MaisOpinião - Luís Monteiro

“Liberdade”

MGFamiliar ® - Saturday, August 17, 2019



O soco, certeiro, surpreendeu tudo e todos. A sala de reuniões que estava até então quase silenciosa - as palavras trocadas eram quase murmúrios - foi preenchida pelo estrondo do corpo no chão.
O Dr. João sentia-se livre, ainda que quase instantaneamente tivesse percebido que ao derrubar assim o director, nada mais seria o mesmo.
Os presentes naquela reunião ficaram siderados perante a ferocidade. O cirurgião era conhecido pela calma férrea e ponderação lendária. Como explicar o sucedido? Que caminhos tinham sido percorridos até aquele murro? Seria um acto heroico? Ou gesto bárbaro? Estas e outras perguntas permaneceriam um mistério para muitos naquele hospital. O episódio alimentaria um sem número de teorias partilhadas pelos corredores, blocos operatórios e salas de reuniões.
Hoje, o leitor tem uma escolha a fazer. Pode terminar aqui a leitura e deixar que o mistério adense cenários. Afinal quem precisa saber tudo? Ou pode avançar umas linhas para juntos percebermos as rodas e engrenagens que antecederam a já célebre reunião.
Recuemos, então, a narrativa alguns meses. Mais precisamente, sete meses e duas semanas.
Observemos o jovem médico na sua corrida matinal pelo jardim da cidade. Nas primeiras horas da manhã poucos ocupavam o relvado. Apenas um casal de namorados trocava lânguidos olhares, e um grupo de sexagenários praticava tai-chi.
Apesar do curto percurso, havia um travo a vitória estampado no rosto do clínico. É que para chegar ali tinham sido necessárias duas cirurgias e longas sessões de fisioterapia. Foi, portanto, com particular agrado que, ao entrar na padaria do bairro, ouviu a frase do Sr. Aníbal “Bom dia, doutor! De volta às corridas?”.
João preparava-se para responder, mas a resposta banal nunca chegou a ser proferida. O suor frio nas palmas das mãos, o bater descompassado e a espiral interior tinham ditado a fuga repentina.
Em breves segundos estava de volta à estrada e em meia hora regressava a casa.
Afinal, o período de recuperação estava ainda no início. Naquele dia, a custo, marcou a primeira consulta com o psicólogo há muito recomendado. Juntos perceberiam que o vislumbre do agressor (ou de alguém remotamente semelhante) era o motivo recorrente para os ataques de pânico. Durante as consultas tinha finalmente encontrado o ambiente seguro para descrever o dia em que tinha sido atacado no serviço de urgência. Após um turno de 24 horas, o cansaço acumulado permitia apenas uma passagem de turno mecânica. Parecia um dia banal marcado pelo caos crónico e endémico. Até que um familiar em fúria se encaminhou com uma faca em punho para uma médica interna. Num acto impulsivo, sem qualquer consciência heroica, João defendeu a colega e ganhou algumas facadas em retorno.
Após a mente minimamente equilibrada o médico embrenhou-se na defesa da segurança para doentes e profissionais. Perante o silêncio cínico da estrutura, denunciou os casos ocultos via comunicação social através da rara imprensa não populista. E era por isto que, pela primeira vez, o cirurgião geral se encontrava naquela mesa de reuniões.
Após quarenta minutos de propositada espera a sala ficou repleta de rostos fechados “O Sr. Director demora só uns minutos. Está com uma chamada importante de Lisboa” disseram imponentemente. Ele entrou a passos largos, sorriso rasgado, fato de linho, de corte elegante ainda que com uma gravata absolutamente banal.
“João, há quanto tempo! Cinco anos desde o último jantar de curso?”, perguntou em tom casual.
Na verdade tinham passado sete anos e eles nem tinham trocado mais do que as palavras da praxe destes reencontros “Onde estás agora? Casado? Divorciado? Filhos?”.
No caso particular do Director António as respostas eram sempre circulares, evasivas e fúteis. O resumo que todos os colegas da faculdade faziam era bem mais directo. Após um medíocre percurso académico o “clube” protegeu, como era esperado, o seu delfim. E assim, vários lugares de topo tinham sido os degraus no seu currículo, repleto de linhas em que a ausência científica e clínica era evidente.
O tom de voz informal passou rapidamente para um irritante monólogo.
João assistia a tudo como um espectador de uma farsa montada. Ouvia apenas frases soltas “Já sei que escreveste no portal oficial, por isso agora para quê a pressa?”(...) “Sabes bem que a imagem do hospital é já frágil” (...) “Estamos na mesma equipa”.
A cada palavra, a fúria parecia aumentar e a mão direita de João era agora um punho cerrado e impaciente.
E foi assim que João imaginou um murro épico no maxilar do colega.
Deixou a fantasia bélica esfumar e, simplesmente, levantou-se da cadeira e abandonou a sala. Ele ainda não sabia, mas aquela seria a última decisão naquele hospital. O João estava, finalmente, livre.

Por Luís Monteiro




Parabéns, Declaração de Alma-Ata!

MGFamiliar ® - Wednesday, September 12, 2018





A maior metrópole do Cazaquistão tem um lugar especial na história dos Cuidados de Saúde Primários. Foi em Alma-Ata (actual Almaty) que a 12 de Setembro de 1978  a Conferência Internacional sobre Cuidados Primários de Saúde formulou a célebre declaração.

Dada a importância do documento não resisto em deixar aqui algumas citações.

O texto começa por definir que “(…) a saúde - estado de completo bem-estar físico, mental e social, e não simplesmente a ausência de doença ou enfermidade - é um direito humano fundamental, e que a consecução do mais alto nível possível de saúde é a mais importante meta social mundial, cuja realização requer a ação de muitos outros setores sociais e econômicos, além do setor saúde”. Mais adiante é salientado que “os cuidados primários de saúde são cuidados essenciais de saúde baseados em métodos e tecnologias práticas, cientificamente bem fundamentadas e socialmente aceitáveis, colocadas ao alcance universal de indivíduos e famílias da comunidade (…)”.

A “Declaração de Alma-Ata” exorta à acção coordenada da Organização Mundial da Saúde e dos governos que “(…)  devem formular políticas, estratégias e planos nacionais de ação para lançar/sustentar os cuidados primários de saúde em coordenação com outros setores. Para esse fim, será necessário agir com vontade política, mobilizar os recursos do país e utilizar racionalmente os recursos externos disponíveis”.

Como o leitor já concluiu, passadas quatro décadas, e apesar da evolução positiva, ainda existe um longo caminho a percorrer e há novos desafios a ter em conta.

Persiste por parte dos decisores uma dissonância entre o discurso politicamente correcto de valorização dos cuidados de saúde primários e uma prática diária de ausência de recursos adequados e de desvalorização dos profissionais, nomeadamente, da especialidade de Medicina Geral e Familiar.

Só com uma alteração das prioridades, e uma mudança na acção concreta, poderemos garantir o acesso universal e mundial a cuidados de saúde com qualidade. Este objectivo deve ser transversal a todos os quadrantes políticos (conferir capa e artigo extenso na edição de Abril da “The Economist").

Precisamos, portanto, de uma Declaração de Alma-Ata versão 2.0. Por isso mesmo estão a decorrer neste momento um conjunto de iniciativas para a revisão do texto que será aprovado em Outubro deste ano, para posterior ratificação em Maio de 2019.

Concluo esta breve crónica com um apelo à participação de todos através da recente mensagem da colega Amanda Howe, presidente da WONCA (World Organization of Family Doctors.) “We are acting now to influence what comes out for AA40 [Alma Ata 40th anniversary activities ], and to get family medicine visible in that work: but we need all of you to help!”.

Por Luís Monteiro











Literacia em ciência

MGFamiliar ® - Wednesday, March 07, 2018



A investigação intitulada "Limited Health Literacy in Portugal Assessed with the Newest Vital Sign" publicada na Acta Médica concluiu que 3 em 4 pessoas da população portuguesa alfabetizada têm literacia em saúde limitada (72.9%). Um valor muito elevado quando comparado com os outros países europeus avaliados pelo mesmo método: 23,7% na Holanda e 63,1% em Espanha.
Este artigo teve o seu merecido destaque e comentário 
aqui, e a literacia em saúde foi já tema de crónica prévia.
Neste texto não pretendo repetir argumentos, mas sim enquadrar estes resultados no âmbito mais alargado da literacia em ciência.
As novas tecnologias de informação são uma realidade ubíqua. Aposto que o leitor tem no seu bolso um telemóvel (mais ou menos smart) que lhe permite aceder a informação de uma forma que, há uns anos, seria apenas argumento de um filme de ficção científica.
O paradoxo atual é que estes meios também fomentam a criação de ilhas anti-ciência.
É claro que estes movimentos não são recentes. As panaceias, por exemplo, acompanham a medicina desde o seu início.
Mas as atuais redes sociais virtuais fomentam estas "bolhas", em que muitos se aglutinam apenas para concordarem entre si, sem espaço para contraditório ou leitura crítica.
Eu bem sei que os problemas complexos não têm soluções simplistas ou imediatas.
A cultura científica dos portugueses depende muito das medidas dos nossos decisores que têm impacto pelo seu exemplo de racionalidade (recordemos o legado do Prof. Mariano Gago) ou de cedência ao populismo.
E, sejamos francos, o empenho das famílias é fundamental na valorização do mérito, da leitura e do excelente trabalho dos professores que, apesar das actuais limitações, motivam os alunos. 
Não posso, é claro, deixar de destacar o nosso portal 
MGFamiliar.net que após 11 anos na rede afirmou-se como uma referência que continua a inovar: o leitor não pode perder o recente podcast
Outros exemplos disponíveis em linha são o 
site da Comunidade Cépitca Portuguesa (COMCEPT) e as crónicas do Prof. David Marçal e do Prof Carlos Fiolhais no "Público".
Para uma leitura mais aprofundada recomendo os livros 
"A Ciência e os seus inimigos" de Carlos Fiolhais e David Marçal e "Não se deixe enganar" de Diana Barbosa, João Lourenço Monteiro, Leonor Abrantes e Marco Filipe.

Por Luís Monteiro, Médico de Família



Derradeiro véu

MGFamiliar ® - Wednesday, October 18, 2017



“Somethin’ filled up
my heart with nothin’
Someone told me not to cry.
But now that I’m older,
my heart’s colder,
and I can see that it’s a lie.”
"Wake Up", Arcade Fire


Nuno olhou para o relógio com um misto de apreensão e alívio. Apenas trinta minutos para a meia-noite e o balcão de cirurgia parecia relativamente calmo. Mas, tal como ele previa, o ruído lancinante da sala de emergência ecoou novamente relembrando que o turno ainda estava no início. 

O jovem interno do Ano Comum tentou vencer o cansaço (há quanto tempo tinha sido a última refeição e dormida decente?) e corresponder aos pedidos áridos do cirurgião: “Aspira. Corta”.

Absolutamente indiferente a este esforço, o espectro implacável da Morte regressou a um dos seus locais de eleição resgatando para o abismo o jovem condutor embriagado.

Apesar da carreira de Nuno estar apenas no início, o jovem médico tinha já criado uma armadura protectora perante a perda.

Bem cedo tinha percebido que não se vislumbra o glamour tantas vezes repetido no grande e pequeno ecrã. Não se encontra nenhuma beldade de estetoscópio a segurar a mão do doente. Não há nenhuma banda sonora a embalar quem parte.

Apenas silêncio, que naquela madrugada tinha sido prontamente interrompido por uma série de perguntas do operador que submergiram o interno na sua própria ignorância.

Algumas horas depois, o jovem médico acompanhou o cirurgião até uma sala de estar bafienta: um casal de idosos esperava ansiosamente por notícias do neto.

O cirurgião surpreendeu Nuno com a delicadeza das palavras e a coragem do olhar. “Nunca me vou habituar a isto”, confessou.

E naquela noite ele percebeu que a tentativa (por vezes desesperada) de aprendermos com a morte é apenas uma das muitas formas de lidarmos com aquilo que nos une: a nossa inevitável e inadiável fragilidade.

Por Luís Monteiro, Médico de Família






Escutar

MGFamiliar ® - Sunday, March 26, 2017





"Não há apenas uma escuta com os ouvidos, mas também um escutar com o coração, que mais não é que uma escuta profunda, onde todos os sentidos nos são úteis.", José Tolentino Mendonça in "A Mística do Instante"

Naquela manhã de segunda-feira a chuva implacável transformava o serpentear da estrada da pequena vila num pântano difícil de transpor.
Mas não era a intempérie que abrandava o carro da Dr.ª Ana Marques.
O ritmo comedido e pouco habitual naquela jovem médica de família explicava-se nos ritmos inspiradores que tocavam no seu rádio e que prolongavam artificialmente as férias recentes em Cuba.
Esta ilusão acabaria por se desvanecer assim que estacionou.
Teve dificuldade no simples acto de abrir a porta do automóvel.
Uma pequena multidão aguardava-a ansiosamente junto da extensão de saúde.
A D. Lurdes repetia "Tenho uma carta do hospital para dar à Dr.ª” e o Sr Nogueira vociferava "O meu pai precisa de análises. Urgentemente!" .
Respirou fundo, ainda embalada pelas memórias solares.
Sorriu quando reconheceu o velho guarda-chuva estrategicamente colocado sobre a televisão.
Como sempre o programa da manhã anunciava panaceias em tom estridente.
Lentamente retomou a rotina: vestiu a bata, colocou o estetoscópio ao pescoço e ligou o mal humorado computador.
As consultas foram-se sucedendo ao ritmo habitual até que o Sr. Correia se sentou no gabinete.
Era a primeira vez que vinha sozinho à consulta.
Dentro do envelope - já aberto - as palavras pesadas "provável neoplasia do cólon".
E a pergunta a pairar como um eco "Explique-me porquê? Porquê? Porquê?".
A Dr.ª Ana podia falar de probabilidade e risco. Podia recordar as oportunidades perdidas: a ausência de caminhadas "Não tenho tempo" e o maço de tabaco diário "O meu único vício".
Podia enumerar factos e apontar caminhos.
Mas a jovem médica já sabia que, por vezes, quem a procura não espera respostas.
E no silêncio da escuta activa se teceu um laço invisível mas perene.

Por Luís Monteiro, Médico de Família




O homem da placa ou breve crónica sobre os pequenos poderes

MGFamiliar ® - Tuesday, December 06, 2016



“Nearly all men can stand adversity, but if you want to test a man’s character, give him power” 

Abraham Lincoln

 

Há alguns anos, numa estrada familiar no Norte do país, uma fila de trânsito inusitada surpreendeu a minha rotina. Após vários minutos de lenta agonia lá percebi a causa: estava a decorrer uma pequena reparação do asfalto.

As obras (úteis é necessárias) não eram a causa do atraso, mas sim as indicações de um trabalhador que, com a sua placa vermelha e verde, se tinha transformado no sinaleiro autocrático.

A sua falta de perspicácia e lentidão causavam atrasos e queixumes dos automobilistas. Mas a cada minuto que passava e a cada buzinadela, mais seguro de si e mais lento ele ficava.

Enquanto os outros suavam nas obras, ele era o “dono” da estrada.

Lembro-me sempre deste episódio quando, no meu dia-a-dia, encontro as mulheres e homens donos das “placas das estradas”, tortuosas e burocráticas, que tenho cada vez mais de percorrer.

Eu já não buzino ou tento uma estrada secundária alternativa. Estou a aprender a sabedoria de ser indiferente para poder avançar.

É que em terras lusas os sinaleiros constituem uma carreira sólida, sem escrutínio e perene.

Passado algum tempo aquela estrada do Norte voltou a ser transitável. Todos avançámos “prego a fundo”.

Até ao próximo solavanco. 

Por Luís Monteiro, Médico de Família




CSP amigos do ambiente

MGFamiliar ® - Tuesday, May 24, 2016




A agenda ecológica em 2015 ficou marcada por dois momentos chave: a publicação da encíclica "Laudato si" pelo Papa Francisco e a realização da Conferência supranacional sobre as mudanças climáticas (COP 21).

A leitura da apelidada encíclica "verde" é uma sugestão que deixo para todos, independentemente da crença.

No primeiro documento oficial do Vaticano exclusivamente dedicado à ecologia, o primeiro Sumo Pontífice jesuíta teve o cuidado de escrever num tom abrangente que inclui na solução, não apenas católicos, mas todos os que partilham esta nossa "casa comum". É particularmente corajosa a chamada de atenção do Papa para a dívida que o ocidente tem para com os mais pobres e desfavorecidos, muitos deles fruto do ciclo de consumo desenfreado sem consciência social.

A COP 21 decorreu em Paris de 30 de Novembro a 12 de Dezembro do ano passado. A salientar a presença da sociedade civil e das ONGs como veículo para a mudança.

Só o compasso de espera da história permitirá julgar o impacto que 2015 realmente terá na avassaladora tarefa de mudar de rumo no que diz respeito à questão ambiental.

Os compromissos internacionais e as palavras inspiradas dos líderes serão sempre fundamentais, mas também me parece sensato aplicar neste aspecto a velha máxima "pensar global, agir local".

E é aqui que nós, profissionais de saúde dos cuidados de saúde primários (CSP), podemos e devemos exercer o nosso papel ecológico.

Bem sei que actualmente já existem projectos amigos do ambiente em várias Unidades de Cuidados de Saúde Personalizados (UCSP) e Unidades de Saúde Familiares (USF).

No entanto, julgo que precisamos de colocar este tema na agenda nacional das variadas associações dos CSP. Desta forma poderemos partilhar ideias e distinguir os bons exemplos.

O sucesso dependerá também da motivação dos cidadãos, pelo que as ligas dos amigos das UCSP e USF devem ser incluídas no desenho e concretização das medidas "verdes".

Uma comunidade local mais ecológica será certamente mais saudável pois, por exemplo, uma alimentação equilibrada com produtos locais e a manutenção de percursos de caminhada que respeitem o ecossistema trazem evidentes ganhos em saúde.

Este poderia, aliás, ser o lema positivo a adoptar pelas UCSP/USF difundido pelos média locais: "mais ambiente: mais saúde para todos".

Por Luís Monteiro, Médico de Família, Co-Editor MGFamiliar

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Sorriso

MGFamiliar ® - Wednesday, February 10, 2016







Naquela tarde a Igreja, repleta, parecia um refúgio simultaneamente  providencial e sinistro para a intempérie invernal. No primeiro banco de madeira lascada as duas vizinhas comentavam em surdina “Coitada da Maria. Está tão abatida! Bem sei que o homem dela era muito doente. Mas isto foi tão depressa!”

Esta observação era partilhada por todos os que balbuciavam “Os meus sentimentos” e, no entanto, era absolutamente falsa.

Maria Antunes, com os seus 70 anos de idade, tinha assistido a suficientes funerais para saber de cor os passos esperados. A roupa preta, o rosto fechado, as lágrimas contidas, o olhar rasteiro. Tinha observado tudo no passado com uma atenção que parecia adivinhar a utilidade futura da coreografia.

Portanto, mesmo os que se julgavam mais íntimos do casal, acreditavam na personagem criada. Após tantas horas até ela estava surpreendida com a sua capacidade de expressar algo e sentir o seu contrário.

A cerimónia desenrolou-se acompanhando o ritmo taciturno dos presentes até que alguém perguntou retoricamente enquanto arrastava a viúva  “Não quer ir lá à frente, antes de fecharem o caixão?”

Ela aproximou-se, parou breves segundos, fingiu secar uma lágrima fugidia e pensou “Mesmo morto pareces estar sempre com aquela expressão. Mas hoje, finalmente, vou jantar sem ter como companhia o teu sorriso idiota”.

Olhou em redor e recordou a cerimónia em que o mesmo homem, naquele mesmo altar, a enredara com um olhar que prometia mundos e mares, e que tinha vencido a muralha férrea construída pelos conselhos da mãe e tias “Essa gente do teatro não é de fiar”.

Volvidas cinco décadas tudo parecia uma miragem, uma ilusão provocada pela astúcia dele e adensada pela sua ingenuidade.

Sob o mesmo tecto cedo percebeu que a frase “no palco não sou eu que beijo” fazia parte de um guião decorado para justificar os serões de ensaios arfantes.

Silêncio.

Maria optou por não ripostar abertamente. Inicialmente apenas pelo desafio de “um dia eu vou conseguir mudá-lo”, seguido de “agora tenho que cuidar dos filhos” e culminando num “já somos velhos”.

Até que numa manhã luminosa regressou mais cedo a casa. Seguiu os sons da cadência voluptuosa até ao quarto. Encostada à ombreira reconheceu a sua melhor amiga e viu, pela primeira vez, aquele sorriso idiota.

Silêncio.

Saiu discretamente, deambulou pelas ruas, e decidiu.

Delineou o plano enquanto retomava, após 20 anos, o prazer de fumar após o café.

A estratégia era simples, para contrastar com os enredos dos policiais da colecção Vampiro que o seu irmão ainda lia compulsivamente.

O marido, outrora um desportista, tinha-se tornado sedentário, ávido de refeições fartas, pelo que há muito que tinha sido acorrentado pela diabetes tipo 2, fibrilhação auricular e hipertensão arterial.

Como Maria tinha assumido desde sempre a responsabilidade pela lista de medicamentos foi fácil alterar a terapêutica.

Divertia-se a criar uma nova tabela diariamente “hoje tiro este e troco aquele” e a ver o sobrolho cada vez mais franzido da legião de médicos.

Agora que o funeral tinha terminado sentiu uma vontade de encerrar o papel piedoso. Insistiu em ver cumprida a sua vontade e regressou sozinha a casa.

Silêncio.

Duas da manhã e a insónia impunha-se  como um manto frio. Levantou-se de rompante, ligando todos os interruptores e correndo pela sala, pelos quartos.

Em vão.

Por todo o lado sentia, como um espectro, o sorriso idiota.


Nota: Esta crónica é uma obra de ficção. Qualquer semelhança com nomes, datas e acontecimentos reais foi mera coincidência.


Por Luís Monteiro, Médico de Família, Co-Editor MGFamiliar

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Banco de Jardim

MGFamiliar ® - Thursday, October 22, 2015




Sentado num decrépito banco de jardim João fixava languidamente o cenário outonal.

Com a precisão que apenas os sentidos permitem e que a realidade virtual oculta ele captava, com espanto e como se fosse a primeira vez, o aroma das castanhas assadas, o tom amarelo do tapete de folhas, o frio colado à pele.

Acendeu um cigarro e sorriu perante a ironia cósmica. Após um ano sem tocar no tabaco eis que se abateu sobre ele a frase lapidar “já não há nada a fazer”.

Sentiu um leve toque na perna: uma bola colorida tinha rolado na sua direção. Devolveu o brinquedo à criança de caracóis ruivos enquanto via, com inconfessável inveja, aquela família reunida.

Poderia ter tido um cliché assim? Casamento? Filhos?

Perante a inevitável e galopante rebeldia das suas células estas e outras questões pareciam povoar a mente de uma personagem à qual ele era alheio. Um João que era outro e que se interrogava noutro tempo e lugar paralelo.

Este João, que pensava tudo isto a cada baforada, gostaria de afirmar que fora íntegro e inteiro até ao fim.

Mas a verdade é que estava ali, naquele melancólico banco de jardim, embalado por recordações e suposições.

Por Luís Monteiro, Médico de Família, Co-Editor MGFamiliar

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(Sobre)viver

MGFamiliar ® - Monday, July 06, 2015




Aqueles metros até à paragem do autocarro pareceram a Maria léguas infindáveis. Assim que chegou sentou-se no único local vago e escondeu toscamente os fartos sacos sob o banco. Depressa percebeu porque tantos tinham preferido permanecer de pé. Ao seu lado estava o Sr. Alfredo, personagem bizarra já conhecida. Apesar do calor abrasador daquela tarde de Verão, ele insistia no casaco, suspensórios e gravata macilentos pelas noites ao relento. Tal indumentária combinada com a gesticulação frenética, obrigavam-no a limpar o suor constantemente, criando pausas dramáticas escolhidas entre as frases mais inflamadas. Vociferava contra o motorista “que é um bêbado” e a empresa “que sobe os preços todos os dias”. Rematou com um “no tempo do Salazar não havia nada disto” seguido das palmas apoteóticas de um público que só ele via e que nunca o deixava só.

Maria sorriu nervosa, deambulando o olhar entre os presentes. Será que alguém me viu? E se percebem o que aqui trago? O que respondo?

Passados breve minutos o autocarro chegou e ela suspirou de alívio. A cidade parecia adormecida pelo travo de Agosto, e o trânsito serpenteava livremente.

Quando entrou no bairro a ansiedade desapareceu. O seu lar começava ali, na sua rua, entre a sua gente. Tudo estava no local habitual excepto, claro, os cartazes que voltavam ciclicamente para povoar o cenário. Rostos sombrios ladeados por frases vazias.

Após subir os derradeiros cinco lances de escadas, recuperou o fôlego e entrou em casa.

A comitiva de recepção limitou-se a um “Então, mãe?! Estava a ver que não chegavas! Estou cá com uma fome.”

João permaneceu amarrado ao ecrã. O adolescente estava entusiasmado com mais um grupo de discussão sobre a crise. Teclava furiosamente a favor de uma tribo e contra todos os outros.

“Tens aqui umas bolachas enquanto faço o jantar” disse com um toque de doçura.

“Oh mãe: nunca acertas! Já sabes que não gosto destas” respondeu João, afastando o pacote com evidente desdém.

Maria regressou apressadamente para a cozinha. “Esta cebola é forte”, pensou, enquanto limpava o caudal que não conseguia conter.

No chão repousavam os quatro sacos repletos de comida oferecida pela associação.


Por Luís Monteiro, Médico de Família, Co-Editor MGFamiliar