MaisOpinião - Cláudio Carril

O destruidor de sonhos

MGFamiliar ® - Sunday, September 01, 2019




Quando somos jovens fazemos planos. Vemos para além, vemos o futuro. O calor do verão faz com que imaginemos cenários e investamos para os concretizar. Porém também tomamos como garantida uma vida longa que permita que se tenha o tempo necessário para realizar todos os projectos.

Mas, um dia, só porque sim, porque já fazia muito tempo e nunca é demais estarmos atentos, decide-se ir ao médico. “Só naquela”, fazer um “check-up” para saber se está tudo bem. O médico, solícito, faz o que lhe compete: observa o corpo e complementa a sua avaliação com algumas perguntas: “você faz exercício?”, “come bem?”, “fuma, bebe, toma drogas recreativas?”, “é do Benfica?” e, por fim, conclui a consulta com a prescrição de alguns dos chamados “exames de rotina”.

A pessoa sai do gabinete satisfeita. Se estiver tudo ok vai casar, vai fazer aquela viagem há muito pretendida, vai roubar um banco ou arranjar um crocodilo de estimação. Não importa o tipo de sonho, é-se jovem e temos a toda a vida pela frente.

Pouco tempo depois, o médico recebe um dos exames com um recado a solicitar uma leitura mais urgente. O técnico era um ser bom até abrir aquele envelope, a partir daquele momento transforma-se: agora é o “destruidor de sonhos”.

O destruidor de sonhos é aquela personagem que surge subitamente na vida de alguém para dizer que esqueça tudo o que havia planeado porque agora tem uma nova missão. É como aquele oficial que vai à casa do mancebo dizer que tem de dar o corpo às balas numa qualquer guerra. O destruidor de sonhos geralmente surge quando se está à espera de um filho ou de ser promovido ou, ainda, de ver o seu clube do coração ser campeão pela primeira vez nos últimos 18 anos. Não bate à porta, não pede licença, não respeita autoridades. Mas, verdade seja dita, costuma ser democrático, não poupando estatuto social, raça ou credo.

A pessoa é chamada com alguma pressa ao gabinete médico. É nesse momento que aquela imagem paradisíaca, tal wallpaper que enfeita o desktop do computador, altera-se. Começa a partir-se um pouco pelas pontas. “O que poderá ser tão urgente para uma chamada do médico? Eles até demoram séculos para marcar consultas!”, pensa o indivíduo.

O agora eventual doente senta-se à frente do destruidor de sonhos que apresenta uma cara algo desprovida de sentimentos. Parece maquinar um discurso que deveria estar pronto antes do encontro. O clínico entra titubeante no diálogo e, às voltas, como se ao fundo tocasse uma triste valsa, expõem o problema ao sonhador. Se perguntar ao destruidor como transmitiu a notícia ele vai dizer que não se lembra; “cada doente é um doente”, dirá, para que se não se perceba do incómodo de toda a situação.

Depois do curto discurso, o médico cala-se, respeitando o fácies incrédulo e as lágrimas do seu interlocutor. Porém, neste momento, tem de elaborar um discurso encorajador, o que não é tarefa fácil já que não lhe foi ensinado na faculdade…

Quando me disserem que sou bem pago, que tenho regalias, que o meu trabalho não é de desgaste rápido, vou sugerir tomarem o meu lugar de destruidor de sonhos, que permaneçam firmes, impávidos perante a repentina desgraça alheia. Talvez a tacanhice dos comentários se lhes desapareça num repente.

Por Cláudio Carril






Divindades

MGFamiliar ® - Wednesday, May 08, 2019




Nesta nossa actualidade é cada vez mais difícil acreditar no sobrenatural. A crença na divindade é abalada diariamente pela mundanidade, pela violência, pelo desprezo e pelos vários pecados mortais que se vêem aqui e ali e espelhados no ecrã da televisão ou nas primeiras páginas dos matutinos.

Eu também vou perdendo a fé; não sou imune à agressividade destes tempos e vou, a cada dia, acreditando menos no que é e naqueles que se dizem santos.

Mas, apesar deste endurecimento da alma, acredito que nós (e “nós”, no contexto do que escrevo, refere-se aos médicos) temos uma pequena entidade por cima de um dos ombros.  É este místico ser que fica ali apoiado, tal coruja empoleirada num galho de uma qualquer árvore, a observar as atitudes de cada um de nós e a ditar algumas dicas de sapiência sussurradas.

Só assim consigo explicar algumas atitudes que tomo em consulta. Só assim consigo compreender o porquê de pedir um determinado exame num contexto que não faz sentido ou tomar uma postura terapêutica que naquela determinada situação não seria aquela que normalmente tomaria.

Acredito que foi essa entidade que salvou, através de mim, a vida a alguns dos meus doentes. Talvez, se soubessem, essas pessoas agradeceriam mais a este ser do que ao clínico que tem como Médico de Família.

Não me importo que me guie quando tenho dúvidas, nem que me sopre ao ouvido pequenas dicas de como me hei de safar de situações mais complicadas do dia-a-dia como médico. Vivo bem com o seu ninho no meu ombro, faz-me estar atento e um pouco mais seguro das atitudes que tomo. Espero que fique e que não abale do seu pouso quando não responder ao que me sugere. Espero que esta divindade me ajude sempre, quem quer que ela seja.

Como dizia o outro: «No creo en brujas, pero que las hay, las hay.»

Por Cláudio Carril





O mistério da ½ bolacha

MGFamiliar ® - Tuesday, January 29, 2019



No meu gabinete existe uma bolacha, ou melhor: ½ bolacha. O facto de ser apenas ½ bolacha quererá certamente dizer que a mesma já foi, um dia, uma bolacha inteira. Violentos acontecimentos devem ter feito com que a sua outra metade tenha partido e deixado para traz aqueles restos no recôndito local onde agora se encontra.

Então, no meu gabinete de trabalho existe uma ½ bolacha e ela jaz por traz do meu computador há pelo menos 3 semanas. Apareceu ali, de repente, sem se dar por nada. Como na sala não tenho os ingredientes e apetrechos necessários à sua confecção, faz-me crer que ela não nasceu acolá; provavelmente foi ali deitada por uma criança que se terá queixado à mãe que tinha uma larica e, sabem, mãe que é mãe tem sempre qualquer coisita para acalentar o estômago de uma cria mais esfaimada.

Assim, no meu gabinete tenho uma ½ bolacha que terá escapado às dentuças e às mãos de uma criança esfomeada. Está imóvel, sujeita às entradas e saídas das pessoas que me procuram diariamente. Não mudou ainda de morfologia, continua a ser ½, mas já apresenta uma coloração diferente. Partes dela começam a dar sinais da inanição ali por trás do PC, já estão enegrecidas pela humidade e pela companhia do cotão e do pó que se vão acumulando ao seu redor.

A bolacha vai ficar ali. Se não criar perninhas e resolver caminhar, ela vai permanecer naquele recôndito local. Se o intuito da sua criação não foi o de permanecer no chão do meu gabinete, logo por trás do PC, a ½ bolacha já não serve para aquilo que foi criada. Ela ficará ali, escondida à vista de todos, até que o tempo resolva fazer alguma coisa com ela. Não serei eu a transladar o seu doce ½ corpo para o lixo ou para outro local qualquer; eu sou médico de pessoas e não legista de bolachas. Naquela ½ bolacha eu não tocarei, só a conheci há 3 semanas e não tenho com ela a confiança necessária, nem a sua autorização, para lhe mexer no físico. Terá de ser um técnico mais acostumado com estas lides, um profissional mais capacitado, com instrumentos próprios e que seja altamente treinado para removê-la dali e lhe encontrar um local mais digno onde acabar os seus dias de ½ bolacha.

No entanto, apesar da profunda tristeza e amargura de ver a ½ bolacha, ali perdida por trás do PC, nas últimas 3 semanas, um raio de esperança aquece-me o coração quando vejo que, sabe-se lá de onde, surgiram algumas migalhas de pão para lhe fazer companhia e ela já comunica bem com os 2 cm de pó que enfeitam as prateleiras e móveis do meu gabinete.

Salubridade, está aí uma palavra à procura de tradução na grande maioria das instituições públicas deste país…

Por Cláudio Carril




Os heróis mesmo, mesmo, de verdade

MGFamiliar ® - Tuesday, October 23, 2018





Quem, destas últimas gerações, não cresceu no convívio fantástico de super-heróis? Quem nunca ouviu falar dos poderes inigualáveis do Super-Homem, da Mulher Maravilha, do Homem Aranha ou de um sem fim de outros seres espetaculares?

Lembrar-se-ão dos seus poderes fenomenais, certo? Uns podiam voar, outros tinham uma força descomunal, ainda outros com grande velocidade. Poderes quase infindáveis que faziam qualquer criança (e adultos) sonhar.

Todos aqueles poderes tinham como objetivo último salvar pessoas. Era o Super-Homem a salvar o autocarro da escola antes do mesmo cair no precipício, ou o Batman a libertar a rapariguinha das garras do Joker, ou o Homem-Aranha a arremessar uma teia para amparar a queda da sua amada Mary Jane. Todos com o mais altruísta dos objetivos: salvar o mundo e a humanidade.

O que todos também tinham em comum? Eram alter egos. Alguém aparentemente normal mas que, afinal, tinha todos aqueles superpoderes.

Mas se todos aqueles são personagens fictícios, existem outros verdadeiros, heróis de carne e osso, e que também salvam vidas. Olhem, por exemplo: eu. Eu, sim! Eu mesmo. O meu alter ego é o “Homem-Click”.

O Homem-Click chega ao trabalho e traveste-se. Põe uma roupa branca por cima da civil e começa a utilizar o poder do click. Primeiro, liga o computador que reluta em funcionar (tal como o nosso herói às 8 da manhã). Quando o aparelho finalmente acorda, introduz uma das mais de 30 senhas secretas que a sua entidade patronal gentilmente lhe impôs.  Clica no teclado do telefone e chama pelo nome da primeira pessoa. Esses serão os primeiros dos inúmeros “clicks” que ele vai lançar nos próximos 15 minutos. Se há queixas, ele clica nos códigos; se há doenças crónicas ele clica em dezenas (quiçá centenas) de quadradinhos para alguém, num Headquarter qualquer, considerar que a consulta foi “bem feita”; se for uma criancinha, os clicks disparam para quantias astronómicas. Ele quase podia jurar que já tem uma tendinite no extensor do indicador tal as vezes que o dedo se põe em riste para martelar o botão esquerdo do rato.

No fim dos intermináveis clicks, no exíguo tempo que lhe sobrou para realmente poder observar a pessoa à sua frente, o nosso super-herói descobre uma doença que, infelizmente, nenhum daqueles quadradinhos previa ou prevenia. Por mais incrível que pareça, não foi nenhum click no nome de um exame, ou de um medicamento, ou de um password, ou de um procedimento estatístico, ou outro nada virtual, que pôde salvar aquela pessoa que lhe veio pedir a sua ajuda. Paradoxos de um sistema criado por quem não sabe prescrever um analgésico para uma dor de cabeça ou tem dificuldades em perceber o terreno inóspito por onde caminha este herói tão mundano.

O nosso Homem-Click salvou o dia novamente, mas, para isso, apenas precisou utilizar as suas armas pouco secretas e que não lhe cabem no nome fictício: o seu próprio saber, a atenção e o bom senso.

Por Cláudio Carril 





Errar: verbo transitivo

MGFamiliar ® - Wednesday, July 11, 2018




Eu erro, tu erras, ele erra, todos nós erramos. Porém, em verdade, não estou muito preocupado com os erros dos outros, o que realmente me importa é que eu erro.

Quando aquela doente entrou no gabinete não parecia estar muito satisfeita. Sentou-se à minha frente e, de forma paciente, ouviu o que eu lhe tinha para dizer. Quando lhe dei oportunidade de ser ela a interveniente disse-me o que lhe ia na alma. Queixou-se de que eu não a escutara, de que não ligara às suas queixas e preocupações e que, por isso, tinha sofrido.

No momento em que percebi o que estava a acontecer fiquei espantado, sem palavras ou reação. Fiquei aterrado com o facto de, após ouvir o seu testemunho, ter de concordar com ela: eu errei. Por mais que me custasse, ouvi calado o que nenhum médico gosta de ouvir e fiquei surpreendido pela sua franqueza e educação.

Quando ela acabou o seu relato fui eu que lhe dirigi a palavra. Assumi o meu erro e pedi-lhe sinceras desculpas por lhe ter causado sofrimento com a minha falta. Ainda lhe agradeci pelo que me disse, falei-lhe que me tinha ensinado uma grande lição e que me esforçaria ao máximo para não cometer mais falhas como aquela.

A senhora sorriu em resposta e no fim da consulta, humildemente, pediu-me desculpas por me ter chamado à atenção. Eu desculpei-me novamente e, mais uma vez, lhe agradeci.

Enquanto fazia o registo da consulta no processo clínico pensei no que havia acontecido. Pensei, vezes sem conta, em como teria sido possível aquela situação me ter escapado, logo eu, sempre com a ideia de que estava sempre atento aos meus doentes. Por fim, pensei também no que poderia ter feito melhor.

Chateei-me comigo próprio por ter sido um tipo de profissional do qual tenho repulsa, daqueles distraídos e negligentes. Valeu-me o facto de acreditar que não fiz por mal e que "errar é humano”.

No entanto, e no fim de tanto refletir, estremeci com uma temível conclusão: que este não teria sido o primeiro erro da minha ainda curta carreira e que, definitivamente, estaria muito longe de ser o último…

Por Cláudio Carril