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A prática de corrida reduz o risco de mortalidade

MGFamiliar ® - Thursday, November 14, 2019





Pergunta clínica:
Em adultos saudáveis, a prática de corrida diminui a mortalidade por todas as causas, a mortalidade por causa cardiovascular e a mortalidade por neoplasia?

Desenho do estudo: Revisão sistemática e meta-análise. Critérios de inclusão e seleção de estudos: estudos prospetivos de coorte que avaliavam a associação entre corrida ou jogging e o risco de mortalidade por todas as causas, cardiovascular e/ou por neoplasia, em população de adultos saudáveis.

Resultados: Foram incluídos 14 estudos, de 6 coortes prospetivas, com uma amostra total de 232149 participantes, com follow-up entre 5,5 e 35 anos. Foram registados 25951 óbitos durante este período. A meta-análise demonstrou que a prática de corrida estava associada a uma diminuição do risco de morte por todas as causas de 27% (Hazard ratio (HR) 0,73), a uma redução de 30% de morte cardiovascular (HR 0,7) e a uma redução de 23% de morte por neoplasia (HR 0,77), comparativamente ao grupo de controlo de adultos que não corriam. Relativamente à dose de corrida necessária para este efeito protetor, a meta-análise demonstrou que não houve diferença estatisticamente significativa com o aumento da dose (frequência, duração, velocidade e volume total) da corrida.

Conclusão: A corrida contribui para a diminuição em 23-30% da mortalidade por todas as causas, cardiovascular e neoplásica e está associada a um maior consumo energético num determinado período de tempo que outras modalidades. Os benefícios da corrida poderão ser sentidos independentemente da dose de corrida praticada, mesmo com apenas 50 minutos por semana.

Comentário: O desenho deste artigo apresenta algumas características a ter em conta na sua interpretação, nomeadamente o facto de incluir apenas indivíduos saudáveis. A salientar que doses elevadas de corrida não estão associadas a benefício na mortalidade. Estes dados constituem mais um elemento para fundamentar iniciativas de promoção da saúde e prevenção da doença através da prática de exercício físico.

Artigo original: British Journal of Sports Medicine

 Por Susana Miguel, USF Cruz de Celas  



Impacto da vacina contra HPV no diagnóstico de patologia cervical

MGFamiliar ® - Sunday, November 10, 2019





Pergunta clínica:
A vacinação para o vírus do papiloma humano (HPV), de raparigas aos 12-13 anos, diminui a prevalência de patologia cervical aos 20 anos de idade?

Desenho do estudo:
Estudo retrospetivo, de coorte, de base populacional, realizado na Escócia, incluindo mulheres com citologia ou colposcopia realizada aos 20 anos de idade. Definiram-se 3 grupos: pré-imunização (coorte 1988-90); vacinação catch-up (coorte 1991-94), potencialmente expostas previamente ao HPV; e mulheres imunizadas (coorte 1995-96), supostamente sem exposição prévia ao HPV. As lesões foram classificadas como: normal (sem neoplasia intra-epitelial cervical (CIN)), CIN grau 1, CIN grau 2 e CIN grau 3 ou superior. Foi calculada a eficácia da vacinação completa (3 doses).

Resultados: Foram incluídas 138.692 mulheres: 64.026 não foram vacinadas, 68.480 receberam as 3 doses da vacina e as restantes receberam apenas 1 ou 2 doses. A prevalência de CIN grau 3 ou superior diminuiu em 89% (de 0,59% no grupo pré-imunização para 0,06% no grupo de mulheres imunizadas); a prevalência de CIN grau 2 ou superior sofreu diminuição em 88% (de 1,44% para 0,17%). O decréscimo foi mais acentuado nas mulheres com vacinação completa. A eficácia da vacinação foi de 78% na coorte 1995-96 e 41% na coorte de 1991-94 para CIN grau 1; 89% na coorte de 1995-96 e 56% na coorte de 1991-94 para CIN grau 2; e 86% na coorte de 1995-96 e 45% na coorte 1991-94 para CIN grau 3 ou superior. Na coorte 1995-96 a diferença na prevalência de CIN de alto grau entre as vacinadas e não vacinadas não foi estatisticamente significativa. Foi observada proteção de grupo nas mulheres não vacinadas da coorte de 1995-96, com redução de 63% no CIN grau 1; 67% em CIN grau 2; e de 100% em CIN grau 3. 
Um diagnóstico de CIN3 foi evitado por cada 189 mulheres vacinadas 2  a 8 anos antes do primeiro rastreio (número necessário para vacinar = 189).

Comentário: Este estudo demonstra uma elevada efetividade da vacina bivalente contra o HPV. Com o alargamento do efeito protetor da vacina a um número adicional de tipos de HPV, é provável que a efectividade seja ainda superior. No futuro, poderá justificar-se a revisão do programa de rastreio do cancro do colo do útero. Estimou-se que a eficácia da vacinação é superior a 80%, se previamente à exposição, conferindo proteção individual, parecendo também criar efeito de grupo. Quanto às limitações da investigação salientamos: o desenho restrito às mulheres com 20 anos de idade e o período curto de seguimento das mulheres nascidas entre 1995 e 1996.

Artigo original: BMJ

Por Susana Miguel, USF Cruz de Celas  





Reforço da ingestão de água evita recorrência de ITUs

MGFamiliar ® - Wednesday, October 16, 2019



Pergunta clínica: O reforço da ingestão hídrica em mulheres na pré-menopausa diminui a recorrência de infeções do trato urinário?

População: mulheres adultas em pré-menopausa, saudáveis, assintomáticas, com consumo de líquidos inferior a 1,5 L/dia, com história de pelo menos três episódios de infeção do trato urinário no último ano
Intervenção: reforço de ingestão hídrica (1,5 L de água para além da ingestão de líquidos normal)
Comparação: sem reforço hídrico
Outcome: frequência de recorrência de infeção do trato urinário  

Enquadramento: a infeção do trato urinário é uma patologia muito prevalente na mulher, sendo responsável pelo consumo de 15% dos antibióticos, por vezes com necessidade de utilização profilática. As mulheres são frequentemente aconselhadas a fazer um reforço de da ingestão hídrica para prevenir o surgimento de novas infeções do trato urinário, todavia, não existe evidência científica que comprove o seu benefício.

Desenho do estudo: Estudo aleatorizado controlado. Incluiu mulheres adultas em pré-menopausa, saudáveis, assintomáticas, com consumo de líquidos inferior a 1,5 L/dia, com história de pelo menos três episódios de infeção do trato urinário no último ano em que pelo menos um dos episódios de infeção do trato urinário tenha ter sido confirmado com urocultura. Foram excluídas mulheres que tivessem história de pielonefrite no último ano, cistite intersticial, sintomas de vulvovaginite, grávidas ou a planear engravidar nos 12 meses seguintes. As participantes foram divididas em dois grupos: um que faria um reforço de ingestão hídrica (ingestão de mais 1,5 L de água para além da sua ingestão de líquidos habitual) e um que não seria exposto a esta medida. A cada participante eram entregues três garrafas de água de 0,5 L a ser ingerida desde o início de cada refeição, até à refeição seguinte. Foram incluídas 70 participantes em cada grupo. Previamente à aleatorização, cada participante preencheu um diário para quantificação dos fluídos ingeridos durante três dias seguidos. Também foi feita colheita de urina de 24 horas para avaliação de volume de urina e osmolalidade. Para se manterem no estudo, os participantes teriam de ter um volume de urina inferior a 1,2L por dia e uma osmolalidade de pelo menos 500mOsm/kg. Durante 12 meses, as participantes foram contactadas mensalmente e questionadas sobre o aparecimento de sintomas, assim como avaliação mensal do diário de ingestão de fluídos e avaliação semestral da urina de 24 horas.

O marcador primário foi a frequência de recorrência de infeção do trato urinário (com a presença de pelo menos um sintoma e urocultura com pelo menos 103 CFU/mL). Os marcadores secundários foram o número de regimes de antibioterapia usados, o tempo decorrido para o primeiro episódio de infeção do trato urinário e entre episódios de infeção do trato urinário, volume e osmolalidade da urina de 24h.

Resultados: a ingestão diária de água aumentou em média 1,12 L no grupo no qual foi feito reforço, com aumento associado do volume urinário (mais 1,3L) e micções e diminuição da osmolalidade. Estes valores mantiveram-se pouco alterados no grupo controlo. O número médio de episódios de infeção do trato urinário foi de 1,7 (IC 95%, 1,5-1,8) no grupo com reforço hídrico e 3,2 (IC 95%, 3,0-3,4) no grupo controlo. A diferença média para o marcador primário foi de 1,5 (IC 95%, 1,2-1,8; P<0,001). Em relação ao número médio de regimes de antibioterapia, foi 1,9 (IC 95%, 1,7-2,2) no grupo com reforço hídrico e de 3,6 (IC 95%, 3,3-4,0) no grupo controlo.  O reforço da ingestão hídrica resultou, em média, em duas idas adicionais ao quarto de banho em comparação com o grupo controlo.

Conclusão: O reforço de ingestão hídrica (1,5L de água para além da ingestão de líquidos normal) diminuiu a recorrência de infeção do trato urinário, em mulheres com história prévia de, pelo menos, três episódios por ano.

Comentário: Este estudo observou uma redução de quase 50% dos casos de infeção do trato urinário com o reforço da ingestão hídrica, assim como uma redução do consumo de antibióticos. Sendo uma infeção tão frequente, a existência de medidas comportamentais profiláticas eficazes poderão ser uma mais valia para a redução da morbilidade e terapêuticas associadas à infeção do trato urinário. Contudo, poderão ter ocorrido fatores confundidores nos resultados obtidos, dos quais destacam-se outras medidas comportamentais não avaliadas: aumento do número de micções voluntárias, diminuição dos episódios de retenção urinária voluntária e micção após a atividade sexual.

Artigo original: JAMA Intern Med

 Por Mariana Rio, USF PortoCentro



Tratamento intensivo em diabéticos tipo 2: follow-up 15 anos

MGFamiliar ® - Tuesday, August 20, 2019




Pergunta clínica: O controlo glicémico intensivo nos doentes diabéticos tipo 2 diminui o risco de eventos cardiovasculares major e mortalidade a longo prazo comparativamente ao tratamento habitual?

População: veteranos com diabetes mellitus tipo 2

Intervenção: tratamento intensivo

Comparação: tratamento padrão

Outcome: evento cardiovascular major

Enquadramento: No estudo intitulado “The Veterans Affairs Diabetes Trial”, os doentes (ex-militares) com diabetes mellitus tipo 2 foram randomizados em dois grupos e submetidos durante 5,6 anos a tratamento intensivo ou tratamento padrão. Após 10 anos de seguimento observou-se que o controlo glicémico intensivo diminuiu de forma significativa os eventos cardiovasculares major, contudo sem aumento da sobrevida global em comparação com o tratamento padrão. Foram agora revelados os resultados do seguimento a 15 anos.

Desenho do estudo: Estudo observacional. Incluiu doentes inscritos no estudo “The Veterans Affairs Diabetes Trial”, através da consulta de bases de dados para identificar eventos cardiovasculares, internamentos e mortes. O objectivo nos doentes no grupo de tratamento padrão era atingir um valor de HbA1C entre 8-9%. Nos doentes no grupo com tratamento intensivo o objectivo era atingir um valor de HbA1C 1,5% inferior ao tratamento padrão. Outcome primário: evento cardiovascular major (enfarte agudo do miocárdio, acidente vascular cerebral, insuficiência cardíaca congestiva de novo ou agravamento da mesma, amputação por isquemia ou morte por causa cardiovascular). Outcomes secundários: Mortalidade por todas as causas, evento major relacionado com diabetes mellitus tipo 2 e qualidade de vida relacionada com a saúde.

Resultados: Incluídos 1655 indivíduos, tendo 1391 aceite uma avaliação mais completa por inquéritos. Durante o ensaio clínico original (n=1791), verificou-se uma diferença média de HbA1c de 1,5% entre os dois grupos de tratamento, tendo diminuído para 0,2-0,3% três anos após a sua conclusão. Decorridos 15 anos de seguimento, o controlo glicémico intensivo não reduziu o risco de eventos cardiovasculares major ou mortalidade comparativamente ao tratamento padrão (HR para outcome primário, 0,91; 95% intervalo de confiança [IC], 0,78 a 1,06; p = 0,23; HR para mortalidade, 1,02; IC 95%, 0,88 a 1,18). O risco de eventos cardiovasculares major diminuiu durante o intervalo prolongado em que se verificou separação das curvas de HbA1c entre os grupos (HR, 0,83; IC 95%, 0,70 a 0,99), contudo essa redução não se manteve com a sobreposição das curvas (HR, 1,26; IC 95%, 0,90 a 1,75).

Conclusão: O controlo glicémico intensivo não diminuiu o risco de eventos cardiovasculares nem a mortalidade a longo prazo relativamente ao tratamento padrão, não havendo, por isso, evidência de um legado de memória metabólica no tratamento da diabetes mellitus tipo 2.

Comentário: Os resultados deste estudo vêm de encontro às conclusões de estudos prévios. Salienta-se que o foco do tratamento deve ser o controlo multifatorial do risco cardiovascular, incluindo não só o controlo glicémico, mas também o controlo lipídico, tensional, a cessação tabágica, entre outros. Como limitações do estudo identifica-se a população estudada de veteranos, maioritariamente do sexo masculino, com idade avançada, longo tempo de evolução da doença, e alta prevalência de doença cardiovascular estabelecida, associado ao facto de ser um estudo observacional baseado em registos clínicos.

Artigo original: N Engl J Med

Por Teresa Silva, USF Gualtar 



Orientações clínicas: investigação da diarreia crónica no adulto

MGFamiliar ® - Tuesday, July 30, 2019





Pergunta clínica: Perante um adulto com diarreia crónica, qual a melhor abordagem e investigação diagnóstica a implementar?

Enquadramento: A diarreia crónica é definida como alteração persistente da consistência das fezes entre os tipos 5 e 7 no quadro de fezes de Bristol e aumento da frequência mais do que 4 semanas (Bristol 5 – fezes aos pedaços moles, com bordas bem definidas; Bristol 7 - fezes totalmente líquidas).

Desenho do estudo: Actualização d orientações clínicas publicadas previamente em 2003 pela British Society of Gastroenterology. A evidência foi revista e foi incluída a opinião de peritos.

Resultados: As principais recomendações para a avaliação de adultos com diarreia crónica são:
a) história e exame físico detalhados, hemograma completo (seguido de ferritina se anemia), função tiroideia e serologia da doença celíaca;
b) testar fezes para Clostridium difficile, óvulos e parasitas e calprotectina (doença inflamatória anormal do intestino) e considerar um teste imunoquímico fecal;
c) Em pacientes com alteração do hábito intestinal, é sugerido realizar colonoscopia;
d) Se os sintomas persistirem é importante considerar referenciar o doente para investigação adicional. Outros testes podem incluir teste respiratório de intolerância à lactose, endoscopia por cápsula de vídeo, elastase fecal para má absorção de gordura e ressonância magnética para avaliação da pancreatite crônica.

Comentário: A diarreia crónica é habitualmente, um problema muito valorizado pelos doentes. Estas orientações clínicas podem ser um auxílio na tomada de decisão. 

Artigo original: Gut

Por Ana Luísa Pires, UCSP Santa Maria II



Punção lombar guiada por ecografia é mais segura

MGFamiliar ® - Friday, June 28, 2019





Pergunta clínica:  A punção lombar guiada por ecografia é mais bem sucedida do que o método tradicional baseado em referências anatómicas?

Enquadramento: As punções lombares são um procedimento comum, nomeadamente em emergência médica. No entanto, a taxa de falha do procedimento pode atingir os 50%. A ecografia pode ser um recurso que poderá contribuir para um maior sucesso da punção lombar.  

Desenho do estudo: Revisão sistemática com meta-análise. Realizada de acordo com as orientações Preferred Reporting Items for Systematic Reviews and Meta-Analyses (PRISMA). Pesquisa no PubMed, CINAHL, LILACS, Scopus, Cochrane Database of Systematic Reviews e a Cochrane Central Register of Clinical trials. Foi consultada bibliografia de estudos relevantes bem como especialistas no assunto para ajudar a identificar outros estudos relevantes. Não houve restrições de idioma ou data. Critérios de inclusão: ensaios controlados aleatorizados comparando as taxas de sucesso das punções lombares assistidas por ecografia com punções lombares baseadas em referências anatómicas; ensaios em pacientes em idade adulta ou pediátrica. Foram excluídos relatos de casos, séries de casos, estudos retrospetivos, estudos não aleatorizados, estudos com cadáveres, estudos em não humanos, resumos de congressos. Dois investigadores avaliaram de forma independente os estudos quanto ao cumprimento dos critérios de elegibilidade e qualidade metodológica, utilizando uma ferramenta estandardizada para pontuação dos artigos. Os conflitos foram geridos por consenso com um terceiro investigador.

Resultados: De um total de 1054 artigos identificados, 12 cumpriam os critérios de inclusão (N= 957 doentes) e o risco global de viés foi baixo. As punções lombares  guiadas por ecografia foram significativamente mais bem sucedidas do que as punções lombares  baseadas em referências anatómicas para adultos e crianças (90,0% vs 81,4%; NNT = 11; IC95% 6 - 83). Não houve diferença significativa na taxa de sucesso entre os médicos internos e especialistas. Houve também significativamente menos punções lombares traumáticas guiadas por ecografia comparando com o método tradicional (10,7% vs 26,5%; número necessário para ecografia = 6; IC95% 3 - 19). Tanto o tempo para realizar punções lombares bem sucedidas quanto as escalas de avaliação da dor do paciente foram significativamente menores com o método guiado por ecografia.

Comentário: Esta revisão traz-nos informação relevante no que toca a um procedimento médico importante, mas com margem para otimização, quer no âmbito do sucesso diagnóstico do procedimento, quer na prevenção da iatrogenia com ele relacionada. Apesar de tudo, algumas limitações são apontadas a este estudo e devem motivar mais pesquisa, nomeadamente no que toca à moderada heterogeneidade estatística e clínica dos estudos analisados, à incerteza quanto às sondas de ecografia mais indicadas ou aos modelos de treino mais eficazes para capacitar os clínicos. Em todo o caso, este estudo abre a “janela” para o benefício da intervenção ecoguiada.

Artigo original: Acad Emerg Med

Por Carlos Seiça Cardoso, USF Condeixa


Sintomas ocultos na consulta

MGFamiliar ® - Monday, June 10, 2019




Pergunta clínica: Com que frequência e qual o tipo de sintomas que os utentes não abordam com o seu médico de família?

Desenho do estudo: Estudo observacional em cuidados de saúde primários. Incluídos utentes com idade 45 anos. Foi entregue um questionário a cada utente antes da consulta, sobre o motivo da consulta, sintomas presentes na última semana e desejo de os abordar com o seu médico de família. Foi pedido aos utentes o consentimento para preenchimento de questionário e gravação vídeo da consulta em 3 momentos: antes, logo após e 48 horas depois da consulta. Os sintomas foram agrupados em 11 grupos, com base no Subjective Health Complaint Inventory e Consultations in Primary Care Archive .

Resultados: Foram convidados 252 utentes, sendo o número final da amostra de 190 utentes. Os problemas mais identificados foram músculo-esqueléticos (21,6%), da pele (11,6%) e respiratórios (10,5%). Dos utentes que descreveram um motivo de consulta, 98,4% expressaram-no ao médico de família. Em 43 consultas (22,6%), 67 grupos de sintomas não foram discutidos. Apenas um médico não teve consultas em que ficaram sintomas por discutir (variação de 0-41% entre diferentes médicos). Os grupos de sintomas mais reportados foram “dores articulares”, “dor de costas ou de pescoço” e “cansaço/problemas de sono”, com n=88, n=62 e n=59, respetivamente. Quanto aos grupos cuja intenção de discutir foi completada, destacam-se “problemas com a micção” (88,9%) e “dificuldade respiratória/tosse” (83,3%), como os mais frequentes, e “problema íntimo/pessoal” (50%) e “cansaço/problema de sono” (34,8%) como os menos frequentes. 
Sintomas que mais frequentemente foram referidos como sendo um problema, mas sobre os quais não queriam falar com o médico, incluíram stress, preocupações ou tristeza, fadiga, problemas de sono, queixas de micção urinária, cefaleias e problemas de intimidade ou problemas pessoais.

Comentário: Como limitações desta investigação apontam-se o possível aumento do número de sintomas reportados (eventualmente provocado pela sua descrição em forma de lista); as dificuldades na caracterização detalhada dos sintomas e a sua possível sobreposição em diferentes categorias. A ausência de representatividade da população, por comparação com a portuguesa, é outra das limitações. Destaca-se ainda a possível subestimação destes resultados tendo em conta o conhecimento prévio, por parte do utente e do médico de família, da vídeo gravação da consulta. Durante a consulta é importante identificar a agenda escondida dos utentes. Alguns problemas relevantes podem ser, por exemplo, considerados mais sensíveis pelo que nem sempre são abordados de forma expressa. O desenvolvimento de competências em comunicação clínica é um dos pilares da medicina geral e familiar.

Artigo original: Fam Pract

Por José Teixeira, USF Viriato 



HIV: o risco de transmissão sexual é ínfimo no caso de doentes tratados ou com método de barreira

MGFamiliar ® - Tuesday, May 28, 2019




Pergunta clínica: Em parceiros sexuais serodiscordantes, qual é o risco de transmissão de HIV quando o parceiro infetado se encontra sob tratamento antirretroviral (com ou sem carga viral inferior a 200 cópias/mL) ou quando é usado o método de barreira durante a relação?

Enquadramento: No Canadá, estima-se que 82% das pessoas com HIV foram infetadas por via sexual. Segundo a lei canadiana, um cidadão seropositivo pode ser processado se se envolver sexualmente com determinado parceiro e não revelar a sua “condição” de seropositividade. Este trabalho de revisão surgiu então com o objetivo de dar resposta a questões levantadas pela Agência de Saúde Pública do Canadá de forma a compreender qual o risco “real” de transmissão de HIV por via sexual em parceiros serodiscordantes tendo em conta a realização de terapêutica antirretroviral e o uso de métodos barreira durante as relações sexuais.

Desenho do estudo: Revisão sistemática com meta-análise. Foram incluídos 11 estudos, 1 ensaio clínico randomizado e 10 estudos observacionais. Foi calculada a incidência de transmissão de HIV por 100 pessoas-ano com intervalos de confiança de 95%. Os resultados obtidos foram traduzidos para uma classificação de risco negligenciável, baixo, moderado ou alto. De uma forma geral a qualidade da evidência foi classificada como moderada-alta.

Resultados: Concluiu-se que o risco de transmissão de HIV por via sexual é negligenciável quando o parceiro sexual seropositivo está a fazer terapêutica antirretroviral e apresenta carga viral suprimida (risco global de 0.00 por 100 pessoas-ano [95% IC 0.00-0.28]; apesar de não ter sido possível obter evidência direta, estimou-se que este risco é sobreponível em situações em que o parceiro sexual seropositivo está a fazer terapêutica antirretroviral com carga viral suprimida e um dos parceiros utiliza método barreira. Por outro lado, o risco de transmissão é baixo quando o parceiro sexual seropositivo está a fazer terapêutica antirretroviral (independentemente da carga viral) – risco global de 0.22 por 100 pessoas-ano [95% IC 0.14-0.33] e quando um dos parceiros utiliza método barreira nas relações sexuais (sem uso de terapêutica antirretroviral) - risco global de 1.14 por 100 pessoas-ano [95% IC 0.56-2.04]. Apesar de nenhum estudo ter permitido avaliar diretamente o risco de transmissão quando o parceiro sexual seropositivo está a fazer terapêutica antirretroviral (independentemente da carga viral) e um dos parceiros utiliza método contracetivo de barreira nas relações sexuais, estimou-se um baixo risco - risco global de 0.003 [95% IC 0.00-0.03] a 0.11 ano [95% IC 0.02-0.73] por 100 pessoas-ano.

Comentário: O risco de transmissão de HIV por via sexual é praticamente nulo em doentes a realizar terapêutica antirretroviral e com níveis reduzidos de carga viral. Estes resultados traduzem a evolução da medicina moderna e o sucesso da terapêutica antirretroviral atualmente disponível para estes doentes. Não obstante estes resultados, mantém-se com pertinente o aconselhamento para a população, nomeadamente juvenil, do uso do preservativo na prevenção de infeções sexualmente transmissíveis.

Artigo original: CMAJ

Por Ana Pinho, UCSP Chaves IB 




Recomendação USPSTF: rastreio de violência por parceiro íntimo

MGFamiliar ® - Sunday, March 17, 2019




Pergunta clínica: Nas mulheres em idade fértil, adultos vulneráveis e idosos o rastreio de violência por parceiro íntimo ou abuso é eficaz?

Desenho do estudo: Revisão da evidência realizada pela United States Preventive Services Task Force (USPSTF) sobre o rastreio de violência por parceiro íntimo a mulheres em idade reprodutiva e abuso de adultos vulneráveis ou idosos, sem sinais e sintomas reconhecidos de abuso. Os estudos incluíam adolescentes e mulheres na faixa etária dos 40 anos. Foram utilizados vários instrumentos de rastreio: HARK (Humilliation, Afraid, Rape, Kick); HITS (Hurt, Insult, Threaten, Scream); E-HITS (Extended, Hurt/Insult/Threaten/Scream); PVS (Partner Violence Screen); WAST (Woman Abuse Screening Tool).

Resultados: O rastreio de violência por parceiro íntimo em mulheres em idade reprodutiva e fornecimento de aconselhamento ou encaminhamento de mulheres com resultados positivos para os serviços de apoio existentes tem mais benefício do que dano. Há evidência suficiente de que os instrumentos de rastreio disponíveis podem identificar a violência por parceiro íntimo em mulheres. Na ausência de instituições de apoio, os estudos realizados não demonstram evidência na eficácia de intervenções breves ou no fornecimento de informações sobre outras opções de apoio. O benefício dos serviços de apoio em vigor está essencialmente presente em estudos sobre mulheres grávidas ou pós-parto. A evidência científica atualmente disponível é insuficiente para avaliar o risco-benefício do rastreio para abuso de idosos e abuso de adultos vulneráveis.

Conclusões e recomendações: A USPSTF recomenda que os médicos façam o rastreio para violência por parceiro íntimo em mulheres em idade reprodutiva e forneçam aconselhamento e/ou encaminhem as mulheres, que apresentem resultados positivos, para os serviços de apoio existentes (Recomendação B). 

Comentário: Estudos sobre como prevenir a violência por parceiro íntimo e abuso de adultos vulneráveis e idosos são ainda muito limitados, havendo, por isso, necessidade de mais ações de sensibilização, mais programas de educação para a saúde de forma mais ampla na sociedade. É necessária ainda mais investigação em todas as áreas relacionadas com a precisão dos instrumentos de rastreio para homens, e ensaios clínicos que demonstrem eficácia dos rastreios e intervenções para violência por parceiro íntimo  no contexto dos cuidados primários em homens sem sinais e sintomas reconhecidos de abuso. Sendo a violência por parceiro íntimo, o abuso de adultos vulneráveis e idosos um problema de saúde pública, o seu rastreio deverá envolver diversos setores como a família, os cuidadores, a comunidade, os média, numa dimensão global, política e social.

Artigo original: JAMA

Por Filipa Jorge, USF Santa Luzia



Programa de Tai Chi previne quedas em idosos

MGFamiliar ® - Saturday, March 09, 2019




Pergunta clínica:  Em idosos com elevado risco de queda, a prática de Tai Chi modificado resulta num menor número de quedas?

População: Idosos com pelo menos uma queda nos últimos 12 meses ou com mobilidade limitada
Intervenção: Programa de Tai Chi modificado especificamente orientado para o equilíbrio e fortalecimento de idosos
Comparação: Prática de Tai Chi modificado  vs programa de múltiplos exercícios vs alongamentos
Outcome: Incidência de quedas

Desenho do estudo: Estudo randomizado controlado realizado em Oregon, EUA.  Foram selecionados idosos com pelo menos uma queda nos últimos 12 meses ou com mobilidade limitada, mas a viver em ambulatório. Os utentes foram aleatoriamente distribuídos por um dos três grupos. Em todos os grupos foram realizadas duas sessões de 60 minutos de atividade física por semana ao longo de 6 meses. Num grupo, a atividade física constou de um programa de Tai Chi Quan modificado, especialmente desenhado para idosos com o objetivo de promover o equilíbrio e o fortalecimento muscular. Noutro grupo, a atividade física constou de um programa de múltiplos exercícios (exercício aeróbico, força, alongamento e flexibilidade). No terceiro grupo, a atividade física era constituída apenas por exercícios de alongamentos. Marcador primário: incidência de quedas durante o período de intervenção, a qual foi avaliada mensalmente segundo diversas metodologias (calendário diário de quedas, chamada telefónica). Dos 670 participantes, a idade média era de 77 anos, 65% eram do sexo feminino.

Resultados: No decorrer dos 6 meses de intervenção, 48.4% dos participantes reportaram quedas, sendo o risco significativamente menor no grupo que realizou o Tai Chi modificado que no grupo de múltiplos exercícios (p=0.04), verificando-se que estes dois grupos apresentavam risco de queda significativa menor do que o grupo dos alongamentos (p<0.001). A redução do risco de queda face ao grupo dos alongamentos foi de 58% e 31%, respetivamente para o grupo do Tai Chi modificado e para o grupo de múltiplos exercícios. Ainda que tenha ocorrido um número significativamente menor de quedas com lesão grave no grupo do Tai Chi modificado face ao grupo dos alongamentos (8 vs 25; p=0.008), não se verificaram diferenças significativas em lesões graves decorrentes de quedas entre ambos os grupos.

Comentário: Estudo pertinente que comprova benefícios com a prática do Tai Chi modificado. Os próprios autores defendem que é um modelo facilmente aplicável e adotável na prática clínica e com francos benefícios no risco de queda.

Artigo original: JAMA Intern Med

Por  Ana Aires, USF Alpha




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