MaisOpinião - Cláudio Carril

Divindades

MGFamiliar ® - Wednesday, May 08, 2019




Nesta nossa actualidade é cada vez mais difícil acreditar no sobrenatural. A crença na divindade é abalada diariamente pela mundanidade, pela violência, pelo desprezo e pelos vários pecados mortais que se vêem aqui e ali e espelhados no ecrã da televisão ou nas primeiras páginas dos matutinos.

Eu também vou perdendo a fé; não sou imune à agressividade destes tempos e vou, a cada dia, acreditando menos no que é e naqueles que se dizem santos.

Mas, apesar deste endurecimento da alma, acredito que nós (e “nós”, no contexto do que escrevo, refere-se aos médicos) temos uma pequena entidade por cima de um dos ombros.  É este místico ser que fica ali apoiado, tal coruja empoleirada num galho de uma qualquer árvore, a observar as atitudes de cada um de nós e a ditar algumas dicas de sapiência sussurradas.

Só assim consigo explicar algumas atitudes que tomo em consulta. Só assim consigo compreender o porquê de pedir um determinado exame num contexto que não faz sentido ou tomar uma postura terapêutica que naquela determinada situação não seria aquela que normalmente tomaria.

Acredito que foi essa entidade que salvou, através de mim, a vida a alguns dos meus doentes. Talvez, se soubessem, essas pessoas agradeceriam mais a este ser do que ao clínico que tem como Médico de Família.

Não me importo que me guie quando tenho dúvidas, nem que me sopre ao ouvido pequenas dicas de como me hei de safar de situações mais complicadas do dia-a-dia como médico. Vivo bem com o seu ninho no meu ombro, faz-me estar atento e um pouco mais seguro das atitudes que tomo. Espero que fique e que não abale do seu pouso quando não responder ao que me sugere. Espero que esta divindade me ajude sempre, quem quer que ela seja.

Como dizia o outro: «No creo en brujas, pero que las hay, las hay.»

Por Cláudio Carril