MaisOpinião - Cláudio Carril

O mistério da ½ bolacha


MGFamiliar ® - Tuesday, January 29, 2019



No meu gabinete existe uma bolacha, ou melhor: ½ bolacha. O facto de ser apenas ½ bolacha quererá certamente dizer que a mesma já foi, um dia, uma bolacha inteira. Violentos acontecimentos devem ter feito com que a sua outra metade tenha partido e deixado para traz aqueles restos no recôndito local onde agora se encontra.

Então, no meu gabinete de trabalho existe uma ½ bolacha e ela jaz por traz do meu computador há pelo menos 3 semanas. Apareceu ali, de repente, sem se dar por nada. Como na sala não tenho os ingredientes e apetrechos necessários à sua confecção, faz-me crer que ela não nasceu acolá; provavelmente foi ali deitada por uma criança que se terá queixado à mãe que tinha uma larica e, sabem, mãe que é mãe tem sempre qualquer coisita para acalentar o estômago de uma cria mais esfaimada.

Assim, no meu gabinete tenho uma ½ bolacha que terá escapado às dentuças e às mãos de uma criança esfomeada. Está imóvel, sujeita às entradas e saídas das pessoas que me procuram diariamente. Não mudou ainda de morfologia, continua a ser ½, mas já apresenta uma coloração diferente. Partes dela começam a dar sinais da inanição ali por trás do PC, já estão enegrecidas pela humidade e pela companhia do cotão e do pó que se vão acumulando ao seu redor.

A bolacha vai ficar ali. Se não criar perninhas e resolver caminhar, ela vai permanecer naquele recôndito local. Se o intuito da sua criação não foi o de permanecer no chão do meu gabinete, logo por trás do PC, a ½ bolacha já não serve para aquilo que foi criada. Ela ficará ali, escondida à vista de todos, até que o tempo resolva fazer alguma coisa com ela. Não serei eu a transladar o seu doce ½ corpo para o lixo ou para outro local qualquer; eu sou médico de pessoas e não legista de bolachas. Naquela ½ bolacha eu não tocarei, só a conheci há 3 semanas e não tenho com ela a confiança necessária, nem a sua autorização, para lhe mexer no físico. Terá de ser um técnico mais acostumado com estas lides, um profissional mais capacitado, com instrumentos próprios e que seja altamente treinado para removê-la dali e lhe encontrar um local mais digno onde acabar os seus dias de ½ bolacha.

No entanto, apesar da profunda tristeza e amargura de ver a ½ bolacha, ali perdida por trás do PC, nas últimas 3 semanas, um raio de esperança aquece-me o coração quando vejo que, sabe-se lá de onde, surgiram algumas migalhas de pão para lhe fazer companhia e ela já comunica bem com os 2 cm de pó que enfeitam as prateleiras e móveis do meu gabinete.

Salubridade, está aí uma palavra à procura de tradução na grande maioria das instituições públicas deste país…

Por Cláudio Carril




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