MaisOpinião - Luís Monteiro

Correspondência


MGFamiliar ® - Tuesday, December 10, 2019




“António,
Quando estiveres a ler esta carta eu já estarei no avião com destino a uma ilha do Pacífico.
Tento imaginar a tua expressão. 
Estás mesmo surpreendido? Ou na verdade esperavas a minha saída há anos? Escrevo-te estas linhas sentada no chão da nossa sala de jantar enquanto revejo as fotografias do nosso casamento, dos primeiros passos dos miúdos e das suas bênçãos das pastas. Já reparaste como só guardamos estes instantes risonhos? O lado lunar fica escondido no baú sombrio longe das visitas. Percebi essa tua faceta logo após a nossa lua-de-mel. “Tenho que fazer este turno extra (...) Este estágio nos Estados Unidos é uma oportunidade a não perder (...) “A minha carreira “. A tua carreira. Esse caminho passou a ser o único destino para ti. Deixaste os livros de poesia e a tua leitura ficou reduzida aos artigos de medicina. As nossas saídas para o teatro e cinema passaram a ser uma recordação boémia. Tudo isto eu fui tolerando. Até me divertia nos longos jantares com a ignorância dos teus colegas habituados ao papel secundário no colorido da vida. Mas sabes o que mais me marcou? Foi a tua completa ausência de sentido de humor. Lembras-te quando imitavas o teu chefe de serviço ou a senhora da frutaria ou o comentador da TV? Desde há uns anos que tudo passou a ser sério, pesado e aborrecido. Também deixaste de me elogiar. Quando estreio um vestido novo sinto que sou transparente e não há desejo no teu olhar. Para alguém que se acha tão perspicaz não percebeste o que se passava comigo. Não notaste que o ginásio tinha passado a ser uma rotina diária. É verdade que ainda tiveste um arrufo vagamente parecido com ciúme por causa do professor do curso de fotografia. Mas isso foi apenas uma demonstração rudimentar de macho latino que nunca apreciei.
E ainda para mais falhaste o alvo. Quem me faz rir às gargalhadas é outro que nunca vais conhecer. Enfim, a carta já vai longa. Só me resta dizer que os papéis do divórcio chegam esta semana. E na faculdade podes deixar de dar o teu exemplo como modelo de vida. Limita-te às doenças do corpo pois para as enfermidades da alma os alunos precisam de outro tipo de professor.”

Ele releu a carta quatro vezes enquanto percorria a sala com passos apressados e repetitivos. Após alguns minutos sentou-se, respirou fundo, desatou o nó da gravata, pegou na caneta permanente e começou a escrever: “Minha querida Ana...”

Por Luís Monteiro

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