Editorialblog

Atualizações de recomendações da USPSTF

Carlos Martins - Sunday, July 22, 2018



A United States Preventive Services Task Force (USPSTF) efetuou recentemente a atualização as seguintes três recomendações:

Cardiovascular Disease, Risk Assessment With Nontraditional Risk Factors, 2018

A USPSTF concluiu que a evidência científica atualmente disponível é insuficiente para avaliar o balanço entre benefícios e danos provenientes do uso adicional do índice tornozelo-braço, nível de proteína C reativa de alta sensibilidade ou o score de cálcio coronário, aos fatores de risco tradicionalmente usados na avaliação do risco cardiovascular em adultos assintomáticos para prevenir eventos de doença cardio e cerebrovascular. Recomendação grau I.

Peripheral Artery Disease and Cardiovascular Disease Risk Assessment With the Ankle-Brachial Index, Screening, 2018

A USPSTF concluiu que a evidência científica atualmente disponível é insuficiente para avaliar o balanço entre benefícios e danos do rastreio de doença arterial periférica e avaliação do risco de doença cardiovascular com o índice tornozelo-braço (ver vídeo no final deste post) em adultos assintomáticos. Recomendação grau I.

Osteoporosis to Prevent Fractures, Screening, 2018

A USPSTF recomenda o rastreio da osteoporose por densitometria para prevenir fraturas osteoporóticas em mulheres na pós-menopausa com menos de 65 anos desde que apresentem risco aumentado de osteoporose após a aplicação de um instrumento de avaliação de risco de osteoporose (p. ex. FRAX). Recomendação grau B.

Estas revisões são interessantes e devem merecer a nossa reflexão, quer dos colegas de Medicina Geral e Familiar, quer de outras especialidades envolvidas como, por exemplo, Cardiologia, Medicina Interna, Reumatologia, entre outras.

É também de destacar a importância que é dada à avaliação entre os benefícios e os danos para cada intervenção preventiva. Por vezes, com o ímpeto de avaliar o risco, com o ímpeto de rastrear, não se pára para pensar nos potenciais danos de determinada intervenção. Por exemplo, quando o score de cálcio coronário se tornou popular, a quantos pacientes assintomáticos não foi comunicado que tinham umas artérias idênticas às pessoas com uma idade muito superior?! Com isso, quanta preocupação, quanto sofrimento psicológico infligido desnecessariamente, sem consequências práticas, sem impacto na redução da morbi-mortalidade cardiovascular.

A importância do lado B” na prevenção foi um dos motivos que levou o EUROPREV a escolher para “main theme” do II European Forum on Prevention and Primary Care  o tópico “Medical prevention: the balance of benefits and harms. Quando falamos de rastreios de adultos assintomáticos, estamos a falar de uma intervenção preventiva em pessoas que se sentem bem. Estas intervenções podem quase sempre acarretar algum dano pelo que é fundamental ter prova científica de que os benefícios superam os eventuais danos para que essas intervenções sejam recomendadas.  Fica o convite a todos os colegas para que compareçam neste congresso que, acreditamos, tem um programa científico pertinente e relevante para a nossa prática clínica. Podem consultar o programa aqui...











Homeopatia, um mal que não vem só

Carlos Martins - Sunday, April 22, 2018





Ben Goldacre é um médico psiquiatra, inglês, investigador, autor de vários livros e de várias TED Talks sobre temas como ciência, medicina baseada na evidência, pseudociência e homeopatia. No passado dia 18, foi publicado um artigo muito pertinente escrito por Ben Goldacre e a sua equipa de investigadores. Trata-se de um estudo transversal, em que se tenta responder à seguinte questão: “Está a prescrição de tratamentos homeopáticos nos Cuidados de Saúde Primários ingleses associada à má qualidade de prescrição terapêutica? Por outras palavras, será que os médicos que prescrevem homeopatia, também têm uma prática de prescrição que se afasta da melhor evidência científica e das boas práticas?

Para responder a esta questão, a equipa de Ben Goldacre consultou as bases de dados de prescrição dos Cuidados de Saúde Primários ingleses e identificou 644 unidades de saúde que, num período de 6 meses, tinham prescrito tratamentos homeopáticos. Depois, foi comparar quatro indicadores de qualidade de prescrição terapêutica e ainda dois indicadores de qualidade de desempenho (estes não se relacionavam com a prescrição de medicamentos) entre as 644 unidades de saúde que tinham prescrito homeopatia com as 6974 unidades de saúde que não tinham prescrito homeopatia.

Os resultados demonstram que a prescrição de homeopatia está associada um pior desempenho nos quatro indicadores de prescrição terapêutica. Também se observou um efeito de proporcionalidade entre os prescritores de homeopatia. Ou seja, quanto mais frequente a prescrição de homeopatia, pior a qualidade prescrição terapêutica. No fundo, os profissionais de saúde que prescrevem homeopatia, tendem a praticar uma medicina menos fundamentada na evidência científica de melhor qualidade e mais distante das boas práticas.

Porque é que este artigo é relevante?

Porque enquanto médicos, devemos todos zelar pela boa qualidade da medicina e zelar por uma medicina baseada na ciência. Este estudo revela como a prática da pseudociência, típica da homeopatia, pode “infetar” colegas nossos e como isso se associa à prática de uma medicina de pior qualidade. No fim da linha, os nossos pacientes serão os principais prejudicados. 

O que é a homeopatia?

Para responder a esta pergunta, vou usar como fonte o próprio artigo da equipa de Ben Goldacre. A homeopatia não tem qualquer fundamentação científica nem um mecanismo biológico plausível de funcionamento. Os medicamentos homeopáticos são desenvolvidos a partir da descoberta do agente causal. Ou seja, descobre-se uma substância que causa certo sintoma. Por exemplo, uma substância que causa náuseas. Depois, 1 gota dessa substância é diluída em 100 gotas de água, tipicamente por 30 diluições sequenciais, resultando numa solução de 1 para 10. Embora nenhuma molécula do princípio ativo permaneça depois de tantas diluições, os homeopatas afirmam que a água tem memória para o princípio ativo. Uma gota dessa água é então colocada num recipiente com comprimidos de lactose. Os homeopatas afirmam que os comprimidos recebem e transmitem as qualidades previamente memorizadas pela água. Entre cada diluição, os homeopatas afirmam que o frasco deve ser batido firmemente contra uma superfície de couro sobreposta em crina de cavalo, a fim de "fortalecer" a água.

Pois é, agora que sabe como são produzidos os comprimidos dos tratamentos homeopáticos, também fica a saber que um comprimido homeopático não passa de um comprimido de lactose que levou umas pancadas contra um pedaço de couro.

Finalmente, uma curiosidade...

Este artigo, agora publicado no Journal of the Royal Society of Medicine, havia sido submetido pelos autores para publicação na edição especial de Natal do BMJ, mas foi recusado com o argumento de que não seria suficientemente “engraçado” para entrar nessa edição. Ora vejam este tweet:



ben goldacre on Twitter

OH I SEE, BMJ WON'T PUBLISH OUR PAPER BUT THEY WILL WRITE A NEWS STORY ABOUT IT. (Kidding, they rejected it from Xmas BMJ issue on the grounds that it "wasn't very funny" among other things. We couldn't decide if we disagreed...). https://t.co/DOxSia0emm







Colegas tóxicos no trabalho

Carlos Martins - Tuesday, February 27, 2018




Há uns tempos, quando navegava pelas notícias num site de economia, deparei-me com o seguinte título “Colegas tóxicos no trabalho: sinais que os identificam”.

Sorri e, levado pela minha curiosidade, cliquei na hiperligação. O artigo refere-se sobretudo às relações entre colegas de trabalho nas empresas. O meu pensamento seguinte: e nas Unidades de Saúde, USF’s e outras? Num ambiente de trabalho em que a pressão é cada maior e induzida por múltiplos fatores, sendo reconhecidamente a classe médica um grupo com elevado risco de sofrer burnout, não existirá também o problema da presença de colegas tóxicos no local de trabalho?!

O artigo poderá não ter grande profundidade científica, mas partilho-o pela reflexão que, em todos nós, pode motivar.

 E refere então o artigo um conjunto de 12 sinais que poderão indicar estarmos perante um colega tóxico no trabalho:

  1. 1. São colegas mais competitivos do que o normal.
  2. 2. São colegas que o colocam sempre à prova. O diálogo com esses colegas facilmente lhe causa desconforto.
  3. 3. “Uma vítima nunca vem só” – Estes colegas causam dano em mais do que uma vítima no local de trabalho. 
  4. 4. Conversam demais, trabalham a menos – adoram a “fofoquice”.
  5. 5. Tentam distraí-lo. São procrastinadores e tentam contagiar a procrastinação. 
  6. 6. Recolhem os louros do seu trabalho. Este é dos sinais mais óbvios...
  7. 7. Tendem a colocá-lo de parte.
  8. 8. Adoram espalhar rumores e boatos. Faz parte da “fofoquice”.
  9. 9. Fazem-se passar por algo mais do que são.
  10. 10. Eles menosprezam-no socialmente.
  11. 11. Fazem com que os outros o tratem de maneira diferente (em consequência da tal “fofoquice”).
  12. 12. Eles são subtis.





A pseudociência à volta da análise que deteta cancro

Carlos Martins - Sunday, February 04, 2018


Fonte da imagem


“Sr. Dr., quero fazer aquela análise para saber se tenho cancro...” Este é um pedido que, com alguma frequência, se vai ouvindo na consulta... Para os nossos leitores não médicos, esclareço desde já que essa análise não existe. Assim como não existe uma doença única chamada cancro, porque aquilo que existe, é um muito variado tipo de cancros, de diferentes órgãos do corpo humano e em alguns órgãos, até existem vários tipos de cancro. Por exemplo, no caso do cancro da mama, diferentes tipos de cancro da mama, com estratégias de tratamento muito diferentes entre eles e com graus de agressividade muito diferentes. Existem até cancros que nunca provocariam doença, sofrimento ou morte das pessoas que os têm, uma situação frequente em certos tipos de cancro da próstata e da mama.

Há alguns dias atrás, vários meios de comunicação social deram grande destaque aos resultados de uma “nova análise ao sangue que ajuda a detetar oito tipos de cancro em fase precoce”. Os títulos, exageradamente animadores, correram mundo, como se pode ver por estes exemplos: Expresso, Diário de Notícias, The Guardian e ABC News. A fonte da notícia terá sido um estudo publicado na revista Science. As notícias falam-nos de uma “análise universal ao sangue”, uma “biopsia líquida”, que permitirá detetar 8 tipos de cancro, batizada com o pomposo nome “CancerSEEK”.

Em Medicina, é tão importante a transmissão de esperança às pessoas, como a correção com que se comunica a ciência em que a Medicina e as decisões médicas se fundamentam. Assim como é errado não transmitir qualquer esperança quando ela existe, também é errado transmitir falsas esperanças. O tipo de narrativa que foi usado nas notícias relativas ao “CancerSEEK” sofre de várias incorreções e seguiu uma linha populista (até se fala do “Santo Graal”!) que induz facilmente o cidadão comum em erro. Eis algumas dessas incorreções...

Começando pela ideia de que “quanto mais cedo um cancro é detetado, mais probabilidades há de ser tratado”. Ora, se isto pode ser verdade em certos tipos de cancro, noutros certamente não o será e o diagnóstico pode significar apenas um sofrimento mais prolongado. É o caso dos cancros para os quais não existe ainda tratamento eficaz disponível.  Por outro lado, à luz de múltiplos estudos científicos, sabemos hoje que a procura  incessante pelo diagnóstico precoce é o fator que mais contribui para o sobrediagnóstico e sobretratamento. O que é o sobrediagnóstico? É o diagnóstico dos tais cancros que nunca iriam provocar doença, sofrimento ou morte nas pessoas que os têm. E porque é que isto é importante? Porque, no presente, quando se deteta um cancro desse tipo não se consegue saber se é um sobrediagnóstico ou não, pelo que vão ser desnecessariamente tratadas todas essas pessoas, com franca perturbação da sua qualidade de vida.

Outra incorreção é a de se transmitir a ideia de que o CancerSEEK poderá vir a ter um “enorme impacto na taxa de mortalidade por cancro” e que poderá vir a ser útil como teste de rastreio em pessoas saudáveis. O estudo em que se fundamentou esta onda noticiosa, reporta apenas os resultados da aplicação do teste CancerSEEK em 1.005 pacientes com cancro não metastático, mas já clinicamente detetado, do ovário, fígado, estômago, pâncreas, esôfago, cólon e reto, pulmão ou mama. Sublinho, os pacientes em que o teste foi aplicado já tinham cancro! E mesmo nestes, os resultados não são muito famosos. As notícias dizem que o teste “conseguiu, em 70% dos casos, apurar a existência de cancros nos ovários, fígado, estômago, pâncreas, esófago, cólon, pulmão e mama antes de estes se espalharem”. Primeiro, isto quer dizer que em 30% dos casos o teste falhou tendo dado um resultado falso negativo. Segundo, quando vamos observar os resultados de forma mais detalhada (ver imagem), verificamos que as percentagens de deteção de cancro, nalguns tipos de cancro foi ainda bastante inferior. No caso do cancro da mama, inferior a 40%.


Então o que seria necessário para dispormos um teste magnífico de rastreio de cancro?! Seriam necessário pelo menos duas condições.

Primeira condição, seria necessário um estudo que incluísse pessoas saudáveis, sem sintomas de cancro, distribuídas aleatoriamente por dois grupos. Num desses grupos, as pessoas seriam submetidas ao rastreio com o teste CancerSEEK, no outro não fariam esse rastreio. E depois iriamos avaliar se, no grupo rastreado com o CancerSEEK haveria realmente um menor número de mortes em comparação com o grupo não rastreado. Caso se verificasse uma redução de mortalidade no grupo rastreado, então o teste obedeceria à primeira condição.

Segunda condição, seria necessário avaliar potenciais danos associados à aplicação do teste CancerSEEK. Seria necessário avaliar se o teste não induz um aumento significativo de diagnósticos. Se isso ocorrer, então estamos perante uma indução de um número significativo de sobrediagnósticos o que implicará sobretratamento com dano para a qualidade de vida de muitas pessoas. Uma outra forma de dano associado a este teste poderia ser o número de falsos positivos. Contudo, de acordo com o estudo publicado na Science o número de falsos positivos terá sido relativamente reduzido.

Ora, caro leitor, como vê, estamos muito longe de poder considerar o CancerSEEK como uma revolução no rastreio e diagnóstico de cancro, pois este tipo de estudos ainda não foi efetuado. Neste contexto, faça-se justiça ao último parágrafo da notícia do Expresso em que se cita Paul Pharoah, professor de epidemiologia da Universidade de Cambridge, segundo o qual: "Demonstrar que um teste consegue detetar cancros avançados não significa que esse mesmo teste venha a ser útil na deteção de cancros precoces, muito menos de cancros pré-sintomáticos." E diz-se ainda neste parágrafo: “é preciso mais investigação para apurar a verdadeira eficácia desta análise sanguínea”. Pena é que estas palavras sensatas surjam apenas no final da notícia e não mereçam o destaque de outras afirmações e títulos mais atrativos, mas também mais falaciosos.

Por Carlos Martins


A respeito deste artigo, um breve comentário no nosso podcast MGFamiliar...










Um novo olhar sobre as funções do sono

Carlos Martins - Sunday, January 14, 2018





O sono de um bebé é das coisas mais belas de se contemplar.

O sono é uma componente importante da saúde do corpo e mente humana. Esta TED Talk oferece-nos uma nova perspectiva sobre as funções do sono.



Star Wars: como usar um desfibrilador no mundo intergaláctico

Carlos Martins - Monday, December 18, 2017







Não subestimes o poder da ressuscitação.... Divirta-se a ver esta TED Talk ;) 





  







Ho, ho, ho... May the Force be with you ;) 












Nova versão do Juramento Hipocrático

Carlos Martins - Thursday, November 09, 2017



Fonte da imagem


Em outubro de 2017, a Associação Médica Mundial aprovou uma nova versão da Declaração de Genebra, o juramento hipocrático dos tempos atuais. Pode ser lido abaixo. O pdf pode ser descarregado daqui e o original, em inglês, pode ser lido aqui.

Um especial agradecimento ao Dr. Rosalvo Almeida por ter efetuado a tradução para português e ter autorizado a sua partilha no MGFamiliar.











A agenda dos nossos webinars

Carlos Martins - Friday, September 15, 2017





Muitos colegas têm-nos falado sobre o quão útil seria dispor de uma agenda para visualizar todos os eventos e webinars que organizamos. 

A partir de agora, disponibilizamos esta funcionalidade em três plataformas:
   a) Na mobile app MGFamiliar (na secção de eventos).
   b) Na secção de eventos da página do MGFamiliar no Facebook
   c) E agora, nesta prática Google agenda...

Mesmo assim, mantenham-se atentos à nossa newsletter, pois é o nosso canal preferencial para anúncio de "grandes novidades" :)  

Nota importante: se desejarem adicionar este calendário à vossa agenda Google pessoal, basta clicar na imagem   que surge no canto inferior direito da agenda.    









Nenhuma condição é permanente

Carlos Martins - Sunday, June 04, 2017





"No condition is permanent."


Estamos de tal forma habituados à excelente acessibilidade aos Cuidados de Saúde que nos é difícil imaginar uma realidade diferente. Da nossa memória coletiva eliminaram-se os dias em que era necessário percorrer dias de caminhos até obtermos o devido atendimento por um profissional de saúde. Contudo, o acesso universal aos Cuidados de Saúde continua a não ser uma realidade em muitos locais do mundo. 


"No one should die because they live too far from a doctor."


Neste contexto, vale a pena ouvir o testemunho do nosso colega, Raj Panjabi, vencedor do TED Prize 2017. Além da sua interessantíssima história de vida, Raj Panjabi, mostra-nos como conseguiu melhorar o acesso à saúde no seu país de origem e fala-nos do seu projeto Last Mile Health que tem a ambição de contribuir para resolver este problema noutros pontos do globo. Vale muito a pena ver esta TED Talk...






"For all of human history, illness has been universal and access to care has not. But as a wise man once told me: no condition is permanent." 










Dois novos cursos: Urologia & DPOC

Carlos Martins - Sunday, February 19, 2017


Caros colegas,

é com muito gosto que vos comunico que estão abertas as inscrições para dois novos cursos:




Consulte aqui o respetivo programa...






Consulte aqui o respetivo programa...









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