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A pseudociência à volta da análise que deteta cancro


Carlos Martins - Sunday, February 04, 2018


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“Sr. Dr., quero fazer aquela análise para saber se tenho cancro...” Este é um pedido que, com alguma frequência, se vai ouvindo na consulta... Para os nossos leitores não médicos, esclareço desde já que essa análise não existe. Assim como não existe uma doença única chamada cancro, porque aquilo que existe, é um muito variado tipo de cancros, de diferentes órgãos do corpo humano e em alguns órgãos, até existem vários tipos de cancro. Por exemplo, no caso do cancro da mama, diferentes tipos de cancro da mama, com estratégias de tratamento muito diferentes entre eles e com graus de agressividade muito diferentes. Existem até cancros que nunca provocariam doença, sofrimento ou morte das pessoas que os têm, uma situação frequente em certos tipos de cancro da próstata e da mama.

Há alguns dias atrás, vários meios de comunicação social deram grande destaque aos resultados de uma “nova análise ao sangue que ajuda a detetar oito tipos de cancro em fase precoce”. Os títulos, exageradamente animadores, correram mundo, como se pode ver por estes exemplos: Expresso, Diário de Notícias, The Guardian e ABC News. A fonte da notícia terá sido um estudo publicado na revista Science. As notícias falam-nos de uma “análise universal ao sangue”, uma “biopsia líquida”, que permitirá detetar 8 tipos de cancro, batizada com o pomposo nome “CancerSEEK”.

Em Medicina, é tão importante a transmissão de esperança às pessoas, como a correção com que se comunica a ciência em que a Medicina e as decisões médicas se fundamentam. Assim como é errado não transmitir qualquer esperança quando ela existe, também é errado transmitir falsas esperanças. O tipo de narrativa que foi usado nas notícias relativas ao “CancerSEEK” sofre de várias incorreções e seguiu uma linha populista (até se fala do “Santo Graal”!) que induz facilmente o cidadão comum em erro. Eis algumas dessas incorreções...

Começando pela ideia de que “quanto mais cedo um cancro é detetado, mais probabilidades há de ser tratado”. Ora, se isto pode ser verdade em certos tipos de cancro, noutros certamente não o será e o diagnóstico pode significar apenas um sofrimento mais prolongado. É o caso dos cancros para os quais não existe ainda tratamento eficaz disponível.  Por outro lado, à luz de múltiplos estudos científicos, sabemos hoje que a procura  incessante pelo diagnóstico precoce é o fator que mais contribui para o sobrediagnóstico e sobretratamento. O que é o sobrediagnóstico? É o diagnóstico dos tais cancros que nunca iriam provocar doença, sofrimento ou morte nas pessoas que os têm. E porque é que isto é importante? Porque, no presente, quando se deteta um cancro desse tipo não se consegue saber se é um sobrediagnóstico ou não, pelo que vão ser desnecessariamente tratadas todas essas pessoas, com franca perturbação da sua qualidade de vida.

Outra incorreção é a de se transmitir a ideia de que o CancerSEEK poderá vir a ter um “enorme impacto na taxa de mortalidade por cancro” e que poderá vir a ser útil como teste de rastreio em pessoas saudáveis. O estudo em que se fundamentou esta onda noticiosa, reporta apenas os resultados da aplicação do teste CancerSEEK em 1.005 pacientes com cancro não metastático, mas já clinicamente detetado, do ovário, fígado, estômago, pâncreas, esôfago, cólon e reto, pulmão ou mama. Sublinho, os pacientes em que o teste foi aplicado já tinham cancro! E mesmo nestes, os resultados não são muito famosos. As notícias dizem que o teste “conseguiu, em 70% dos casos, apurar a existência de cancros nos ovários, fígado, estômago, pâncreas, esófago, cólon, pulmão e mama antes de estes se espalharem”. Primeiro, isto quer dizer que em 30% dos casos o teste falhou tendo dado um resultado falso negativo. Segundo, quando vamos observar os resultados de forma mais detalhada (ver imagem), verificamos que as percentagens de deteção de cancro, nalguns tipos de cancro foi ainda bastante inferior. No caso do cancro da mama, inferior a 40%.


Então o que seria necessário para dispormos um teste magnífico de rastreio de cancro?! Seriam necessário pelo menos duas condições.

Primeira condição, seria necessário um estudo que incluísse pessoas saudáveis, sem sintomas de cancro, distribuídas aleatoriamente por dois grupos. Num desses grupos, as pessoas seriam submetidas ao rastreio com o teste CancerSEEK, no outro não fariam esse rastreio. E depois iriamos avaliar se, no grupo rastreado com o CancerSEEK haveria realmente um menor número de mortes em comparação com o grupo não rastreado. Caso se verificasse uma redução de mortalidade no grupo rastreado, então o teste obedeceria à primeira condição.

Segunda condição, seria necessário avaliar potenciais danos associados à aplicação do teste CancerSEEK. Seria necessário avaliar se o teste não induz um aumento significativo de diagnósticos. Se isso ocorrer, então estamos perante uma indução de um número significativo de sobrediagnósticos o que implicará sobretratamento com dano para a qualidade de vida de muitas pessoas. Uma outra forma de dano associado a este teste poderia ser o número de falsos positivos. Contudo, de acordo com o estudo publicado na Science o número de falsos positivos terá sido relativamente reduzido.

Ora, caro leitor, como vê, estamos muito longe de poder considerar o CancerSEEK como uma revolução no rastreio e diagnóstico de cancro, pois este tipo de estudos ainda não foi efetuado. Neste contexto, faça-se justiça ao último parágrafo da notícia do Expresso em que se cita Paul Pharoah, professor de epidemiologia da Universidade de Cambridge, segundo o qual: "Demonstrar que um teste consegue detetar cancros avançados não significa que esse mesmo teste venha a ser útil na deteção de cancros precoces, muito menos de cancros pré-sintomáticos." E diz-se ainda neste parágrafo: “é preciso mais investigação para apurar a verdadeira eficácia desta análise sanguínea”. Pena é que estas palavras sensatas surjam apenas no final da notícia e não mereçam o destaque de outras afirmações e títulos mais atrativos, mas também mais falaciosos.

Por Carlos Martins


A respeito deste artigo, um breve comentário no nosso podcast MGFamiliar...










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