MaisOpinião - Bruno Moreno

A “Clubite”…


MGFamiliar ® - Wednesday, June 28, 2017



A “Clubite” é uma doença cuja incidência tem vindo a crescer nos últimos tempos, para a qual muito têm contribuído os programas, painéis e paineleiros que brotam como cogumelos nos canais da TV em sinal aberto e por cabo. Os dirigentes dos clubes e os intervenientes dentro das quatro linhas não têm, no passado recente, ajudado a uma “clubite” saudável. 

O Utente/Doente vítima de “clubite” tem uma labilidade emocional muito grande consoante o dia da semana. Apresenta-se eufórico à segunda-feira, se o seu clube venceu; visivelmente cabisbaixo, se o seu clube perdeu. Expectante durante a semana. Ansioso à sexta-feira, pela incerteza do resultado que o jogo de domingo que aí vem teima em manter. As incidências da jornada são fonte natural de conversa durante a consulta e servem, frequentemente, de desbloqueador da conversa que, muitas vezes, teima em fluir. Podem no entanto ser fonte de atrito e por isso convém gerir o entusiasmo da oratória. 

Recordo uma história passada com um Utente que, por má perceção em conversa com outros Utentes, ou por má perceção em conversa comigo, entendeu que as minhas preferências clubísticas seriam encarnadas, quando na realidade “o meu coração só tem uma cor: azul e branco”. Veio então o dito Utente, até aqui em modo envergonhado, e eis que me diz: 

“Oh Doutor, nem sabe a alegria que eu tive ao saber que o Doutor é benfiquista!” – disse ele 

“Desculpe mas não entendi.” – disse eu

“Soube que o Doutor é benfiquista e fiquei contente…até me sinto mais à vontade na sua consulta.” – disse ele

Dito isto, e visivelmente confortável, começa subitamente a contar-me a história da sua vida! A nossa conversa, que nas primeiras/últimas 3 consultas em que nos tínhamos encontrado, nunca tinha passado do trivial Bom dia e de umas queixas desengonçadas, flui agora descontraidamente, e percebo então a que se deve a claudicação que até então não tinha tido a ousadia de perguntar a que se devia, tal era a frieza com que nos (des)entendíamos. Relatou-me então o Utente que: 

“A primeira vez que vi o Eusébio jogar ao vivo no Estádio da Luz, fui atropelado à saída e estive 3 meses no hospital. Fiquei com o fémur esmigalhado.” 

Desde esse dia, sempre que vinha à consulta começava da mesma maneira “E o nosso Benfica?”; terminava, invariavelmente, a dizer que “somos os maiores”…

Eu, com cara de quem comeu um limão inteiro, acenava com a cabeça e sorria…sorria amareladamente … sem esboçar palavra….

Alguns dirão que deveria ter posto o Utente ao corrente das minhas preferências clubísticas, a bem de uma melhoria da relação de confiança Médico-Utente.

Outros dirão que fiz bem, porque a partir dessa data conquistei o Utente. Ao deixar fechado dentro da caixa torácica o meu “coração azul e branco”, consegui negociar com o doente um plano de tratamento adequado à sua realidade, equilibrei a Diabetes e controlei a Hipertensão. 

Mas…só eu e Deus sabemos o que me custou vestir aquele equipamento encarnado, mesmo tendo o jogo uma duração de apenas 20 minutos de 3 em 3 meses.

Por Bruno Moreno





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