Editorialblog

"Guidelines" para as pessoas


Carlos Martins - Sunday, February 10, 2013

 

Ajudar os pacientes na gestão de múltiplas patologias é uma das tarefas em que o Médico de Família se diferencia durante a sua especialização, e uma aptidão que sente necessidade de ver desenvolvida ao longo da sua vida profissional.

Num tempo como o atual, em que constantemente lidamos com o fardo das doenças crónicas e também com a pressão proveniente do desenvolvimento tecnológico na área dos medicamentos e dos exames complementares de diagnóstico, essa tarefa constitui um verdadeiro desafio. Para ajudar os médicos nessa tarefa, múltiplas instituições têm-se dedicado à elaboração de guidelines. Contudo, as guidelines, mesmo quando elaboradas de forma correta sob o ponto de vista metodológico, e mesmo quando baseadas na melhor evidência científica, apresentam um problema major que limita a sua utilidade. Na sua grande maioria, as guidelines atuais, quer nacionais, quer internacionais, não têm em consideração indivíduos com múltipla patologia, não têm em consideração as comorbilidades, não são orientadas para a pessoa como um todo, pelo que apresentam problemas sérios de aplicabilidade, pois facilmente conduzem à polimedicação dos indivíduos e até a eventual dano devido às possíveis interações medicamentosas.

Cada guideline, existe apenas para abordar uma determinada patologia, como se a pessoa que nós vemos no dia-a-dia na consulta não tivesse ao mesmo tempo hipertensão, diabetes, dores osteoarticulares e uma perturbação de ansiedade... A este respeito, aconselho a leitura deste artigo:

Guidelines for people not for diseases: the challenges of applying UK clinical guidelines to people with multimorbidity

Precisamos de guidelines centradas nas pessoas, que integrem a gestão e priorização das comorbilidades de forma a minimizar o risco de dano iatrogénico.

Comments
David Rodrigues commented on 19-Feb-2013 04:55 PM
Muito obrigado pelo artigo Carlos, é importante.
É uma tema importante e fundamental, particularmente para nós que a DGS parece uma nascente em ebulição de NOCs, com metodologias que já de si têm muito que se lhe diga e muito menos tem em conta aspectos como o do artigo que citas.
Abraço,
Edgar Vaz commented on 20-Feb-2013 02:31 AM
Excelente "pérola" Carlos. Exprime de maneira muito compreensível e vem de encontro àquilo que sentimos no dia-a-dia, os MGF mais do que qualquer outro médico.
Curiosamente, de encontro ao que disse o David, e sempre defendendo o esforço que me parece positivo (embora com questionáveis razões na sua base) de fazer NOCs, permito-me destacar:

"Concerns have been voiced about linking guideline recommendations with targets/financial incentives and whether this might result in prescriptions being made which materially benefit the prescriber but may not be in the best interests of particular patients [25]. Clearly, clinicians do not wish to be in a situation where they have to defend every deviation from guideline recommendations in order to achieve financial targets. Nor do they wish to be the subject of complaints based around their failure to follow guideline recommendation to the letter [26, 27]."

Precisamente por esta razão elas são "de orientação" e não "de seguimento estrito", como o ministério da saúde quer!!!

Um abraço e mais uma vez obrigado
Carlos Martins commented on 20-Feb-2013 11:02 PM
Muito obrigado pelos vossos comentários! :)
Anonymous commented on 22-Jun-2013 11:31 PM
Já para não falar quando só considera indivíduos com menos de 75 anos...


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