MaisOpinião - Luís Monteiro

Câmara Pestana e os movimentos antivacinas


- Sunday, March 24, 2013

No Verão de 1899 o Porto encontrava-se sob o manto da peste bubónica. O Dr. Ricardo Jorge, director do posto de desinfecção pública, impôs as medidas sanitárias pertinentes e em Agosto refere ter "isolado o puro e legítimo bacilo de Yersin"1 e acrescenta "Submeti o achado ao meu companheiro e amigo Câmara Pestana; devia-o à sua competência magistral e à sua situação oficial à frente dos serviços bacteriológicos do país, devia-o enfim ao seu espírito de alta lealdade e autoridade científica. A sua confirmação foi imediata".

O director do Real Instituto Bacteriológico inicia então uma colaboração estreita com o médico municipal da Invicta. Após confirmar o diagnóstico, o Prof. Câmara Pestana escreve a Ricardo Jorge: "em breve começarei a fazer a vacina de Haffkine". Dada a necessidade de recolher amostras e para "não entregar o estudo cientifico da epidemia às comissões estrangeiras" o médico madeirense desloca-se ao Porto ainda nesse Verão.

Posteriormente regressa a Lisboa, e ao seu Instituto Bacteriológico, onde se dedica a um intenso trabalho laboratorial. A sua presença na capital teve também um papel essencial na defesa das medidas instituídas por Ricardo Jorge, tais como o "cordão sanitário", contestado pelo poder e alguma imprensa.

Com o objectivo de obter mais material para a vacina que estava a preparar, Câmara Pestana regressa à Invicta em Outubro. Mas, durante esta segunda visita ao Porto, infecta-se inadvertidamente e, já na capital, viria a falecer com apenas 36 anos.

Apesar de breve, o percurso científico notável do bacteriologista torna Câmara Pestana num nome incontornável na história da medicina portuguesa e o seu legado deve ser integrado num dos maiores avanços da medicina ocidental: o desenvolvimento e adopção generalizada das vacinas.

Recorde-se que a primeira vacina, contra a varíola, foi descoberta por Edward Jenner em 1796, e em 1955 foi anunciada a vacina contra a poliomielite à qual se seguiria a campanha para a erradicação da doença, em 1988, pela Organização Mundial de Saúde. A eficácia do programa da OMS é inquestionável: o número de casos de poliomielite, entre 1988 e 2010 baixou 99%.

Apesar deste, e de muitos outros sucessos, os movimentos antivacinas, que remontam a 1888, mantêm o seu fulgor.

Apenas como exemplo (há muitos outros) em Janeiro deste ano uma investigação da BBC denunciava um caso de "vacinas" homeopáticas que segundo o vendedor era "eficaz para a protecção contra a tosse convulsa, sendo uma boa alternativa à vacinação e também por reduzir os efeitos secundários das vacinas".

Como explicar esta contradição?

Tal como Ben Goldacre descreve no seu livro "Ciência da Treta" e Carlos Fiolhais e David Marçal no recente e imprescindível "Pipocas com Telemóvel" julgo que a raiz está na disseminação de pseudociência.

Há, nas escolas e média, um défice de conhecimento dos mecanismos basilares da ciência: observação, experiência, publicação dos resultados em revistas credíveis e correção de erros. Falta espirito crítico e tempo na leitura. E assim se divulgam notícias que podem ter efeitos negativos devastadores. O caso da pseudoligação entre a VASPR e o autismo é absolutamente paradigmático (e não isenta a totalidade da comunidade científica).

Sem cair em paternalismos nós, Médicos de Família, temos o dever de reforçar, com as palavras e com o exemplo, que as vacinas são seguras e que constituem uma das conquistas da medicina. Afinal o sucesso do Plano Nacional de Vacinação deve-se, em grande medida, ao esforço diário dos profissionais dos Cuidados de Saúde Primários.

Luís Monteiro, Médico de Família
  

Bibliografia:

1. Borges J, Cunha M, Prazeres M, Oliveira Rui. Luís da Câmara Pestana. Uma vida curta, uma obra enorme. 1ª ed. Empresa Municipal Funchal 500 anos. Funchal. 2008 [acesso em 17 Março 2013]. Disponível em: http://www.funchal500anos.com/04_detalhe.asp?ano=2008&id=286

2. Goldacre B. Ciência da Treta. 1ª Edição. Editorial Bizâncio. Lisboa. Setembro 2009

3. Marçal D, Fiolhais C. Pipocas com Telemóvel e outras histórias de falsa ciência. 1ª Edição. Gradiva. Outubro 2012

4. Abrantes L “Vacinas” homeopáticas [Internet]. Comcept. Comunidade Céptica Portuguesa. [acesso em 17 Março 2013]. Disponível em: http://comcept.org/2013/01/16/vacinas-homeopaticas/

Comments
Armando Brito de Sá commented on 02-Apr-2013 09:55 AM
Bom texto - como indicação do sucesso das vacinas só faltou referir a erradicação da varíola, uma das doenças mais devastadoras da História, cujo últimos casos conhecidos remontam à década de 70.
Não creio que seja paternalismo afirmar, alto e bom som, que as vacinas são uma dos maiores avanços civilizacionais conhecidos; do mesmo modo, temos o dever ético de denunciar os movimentos anti-vacinas como criminosos que são - não há volta a dar-lhe - seja por omissão, ignorância, crença ou má fé.
Luís Monteiro commented on 02-Apr-2013 02:01 PM
Exmo Prof. Armando Brito de Sá,

Muito obrigado pela leitura cuidada e assertivo comentário.
Concordo inteiramente consigo.


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