-Dias, 12 de dezembro de 2010.

 

A saúde enquanto valor

MGFamiliar ® - Sunday, December 01, 2013

Desde a minha infância que, muito impulsionada pelos meus pais, me envolvi em actividades educativas, muitas delas marcadas por um certo pendor lúdico, facto pelo qual se revelaram muito eficazes do ponto de vista pedagógico e formativo.

Na família, ensinaram-me que a saúde é um bem, um valor inestimável que devemos procurar guardar com todo o cuidado, sublinhando diligentemente que, embora os meus pais também fossem responsáveis, e claro, os primeiros entre os primeiros a ajudar-me a cuidar e guardar o precioso bem que é a minha saúde, esse era um dever que me competia, antes de mais ninguém, a mim própria, afinal, a principal interessada. Com essa abordagem familiar, à medida que fui crescendo, fui tomando consciência que zelar pela minha saúde é, em primeiríssimo lugar, uma responsabilidade pessoal.

Do primeiro ciclo até ao ensino secundário, tentei manter-me sempre activa nas causas da educação ambiental e da educação para a saúde, na certeza de que estas duas apostas educativas são complementares e até convergentes em muitos dos seus objectivos.

Aquilo que pude constatar, na primeira pessoa, firma a minha convicção que se as crianças e jovens forem envolvidos num processo de educação para a saúde, com metodologias dinâmicas, criativas e imaginativas que lhes permitam tomar consciência dos benefícios concretos de adquirirem hábitos de vida saudáveis, demonstrando-lhes também, de forma muito clara, os riscos e consequências dos maus hábitos alimentares, de comportamentos de risco e do não cumprimento das suas rotinas salutares diárias, como por exemplo, lavar os dentes, lavar frequentemente as mãos, não partilhar copos com os amigos e outros descuidos potencialmente arriscados, será fácil recrutá-los para uma causa que não é só dos médicos, das famílias ou da sociedade em geral, mas é, primordialmente, do interesse das crianças e de cada uma delas em concreto.

É pela experiência que vivi e pela constatação efectiva que testemunhei que afirmo categoricamente que todo o investimento na educação para a saúde, realizado com critérios e objectivos muito bem definidos, com programas bem estruturados e devidamente monitorizados, para serem implementados desde a pré-escola até ao fim do ensino secundário, será um investimento altamente produtivo, no sentido em que terá um retorno incontestável, quer ao nível da melhoria da saúde da população que está hoje nos bancos da escola e será adulta amanhã, como no plano dos gastos com o Serviço Nacional de Saúde.

Uma das evidências disto que afirmo é o facto de viver num concelho, a Maia, que desde há mais de vinte anos que investe em políticas de educação ambiental, e graças a isso, tem recebido de entidades auditoras externas e independentes, vários prémios e distinções como uma das terras portuguesas com melhor qualidade de vida ambiental, melhor recolha selectiva de resíduos sólidos, melhor tratamento de efluentes e em geral, melhor qualidade de vida a esse nível, por ter sido um concelho pioneiro em muitas destas matérias, cujo sucesso foi fortemente alavancado pela estratégia de educação ambiental que fez dos mais novos mediadores entusiastas dessa mudança comportamental que enraizou hábitos ambientalmente mais saudáveis.

É por isto que defendo que educar para a saúde devia, a meu ver, ser um desígnio nacional.

 

Ana Lídia Dias, estudante de Medicina 

 

Exigências e desafios que se colocam aos médicos do século XXI

MGFamiliar ® - Sunday, October 20, 2013

A convite do Professor Carlos Martins, inauguro com este artigo, a minha contribuição regular para o seu blog.

Já por diversas vezes, dei comigo a reflectir sobre as exigências e desafios que, por certo, terei de enfrentar quando me formar em Medicina, para poder abraçar finalmente a profissão que por vocação escolhi para a vida.

Hoje é um dado adquirido que não há verdades absolutas e conhecimento acabado, no que à Ciência respeita.

Como bem sabemos, o afã da investigação científica, no domínio das Ciências Médicas, é uma realidade imparável que não cessa de descobrir como funcionam as mais ínfimas e microscópicas estruturas biológicas. Descobertas que, muitas vezes, abrem caminho a outras disciplinas científicas que, a partir dessa informação, investem na prevenção, tratamento e cura das patologias que lhe estão associadas.

Esta reflexão, que me ocorre frequentemente, está a instalar-se na minha mente como uma divisa profissional, no sentido em que é já hoje, para mim, uma certeza, porventura uma das poucas, que a formação e a procura incessante de novos conhecimentos sobre descobertas ou novas praxis ou técnicas clínicas passarão a integrar as rotinas do meu quotidiano profissional, a par de todas as outras tarefas, obrigações e deveres.

Foi sobretudo graças a esta reflexão que integrei, com todo o gosto e entusiasmo, o Comité Organizador do 8º YES MEETING, evento de carácter científico, organizado pelos alunos da Faculdade de Medicina da Universidade do Porto, que teve, a meu ver, entre outras virtudes, a de permitir o contacto com outros jovens estudantes de Medicina, oriundos de mais de 40 países e, sobretudo, facilitou o acesso privilegiado ao contacto directo com prestigiados investigadores que têm vindo a desenvolver projectos de enorme valia internacional, destacando-se a Prémio Nobel da Química, Ada Yonath, galardoada pelos seus estudos no que respeita à estrutura e funcionamento do Ribossoma.

Esta exigência que se coloca aos médicos de sempre, mas com maior acuidade aos deste século XXI, face aos astronómicos investimentos financeiros que países e indústria farmacêutica estão a realizar, patrocinando projectos que, a pouco e pouco, têm vindo a mudar a forma de pensar e exercer a Medicina, é sem dúvida um dos maiores e mais empolgantes desafios que os futuros médicos terão de vencer, para se manterem permanentemente actualizados, o que vai, com toda a certeza, requerer da sua parte a preservação da sua atitude académica.

Ana Lídia Dias, estudante de Medicina