MaisOpinião - Hélder Teixeira

#COVID19Portugal Dia 09/04


MGFamiliar ® - Friday, April 10, 2020



#COVID19Portugal atualização 09/04/2020, 36º Dia COVID-19 em Portugal (25º após 100º caso)!

Hoje vamos responder às seguintes questões:
1. Continuamos no bom caminho?
2. O uso obrigatório de máscaras na comunidade, é essencial?
3. O que podemos antecipar em relação ao futuro?

1. Continuamos no bom caminho?
O POSITIVO: A evolução da curva portuguesa indica que chegamos, nos últimos dias, a uma fase relativamente estável do número de novos casos. Desde o dia 4 que temos tido um crescimento diário médio de cerca de 6%! Depois de termos tido um pico de 1035 novos casos no dia 31/03, desde então temos tido à ordem de 650-850 casos/dia. O meu receio, que partilhei numa das análises anteriores, era o de, num cenário mais pessimista, o número de novos casos estabilizasse na ordem dos 1000-1500/casos por dia durante vários dias, o que poderia colocar em risco a capacidade de resposta dos serviços. Felizmente isso não aconteceu e, do mesmo modo, parece cada vez mais longe de poder vir a verificar-se, o que é excelente! Continuamos com uma curva epidémica a evoluir de uma forma que permite aos serviços de saúde cobrir de grosso modo as necessidades, com um maior esforço e dedicação.

Como positivo ainda, e não menos importante, pela primeira vez observamos uma descida no número absoluto de pessoas internadas e do número de pessoas em UCI. Talvez possamos não continuar a observar isto todos os dias (era tão bom que sim!) mas se analisarmos sob ponto de vista de um período mais alargado, a variação percentual diária de pessoas em UCI está em decréscimo desde o dia 29/03 nos gráficos do Edgar Mesquita mas agora em terreno negativo! Para colegas e para todos os profissionais que trabalham em cuidados intensivos, espero que não haja surpresas, esta é mesmo a luz ao fundo do túnel para vocês!
O MENOS POSITIVO: os resultados de testes continuam a aparecer em força todos os dias (à volta de 6000-7000/dia) mas houve uma procura muito grande nas últimas semanas. Se não todas, grande parte das pessoas com febre ou tosse pediram a realização do teste, pelo que é compreensível que a capacidade de resposta se tenha agravado, e muito. Hoje os testes não são realizados de um dia para o outro, ou sequer na mesma semana, e muitas pessoas só o vão ter passadas duas semanas ou mais. Isto não é de todo o ideal e é compreensível que as pessoas se sintam angustiadas por este motivo. Não é um problema específico do nosso país, grande parte dos países mostra dificuldade na realização de testes. Portugal até é dos que se tem esforçado mais para disponibilizar o mais possível, se repararem no gráfico comparativo do nº de testes por milhão de habitantes. Se excluirmos os territórios e micropaíses com menos de 1 milhão de habitantes, Portugal, apesar de tudo, é a 14ª nação do mundo com mais testes por milhão de habitantes (https://www.worldometers.info/coronavirus/). Para as pessoas que não têm um teste no prazo de 1 semana ou menos o que costumo dizer para tranquilizar é que, se a pessoa se mantém em isolamento no período recomendado e mantém a estratégia de vigilância de sintomas e está sinalizada na plataforma Trace-Covid, o facto de ter um teste positivo não iria alterar nenhuma estratégia em termos clínicos.

Como dado também menos positivo, a nossa curva ainda não aplanou de forma expressiva, tal como a da Coreia do Sul. Estamos melhores que Reino Unido, Países Baixos e Bélgica, os nossos parceiros no Grupo 2, mas temos três países na UE que nos deveriam agora servir de modelo: a República Checa, a Hungria e a Eslováquia.
A República Checa (a 6ª bandeira a contar do fim), a Hungria (5ª bandeira a contar do fim) e a Eslováquia (a 2ª bandeira a contar do fim) são países que começaram a epidemia mais ou menos na mesma altura que Portugal, um pouco mais tarde que os outros países, mas beneficiaram de um aplanamento mais precoce, sobretudo a Eslováquia e a Hungria. Em relação à declaração do estado de emergência, a Hungria declarou 7 dias antes do 100º caso, a Eslováquia declarou 3 dias antes, a República Checa no próprio dia do 100º caso (a 12 de Março) e Portugal 6 dias após o 100º caso (a 19 de Março). E de facto se analisarmos as curvas, os países que iniciaram medidas de quarentena obrigatórias antes do 100º caso têm curvas muito aplanadas desde o início e a República Checa, que as iniciou no dia do 100º caso, já demonstrou uma dificuldade acrescida mas melhor que Portugal.

2. O uso obrigatório de máscaras na comunidade é essencial para controlar a epidemia?
Os 4 países ou territórios asiáticos que melhor controlaram a epidemia (Coreia do Sul, Singapura, Hong Kong e Japão) utilizaram como uma das estratégias o uso generalizado de máscaras (https://www.dn.pt/…/dgs-estuda-alargar-uso-de-mascara-a-mai…). Mas voltemos ao caso dos 4 países da análise anterior. Dois desses países, a República Checa e a Eslováquia têm a particularidade de serem os ÚNICOS países da UE e do mundo ocidental a declararem o uso obrigatório de máscara cirúrgica ou tecido a revestir boca e nariz. A República Checa a 19 de Março e a Eslováquia a 25 de Março. Efetivamente, ambos os países são também dos que melhor aplanaram a curva a nível europeu. No entanto, há bastantes fatores contraditórios. Por um lado, a República Checa decretou o uso 6 dias antes da Eslováquia e isso não beneficiou o país em termos de controlo epidémico: na verdade a Eslováquia beneficiou de uma curva muito mais aplanada. O fator decisivo para esta diferença creio que poderá estar no ponto anterior: a antecipação de outras medidas - a Eslováquia declarou o estado de emergência 3 dias antes do seu 100º caso. Essas medidas - isolamento, distanciamento social e higienização das mãos/espaços - parecem ser mais importantes. Por outro lado, temos países como a Hungria e a Grécia que nunca precisaram de generalizar o uso de máscaras para beneficiarem de curvas aplanadas desde o início (apesar de tudo, a Hungria generalizou o uso de máscaras de forma precoce nos profissionais de saúde, um importante grupo de risco). A Grécia foi especialmente feliz em tomar medidas de forma precoce: por exemplo, ainda em Fevereiro, com apenas 3 casos no país, decidiu cancelar todos os eventos de Carnaval do país. Portanto, perante esta análise e a falta de evidência convincente, diria que o uso de máscaras não é de facto essencial para se controlar a epidemia COVID-19. No entanto, é perfeitamente admissível que pode ser um fator favorável. As máscaras cirúrgicas têm na verdade um efeito pobre para proteger o utilizador das secreções respiratórias dos outros, não estão construídas para isso. O mesmo se pode dizer de qualquer revestimento de tecido. No entanto, são boas para evitar a dispersão das próprias secreções. Portanto, imaginando uma comunidade onde todos os que estão infetados, sintomáticos ou não, as usam, é óbvio que teoricamente pode ter um efeito positivo acrescido em relação às medidas anteriores, porque o isolamento social ou o distanciamento social nunca são absolutos. Mas reforço, não parece ser, de todo, o fator mais importante em relação às outras medidas.Se usarem máscara, saibam que um estudo da Stanford mostra que é possível reutilizar uma máscara sem perder significativamente as suas propriedades (obrigado Carlos Menezes), ou por aquecimento no forno a 70ºC durante meia hora (preferível) ou 10 minutos em água em ebulição. Vejam a figura. Esta é uma estratégia que está a ser usada no estado do Michigan (https://www.youtube.com/watch?v=QFr_12_M8TQ), segundo a análise deles dá para reutilizar desta forma pelo menos 20 vezes (Obrigado Marco Ameixa por partilhares).

3. O que podemos antecipar em relação ao futuro?
Notem, já tive que fazer alguns trabalhos de investigação com análises estatísticas de complexidade intermédia mas não tenho muita experiência neste tipo de análises de tendências em curvas epidémicas. Há muitos fatores e não é possível prever a médio-longo prazo com muito rigor. No entanto, pelos dados atuais e aplicando uma linha de tendência polinomial como o recomendado (https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pmc/articles/PMC5348083/) é possível que o número de novos casos/dia continue a descer, mesmo em termos absolutos até à 3ª-4ª semana de Abril, e possivelmente <300 casos/dia a partir da última semana de Abril. Isto seria um bom cenário. Notem que nada disto é certo, ainda paira muita incerteza, é apenas uma mera possibilidade matemática tendo por base os dados atuais. Mas serve como esperança, uma chama para nos agarrarmos e acreditarmos que tudo isto que estamos a fazer está e vai resultar no objetivo que queremos: voltar a um novo normal, onde possamos voltar a abraçar os nossos pais e os nossos avós.

Daí que para que este futuro se concretize, é preciso DAR TUDO agora. Nunca poderíamos relaxar nas festividades da Páscoa. Precisamos de ser especialmente rigorosos agora na Páscoa, para que as coisas corram bem. Para os religiosos, encarem-no como um sacrifício pedido e necessário. Para os não religiosos, aceitem-no apenas com racionalidade. Para os melhores resultados, o melhor de nós. E o melhor é não sair de casa desnecessariamente.

Conheçam o risco de transmissão da vossa zona geográfica aqui: https://cerena.ist.utl.pt/…/daily-infection-risk-maps-covid…

Protejam-se. Fiquem em casa. Resistam! Salvem vidas!!

 











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